Um amor de Verdade
Zbia Gasparetto

Reviso e Editorao Eletrnica Joo Carlos de Pinho Direo de Arte Luiz Antnio Gasparetto Capa Katia Cabello 9
edio Novembro  2004
10 000 exemplares Publicao, Distribuio Impresso e Acabamento CENTRO DE ESTUDOS VIDA & CONSCINCIA
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Em meio  tempestade que molhava seu rosto, Nina caminhava alheia a tudo, indiferente  chuva pesada que lhe ensopava o corpo, aos troves que rugiam iluminando 
o cu de quando em quando, misturando as lgrimas que embaavam sua viso com a torrente incontida da tormenta. E que a tempestade interior irrompia mais forte do 
que a de fora, e ela no conseguia acalmar seu corao tumultuado e aflito. Na rua no havia ningum. At os carros haviam parado, esperando que a tempestade amainasse. 
Ela, porm, continuava andando, como se aquele andar fosse imperioso e inadivel. Por trs das vidraas embaadas, alguns rostos assustados, vendo-a passar, lanavam 
olhares temerosos, intimamente indagando por que ela enfrentava a tempestade. Nina, porm, voltada para seu drama interior, continuava caminhando, tendo conscincia 
apenas de sua dor, Dentro de seu corao, a revolta, a raiva, o inconformismo por tudo que a vida estava lhe negando como se ela fosse menos, no merecesse a felicidade. 
Ela parou um momento e cerrou os punhos com fora, dizendo baixinho: -- Eles no vo me vencer! Eu ainda estou viva. Daqui para a frente, tudo vai mudar. Andr no 
ser feliz com ela. A viso dos dois abraados e sorridentes surgiu novamente, e ela gritou desesperada: -- Vou ter meu filho e viver para minha vingana, eu juro! 
Eles no perdem por esperar. Um relmpago mais forte iluminou seu rosto naquele momento, mostrando sua fisionomia contrada, plida, sofrida. Ela sentiu como se 
as foras da natureza estivessem confirmando seu juramento. Suas lgrimas cessaram. Precisava poupar as foras, pensar no que fazer, como enfrentar os cinco meses 
que faltavam para a criana nascer. Olhou o cu cinzento e escuro no prenncio da noite que se aproximava. A chuva havia passado Decidiu ir para casa. Seu rosto 
estava plido porm sem lgrimas. Havia chorado tudo que podia. Sentia um vazio dentro do peito mas ao mesmo tempo uma fora nova. Entrou na pequena e graciosa casa 
onde residia disposta a arruinar suas coisas. Pretendia ir embora no dia seguinte. Quando Andr a procurasse, no mais a encontraria. Pediria demisso do emprego 
na manh seguinte e iria embora. Possua algumas economias que a ajudariam a viver modestamente at seu filho nascer. Enquanto isso, resolveria que rumo dar  vida. 
Conhecera Andr havia trs anos. Quando ele a cortejou, ela j estava apaixonada. Ele era de famlia abastada e estava se formando em advocacia. Trabalhava no escritrio 
do tio, um advogado famoso e conceituado. Nina recordou-se da felicidade que haviam desfrutado juntos, da casa que ele havia alugado, onde ela passou a residir e 
ele ficava a maior parte do tempo. Andr pedira-lhe segredo, alegando que sua famlia no queria v-lo casado antes de formar-se e ganhar o suficiente. Prometera-lhe 
que logo depois da formatura formalizaria o compromisso. De cima da mesinha-de-cabeceira, Nina apanhou um porta-retratosem cuja foto Andr sorria feliz. Disse com 
voz fria: -- Traidor! Agora que se formou, escolheu Janete para casar-se. Chegou a pedir que eu abortasse. Falou em iluso da juventude, disse que eu devia esquecer, 
como se o passado fosse nada. Aconteceu ontem, e hoje eu os vi juntos, aliana nos dedos, olhando-se com amor. Colocou o porta-retratos no lugar e continuou: -- 
Pois voc est enganado, Andr! No vou esquecer nunca! Eu o amei com toda a pureza do meu corao. Eu me entreguei de corpo e alma a esse sentimento e voc jogou 
fora, como se eu no existisse como se tudo fosse mentira. De agora em diante vou me lembrar de tudo, todos os dias. Vou viver cada minuto pensando em mostrar a 
vocs que eu sou gente, sou pessoa, e que no podem me descartar como um objeto usado inutil.

Decidida, abriu o armrio, apanhou uma mala e comeou a arrumar suas coisas. Passava da meianoite quando deixou tudo pronto para a mudana. S ia levar roupas e 
objetos pessoais. O resto ficaria para Andr decidir. Ele lhe dissera que continuaria pagando o aluguel e as despesas da casa e que ela poderia ficar despreocupada. 
A esse pensamento, Nina trincou os dentes com fora. Nunca aceitaria essa migalha. Era forte e inteligente o bastante para manter-se. Na manh seguinte, depois de 
demitir-se do emprego, iria ao pensionato das freiras conseguir uma vaga. Trabalharia a troco de casa e comida at ter o filho. Ficaria l at resolver o que fazer. 
Guardaria suas economias para mais tarde. Sentiu o estmago doendo e lembrou-se de que no havia comido nada o dia inteiro. Foi  cozinha, fez um lanche reforado 
e comeu. Precisava cuidar da sade. Dali para a frente s poderia contar consigo mesma. Lembrou-se dos pais. Eles no sabiam de nada. Melhor assim. Saberiamn quando 
fosse oportuno. Moravam no interior de Minas Gerais, e Nina preferia poup-los. Quando se deitou, ela esforou-se para no pensar em mais nada. Qualquer lembrana 
triste minaria sua fora; precisava dela para sobreviver. Assim, decidida a reagir, deitou-se e, mantendo o firme propsito de no pensar em nada, logo adormeceu.

Nina olhou o relgio e levantou-se rpida. No perderia aquele encontro por nada. Tratava-se de um contato importante e que poderia abrir-lhe as portas do mundo 
em que desejava entrar. Lanou um olhar sobre a escrivaninha, fixando-o no porta-retratos em que um menino sorria alegre. Seu rosto abrandou-se, mas em seus olhos 
havia um brilho determinado e forte. Marcos era sua fora, seu enlevo, seu tesouro. Desde que nascera, cinco anos atrs, tomara conta de seus pensamentos, do seu 
amor. Apesar disso, no esquecera os votos que havia feito naquela tarde tempestuosa. Se antes havia forte motivo para desejar subir na vida, o nascimento de Marcos 
viera reforar sua determinao. Nunca mais tivera contato coin Andr. Francisca, uma amiga e vizinha da casa onde morara com ele, a informava dos acontecimentos. 
Depois de demitir-se do emprego, fora ter com ela para se despedir. Francisca tentou demov-la da idia de deixar a casa. Mas foi intil. Nina estava decidida: -- 
Voc  a nica pessoa que sabe para onde vou. No conte a ningum. Apanhe a correspondncia que chegar. Depois virei busc-la. No quero que minha me saiba o que 
est acontecendo. -- Acho que voc est se precipitando. O Andr vir procur-la, estou certa. O que lhe direi? -- Que no sabe de nada. -- Voc est acostumada 
com um padro de vida bom. Agora que est grvida, precisa de cuidados. No pode ficar sem recursos, depender da caridade das freiras do pensionato. -- Tenho algumas 
economias. Posso pagar. Depois, l estarei protegida. S no quero que Andr saiba onde estou. -- Ele vai ficar desesperado. -- No se iluda. Ele ficar aliviado. 
Estou saindo do caminho. Estar livre para fazer o que quiser. Francisca ainda tentou argumentar, mas Nina foi irredutvel. Enquanto viveu no pensionato, foi atravs 
de Francisca que ela acompanhara os passos de Andr. A princpio, ele ficou aflito, tentou por todas as formas descobrir seu paradeiro. No conseguiu. Em uma fria 
madrugada de junho, Marcos nasceu. Olhando o retrato sobre a escrivaninha, Nina recordou-se do momento em que o teve em seus braos pela primeira vez. Um misto de 
alegria e dor. Um sentimento de plenitude e ao mesmo tempo de tristeza diante do seu filho sem pai. Andr preferira outro amor, e ela imaginou o quanto ele estava 
perdendo por no poder sentir essa plenitude. Apertando-o de encontro ao corao, Nina pensou: -- Andr no far falta. Eu farei tudo por meu filho: serei me, pai, 
guia, apoio. O que for preciso. Durante o tempo em que ficara no pensionato, Nina havia trabalhado no colgio das freiras, que ficava no prdio ao lado. Prestativa, 
incansvel, educada, fez amizade com os professores, granjeou sua simpatia e admirao. Havia feito o curso de secretariado e, depois de pouco tempo, foi convidada 
para assumir a secretaria da escola, que ia at o nvel colegial. Seus vinte anos, sua gravidez assumida corajosamente, sua disposio de trabalhar a ajudaram a 
progredir rapidamente. Quando Marcos nasceu, ela continuou trabalhando. Seu filho ficava na creche do pensionato, onde continuou morando. Ganhando bom salrio, gastando 
muito pouco, ela conseguiu juntar algum dinheiro. Levava vida regrada. Seu tempo livre passava com Marcos. Nina olhou a sala onde trabalhava havia cinco anos. Gostava 
da sobriedade dos mveis, da simplicidade daquele ambiente. Se o encontro que ia ter desse certo, logo deixaria aquele lugar onde se sentira segura e amparada. Mas 
era preciso seguir adente, cuidar do seu futuro e de seu filho. Foi at o banheiro e olhou-se no espelho. Precisava causar boa irnpressao. Ajeitou os cabelos, retocou 
a delicada inaquiagem, apanhou a bolsa e saiu. A tarde estava fria e ela abotoou o casaco. Sabia que estava elegante. Comprara a roupa para aquela ocasio. Apanhou 
o bonde para o centro da cidade. Desceu na Praa da S e foi andando at a Rua Marconi, olhando atentamente o nmero. Encontrou o que procurava: era um prdio elegante, 
ela entrou. O elevador a deixou no quarto andar. No corredor, ela leu na placa:

Dr. Antnio Dantas -advogado . Tocou a campainha e logo uma moa abriu-a, fazendo-a entrar. -- Meu nome  Nina Braga. -- O Dr. Antnio a espera. Sente-se, por favor. 
Vou avis-lo que chegou. Nina sentou-se no sof olhando atentamente o ambiente luxuoso e sbrio com satisfao. Admirou o vaso sobre a mesinha lateral, de onde um 
arranjo de rosas vermelhas exalava delicado perfume. A moa voltou, dizendo amvel: -- Pode entrar. O Dr. Antnio a espera. Nina levantou-se imediatamente e com 
passos firmes entrou na sala. Vendo-a, ningum imagiaria o quanto estava nervosa. Fixou o olhar no homem de meia-idade que estava em sua frente. Moreno, cabelos 
grisalhos nas tmporas, o rosto era srio mas seus olhos geis e alegres contrastavam com sua postura ereta e discreta. -- Boa tarde, doutor. Ele, que se levantara 
quando ela entrou, apertou firme a mo que Nina lhe estendeu, pedindo-lhe que se sentasse. Vendo-a acomodada  sua frente, olhou-a por alguns instantes, depois disse: 
-- Voc  muito jovem. Quantos anos tem? -- Vinte e cinco. -- Desculpe no ter perguntado quando se candidatou  vaga. Eu havia pensado em uma pessoa mais velha. 
Nina sustentou o olhar e disse sria: -- Tenho experincia e muita vontade de vencer. Posso me dedicar inteiramente, pois no tenho compromisso. Sou solteira. -- 
Sei que tem um filho. -- Sim. Mas tenho com quem deixar. Como sabe, passei cinco anos trabalhando no colgio, mas durante esse tempo estudei Direito e posso afirmar 
que s no tenho diploma porque no pude ir para uma faculdade. -- Na carta que escreveu, voc disse que conhecia leis. Pensei que pelo menos houvesse freqentado 
os primeiros anos de uma faculdade. -- Eu no podia. Mas estudei muito. Tenho convico de que o conhecimento, a vontade de aprender, o desejo do sucesso, so mais 
importantes do que um diploma. Se eu pudesse, teria conquistado um. Contudo, sinto-me confortada por observar que em muitos casos um diploma no garante o bom desempenho 
de um profissional. Os olhos dele apertaram-se um pouco, fixando-a como querendo penetrar nos pensamentos dela, que no desviou o olhar. -- Concordo -- disse ele, 
por fim. -- Noto que deseja muito esta vaga. -- Sim. Tenho certeza de que estou capacitada e posso oferecer um servio  altura da fama desta empresa. -- Voc se 
importaria de fazer um teste? -- Estou  disposio. -- Muito bem. Vou preparar tudo e a espero amanh s nove horas. -- Estarei aqui. Nina despediu-se e saiu. Sentia 
as pernas um pouco trmulas, mas estava contente. Pelo menos ele lhe dera uma oportunidade. Saberia aproveit-la. Queria fazer carreira no mesmo ramo que Andr. 
Como no pde fazer a universidade e concorrer com ele de igual para igual, concluiu que precisaria estudar por conta prpria. Conseguiu o currculo de uma faculdade 
de Direito e orientou-se por ele, adquirindo os livros conforme podia, dedicando todo o seu tempo livre estudando-os. Alm disso, decidiu atualizar seus conhecimentos. 
Passou a ler diariamente os jornais, revistas que o colgio recebia, acompanhava as notcias do rdio, mantendo-se informada de todos os assuntos da atualidade.

Seguia atentamente os temas judicirios, procurando nos livros as leis relativas, anotando tudo, pensando em como agiria se tivesse de advogar aquela causa. Por 
tudo isso, sentia-se preparada para o teste da manh seguinte. No estava nervosa por causa dele, mas sim pela impacincia em conseguir seus objetivos. Sabia que 
Andr trabalhava com o tio e usufrua de sua fama, no tendo que lutar para conseguir o prprio sucesso. De vez em quando lia uma ou outra notcia sobre ele nos 
jornais. Via fotos dele com a esposa nas revistas da sociedade. Nesses momentos, pensava com tristeza em seu filho sem pai, mas ao mesmo tempo sentia redobrar a 
vontade de vencer, de mostrar a Andr que ela podia dar ao filho tudo quanto ele no dera. Apressou os passos. Pretendia chegar ao colgio depressa. Quando entrou 
na Rua Baro de Itapetininga, sentiu que algum a puxava pelo brao: -- Nina! Voltou-se e viu Andr olhando-a ansioso. Sentiu as pernas tremerem, mas controlou-se. 
Disse apenas: -- Andr! -- Finalmente a encontrei. Precisamos conversar. Ela puxou o brao que ele segurava, dizendo com voz firme: -- No temos nada para conversar. 
-- Eu tenho. No sabe como tenho procurado voc. Por que fez isso comigo? Ela fixou-o sria e respondeu: -- Eu?! No fiz nada. Voc decidiu seguir outro caminho 
e eu tratei cuidar da minha vida. -- Tenho me perguntado o que aconteceu com voc... -- No se preocupe. Est tudo bem. Preciso ir. -- No. Por favor. Venha, vamos 
tomar alguma coisa. No posso deix-la ir dessa forma. -- Pois eu vou. No temos nada a nos dizer. -- Voc est bonita, bem vestida... -- Hesitou um pouco, depois 
perguntou: -- Voc se casou? Pelos olhos de Nina passou um brilho irnico: -- Por que pergunta? Acha que eu no poderia cuidar de minha vida sozinha? -- No quis 
dizer isso. E que est mais bonita do que antes, melhorou sua aparncia. Deve ter progredido. -- Melhorei. Pretendo melhorar ainda mais. Se quer saber, no me casei 
nem pretendo me casar. Na verdade, ficar sozinha foi bom: descobri minha prpria capacidade. Ela fez meno de andar. Ele segurou seu brao novamente. -- Sinto saudade. 
Vamos conversar pelo menos alguns minutos, em considerao ao tempo em que vivemos juntos. Ela riu bem-humorada e respondeu: -- Esse  um tempo que passou e j esqueci. 
Gosto de andar para a frente. No quero olhar para trs. Adeus. Puxou o brao e, antes que ele reagisse, ela andou apressada, parou um txi que passava e entrou. 
Olhando para trs, viu que ainda a seguiu sem conseguir alcan-la. Dentro do carro, Nina deu vo  irritao. O que ele pretendia? Voltar a relacionar-se com ela? 
Dizer que sentia muito o que havia feito e recomear? Trincou os dentes com raiva. Se dependesse dela, Andr nunca se aproximaria do filho. Felizmente o encontrara 
quando estava bem arrumada, usando roupas elegantes, bem maquiada. Isso devolveulhe o bom humor. Precisava estar preparada. No novo emprego teria muitas chances 
de encontr-lo. Alis, escolhera cuidadosamente aquela carreira para isso. Queria que ele presenciasse seu sucesso, que se arrependesse por t-la trocado por outra. 
Se voltasse a apaixonar-se por ela, ento seria sua oportunidade de desprez-lo e mostrar que o passado no significava mais nada.

De volta ao trabalho, tentou esquecer aquele encontro. Precisava concentrar-se no teste que faria na manh seguinte. A noite, em casa, pretendia rever alguns tpicos 
que julgava importantes. Apesar desse propsito, o rosto surpreendido de Andr no lhe saa do pensamento. Ele tambm estava mais bonito. Mais amadurecido, imiito 
bem vestido. Ela sabia que ele estava muito bem. Ganhara nome e dinheiro na profisso. Vrias vezes encontrara referncias a ele nas colunas sociais. Uma vez em 
casa, tentou estudar, porm no conseguiu concentrar-se. Nervosa, procurou um comprimido. Depois de ingerir o calmante, recostou-se no sof e fechou os olhos, tentando 
reagir. No podia deixar-se impressionar. Andr tripudiara sobre seus sentimentos, a enganara. Sentiu acentuar-se seu rancor. Era assim que queria se lembrar dele. 
Era desse sentimento que tirava sua fora de seguir cm frente, sua vontade de subir na vida. Sorriu lembrando-se do brilho de admirao que vira nos olhos dele. 
Haveria de conseguir muito mais. Para isso, precisava ser fria, dura, esquecer completamente que um dia o havia amado. Esse amor estava morto. Agora s havia lugar 
para a mulher trada, abandonada. Respirou fundo. Em seu corao no havia lugar para mais nada, s para seus objetivos de sucesso. Apanhou novamente o livro, decidida 
a estudar. Mergulhou na leitura e dessa vez conseguiu esquecer completamente tudo que no fosse o que estava lendo. Andr chegou em casa pensativo. O encontro com 
Nina o perturbara. Durante o trajeto, recordou com saudade os momentos que haviam desfrutado juntos. Haviam se amado com a fora e a pureza da juventude. O Dr. Romeu 
Cerqueira Csar, seu pai, formado em Engenharia, herdou do av, alm de considervel fortuna, uma empresa de construo civil muito respeitada, com uma carteira 
de clientes importantes. Competente e dedicado, Romeu conseguiu no s manter como fazer progredir essa empresa, desfrutando da confiana e do respeito da alta sociedade. 
Tinham um casal de filhos. Tanto ele quanto Andria, sua esposa, gostariam que Andr houvesse seguido a carreira do pai. Ele, porm, estava determinado a ser advogado, 
e depois de alguma insistncia acabaram concordando, afinal um bom advogado poderia assumir o controle da empresa quando chegasse o momento. Era esse o sonho de 
Romeu: encaminhar o filho, torn-lo um cidado til. Apesar de haver nascido em bero de ouro e de nunca ter passado nenhum tipo de necessidade, Romeu entendia que 
um homem precisa do trabalho para viver bem. Era contra qualquer tipo de ociosidade. Ele mesmo deu o exemplo, trabalhando sempre com alegria e disposio. J Milena, 
cinco anos mais nova do que Andr, posstia um temperamento difcil e pouco afeito aos estudos. Com facilidade ia da euforia  depresso, ou vice-versa, confundindo 
os pais, professores, amigos e parentes. Seu humor instvel tornava difcil qualquer programa para o futuro. Na adolescncia, deu tanto trabalho  famlia que os 
pais procuraram ajuda psiquitrica, sem conseguir muito. Quando ela tomava o remdio, mergulhava na depresso, falava em suicdio, no se alimentava nem queria sair 
da cama. O mdico mudava o tratamento, e ela tornava-se eufrica, agitada, mergulhava em festas at o dia clarear. Por isso estava atrasada nos estudos. Aos dezenove 
anos, no conseguira concluir o curso secundrio. Cansada, Andria dizia ao marido: -- Acho melhor Milena ficar s no colegial e no ir para a faculdade. Afinal, 
no vai precisar de uma profisso para viver. -- Talvez ela encontre um bom marido -- respondia Romeu. -- O amor, os filhos, mudam as pessoas. Ser esposa e me a 
far amadurecer, -- Acho difcil que um homem agente o gnio dela. Ele balanava a cabea e tentando confort-la respondia:

-- O amor  cego. Ela  uma moa bonita. Depois, h gosto para tudo. H quem goste de mandar e de ser mandado, de confortar ou de proteger. -- Deus o oua. Seria 
uma bno. Algum que a ajudasse a se equilibrar. Vai aparecer. Voc ver. Andria suspirava esperanosa. A filha era seu problema, mas Andr seu enlevo. Desde 
cedo concentrara nele seu afeto e era com orgulho que observava o quanto ele se destacava no clube, o quanto as moas o admiravam. Ele, sim, haveria de corresponder 
ao seu sonho de me. Seria um brilhante advogado. Andr entrou em casa. Janete estava na sala e, vendo-o entrar, aproximou-se atenciosa: -- Voc chegou mais cedo. 
Aconteceu alguma coisa? -- No -- respondeu ele beijando-a levemente na face. -- Fui a uma audincia que acabou agora. Mame nos convidou para jantar. Se eu fosse 
ao escritrio, fatalmente me atrasaria. Voc sabe: papai faz questo de pontualidade. -- No sei como ele consegue ser to formal. Andr olhou-a srio e no respondeu. 
Janete era seu oposto: no tinha hora para nada. Odiava ter de programar alguma coisa com antecedncia. Andr olhou o relgio e considerou: -- Teremos que sair dentro 
de uma hora. Espero que esteja pronta. -- Estarei. Agora gostaria que voc desse uma olhada nestas revistas que separei. Estive pensando em mudar o jardim em volta 
da piscina. -- Mudar? Est to bonito! Alm disso, reformamos tudo antes do nosso casamento. -- Estou enjoada de olhar sempre para a mesma coisa. Pensei em fazer 
um deck moderno. Chamei um paisagista para refazer os canteiros. Tenho tudo planejado dentro da cabea. Vai ficar lindo. -- Vamos deixar isso para outro dia. Alm 
do mais, gosto muito do jeito que est. No vejo razo para mexer nisso agora. Ela franziu o cenho, contrariada. -- Pois eu no gosto. Semana passada fui passar 
a tarde na casa da Elvira e fiquei humilhada. Ela reformou tudo. Voc precisa ver que beleza! Fez igual a uma casa que ela visitou em Hollywood, daquela artista 
famosa, como  mesmo o nome dela? -- Eu no sei. -- Quando cheguei aqui, notei o quanto nossa casa est ultrapassada. Andr olhou-a srio: -- Estou cansado, Janete. 
Tive um dia estafante. Por favor, vamos deixar este assunto para outro dia. Vou subir, tomar um banho, e voc trate de arrumar-se, porque no quero atrasar. Sem 
dar tempo a que ela respondesse, Andr subiu para o quarto. Janete engoliu a raiva. Se ele pensava que ela ia desistir, estava enganado. Uma vez no quarto, Andr 
sentou-se na cama para tirar os sapatos. Na sua mesa de cabeceira estava um retrato de Janete. Olhou-o pensativo. Morena, olhos grandes, rosto oval, cabelos lisos, 
boca bem-feita, era muito bonita. Talvez por isso ele tenha se deixado envolver pela me, cujo sonho era v-lo casado com a filha do desembargador Fontoura. Andria 
era amiga da famlia, conhecia Janete desde que era pequena. Altiva, rica, bonita, instruda, era a esposa ideal para Andr. Quando ele decidiu tornar-se advogado, 
Andria pensou logo que um sogro desembargador, respeitado, o ajudaria a fazer brilhante carreira. O que Andria mais desejava era que o filho brilhasse, conquistasse 
nome, se tomasse famoso e, quem sabe, at um poltico importante. Talvez ele viesse a tomar-se um grande estadista. Ele merecia tudo, at tomar-se presidente da 
repblica. A princpio, Andr no havia se interessado por janete. Amava Nina, sentia-se feliz a seu lado. Porm Andria sonhava alto e no perdia ocasio para tentar 
convencer o filho a fazer o que ela desejava. Ouvindo sua me discorrer sobre os projetos do seu futuro, tinha receio de falar com ela sobre seu relacionamento com 
Nina, mulher bonita, inteligente, instruda, mas longe de preencher as expectativas de Andria.

Para agradar a me, que vivia convidando a famlia de Janete para jantares, reunies no clube, festas e recepes s quais lhe pedia que comparecesse, ele comeou 
a danar com ela, conversar, lev-la em casa. Andria dizia que a moa estava apaixonada por ele, que tanto ela como seu pai gostariam que eles se casassem. Ela 
era a mulher ideal. Janete freqentava a alta sociedade e era muito cortejada. Sua paixo por ele o lisonjeava. Os amigos o invejavam, tinham o casamento como certo. 
Ningum imaginava que le pudesse no querer. Quando Nina lhe disse que estava grvida, ele foi arrancado de seus devaneios. Ficou assustado. No podia assumir aquela 
paternidade. Seria um escndalo. Seus pais nunca aprovariam. Sua me teria um enorme desgosto. No poderia causar-lhe tal decepo. Ela esperava que ele se tornasse 
um grande sucesso. Como casar-se com uma moa pobre, comum, abdicando dos belos projetos com que haviam sonhado? O encontro com Nina naquela tarde o havia impressionado. 
Uma semana aps o rompimento. fora  sua procura. Mas ela havia desaparecido. Nos meses que se seguiram, tentou encontr-la, saber o que havia acontecido, inutilmente. 
Francisca cumpriu  risca o que havia prometido a ela. Nina estava mais linda, mais mulher. Muito bem vestida. Como estaria vivendo? Imaginava que, vendo-se abandonada, 
ela houvesse mudado de idia e recorrido ao aborto. Afinal, aquela gravidez bem poderia ter sido uma maneira de pression-lo ao casamento. Como ele no havia cedido, 
ela teria se livrado daquele compromisso. Foi para o chuveiro, mas de repente uma dvida o assaltou. E se ela houvesse continuado com a gravidez? Nesse caso, a criana 
j teria nascido. No. Ela no teria sido to imprudente. Sempre fora uma moa ponderada, com ps no cho. No iria mergulhar numa aventura dessas. Saiu do chuveiro 
e, enquanto se vestia, a dvida voltava, provocando uma inquietao desagradvel. Tentava acalmar-se, imaginando que, se houvesse mesmo uma criana, ela o teria 
procurado para que ele a ajudasse a sustent-la. No. Certamente ela teria dado um jeito e esse filho nunca teria nascido. Janete apareceu no quarto e ele considerou: 
-- Est quase na hora. J disse que no podemos nos atrasar. -- Vou tomar um banho e me arrumar. -- J vi que vai demorar mais de uma hora. Por favor, deixe esse 
banho para mais tarde. -- Voc hoje est mal-humorado... O que houve? -- Faa o que estou lhe pedindo, por favor. Estarei esperando l embaixo. Andr sentou-se na 
sala irritado. No gostava de esperar. Lembrou-se de que Nina era rpida e nunca se atrasava. Respirou fundo. Sentia-se nervoso, inquieto. Foi difcil esperar por 
Janete, que, como sempre, se atrasou. Ele estava a ponto de explodir quando ela finalmente desceu. -- At que enfim! -- desabafou ele. -- Voc sabe que no gosto 
de esperar e, mesmo assim, nunca chega na hora. Ela deu de ombros: -- E cedo. Que mania vocs tm de jantar com as galinhas. Em sociedade  de bom-tom jantar depois 
das nove. -- Para mim  de bom-tom respeitar os hbitos dos anfitries. Meus pais gostam de jantar s sete e meia. Vamos logo. Durante o trajeto, Andr ficou silencioso. 
Reconhecia que estava sendo desagradvel, mas no se sentia  vontade. A criada os fez entrar na sala onde Romeu os esperava degustando seu whisky. Andr aproximouse 
do pai dizendo: -- Desculpe o atraso, papai. Foi involuntrio. -- Tudo bem, meu filho. Quer beber alguma coisa?

-- O mesmo que voc. Tive um dia tenso, preciso relaxar. -- Vendo que o pai se levantava para servi-lo, interrompeu-o: -- No se incomode eu me sirvo. Romeu olhou-o 
srio. Vendo-o sentar-se na poltrona com o copo na mo, perguntou: -- Aconteceu alguma coisa? Andr olhou disfaradamente para Janete, que havia se sentado no sof 
e estava folheando uma revista, e respondeu: -- No. Nada. -- Como vo as coisas em seu escritrio? -- Bem. Voc sabe que o Breno  timo. Com ele tudo caminha rpido. 
-- Ele me surpreendeu. Voc sabe que fui contra recomend-lo para trabalhar com o Olavo. Afinal, apesar de ter cursado a mesma faculdade que voc, ele no pertence 
 nossa roda. No sou preconceituoso mas considero a educao fator muito importante. -- Ele estudou tanto quanto eu. -- Mas no tem bero. Isso  bsico. Mas, como 
eu dizia, nestes dois anos ele tem me surpreendido. Olavo no tem lhe poupado elogios. Se voc no tomar cuidado, ele pode acabar fazendo carreira mais rpido do 
que voc. Andr sorriu e respondeu: -- No corro esse risco. Tambm tenho feito um bom trabalho. O tio tambm est satisfeito com meu desempenho. Aproveitando que 
janete deixara a sala, Romeu disse baixinho: -- Se no  no trabalho, o que ? -- No h nada. -- Mas voc disse que estava tenso. Significa que tem algum problema. 
Est tudo bem entre voc e Janete? -- Claro. Fique tranqilo. No h nada. Tive uma audincia de um caso desagradvel e fiquei irritado. Mas j passou. -- Ainda 
bem. A criada apareceu e avisou que o jantar estava sendo servido. Andria estava logo atrs e abraou o filho dizendo: -- Ainda bem que chegaram. Seu pai estava 
impaciente. Andr no respondeu. Beijou a me e acompanhou-a at a sala de jantar. Acomodados ao redor da mesa, Andria mandou que o jantar fosse servido e tentou 
animar a conversao. Porm viu logo que estava difcil. Andr parecia distrado, Janete, entediada; Milena, de cara fechada, estava em um daqueles dias de depresso: 
no comeu nada, no conversou. Andria olhava desconsolada para Romeu, mas nenhum dos dois se atrevia a conversar com ela. Sabia que se fizessem isso seria pior. 
Depois do jantar, Milena fechou-se no quarto, e os demais foram para a sala conversar. Andria sentou-se ao lado da nora, enquanto Romeu e Andr acomodaram-se um 
ao lado do outro, conversando sobre a empresa da famlia. Era o assunto predileto de Romeu. Pretendia com isso interessar o filho para que um dia se decidisse a 
assumir o patrimnio que ele se orgulhava de ter conseguido ampliar e manter. Andria conversou com a nora, comentando as ltimas notcias sociais. Mas aos poucos 
foi encaminhando o assunto para o que lhe interessava: -- Faz quatro anos que vocs se casaram. -- . Passou rpido. Andria fez ligeira pausa e continuou: -- Est 
na hora de pensar em um filho, voc no acha? Janete estremeceu e tentou dissimular a contrariedade. Filhos. --  cedo, Andria. Temos muito tempo para pensar nisso. 
-- Romeu e eu sonhamos com um neto. Uma criana completa a felicidade de um casal.

Janete apertou os lbios, tentando controlar a irritao. -- Por enquanto no quero. Estamos muito bem assim. Uma criana agora viria atrapalhar nossa vida. Andria 
olhou-a um pouco escandalizada. -- Uma criana nunca atrapalha. Voc no gosta de crianas? -- No se trata disso, Andria. Quero viver mais algum tempo sozinha 
com Andr. Usufruir mais da sua companhia, dar-lhe toda a minha ateno. Ainda no  hora. -- Voc me assustou. Cheguei a pensar que no desejasse ter filhos. Janete 
sorriu tentando esconder a raiva. No gostava de intromisses em sua vida. Precisava tomar cuidado. Andria era manipuladora. Fazia isso com o filho o tempo todo. 
Mas com ela ia se dar mal. No era ingnua como ele. Filhos, no estava em cogitao. Ainda bem que Andr nunca falara sobre isso. Olhou no relgio, disfarando 
o tdio. Andr conversava animadamente com o pai, e ela desejava ir embora logo. Quando Andria saiu da sala por alguns instantes, ela aproximou-- se do marido, 
dizendo com voz que procurou tornar delicada: -- Andr, gostaria de ir para casa. Estou com uma tremenda dor de cabea. -- Pea um comprimido a mame, descanse um 
pouco. -- Quando tenho esta dor de cabea, s passa relaxando no quarto escuro. Remdio no adianta. -- Tem sempre isso?-- indagou Romeu, preocupado. -- J consultou 
um mdico? -- J. Trata-se de enxaqueca. Apreciaria muito poder ir para casa e descansar. Andr levantou-se dizendo: -- E melhor irmos embora. Se eu puder, amanh 
passarei em seu escritrio para continuar nosso assunto. -- Faa isso, meu filho. Estarei esperando. Na viagem de volta, Andr permaneceu calado. A imagem de Nina 
tomava conta de seus pensamentos. Janete, por sua vez, tambm ficou calada. Inventara a mentira e precisava fingir que estava mesmo com dor de cabea. No desejava 
indispor-se com Andr. Ele gostava muito da famlia. Ela no podia demonstrar seu desagrado. Naquela noite, enquanto Janete dormia tranqila, foi muito difcil para 
Andr conciliar o sono. As lembranas do passado voltaram fortes e ele no conseguia esquecer seu encontro com Nina. Precisava v-la novamente, encontrar respostas 
para as indagaes que o estavam incomodando. Mas onde encontr-la? Porque a deixara ir sem saber seu endereo? E se nunca mais a visse? A esse pensamento, remexia-se 
no leito inquieto. No era possvel. Haveria de encontr-la, mesmo que tivesse de contratar algum para isso. Queria saber a verdade.

Nina apressou o passo. No desejava chegar atrasada. Fazia dois meses que estava trabalhando no novo emprego. Ao contrat-la, Antnio lhe dissera: -- Apesar de voc 
no ter formao universitria, seu teste foi bom. Por isso vamos dar-lhe uma chance. Comear como auxiliar de escritrio. -- Obrigada, doutor, No vai se arrepender. 
Neide, a chefe do escritrio, era uma mulher sisuda, beirando os cinqenta anos, exigente, discreta, fria. Quando se dirigia a um subalterno, raramente sorria. Falava 
pausado mas firme. Vestia-se com classe e elegncia. Todos os advogados da organizao estavam satisfeitos com seus servios e sua experincia, confiando a ela as 
providncias mais delicadas. Nina era o oposto dela. Exuberante, jovem e bonita, notou logo que sua contratao no fora vista com simpatia. Percebeu que aquela 
mulher poderia atrapalhar seus planos. Por isso, no fim do primeiro dia de trabalho procurou-a em sua sala. -- O que deseja? -- indagou Neide, olhando-a nos olhos. 
-- Conversar com a senhora -- respondeu Nina sem desviar o olhar. -- Sente-se e v direto ao assunto. -- Obrigada. Vim pedir uma orientao pessoal. Estudei muito, 
me esforcei para conseguir este emprego, mas hoje, vendo-a, senti que, embora tenha conhecimento profissional, falta-me a classe, a postura, que notei na senhora. 
Nina fez ligeira pausa e, vendo que Neide a ouvia com ateno, continuou: -- Gostaria que me orientasse, que me dissesse como me tornar uma funcionria exemplar. 
Prometo obedecer a seus conselhos e dedicar-me inteiramente ao trabalho. Sem mover um msculo do rosto, Neide respondeu: -- Vejo que  perspicaz. Muito bem. Em primeiro 
lugar, devo dizer-lhe que, para trabalhar em um escritrio onde os advogados so homens, precisa ser muito discreta nas roupas, nas atitudes e ser muito profissional. 
Por isso pedi que contratassem algum de mais idade. Voc me parece muito nova para a funo. -- Garanto que, se me disser como deseja que eu proceda, obedecerei 
e no ter motivo para lamentar haver me contratado. -- Bom, vejamos... Deve mudar seu penteado. Melhor cabelo preso. Escolher roupas de boa grife, mas com cores 
discretas. Os complementos devero ser de cores bsicas. A maquiagem, suave; a postura, sria. Os assuntos dentro do escritrio devero ser exclusivamente profissionais. 
Conversas com os colegas s admitimos fora da empresa. Isso vale tambm com relao aos advogados, desta ou de outras empresas que circulam aqui. -- Entendi. Farei 
o possvel para atender a suas consideraes. Obrigada por ter me orientado. At amanh. No dia seguinte, Nina j compareceu ao trabalho com um conjunto discreto, 
cabelo preso e atitude sria. Neide no lhe disse nada, mas Nina percebeu que ela aprovara sua aparncia. Antnio olhoua surpreendido, mas no comentou. A partir 
desse dia ela dedicou-se ao trabalho, procurando fazer o melhor que sabia. Entretanto, notou logo que Neide evitava ao mximo que algum dos advogados conversasse 
com ela ou com as outras trs moas sob sua direo. Neide ficava atenta para que eles s se dirigissem a ela, evitando a todo custo que abordassem as outras funcionrias. 
Ficou claro para Nina que ela manipulava tudo, objetivando aparecer sempre como a pessoa-chave, nunca permitindo que as outras se destacassem. Por isso desejava 
que elas se tornassem inexpressivas, sem nada que chamasse a ateno. Todas elas se vestiam igual, falavam igual, atuavam igual. Eram como robs nas mos de Neide. 
Nina, apesar de perceber o jogo dela, submeteu-se temporariamente  sua tutela. Estava chegando, no havia tido ocasio para mostrar sua capacidade. Se Neide desejasse 
despedi-la, seria fcil. Claro que sua opinio seria ouvida e ela no teria como provar o contrrio.

Mesmo assim, continuou se esforando, nunca chegando atrasada, ficando depois do horrio sempre que lhe pediam. Naquele dia, ao entrar no escritrio, Nina notou 
logo que alguma coisa no estava como de costume. As colegas estavam tensas e nervosas. Foi para sua mesa e tratou de se preparar para comear seu trabalho. Foi 
quando ouviu vozes alteradas na sala de Neide. Depois de alguns instantes, Antnia, sua colega, saiu de l chorando e foi ao banheiro. Nina sentiu vontade de ir 
atrs, mas conteve-se. Neide apareceu na sala, dizendo sria: -- No tolero falta de controle. Tratem de comear a trabalhar logo. Temos muitas coisas para hoje. 
Ningum se atreveu a dizer nada. Cada uma tratou de obedecer. Nina estava com raiva. Aquela mulher no podia tratar assim uma pessoa. Antnia era uma moa doce, 
delicada e muito esforada. Tinha certeza de que, se ela perdera o controle, deveria ter um motivo srio. O tempo foi passando e Antnia no voltava. As trs se 
entreolhavam aflitas, mas no se animavam a ir atrs dela. De repente, ouviram um grito. Imediatamente saram correndo, e no corredor a faxineira soluava em pnico. 
Neide apareceu no corredor, indagando sria: -- O que foi, Augusta? Por que est fazendo esse escndalo? -- E a Antnia, D. Neide. Fui limpar o banheiro e ela estava 
l, estendida no cho. Acho que est morta! Neide foi ao banheiro e as outras a acompanharam assustadas. Antnia estava estendida no cho. -- Avisem a telefonista 
para chamar uma ambulncia. E isso que d a falta de controle. -- Ela est muito plida -- disse uma das moas. Olhando o tosto plido de Antnia, Nina sentiu um 
aperto no peito. Viu logo que seu estado era grave. A ambulncia chegou e o mdico, depois de ligeiro exame, disse srio: -- Sinto muito, mas  tarde. Ela est morta! 
Algum pode me dizer o que aconteceu? Neide tomou a dianteira, dizendo: -- No sabemos, doutor. Sou a encarregada do escritrio. Antnia  nossa funcionria h dois 
anos. Ela fechou-se no banheiro, foi a faxineira que a encontrou. -- Algum tocou em alguma coisa? -- No respondeu Neide. O mdico deu uma olhada em volta e apanhou 
um frasco em um canto da pia, ao lado do copo. -- Est parecendo suicdio. Tenho que avisar a polcia. -- No podemos evitar o escndalo? Seria melhor se pudssemos 
chamar a famlia e resolver tudo. -- No posso. Avisem a famlia, mas eu vou avisar a polcia. No toquem em nada. Vamos fechar a porta. Onde posso falar ao telefone? 
-- Queira me acompanhar, doutor. -- Voltando-se para as moas: -- Saiam do corredor e voltem ao trabalho. Tratem de controlar as emoes. Elas voltaram para seu 
lugar mas ningum conseguiu trabalhar. Falavam baixinho, assustadas. Antnio chegou preocupado, conversou com o mdico e levou-o  sua sala para esperarem a chegada 
da polcia. Meia hora depois, o delegado chegou acompanhado de algumas pessoas. Antnio e o mdico informaram ao delegado o que havia acontecido. -- Tudo indica 
que foi suicdio -- disse por fim o delegado. --  o que parece -- confirmou o mdico. -- Ela no deixou nenhum bilhete, nada? -- Penso que no -- informou o mdico. 
Ele interrogou a faxineira que encontrara o corpo, e seus homens confirmaram que no havia nenhum bilhete. Enquanto isso, um dos investigadores conversava com as 
trs funcionrias do escritrio. -- O que levaria uma moa jovem e bonita a cometer uma loucura dessas?

-- No sei -- comentou Gilda. -- Nunca imaginei que ela pudesse fazer isso. -- Sempre foi uma boa funcionria, boa colega -- tornou Maria. -- Apesar de hoje ela 
ter chegado muito plida e nervosa. Parecia doente -- disse Gilda. -- Eu a vi chorando s escondidas -- ajuntou Maria. -- Tanto que D. Neide a chamou para uma conversa. 
Sabe como : aqui temos que ser profissionais. Os problemas pessoais precisam ficar em casa. -- Acham que ela foi repreendida? -- disse ele. -- Bem... no sei.  
que... -- Gilda hesitou e mordeu os lbios. -- O que foi? -- perguntou ele. -- Pode dizer. Fica entre ns. -- Ns a ouvimos discutindo com D. Neide. Depois, saiu 
correndo e trancou-se no banheiro -- concluiu Gilda. -- Acham que ela se suicidou por causa dessa discusso? -- Isso no -- respondeu Maria. -- Ela j chegou nervosa. 
-- Peo que no diga nada ao delegado pediu Gilda. -- Preciso muito deste emprego. Se D. Neide souber que eu contei, posso ser despedida. -- Fique tranqila. No 
vai acontecer nada. Ele foi juntar-se ao delegado e Maria comentou: -- No devamos ter dito nada. -- Pois eu acho que fizemos bem. Ningum me tira da cabea que, 
se Neide fosse mais humana, teria evitado essa tragdia. -- E possvel. Antnia estava desesperada. E o desespero anula a razo e o bom senso -- comentou Nina, que 
estivera silenciosa at ento. Ela sentia o corao apertado. Recordava-se da sua desiluso, do desespero que sentira vendo ruir seus sonhos de amor. Teria acontecidoo 
mesmo com Antnia? No saberia dizer. Ela era uma moa doce, mas muito calada. Nunca fazia confidncias nem falava sobre sua vida. Assim que a polcia permitiu, 
Antnio reuniu todos os funcionrios. Tomou a palavra, dizendo emocionado: -- Estamos consternados pelo que aconteceu. Infelizmente no pudemos evitar. Esto todos 
dispensados por hoje. Amanh nosso escritrio ficar fechado. Assim, podero ir ao enterro. Como  sexta-feira, retornaremos na segunda normalmente. Mandei colocar 
o endereo da casa dela no mural. Peo-lhes discrio. Comentar esta tragdia s vai agravar um caso que j  muito triste. Nina deixou o emprego na hora em que 
o corpo estava sendo transportado. Uma onda de tristeza a acometeu. Tambm pensava que, se Neide houvesse sido mais humana e perspicaz, talvez tivesse evitado aquele 
suicdio. Nina tambm achava que ela mesma, por sua vez, deveria ter seguido seu impulso e ido atrs de Antnia. De certa forma, sentiu-se culpada. Ela estava sendo 
muito passiva. Neide as dominava e ela aceitara esse controle sem fazer nada. Aquilo no podia continuar assim. Precisava recuperar a posse de si. Elas estavam se 
tornando bonecos que Neide manipulava conforme desejava. Precisava reagir, fazer alguma coisa. Arrependeu-se profundamente de ter contemporizado. Na manh seguinte, 
ao telefonar para o endereo de Antnia para informar-se sobre o sepultamento, teve uma surpresa: ela morava em uma penso. A dona informou-a que no sabia quando 
e onde Antnia seria velada. Nina ficou pensativa. Precisava dessa informao. Decidida, ligou para a casa de Neide. -- Aqui  Nina. A senhora sabe onde ser o velrio 
de Antnia? -- No. Voc no anotou o endereo dela? -- Ela morava em uma penso e a dona no sabe de nada. -- Pois eu tambm no. -- A senhora no vai ao enterro? 
-- Por que iria? Ela no  minha parente. J chega a confuso que ela nos arrumou com esse suicdio. E isso que d ser to destrambelhada.

-- Desculpe. Eu no devia t-la incomodado. Passe bem, D. Neide. Nina desligou o telefone irritada. Apanhou sua agenda, encontrou o nmero e discou. Uma voz de mulher 
atendeu: -- Por favor, posso falar com o Dr. Dantas? -- Quem deseja? -- Nina. Sou uma funcionria do escritrio dele. Depois de alguns segundos ele atendeu: -- Al. 
Dr. Dantas, sou eu, Nina. Trabalho em seu escritrio. Desculpe incomod-lo em sua casa, mas no tive alternativa. Falei com D. Neide, mas ela no est interessada. 
-- Do que se trata? -- Eu desejo ir ao velrio da nossa colega Antnia. Acontece que ela morava em uma penso, parece que no tem famlia, A dona da penso no sabe 
de nada e no deseja envolver-se com o caso. -- Isso  o diabo! -- comentou ele, srio. -- Tem certeza do que est dizendo? -- Sim, senhor. -- Vou ver o que posso 
fazer. -- Fez silncio por alguns segundos, depois continuou: -- Teremos que investigar. Voc pode ir at o escritrio agora? -- Posso. -- Ns nos encontraremos 
l. A polcia levou a carteira profissional dela, mas nela s consta o endereo que voc tem. Teremos que dar uma busca no escritrio. Ela deve ter famlia. -- Se 
no a encontrarmos, ela ser enterrada como indigente. -- Tem razo. Estarei no escritrio dentro de meia hora. Nina tratou de arrumar-se. Olhou-se no espelho e 
decidiu. Ia se arrumar do jeito que gostava. Neide no a dominaria mais. Aprontou-se e foi para o escritrio. Quando chegou l, Antnio j se encontrava. Vendo-a, 
olhou-a admirado, mas no disse nada. Antnio pediu que Nina procurasse a ficha de Antnia nos arquivos. Ela foi  sala dele com a pasta. Ele abriu-a e, contemplando 
seu retrato, disse triste: -- Ela era to bonita! Por que teria feito isso? -- O desespero  mau conselheiro. Ontem ela chegou ao escritrio muito abatida e triste. 
Tanto que no podia conter as lgrimas. -- Nesse caso, por que no conversou com ela e tentou saber o que estava acontecendo? -- Sinto-me culpada por no haver feito 
isso. D. Neide a chamou em sua sala. Ele abanou a cabea negativamente: -- Ela n era a pessoa mais indicada para ajudar. -- No mesmo. Elas discutiram e Antnia 
saiu de l chorando. Passou por ns e foi fechar-se no banheiro. Tive vontade de ir atrs dela, mas me contive. Estou muito arrependida por no ter feito nada. Ele 
suspirou fundo e considerou: -- Tenho uma filha quase da idade dela. Estou muito chocado. Gostaria muito de ter percebido e feito alguma coisa. -- Todos ns estamos 
nos sentindo assim, doutor. Por isso quero despedir-me dela. -- Vamos ver o que h na ficha. "Antnia Alves - vinte e trs anos - professora - natural de Campinas, 
SP - filha de Jos Alves e Clementina Alves." Nada mais, alm do endereo que eles j conheciam. -- No  possvel, Nina. Precisamos fazer alguma coisa. No vou 
permitir que ela seja enterrada como indigente. Vou ligar para o delegado. Ele ligou e ficou sabendo que o delegado estava tentando localiz-lo pelo mesmo motivo. 
Nenhum dos dois conseguiu outra informao. Antnio estava inconformado. Nina sugeriu: -- O senhor pode colocar um anncio no jornal.

--  uma boa idia. Pode cuidar disso? -- Certamente. Posso mandar publicar a foto dela? -- Pode.  muito pequena, mas  a que temos. Nina foi at o balco de anncios 
do jornal levando a foto. Ficou esperando que eles a copiassem e voltou ao escritrio. Antnio ainda estava l e Nina, depois de recolocar a foto na ficha de Antnia, 
foi  sala dele e perguntou: -- H alguma coisa mais que eu possa fazer? -- Penso que no. Teremos que esperar. Nina estendeu-lhe um papel, dizendo: -- Este  o 
nmero do telefone de onde moro. Se precisar de mim para qualquer coisa, estarei  disposio. -- Hesitou um pouco e concluiu: -- Gostaria de ter notcias do caso. 
-- Fique tranqila. Se eu souber de alguma coisa, telefonarei. -- Obrigada, doutor. Ela saiu e ele suspirou triste. O suicdio de Antnia o impressionara muito. 
Resolveu ir para casa. Nina comprou o jornal no dia seguinte e o anncio da morte, com a foto ampliada de Antnia, foi publicado, pedindo o comparecimento da famlia 
 delegacia. Como Antnio no telefonou, Nina deduziu que no haviam tido nenhuma notcia. Foi  tarde que ele finalmente ligou, uma mulher havia procurado a delegacia 
dizendo ser tia de Antnia. -- O delegado me avisou e pediu para conversar com ela. Eu gostaria muito que voc me acompanhasse. -- Est bem. Onde  a delegacia? 
-- E melhor me dar seu endereo e passarei para apanh-la. Quero ir o mais rpido possvel. Meia hora depois ele passou e foram para a delegacia. Mlton os recebeu 
imediatamente e os conduziu a uma sala onde foram apresentados  tia de Antnia. Era uma mulher de uns cinqenta anos, magra, alta, muito bem vestida. Via-se que 
tinha classe e dinheiro. -- Esta  a Sra. Olvia Fontoura, tia de Antnia -- disse o delegado. -- Viu o anncio e nos procurou. -- Meu nome  Antnio Dantas, advogado, 
e esta  Nina. Antnia trabalhava em meu escritrio. Ns colocamos o anncio porque Antnia nunca nos deu informaes sobre sua famlia. Olvia levantou-se e apertou 
a mo que ele lhe estendia, dizendo: -- Ainda estou chocada. Apesar de tudo, no esperava uma notcia dessas. -- Sentem-se e fiquem  vontade -- disse o delegado. 
-- Vou ver se consigo o resultado da autpsia para poder liberar o corpo. Eles se acomodaram e Antnio indagou: -- A senhora  tia dela? -- Sim. A me dela era irm 
de meu marido. -- J avisou o resto da famlia? -- Com exceo de meu marido e eu, ela no tem mais ningum. Para dizer a verdade, eu no queria vir. Mas meu marido 
insistiu. Ele est fora do Pas. -- Ainda bem que a senhora veio disse Antnio. -- Todos estamos chocados com o caso. -- Certamente ela causou transtorno  sua empresa. 
Isso ela sempre soube fazer muito bem. Quando a me dela morreu em um acidente de carro, ela era adolescente e meu marido, um homem muito caridoso, a trouxe para 
nossa casa. Mas ela s nos deu trabalho. Por isso, quando resolveu se mudar, foi um alvio. O senhor deve ter se aborrecido. Ela bem poderia ter se suicidado em 
outro lugar. Nina remexia-se na cadeira inquieta. Era-lhe insuportvel presenciar a atitude daquela mulher. Antnio considerou:

-- No vejo dessa forma. Se houvesse percebido o que ela pretendia fazer, teria me esforado para impedir. Fico me perguntando por que teria feito isso. Era jovem, 
bonita. Tinha todo um futuro pela frente. -- O senhor  um homem educado. Mas ela era assim. Nunca se importava com os problemas dos outros. Era instvel, cheia 
de altos e baixos. S podia dar no que deu. Nina interveio: -- Vejo que a senhora no a conhecia bem. Antnia era uma moa doce, meiga, delicada e gentil. Todas 
as colegas a estimavam, alm de ser uma funcionria exemplar. Para fazer o que fez, ela deve ter sofrido muito. Olvia fulminou-a com o olhar e no respondeu. Antnio 
tornou: -- Essa tambm era minha opinio. Seja como for, o importanteagora  saber que providncias a senhora deseja tomar com relao ao enterro. -- Bem, meu marido 
no vai poder vir. Est em um seminrio importante na Sua. Ele  mdico, oftalmologista. Mas vamos pagar todas as despesas. Ser enterrada ao lado da me dela. 
Agora preciso ir. Aqui est meu carto. Aguardarei notcias. Depois que ela se foi, Nina no se conteve: -- Que mulher antiptica! Desculpe doutor, mas foi difcil 
me conter. -- Deu para notar que ela no gostava de Antnia. Em todo caso, conseguimos nosso objetivo. Agora s falta saber quando o corpo ser liberado. Temos que 
tomar providncias para o funeral. Ela vai pagar, mas deixou claro que no deseja incomodar-se com nada. -- Se quiser, posso obter todas as informaes a respeito 
e o senhor resolve o que preferir. -- Faa isso. Vamos embora. Vou lev-la em casa. -- No se incomode, doutor. Posso tomar um nibus. O senhor est cansado. -- 
Fao questo. Uma vez no carro, ele disse: -- Voc mora em um colgio. No tem famlia? -- Meus pais moram no interior de Minas Gerais, Tenho um filho pequeno que 
nasceu no pensionato das freiras. Antes de trabalhar com o senhor, trabalhei no colgio. Mudei de emprego, mas continuo morando l. Meu filho fica na creche do colgio. 
-- Voc  uma moa corajosa. -- Precisei ser. Tenho que criar meu filho sozinha. Desejo dar-lhe uma boa educao. Nina pensou que ele fosse perguntar pelo pai do 
menino, mas ele no o fez. Foi discreto, e ela apreciou sua atitude. Mas, se ele perguntasse, no teria acanhamento em responder. Havia assumido sua situao com 
naturalidade e no se importava com o juzo que pudessem fazer dela. Ele deixou-a em casa e Nina, depois de ver o filho, tomou as informaes para o sepultamento 
de Antnia. Combinou tudo com Antnio. O corpo foi liberado no domingo pela manh e o enterro marcado para a tarde do mesmo dia. Nina cuidou de tudo e Antnio ficou 
aliviado por haverem-se desembaraado de to desagradvel tarefa. Alis, Nina organizou tudo, poupando-lhe o trabalho. No velrio, Nina permaneceu o tempo todo. 
Havia avisado todos os funcionrios, inclusive Neide, apesar de ela haver dito que no iria. Suas colegas Gilda e Maria compareceram logo aps o almoo e ficaram 
at a hora do enterro. Neide no compareceu. A tia de Antnia esteve l, no mais do que quinze minutos. Meia hora antes do enterro, Antnio compareceu com a esposa 
e acompanharam o corpo at a sepultura. Quando tudo terminou, na sada do cemitrio, Antnio aproximou-se de Nina e apresentou-lhe sua esposa. Mercedes era uma mulher 
bonita e elegante, de olhos vivos e francos. -- Esta  Nina, que muito nos ajudou nesta hora. Mercedes estendeu a mo, olhando-a nos olhos com simpatia: -- Tenho 
muito prazer em conhec-la. Estou muito grata pelo que fez. Antnio ficou muito chocado com o caso. Seria muito penoso para ele cuidar dos detalhes.

-- Gostaria de poder ter evitado esta tragdia. Ainda estou me sentindo um pouco culpada. -- No diga isso. Voc no poderia prever o que aconteceu. Apesar de o 
momento ser de tristeza, apreciei muito conhec-la. Espero tornar a v-la em uma ocasio mais alegre. Antnio me disse que voc  muito eficiente. -- Ser um prazer. 
Se precisar de alguma coisa, estarei  sua disposio. Eles se despediram. Gilda e Maria, que os observavam, aproximaram-se: -- No sabia que voc era to importante 
-- disse Gilda. -- Trabalho l pra mais de quatro anos e nunca fui apresentada  D. Mercedes -- tornou Maria. -- Voc j a conhecia? -- No -- respondeu Nina com 
naturalidade. --  muito simptica. Agora preciso ir. Deixei meu filho com as freiras. Fizeram-me esse favor e no posso abusar. At amanh. Depois que Nina se foi, 
Gilda comentou: -- Se D. Neide soubesse dessa intimidade com o Dr. Antnio, ficaria muito irritada. -- Voc no pensa em contar, no ? -- Pensando bem, at que 
seria muito bom. D. Neide iria disfarar, mas ficaria comendo fogo. Isso eu gostaria de ver. -- Mas depois ela iria perseguir a Nina, e ela no merece. -- Isso  
verdade. Mas, depois do que vimos aqui hoje, penso que a D. Neide no conseguiria nada com o Dr. Antnio. Depois de comentarem sobre a morte da colega, o enterro 
bonito, as flores e a antipatia de Olvia, elas se despediram. A tarde morria lentamente e as folhas caam das rvores sobre o tmulo de Antnia, onde os funcionrios 
terminavam de fechar com reboque a laje que haviam aberto, e o vento forte que soprava as movimentava como a querer varrer a tristeza e a dor por aquela vida truncada 
to cedo, chorando as oportunidades perdidas.

Nina chegou ao escritrio apressada. Olhou o relgio e suspirou aliviada. Apesar de o bonde ter atrasado, ela conseguira chegar dentro do horrio. Colocou a bolsa 
no armrio e, antes mesmo de sentar-se, Neide j estava em p do seu lado. -- Bom dia, D. Neide. -- Bom dia. Tenho um servio urgente. Voc precisa levar estes documentos 
ao escritrio do Dr. Camargo. Nina olhou-a sria. Desde o falecimento de Antnia, quatro meses atrs, Neide procurava mand-la para fora do escritrio, encarregando-a 
de servios que poderiam ser executados pelo boy. Nina notou que isso comeara a acontecer depois que ela percebeu que o Dr, Antnio a chamava em sua sala e s vezes 
parava em sua mesa para cumpriment-la. Gilda lhe dissera que Neide fora perguntar como Nina conseguira tal proximidade, e Maria prazerosamente lhe contara sobre 
o enterro de Antnia. O dia em que Mercedes ligou e pediu para falar com Nina deixou Neide enfurecida. Mesmo no tendo ouvido a conversa, no conseguiu dissimular 
a contrariedade. Bem que havia desconfiado da boa vontade de Nina, sempre disposta a fazer tudo, a ficar depois do horrio. Estava claro que ela desejava tomar-lhe 
o lugar. Arrependeu-se de no ter tomado as providncias do enterro de Antnia. Tambm, como iria adivinhar que Antnio, um advogado experiente, fosse ficar to 
impressionado com o ocorrido?Precisava mand-la embora. No podia ficar em paz enquanto aquele perigo a estivesse rondando. Estava claro que o Dr, Antnio se deixara 
levar pela "boa vontade" de Nina. Havia observado tambm que Nina no mais obedecia s suas orientaes, comparecendo ao escritrio maquiada, com roupas vistosas. 
Ela havia dito como deveria se vestir. Agora que se sentia importante, Nina fazia isso para afront-la. Muitas vezes o Dr. Antnio procurava por Nina. Desejava encarreg-la 
de algumas providncias, mas ela nunca estava. Neide o informava que Nina adorava ficar na rua e vivia pedindo para fazer esse tipo de servio. Nina estava percebendo 
o jogo dela e resolveu reagir. Neide continuava com o envelope estendido, e Nina perguntou: -- A senhora no pode mandar o menino entregar isso? Neide enrubesceu 
de raiva. -- Como se atreve? Voc est aqui para me obedecer. Nina abriu o jogo: -- Tenho notado que a senhora tem procurado manter-me afastada do escritrio, mandando-me 
fazer servio que qualquer menino de recados pode fazer. No  essa minha funo. -- Sua funo  fazer o que eu determino. Quem voc pensa que ? -- Uma pessoa 
responsvel. -- Pegue este envelope e v entreg-lo no escritrio do Dr. Camargo. -- E se eu no for? -- Se no for, falarei com o Dr. Antnio, Voc ser despedida. 
O telefone tocou e Nina atendeu. Era o Dr. Antnio: -- Ainda bem que a encontrei. Venha  minha sala. -- Sim, senhor. Nina desligou o telefone e, olhando Neide, 
disse sria: -- Sinto muito, mas no poderei ir mesmo. O Dr. Antnio est me chamando. Neide fulminou-a com o olhar e foi para sua sala. Gilda e Maria dissimularam 
a alegria. Assim que Nina foi  sala de Antnio, elas se aproximaram: -- Voc viu a cara dela? -- disse Maria. -- Pensei que ela fosse ter um ataque -- respondeu 
Gilda, satisfeita. Nina bateu ligeiramente na porta e Antnio a mandou entrar. -- Finalmente consigo falar com voc -- disse ele.

-- Quando o senhor ligou eu estava justamente dizendo a D. Neide que qualquer menino poderia entregar aquele envelope. Tenho conscincia de que o salrio que o senhor 
me paga  para fazer outro tipo de servio. -- Que envelope era aquele? -- Para levar ao escritrio do Dr. Esteves Camargo. -- No era para voc levar, mas para 
o boy. Por que ela mandou voc? -- No sei. Ela ficou muito irritada. Ameaou despedir-me. -- Ela disse isso? -- Sim. Eu perguntei se o boy no poderia fazer isso 
e ela no gostou. Em todo caso, se o senhor achar que  melhor eu ir, irei. -- No. Deixe isso, que eu resolvo. Chamei-a aqui para tratar de outro assunto. Lembra-se 
de Olvia, a tia de Antnia? -- Sim. -- Ontem, fomos a um jantar na casa de um amigo e l estava ela com o marido. Um homem muito educado, fino, Soube atravs desse 
meu amigo que eles so muito ricos e bem-vistos em sociedade. Mercedes pediu que eu lhe contasse. Disse que vai lhe telefonar para comentar. -- Ela mencionou Antnia? 
-- No. Ns conversamos ligeiramente. Mercedes tambm no simpatiza com ela. Ficou indiferente  morte da sobrinha. -- J o marido pareceu-me muito agradvel. Era 
isto que eu queria lhe dizer. Mas, j que est aqui, bata este contrato e esta petio. Quando terminar, traga direto para mim. Nina saiu pensando que Neide iria 
ficar ainda mais irritada quando soubesse que ele a encarregara de um servio passando por cima da autoridade dela. Ele no lhe parecia to formal quanto ela. Era 
bem provvel que toda aquela disciplina "linha dura" fosse criada apenas por ela para conservar sua autoridade e manter as outras funcionrias distantes do patro. 
Nina, vendo Neide se aproximar, disse sria: -- O Dr. Antnio me disse que mandou o boy entregar aquele envelope. Acho que a senhora se enganou. Neide mordeu os 
lbios e tornou: -- De fato, eu me enganei. Mas isso no justifica sua atitude. Voc me desafiou. -- No se trata disso, D. Neide. E que estou sendo paga para fazer 
um servio mais complexo. Sai caro para o escritrio usar meu tempo com coisas que qualquer um pode fazer. -- No lhe pedi opinio. Sei o que estou fazendo. -- Hesitou 
um pouco e perguntou: -- Afinal, o que o Dr. Antnio queria? -- Falar comigo um assunto particular. Tambm me pediu para fazer alguns servios para ele. Neide no 
respondeu. Saiu quase correndo, para delcia de Gilda e Maria, que se entreolharam maliciosas. Aproximaram-se de Nina querendo saber o que havia acontecido, mas 
ela disse simplesmente: -- Vamos deixar isso de lado. No tem nenhuma importncia. Tenho muitas coisas para fazer. As duas foram trabalhar e Nina se disps a fazer 
o que o Dr. Antnio lhe pedira. Quase na hora do almoo, Mercedes ligou: -- Nina, gostaria de conversar com voc. Pode vir  minha casa hoje, quando sair do escritrio? 
Sinto muito, D. Mercedes, mas preciso ir buscar meu filho. No tenho com quem o deixar, Gostaria muito de ir. -- No faz mal. Amanh  sbado. Por que no vem tomar 
um lanche  tarde e traz seu filho? Gostaria muito de conhec-lo. Nina hesitou um pouco, depois respondeu: -- Ele  muito levado. -- No se preocupe. Venha, que 
nos dar muito prazer. -- Nesse caso, iremos. Pode esperar.

-- Quero conversar com voc. Vou precisar de sua ajuda. -- Pode contar comigo. Nina desligou o telefone e voltou ao trabalho. Apesar das amizades que tinha no colgio, 
ela no freqentava a casa de ningum. Havia notado que sua situao de me solteira no era bem-vista pela maioria das mulheres, que viam nela uma perigosa rival. 
Tambm no desejava expor seu flho  maledicncia e ao preconceito. Mas gostara de Mercedes. Depois, ela sabia a verdade e mesmo assim insistira em convid-la. 
Momentos havia em que, apesar de ter o filho, sentia-se muito s. Seus pais moravam distante. Sabiam a verdade, continuavam apoiando-a, mas moravam em uma cidade 
pequena onde sua presena serviria de escndalo. Por isso, ela nunca mais fora visit-los. Eles, quando podiam, vinham a So Paulo v-la. Mas, naqueles quatro anos, 
vira-os apenas duas vezes. Por isso, aceitou o convite de Mercedes. Sentia que era uma pessoa franca, sem preconceitos. Neide desligou o telefone com raiva. Desde 
que notara a simpatia que Antnio nutria por Nina, sempre que ela atendia o telefone ficava ouvindo na extenso. O convite de Mercedes a deixou muito contrariada. 
Era fora de dvida que Nina estava se insinuando para a famlia do seu chefe, tentando tomar seu lugar. Isso ela no podia tolerar. Conseguira aquele emprego com 
muito esforo e no estava disposta a perd-lo. De nada lhe valera dizer a Nina que sua aparncia exuberante no condizia com a sobriedade do escritrio. Ela agradecera 
o conselho mas continuava do mesmo jeito. No lhe passaram despercebidos os olhares de admirao que os homens lhe lanavam. Certo dia, Neide no se conteve. Chamou-a 
em sua sala e disse: -- Voc precisa deixar de arruinar-se como quem vai a uma festa. Aqui  um lugar de trabalho. Tem que ser discreta. Nina sorriu, deu uma volta 
e respondeu: -- Um costume verde-folha, uma camisa de seda creme, sapatos fechados marrons... Parece-me muito indicado. -- Pois no . Alm disso, seu exemplo tem 
sido pernicioso. Suas colegas esto querendo imit-la. Voc tem que mudar. -- Aprecio sua opinio, D. Neide. Mas o Dr. Antnio no pensa como a senhora, Ainda ontem 
me disse que todas as moas aqui deveriam vestir-se com a mesma classe que eu. Por isso, vou continuar me vestindo do jeito que gosto. Neide mordeu os lbios com 
raiva. A situao estava pior do que havia imaginado. Como ela se atrevia a dar aquela resposta? Estava claro que tinha o chefe sob controle. Era bem possvel que 
Nina estivesse dando em cima do chefe. Precisava abrir os olhos de Mercedes. Seria um bom pretexto para acabar de uma vez com o atrevimento de Nina. Ficou pensando 
na melhor forma de fazer isso. Na tarde seguinte, Nina e o filho foram visitar Mercedes, que os recebeu com carinho. -- Seu filho  muito lindo! -- disse ela. -- 
Ele  toda a minha vida -- respondeu Nina com um brilho emocionado nos olhos. Estavam tomando lanche na copa quando chegou uma jovem, elegante, morena, olhos escuros 
e brilhantes, lbios camudos e vermelhos, cabelos castanhos e ondulados que lhe caam sobre os ombros. -- Esta  minha filha Marta -- apresentou Mercedes. Nina olhou-a 
nos olhos e perguntou: -- No nos conhecemos de algum lugar? -- Acho que no. Engraado, eu tambm tive a impresso de conhec-la. -- Isso j me aconteceu -- disse 
Mercedes. -- Vai ver que se conhecem de outra encarnao. Marta sorriu e respondeu: -- E o mais provvel. Mas quem  esse menino lindo?

-- Marcos, meu filho. Ela aproximou-se do menino: Como vai, Marcos? -- Bem, obrigado. Marta sentou-se do lado dele e os dois logo comearam a conversar. Nina ficou 
admirada. Marcos, apesar de conviver educadamente com as pessoas, era muito reservado. Com Marta, depois de alguns minutos de conversao, j estava lhe falando 
de seus amiguinhos na creche. -- Ele  muito inteligente comentou Marta. -- Eu tambm acho. Mas sabe como  me... -- Ele tem carisma e seus olhos so muito expressivos. 
E um esprito lcido, experiente. J viveu muitas vidas. -- Como sabe? Mercedes interveio: -- Marta tem muita sensibilidade. Pode acreditar no que ela est dizendo. 
-- Eu acredito. Sei que ele  inteligente, amadurecido. Diz coisas que me surpreendem. Mas voc disse que ele j viveu muitas vidas. -- Sim. Voc no cr na reencarnao? 
Apanhada de surpresa, Nina no soube o que responder. Algumas vezes ouvira referncias a isso, mas nunca se interessara pelo assunto. As freiras costumavam fazer 
piadas a respeito, afirmando ser impossvel. -- Para ser sincera, nunca pensei a respeito. -- Nina trabalhou com freiras e ainda mora com elas. Talvez seja melhor 
no entrarmos nesse assunto. -- Pois eu acho que est na hora de ela comear a enxergar a verdade. Dessa forma poder entender melhor o que lhe aconteceu e jogar 
fora do seu corao toda a mgoa que a est infelicitando. Os olhos de Marta brilhavam convictos e Mercedes calou-se. Ela sabia que Marta no falava por si mesma. 
Nina fitou-a admirada. Elas sabiam que ela era me solteira, mas a mgoa que ela guardava no corao nunca dissera a ningum. Ficou calada, esperando que ela continuasse. 
-- Quando no enxergamos os fatos como so, adotamos a posio de vtimas, acreditamos estar sendo injustiados, ento cultivamos o dio, o desejo de vingana. Mas 
tudo isso desaparece quando aprendemos que tudo sempre esteve certo, que tudo precisava ser do jeito que foi, seja para nosso amadurecimento, para o desenvolvimento 
da nossa conscincia, seja tambm para resolver assuntos mal acabados de outras vidas. Nosso destino  a felicidade, mas ningum pode ser feliz sem ter a alegria 
no corao. Por isso eu digo: est na hora, Nina, de conhecer a vida espiritual. De saber como as coisas realmente so. Marta suspirou, sorriu e disse alegre: -- 
Me, pode me servir um pedao daquela torta? Estou morta de fome. Nina estava emocionada. Alguma coisa diferente estava acontecendo ali e ela no sabia o que era. 
Depois de comer, Marta olhou para Nina e pediu: -- Posso levar Marcos at meu quarto? Quero mostrar a ele algumas gravuras. -- Claro. S que ele  muito levado. 
-- Deixe comigo. Vamos, Marcos. Depois que ela se foi levando o menino pela mo, Mercedes tornou: -- Voc deve estar intrigada com o que ela lhe disse. Vou tentar 
explicar. Tive duas filhas. Marta nasceu primeiro. Seis anos depois nasceu Valquria. Infelizmente, no veio com sade. No se desenvolveu como deveria e morreu 
ao completar trs anos. Esse problema nos causou muito sofrimento. -- Fizemos tudo na tentativa de salv-la, mas foi intil. Desde aqueles tempos, notamos que Marta 
era diferente das outras pessoas. Desde os dois anos, ela conversava com seres invisveis, brincava,

falava e muitas vezes nos surpreendeu dizendo que conversava com alguns parentes nossos falecidos. Falava com tal firmeza e riqueza de detalhes, que acabamos acreditando 
em suas palavras, apesar de ela ser muito pequena. Quando Valquria nasceu, ela permanecia longo tempo olhando-a e muitas vezes nos dizia que ela tinha vindo apenas 
por algum tempo e logo regressaria. Notando que eu chorava quando ela falava isso, Marta me acariciava e dizia: -- No fique triste, mezinha. Ela veio para se curar. 
Quando ela se for, estar boa. Vai ser feliz. -- Eu no entendia. Conversava com Antnio, que, aconselhado por alguns amigos, comeou a estudar o espiritismo. Mas 
eu, de formao catlica, no lhe dava ouvidos. Ele logo se convenceu de que Marta era sensitiva e por isso, sempre que ela falava alguma coisa sria, ele acreditava. 
Ela previu a morte da irm com preciso. Vendo meu desespero, ela me disse sria: -- No chore, me. Fique feliz. Agora ela est curada. Libertou-se. -- Diante da 
irm morta, no derramou nenhuma lgrima. Acariciou-a com muito amor e orou por ela, desejando-lhe felicidade. Todos ficamos muito impressionados com a atitude dela. 
Tinha apenas nove anos. -- Depois disso, Antnio conversou muito comigo e aos poucos tambm comecei a estudar o espiritismo. L encontrei muitas respostas para o 
drama que tnhamos vivido. Confortei-me. Descobri que ns j vivemos outras vidas, sempre com a finalidade de amadurecer, aprender a viver melhor. Nina tinha lgrimas 
nos olhos. Sentia que Mercedes falava com sinceridade. -- D. Mercedes, avalio sua dor. Se a senhora encontrou conforto para isso, o espiritismo s pode ser uma coisa 
boa. -- Isso mesmo. Depois, no foi apenas conforto o que encontrei. Eu comecei a estudar tentando entender o que nos acontecera, mas com o tempo percebi que tudo 
era verdadeiro. No dia-a-dia fui encontrando a comprovao desses ensinamentos. Hoje no tenho nenhuma dvida: sei que a morte  apenas uma viagem, que o nosso esprito 
 eterno. Quando nosso corpo morre, continuamos vivos em outra dimenso do universo. Tudo continua. O corpo de carne  apenas um vestido que, quando se rompe, abandonamos. 
Nina sobressaltou-se. -- O que foi? -- indagou Mercedes. -- Lembrei-me de Antnia, Quer dizer que ela pode estar viva em outro lugar? -- Certamente. No sei se j 
est consciente. O suicdio  um ato de revolta que s aumenta o sofrimento, uma vez que a vida continua e os problemas permanecem. Mas, se ela j acordou no outro 
mundo, deve estar muito arrependida do seu gesto. -- Por que ser que ela se matou? -- Difcil saber. Ela no deixou nada escrito. -- Meu Deus! Estou penalizada. 
Suicdio no  soluo. E um ato de falsa coragem. A verdadeira coragem  enfrentar os problemas, sejam quais forem. -- Concordo. A partir daquele dia, Nina passou 
a freqentar a casa de Mercedes com regularidade. Entre ela, Mercedes e Marta nasceu uma amizade sincera. Nina sentia-se feliz vendo-as rodear Marcos de carinho. 
Uma tarde de sbado, enquanto tomavam lanche na varanda, Marta brincava com Marcos e de repente parou, aproximou-se de Nina e disse: -- Sua vida vai mudar. Muitas 
coisas vo acontecer. Mas lembre-se de que, enquanto guardar a mgoa e o desejo de vingana no corao, no conseguir ser feliz! Nina empalideceu. Apesar da amizade 
que as unia, ela nunca havia lhes contado o verdadeiro motivo pelo qual desejava subir na vida. Marta falava com firmeza e seus olhos estavam fixos em um ponto distante. 
Quando Nina conseguiu sair da surpresa e ia responder, Marta estremeceu e disse: -- Mame pode me servir uma xcara de ch?

Enquanto ela tomava o ch como se nada tivesse acontecido, Nina, impressionada, estava pensativa. Depois de alguns segundos, perguntou: -- O que ela disse pode acontecer 
mesmo? -- Pode e sempre acontece. -- Como  que ela sabia que eu guardo uma mgoa no corao? -- indagou Nina. Desta vez foi Marta quem respondeu: -- Eu senti isso 
desde que a vi pela primeira vez. Mas hoje foi uma amiga espiritual quem deu esse recado. Mercedes interveio: -- Como eu lhe disse, Nina, estamos cercados de seres 
que vivem em outras dimenses do universo. Quem morre neste mundo continua vivo em outro lugar. -- Mesmo os que so maus? -- perguntou Nina, -- Todos. A vida continua 
e o esprito  eterno. Digamos que os que se iludem com o mal so ignorantes das leis perfeitas da vida. Mas um dia eles tambm tero aprendido e se tornaro espritos 
lcidos e bons. Nina pensou em Andr e considerou: -- E difcil crer que algum que foi mau, que causou sofrimento s pessoas, possa tornar-se bom. -- O progresso 
 para todos. Deus  amor e deseja nossa felicidade, mas quer que sejamos lcidos, que nossa conscincia se desenvolva. S assim poderemos valorizar e apreciar devidamente 
o bem. Sem isso seremos indiferentes, incapazes de perceber os valores eternos e verdadeiros. -- H pessoas to ms que isso parece impossvel. -- No . Para isso 
ns temos toda a eternidade. A dor incomoda, o sofrimento constrange. Todos queremos nos libertar deles. Assim, vamos procurando novos caminhos menos dolorosos. 
No fim aprendemos que somos responsveis por tudo quanto nos acontece, que somos ns que com nossas atitudes atramos o bem ou o mal. Nina ficou alguns instantes 
pensativa. Ela nunca fizera mal a ningum, entretanto fora vtima da maldade de Andr. Marcos era inocente e no merecia ser desprezado pelo pai. -- O que a senhora 
est dizendo  bonito, mas na prtica no acontece. -- Por que acha isso? Nina olhou em volta e, vendo que Marta se dirigira para o jardim brincando com Marcos, 
disse: -- Porque em minha vida no foi assim. Eu amei um homem e a ele dei tudo que tinha de melhor. Fui sincera, leal, carinhosa, dedicada. Ele era estudante e 
fizemos planos para quando ele se formasse. Entretanto, quando se formou, ele me abandonou, mesmo sabendo que eu estava esperando um filho. -- E essa a mgoa que 
voc guarda no corao. -- Eu o odeio! Ele trocou meu amor sincero, o amor do nosso filho, pela ambio. Casou-se com uma moa da sociedade. Enganou-me todo o tempo. 
Nunca me amou. Como eu posso ser responsvel pelo que me aconteceu se o culpado foi ele? Mercedes colocou a mo sobre a de Nina, acariciando-a levemente: -- Voc 
est se colocando como vtima. Isso no  verdade. No jogo do amor h duas pessoas, e para dar certo  necessrio que ambas desejem ficar juntas. Quando uma mulher 
comea um relacionamento, precisa encarar a realidade, usar bom senso e decidir at que ponto vale a pena ousar. Voc era inexperiente e isso a levou a entregar-se 
baseando-se apenas em seus prprios sentimentos, sem questionar que ele no era voc e poderia valorizar as coisas de maneira diferente. -- Eu estava muito apaixonada. 
No conseguiria resistir. -- Voc sabe que queria estar com ele. Decidiu isso. S no pensou na possibilidade de ele escolher outro caminho. -- Mesmo que eu houvesse 
pensado nisso, teria ficado com ele enquanto ele me quisesse. Hoje me envergonho de dizer isso. Mas naquele tempo eu estava cega.

-- Se reconhece isso, se sabe que fez o que desejava, por que o culpa por haver escolhido outro caminho? Voc fez o que quis e desejava continuar, mas ele mudou. 
Isso pode acontecer a qualquer um. -- Depois de haver mergulhado de corpo e alma nesse amor, foi muito triste v-lo ao lado de outra. Seu desprezo pelo nosso filho 
foi o que doeu mais. Insinuou que eu abortasse. Prometeu continuar pagando as despesas da casa que ele havia montado para ns. Claro que eu no quis. Na manh seguinte 
fui embora, mas no consegui esquecer o que ele nos fez. -- Ele conhece o menino? -- No. Quando sa da casa, no deixei endereo. Apenas uma amiga sabia onde eu 
estava, mas a proibi de contar-lhe. -- Quer dizer que ele no soube que era pai? -- Durante cinco anos nunca nos vimos. Porm, no dia em que fui  empresa para a 
primeira entrevista com o Dr. Antnio, ao sair nos encontramos na rua. Eu no o tinha visto, mas ele me segurou pelo brao ansioso, querendo saber tudo. Respondi 
com evasivas e no contei nada. Nem sequer dei meu endereo. -- Talvez fosse melhor conversar, afinal um filho  sempre uma responsabilidade. -- Marcos no precisa 
dele. Eu sou suficiente para dar-lhe tudo que for necessrio. No quero que ele saiba que seu pai o rejeitou. Um pai assim no merece o prazer da sua convivncia. 
Mercedes olhou-a pensativa. Ficou calada por alguns instantes, depois disse: -- O orgulho  mau conselheiro. -- No gostei de como ele me olhou quando contei que 
estava grvida. Havia desconfiana em seu olhar. Talvez tenha imaginado que eu estava usando esse ardil para induzi-lo ao casamento. Ele  de famlia rica, e eu 
no. Por isso decidi assumir toda a responsabilidade pelos meus atos. Meu filho no precisa; eu posso cuidar dele bem. -- De fato. Ele est timo. E um menino adorvel. 
-- Marcos  tudo que tenho neste mundo. E por ele que eu tenho estudado, trabalhado. Marta entrou na sala com Marcos, dizendo alegre: -- Este menino  muito vivo. 
Aprende com facilidade. -- Gostei da histria do camelo. Depois eu conto pra voc, me -- disse Marcos, contente. -- Pode contar agora -- disse Mercedes. -- No. 
Vou contar na hora de dormir. Ela sempre me conta a do burrinho e hoje eu vou contar a do camelo. A tarde estava findando quando Nina se despediu e saiu com o filho, 
Mercedes e Marta queriam que ficassem para o jantar mas Nina no quis abusar. No trajeto da volta, pensava nas conversas que haviam tido. Tanto Mercedes quanto Marta 
tinham boas intenes, mas nunca poderiam avaliar o quanto ela havia sofrido. Para quem estava fora da situao, era fcil encontrar explicaes, aconselhar. O difcil 
era conseguir esquecer, perdoar, quando a ferida ainda estava sangrando e doa. Lembrou-se do encontro com Andr e sentiu um aperto no corao. Ele certamente estava 
feliz, vivendo sua vida com a esposa, tendo sucesso na carreira, enquanto ela carregava o peso daquela traio, de um amor que a transformara em uma pessoa infeliz 
e rejeitada. No. Ela no ia esquecer. Um dia Andr ainda haveria de arrepender-se de tudo quanto lhe fizera.

Nina entrou na sala do Dr. Antnio dizendo prestativa: -- O senhor deseja alguma coisa? Ele deixou de lado o relatrio que examinava. Olhou-a e respondeu: -- Quero 
conversar com voc. Sente-se, por favor. Ela sentou-se em frente  mesa dele e esperou. Ele continuou: -- Faz dois anos que trabalha comigo e tem se revelado muito 
eficiente. Gostaria de fazer-lhe uma proposta. Os olhos dela brilharam alegres. -- Sou muito grata pela oportunidade que tem me dado. Tenho aprendido muito neste 
escritrio. -- Como sabe, nosso trabalho tem aumentado muito. -- O senhor tem sido brilhante, Estamos com uma invejvel carteira de clientes. -- Tenho trabalhado 
demais. A princpio pensei em convidar outros advogados para fazer uma sociedade. Conversei com Mercedes. Ela ponderou que seria problemtico colocar um advogado 
desconhecido em nosso escritrio. Fez uma sugesto e achei muito melhor. Voc tem se esforado muito. Conhece leis tanto quanto eu. -- Bondade sua, doutor. -- Estou 
sendo sincero. Voc  uma excelente advogada. Eu entregaria muitos casos em suas mos, que me aliviaria bastante. Infelizmente, voc no tem um diploma. -- De fato. 
Sou autodidata. -- Gostaria de entrar na faculdade e conseguir seu diploma? -- Esse  meu sonho. -- Nesse caso, vou dar-lhe um aumento de salrio, suficiente para 
pagar o curso. Em troca, depois de formada, voc trabalhar comigo. Nina sentiu a voz embargada e no respondeu logo. -- Ento, o que me diz? -- Claro que aceito. 
-- Conversarei com o reitor. E meu amigo. Pedirei que a examine e verifique em que ano voc pode matricular-se. -- Acha que vai conseguir? -- Voc far os exames 
e eles avaliaro. Tenho certeza de que no precisar comear do primeiro ano. Quando voltou para casa no fim da tarde, Nina procurou a diretora do colgio para contar 
a novidade. Madre Pierina, alm de a haver ajudado quando fora ao pensionato pela primeira vez, havia se tornado sua grande amiga. Para poder estudar, Nina precisaria 
da cooperao dela. Alm de estar trabalhando o dia inteiro, estudando  noite, s voltaria para casa muito tarde. Nina dispensava ao filho todo o seu tempo livre. 
Adorava ficar com ele, mas ao mesmo tempo, pelo fato de ele no ter pai, considerava que precisava suprir essa falta. Apesar de desejar muito esse diploma, seria 
justo privar o filho da sua companhia por tanto tempo? Isso no o distanciaria dela? Por outro lado, essa era a grande oportunidade que sonhara alcanar para poder 
progredir e dar ao filho uma vida boa, confortvel. Depois, havia jurado no poupar esforos para chegar aonde queria e fazer Andr arrepender-se de hav-la preterido. 
Este ltimo argumento a convenceu de que no podia recusar. Marcos dormia cedo e por isso no sentiria tanto sua falta. Procuraria compensar essa ausncia cercando-o 
de mais amor. Conversaria com ele e o faria compreender que era um sacrifcio justificado para que pudessem melhorar financeiramente. Procurou por madre Pierina, 
exps a situao e finalizou: -- O Dr. Dantas disse que vou prestar exame. Talvez nem precise comear do primeiro ano. Meu nico problema  ficar mais tempo longe 
do Marcos. Mas, se a senhora concordar que eu posso

busc-lo mais tarde, aceitarei. Como vou receber um aumento de salrio, poderei pagar uma mensalidade maior para o colgio. Pierina olhou-a sria e perguntou: -- 
Voc tem certeza de que precisa desse diploma? -- Bom, o Dr. Dantas me ofereceu uma oportunidade nica: tornar-me sua colaboradora direta, talvez at scia. E um 
advogado conceituado, respeitado. Muitos profissionais gostariam de ter essa chance. -- Estudar, melhorar de vida  uma coisa boa. Ainda mais que voc tem um filho 
para criar. Mas, alm desse, voc tem outro objetivo, que considero perigoso. Gostaria de saber se j esqueceu o passado, se j conseguiu perdoar. Nina estremeceu. 
Levantou a cabea com altivez e respondeu: -- No, madre. No esqueci. Acho que nunca esquecerei. -- E isso que me preocupa. E hora de esquecer o que passou, de 
olhar para a frente, reconstruir sua vida afetiva. -- No, madre. Para mim, o amor acabou. S o meu filho conta. Por ele fao tudo, quero que ele seja muito feliz. 
-- E preciso aceitar a vontade de Deus, minha filha. Ele sabe o que faz. -- Obrigada, madre. Sei que deseja meu bem. Eu respeito sua f, mas no sou religiosa. No 
tenho a mesma certeza que a senhora. Sei que preciso tomar conta de minha vida e estou tentando fazer o melhor. E nisso que eu creio. Madre Pierina suspirou desanimada. 
Fazia anos que tentava fazer Nina tornar-se mais conformada com seu destino. Ela havia se entregado ao namorado antes do casamento e ele a trocara por outra. Se 
tivesse preservado sua intimidade, no teria sofrido tanto. Ao invs de assumir a prpria responsabilidade, tornara-se uma revoltada. -- Est bem, minha filha, Podemos 
tomar conta de Marcos para voc estudar. Nina levantou-se e abraou-a com carinho: -- Eu sabia que podia contar com a senhora! Pode ter certeza de que ainda se orgulhar 
de mim. Pierina sorriu. Gostava de Nina. Embora a jovem pensasse to diferente dela, respeitava seu esforo para sustentar o filho, sua dedicao ao trabalho e sua 
honestidade. Uma semana depois, Nina estava cursando a faculdade. Antnio a apresentara para o reitor, que conversou com ela durante algum tempo e informou que, 
apesar de ela ter muito conhecimento, precisaria cursar um nmero certo de aulas para poder graduar-se. Entusiasmado com o conhecimento que ela demonstrava, principalmente 
com sua redao impecvel e repleta de argumentos inteligentes, prometeu ajud-la como pudesse. Nina mergulhou nos estudos com entusiasmo. Marcos estranhou a princpio, 
mas aos poucos foi se acostumando. -- E s por algum tempo -- explicava ela quando o via triste. -- Logo terminarei os estudos, ento terei todo o tempo para voc. 
Vou ganhar muito dinheiro e vamos poder ter uma casa s nossa. Voc ter um quarto bonito, cheio de brinquedos. -- Mas eu quero ficar com voc! Outro dia eu ca, 
machuquei a perna e voc no estava! -- Doeu muito? -- Eu chorei, queria voc. Ela beijou-o com carinho. Sabia que o choro fora mais de saudade do que de dor. Ele 
sentia falta dela. -- Eu estou aqui. Todas as noites, eu chego e voc est dormindo. Carrego voc no colo e levo para o quarto. -- Eu no vou dormir mais. Quero 
estar acordado quando voc chegar. -- Vamos fazer assim: voc dorme cedo e, quando eu chegar, o acordo para tomar leite comigo. A partir daquele dia, Nina, quando 
voltava da faculdade, o acordava e ambos tomavam lanche junto. Depois ela o levava para a cama e ficava com ele at que dormisse.

Muitas vezes Nina, depois de acomod-lo, voltava a estudar, s parando de madrugada. Antnio notou que ela havia emagrecido e comentou: -- No sei se foi uma boa 
idia voltar a estudar. -- Por qu, doutor? Acha que no vou conseguir? -- Ao contrrio. Acho que se esfora demais. Tem estado abatida, emagreceu. Mercedes disse 
que no tem ido l em casa. Desse jeito, vai adoecer. -- Estou bem. No se preocupe. Tenho sentido saudade de D. Mercedes e de Marta. -- Ela reclama que Marcos no 
tem aparecido. -- Sbado iremos v-las. Pode deixar. -- Eu sabia que voc ia exagerar. -- Eu valorizo muito essa chance. Quero aproveitar. -- Muitas coisas que vai 
estudar na faculdade, nunca vai usar. Servem apenas para melhorar seu nvel cultural. A experincia no exerccio da profisso unida  perspiccia que eu sei que 
voc tem  que vai tom-la uma boa profissional. Por isso, pense no essencial, e no se desgaste estudando o que no lhe ser til. -- Aqui tenho aprendido muito. 
-- Vou contratar uma pessoa para nos secretariar e passar para voc alguns casos em andamento. -- O senhor acha que estou preparada? -- Acho. Vamos trabalhar juntos. 
Antnio apanhou o telefone e chamou: -- Neide, venha at aqui. Ela bateu levemente na porta e entrou. -- Quero que contrate uma nova secretria para ns. Neide sobressaltou-se: 
-- Como? Entendi bem? -- Sim. Vamos precisar de uma nova secretria. De preferncia com alguns conhecimentos jurdicos. De hoje em diante, Nina vai trabalhar diretamente 
comigo. Como est a sala ao lado? -- Depois que seu assistente saiu, est vazia. -- Vamos prepar-la para Nina. Deixe tudo em ordem, que vou vistori-la. Neide enrubesceu 
e esforou-se para dissimular a raiva: -- Sim, senhor. Depois que ela saiu, Nina considerou: -- Ela est me odiando. Sempre teve muito cime. -- Se quiser continuar 
aqui, ter que engolir o cime. No vou deixar de fazer o que quero s porque D. Neide no concorda. Quando Nina voltou para sua mesa, Neide no se conteve: -- No 
sei que tipo de jogo  o seu. Sempre consegue tudo. No d para acreditar. Nina olhou-a firme nos olhos e ponderou: -- No fique contra mim. Eu no tenho nada contra 
a senhora. Podemos trabalhar juntas muito bem. -- Voc nunca me enganou. Desde o primeiro dia vi logo que era perigosa. Aos poucos foi se infiltrando em tudo, at 
na casa do Dr. Dantas, com a famlia dele. E revoltante. -- No sei por que a senhora me odeia. -- Odeio, sim, odeio. No vou suportar isso. Voc, que nunca foi 
nada na vida, chegou aqui e tomou conta de tudo. Eu, que estou me esforando h tantos anos, no consigo progredir. Na hora de ele precisar de algum, procura voc. 
No  justo. Aos poucos Neide foi elevando a voz e terminou aos soluos, gritando as ltimas palavras. -- O que est acontecendo aqui? Antnio estava diante delas, 
irritado.

-- O senhor  injusto, no gosta de mim, eu que sempre o servi com dedicao; Prefere uma mocinha bonita, sem experincia, e me deixa de lado. E demais. Antnio 
franziu a testa visivelmente irritado: -- E demais mesmo. Ningum vai me dizer o que fazer dentro de minha prpria empresa. A senhora sempre foi eficiente, e por 
isso tenho suportado sua mesquinhez com nossos funcionrios. Mas hoje chegou ao limite. Est despedida. -- Ela est nervosa, doutor. Tem estado cansada. Vai refletir 
e perceber que no h nenhum motivo para se aborrecer  tornou Nina. -- Pois eu no preciso da sua boa vontade. Vou embora. Sou excelente profissional, logo terei 
outro emprego. Doutor, o senhor ainda vai se arrepender. Talvez D. Mercedes descubra o quanto errou recebendo essa mocinha em sua casa. -- Retire-se, Neide, antes 
que eu mesmo a expulse. No temos mais nada que falar. Diante das funcionrias que olhavam admiradas, ela apanhou seus objetos de uso pessoal e saiu pisando duro, 
olhos rancorosos, dizendo para Nina, que, constrangida, a olhava nervosa: -- Voc no perde por esperar. O Dr. Dantas havia voltado para sua sala. Assim que Neide 
se foi, batendo a porta, Gilda e Maria cercaram Nina. -- O que aconteceu? -- indagou Maria. -- Ela se irritou porque o Dr. Antnio quer que eu o ajude com os processos 
e vai contratar outra secretria. Mandou que ela preparasse a sala do antigo assistente para mim. -- Imagine! -- disse Gilda. -- Ela vivia de olho naquela sala. 
Sempre desejou ser transferida para l. -- Eu no sabia -- respondeu Nina pensativa.  Foi o Dr. Antnio quem decidiu isso. Eu no pedi nada. -- Foi bom. Assim ficamos 
livres dela. Ainda ontem ela implicou comigo porque atrasei cinco minutos. Me chamou de preguiosa, disse que, se eu atrasasse de novo, ia me despedir. Bem feito! 
-- Quem saiu foi ela -- comentou Maria, satisfeita. -- No posso esquecer da Antnia. Se ela no tivesse sido to dura, talvez ela estivesse viva -- lembrou Gilda. 
-- Eu nunca fui com a cara dela, mas depois desse dia ficou pior. -- No adianta ficarmos falando dela. Afinal, uma pessoa assim, to invejosa, sofre muito -- disse 
Nina. -- Ela saiu ameaando voc -- tomou Maria. -- No tenho medo. Nunca fiz nada contra ela. Talvez ela volte e pea desculpas ao Dr. Antnio. -- Ele no vai aceitar 
-- disse Gilda, -- Estava muito irritado. -- E, estava. Chegou a ficar plido. Vou ver o que ele quer que seja feito. Nina entrou na sala dele, preocupada: -- Sinto 
muito, doutor. No esperava isso. -- Pois eu me sinto aliviado de no ter mais que olhar o rosto dela todos os dias. -- Ela vai se arrepender e pedir desculpas. 
-- No creio. Mas mesmo que viesse eu no voltaria atrs. Agora ternos que tomar providncias. V falar com o Erasmo, que cuida da sesso pessoal, para tratar da 
exonerao dela, Veja tambm se ele tem algumas fichas de candidatas para examinarmos. Nina saiu e providenciou tudo. Quando voltou  sua mesa, Gilda aproximou-se: 
-- Nina, voc disse que o doutor vai contratar uma secretria. Minha prima  secretria e est desempregada. Trabalhou cinco anos em um escritrio de advocacia e 
s saiu porque morreu o dono da empresa e eles fecharam. Os outros scios no queriam continuar. -- Ela deve ter experincia. -- Ela  muito esforada e preparada. 
Alm disso,  uma pessoa honesta. Se a contratar, no vai se arrepender. Ela precisa muito trabalhar. Tem uma filha pequena para criar.

-- Mande-a vir amanh falar com o Dr. Antnio. E ele quem decide isso. Fao votos de que d certo. Gilda abraou Nina com alegria: -- Puxa, ela vai ficar muito contente. 
Nem sei como agradecer. -- Fao votos de que o Dr. Antnio goste dela e a contrate. Vamos torcer. Gilda correu para telefonar e Nina sorriu. Na verdade, o ambiente 
do escritrio ficaria muito melhor sem Neide. Mas no podiam perder qualidade no atendimento aos clientes. Imediatamente Nina procurou Antnio: -- Falei com Erasmo. 
Ele tem algumas fichas. Mas ns j temos uma candidata: uma prima de Gilda. -- Explicou os detalhes e finalizou: -- Ela vir amanh cedo para falar com o senhor. 
-- Faa voc uma primeira entrevista. Se ela for o que Gilda disse, falarei com ela em seguida. Mude-se para sua nova sala. Atenda a nova secretria l. E importante 
que ela a veja como chefe. Na manh seguinte, quando Nina chegou ao escritrio, a prima de Gilda j a esperava. Era uma mulher de uns trinta anos, alta, bonita, 
vestia-se com classe e elegncia. -- Esta  a minha prima Lcia -- apresentou Gilda. -- Muito prazer, eu sou Nina. -- Voltando-se para Gilda: -- Leve-a  sala de 
espera. Dentro de dez minutos conversaremos. Nina foi para sua nova sala. O lugar era espaoso, bem decorado. Sentando-se atrs daquela mesa, ela sentiu uma onda 
de entusiasmo. Aquele era o mundo em que ela sonhara viver. Aquilo era apenas o comeo. Imaginou a surpresa de Andr quando descobrisse que aquela moa ingnua, 
pobre, simples que havia abandonado se tornara to rica e poderosa quanto ele. Havia flores sobre a escrivaninha e um carto com os cumprimentos de Gilda e Maria 
pela promoo. Nina apertou o boto do telefone e Gilda atendeu. -- Faa sua prima entrar. Lcia entrou e sentou-se em frente da mesa, conforme Nina indicou. Era 
uma moa elegante, parecia segura de si. No decorrer da entrevista, Nina observou com satisfao que Lcia tinha muita experincia e garra, raciocnio rpido e boa 
vontade. Mas, para ser uma boa secretria, precisava conhecer o lado pessoal. -- Fale de voc -- pediu. -- Bem, tenho trinta e trs anos. Sou solteira. Tenho uma 
filha de quatro anos. Minha me  irm da me de Gilda, meu pai  de classe mdia alta. Rompemos relaes por causa da minha gravidez. Nina suspirou. Outra vtima 
da maldade dos homens. -- Posso compreender. Tambm sou me solteira -- disse. -- Meus pais queriam que o pai de minha filha casasse comigo. Se fosse livre, ele 
teria feito isso. Quando perdi o emprego, fiquei muito aflita. Eu assumi minha filha sozinha. Apesar dos meus conhecimentos, no est fcil encontrar um emprego 
que me possibilite continuar criando minha filha com conforto. Por isso, gostaria muito de vir trabalhar aqui. Gostei do ambiente, o salrio  conveniente. Se me 
aceitar, vou dar o melhor de mim. O fato de Gilda ser minha prima no vai atrapalhar o trabalho. Sou profissional o bastante para saber separar as coisas. -- Muito 
bem, Lcia. De minha parte gostaria que viesse trabalhar conosco. Mas  o Dr. Dantas quem decide. Voc pode ir e voltar mais tarde para conversar com ele. Lcia 
levantou-se. -- A que horas seria conveniente? -- As quatro. -- Estarei aqui.

Depois que ela se foi, Nina sentou-se pensativa. A histria de Lcia era semelhante  sua. Isso a tornava solidria. Mas reconheceu que a moa tinha todas as qualidades 
para o cargo que deveria ocupar. Naquela mesma tarde Dantas contratou Lcia com satisfao. O rosto srio da moa, sua atitude educada, seus conhecimentos, sua elegncia 
discreta, seus olhos que no se desviavam durante a conversa o convenceram. Daquele dia em diante comeou para Nina uma situao diferente. Lcia comeou a trabalhar 
e rapidamente tomou conta de todo o trabalho que lhe competia com eficincia e capricho, permitindo que Nina pudesse dedicar-se completamente  sua nova tarefa. 
Nina no s redigia contratos, como estudava processos, emitindo pareceres de tal sorte inteligentes que o Dr. Dantas com satisfao a encarregava tambm de algumas 
audincias. Nina mergulhou no trabalho tendo como nica distrao os alm dos momentos prazerosos que dedicava ao filho. Uma tarde em que ela e Lcia haviam trabalhado 
at mais tarde, saram juntas e Nina comentou: -- Obrigada, Lcia, por ter ficado at esta hora. J passa das nove. -- Sempre que precisar,  s dizer. -- Este caso 
 muito importante. H muito dinheiro envolvido. -- Eu sei. Voc nem foi  faculdade.. Quando saram do elevador, Lcia sobressaltou-se. -- O que foi? -- indagou 
Nina. -- O Breno est me esperando. No esperava v-lo hoje. Deve ter acontecido alguma coisa. Nina olhou e viu um homem alto, elegante, aparentando quarenta anos, 
que, vendo-as, aproximouse. -- Pensei que voc no fosse sair mais! -- disse, beijando Lcia levemente na face, -- No sabia que estava aqui. Por que no ligou? 
-- No queria atrapalhar. Voc no deveria ficar trabalhando at esta hora. Nina interveio: -- Hoje foi uma exceo. Lcia apressou-se em apresent-la. -- Breno, 
esta  minha chefe, Nina. Este  o Breno. Nina estendeu a mo, que ele apertou olhando-a com ateno. -- Ns no nos conhecemos? -- indagou ele. -- No. -- Engraado... 
Seu rosto me parece familiar. Tem certeza de que no nos vimos antes? -- Impresso sua. Eu teria me lembrado. Agora preciso ir. Boa noite, Lcia. Boa noite, Breno, 
Nina se foi e Breno comentou: -- Continuo achando que j nos vimos. -- Vocs trabalham na mesma rea. Nina  muito bonita, deve ter chamado sua ateno em algum 
lugar. -- Ainda vou descobrir de onde a conheo. Eu vim porque precisava v-la. Estou preocupado. -- Aconteceu alguma coisa? -- Vamos at sua casa. L conversaremos. 
Uma vez no apartamento, Lcia verificou que sua filha, Mirela, e Rosa, a moa que contratara para tomar conta dela desde o nascimento, dormiam tranqilas. Sentou-se 
na sala, ao lado de Breno. -- Voc se lembra daquele fim de semana que passamos no Rio de Janeiro antes de Mirela nascer? -- Claro. Nunca poderia esquecer. -- Pois 
algum, que no sei ainda quem , mandou-me algumas fotos nossas muito comprometedoras. Nossos momentos de intimidade no hotel foram violados. Lcia assustou-se: 
-- Que horror! Quem teria feito isso?

-- No sei, mas vou descobrir. -- Onde esto as fotos? -- Queimei imediatamente. Voc sabe como Anabela  ciumenta. Se ela descobre, nem sei o que poder fazer. 
Lcia suspirou nervosa: -- Sempre senti medo de que isso um dia viesse a acontecer. -- Pois eu, no. Sempre fomos discretos. Se ela descobre, vai ser o diabo. Tornar 
nossa vida um inferno. -- Acha que ela viria me procurar? -- Com certeza. Depois colocaria o pai contra mim. Voc sabe da nossa diferena social. Eles so muito 
ricos, enquanto eu nasci em uma famlia humilde. Tenho progredido atravs do meu trabalho, mas, mesmo assim, muitas vezes meu sogro faz questo de lembrar essa diferena. 
Quando eles souberem, nem sei o que faro. Lcia olhou-o sria e disse: -- Talvez seja melhor dannos um tempo em nosso relacionamento. Breno segurou as mos dela, 
dizendo nervoso: -- No, isso no. Voc e Mirela so toda a razo da minha vida. No suportaria viver sem vocs. -- Eu tambm amo voc, mas s vezes me sinto muito 
incomodada com esta situao. No foi o que desejei para mim. -- Nem eu. Voc sabe: eu me casei muito jovem, queria vencer na vida. Estava deslumbrado com a posio 
social de Anabela. Onde ela aparecia era reverenciada, as pessoas apressavam-se em cumprimentla e atend-la. -- E uma mulher bonita e elegante. -- Tambm. Acreditei 
que a amava sinceramente. Porm a iluso passou e um dia percebi que a atrao havia desaparecido. Se no tivssemos filhos, teria me separado. -- No adianta agora 
ficar recordando o passado. O que pensa fazer? -- Ainda no sei. Estou certo de que se trata de uma chantagem. S no sei quanto terei que pagar. -- Pensa em pagar? 
-- No tenho alternativa. No posso envolver-me em um escndalo exatamente agora, quando estou cuidando de alguns casos importantes que vo exigir de mim uma conduta 
irrepreensvel. Estamos mexendo com interesses ilcitos de gente poderosa. Qualquer deslize poder custar minha carreira e, quem sabe, at a nossa paz. -- Pois eu 
penso que o melhor seria enfrentar, darmos um tempo em nosso relacionamento, descobrir quem est por trs disso e reagir. No gosto de contemporizar. Isso nunca 
d certo. -- No, eu no posso fazer isso. Pagarei pelos negativos e pronto. Nina deixou os dois sentindo o corao bater descompassado. Os anos haviam passado, 
mas  claro que ela se lembrava. Breno fora colega de faculdade de Andr e vrias vezes haviam se encontrado. Sabia que eles eram scios, mas preferiu fingir que 
no o conhecia. Ainda no estava pronta para o encontro com Andr. Felizmente ele no havia se lembrado claramente. No trajeto de volta, Nina refletia em como a 
vida  surpreendente, colocando Breno em seu caminho. Nunca imaginou que o caso de Lcia fosse ele, ainda que o nome fosse o mesmo. Se ele se lembrasse dela, contaria 
para Andr, que voltaria a assedi-la. Ele nunca soube se aquela gravidez chegara a termo. Estava curioso. Mas ele no perdia por esperar. Um dia, quando chegasse 
a hora, ele saberia de tudo, no para voltar atrs ou tentar de novo, mas para lamentar o que perdera e chorar para sempre a distncia do filho. Nina tentou no 
dar importncia, mas teve de reconhecer que o encontro com Breno a levara de volta ao passado. Lembrou-se do primeiro encontro com Andr, dos momentos que haviam 
vivido juntos, da desiluso e da raiva que ainda guardava no corao. Chegou em casa plida e triste. Vendo-a, madre Pierina considerou:

Voc est abatida. Aconteceu alguma coisa? -- No, madre. Estou bem. -- Voc tem abusado, Nina. No pra de trabalhar, estudar. Precisa se cuidar. Desse jeito, vai 
acabar doente. -- No se preocupe, estou bem. Naquela noite, levou Marcos para o quarto, mas no teve nimo de brincar com ele como de costume. Depois do lanche, 
tornou: Vamos dormir, filho. Estou muito cansada. -- E cedo. Vamos jogar um pouco. -- Desculpe, mas estou com dor de cabea. Prometo que amanh jogaremos bastante. 
Depois de acomodar Marcos, Nina preparou-se para dormir. Deitou-se, porm o sono no vinha. Em sua lembrana, as cenas do passado continuavam desfilando, vivas, 
como se houvessem acontecido naquele dia. Lgrimas desciam pelo seu rosto e ela as enxugava com raiva. -- Ele no vale minhas lgrimas -- pensava. -- Nem merece 
o amor que um dia senti. Essa raiva s vai passar quando eu conseguir dar o troco. Tenho certeza de que, depois disso, nunca mais derramarei uma lgrima. Estarei 
curada para sempre. Apesar de tentar se convencer disso, no conseguiu conciliar o sono. Era madrugada quando, cansada, finalmente conseguiu adormecer. Depois desse 
dia, Nina passou a evitar a companhia de Lcia. Gostava dela, mas, com receio de encontrar-se de novo com Breno, limitava sua relao com ela aos assuntos profissionais. 
Uma tarde, aproveitando o horrio livre, Lcia a convidou para tomar um lanche na confeitaria ao lado. -- Obrigada, Lcia, mas no quero. Lcia hesitou um pouco 
e resolveu: -- Eu fiz alguma coisa de que voc no gostou? Nina olhou-a surpreendida: -- No. Por qu? -- Tenho notado que voc mudou comigo. Antes saa comigo, 
me contava coisas pessoais. Agora noto que tem me evitado. -- Engano seu. Continuo a mesma de sempre. Se no tenho sado com voc,  porque estou mais ocupada. A 
medida que o tempo passa, os estudos exigem mais de mim, sem falar que o Dr. Antnio tem me encarregado de causas importantes, que requerem toda a minha ateno. 
Creia, Lcia, gosto de voc. No  nada pessoal. -- Voc mudou desde que conheceu o Breno. Talvez no aprove minha relao com um homem comprometido. Eu mesma no 
me sinto bem. Mas ns nos amamos muito. No fazemos isso por leviandade. Aconteceu. No tive foras para resistir. Depois, h Mirela. Nina levantou-se e a abraou: 
-- Voc est enganada. Isso nunca passou pela minha cabea. Esquece que tambm sou me solteira? Vamos fazer uma pausa e tomar um caf na confeitaria. Quero conversar 
com voc. Uma vez sentadas em um canto discreto tomando o caf, Nina tornou: -- Sinto muito que tenha pensado isso. Preciso contar-lhe a verdade, mas antes quero 
que me prometa guardar segredo. Principalmente com Breno. Lcia sobressaltou-se: Eu sabia que tinha alguma coisa. E a respeito dele?  a meu respeito. Promete no 
contar a ele? -- Prometo. Pode falar. -- Para que entenda, vou contar-lhe tudo desde o comeo. Nina narrou todo o seu relacionamento com Andr, e finalizou: -- Ele 
no sabe que tivemos um filho. S vai saber quando eu achar oportuno. Tem me procurado para descobrir o que aconteceu.

-- O que isso tem a ver com Breno? Ele foi colega de faculdade de Andr. So amigos e scios. -- Por isso ele disse que a conhecia. -- Ele nos via juntos. Se descobrir 
a verdade, contar a Andr. No tenho sado com voc para no encontrar Breno. Se me vir de novo, poder lembrar-se. -- Desculpe, Nina. Eu pensei que fosse comigo. 
Voc me deu esta oportunidade, tem me ajudado tanto... No desejo perder sua amizade. -- Contei-lhe tudo para que me ajude. Andr no pode saber onde estou. No 
quero que veja Marcos. -- Tem medo de que ele queira reconhecer o menino e possa tom-lo de voc? -- Tenho. Por isso quero progredir, ter condies de dar a Marcos 
uma vida boa. -- Voc  uma boa me. A lei est do seu lado. Nenhum juiz lhe tiraria o filho. Voc sabia que ele no tem filhos? Breno me disse que sua mulher no 
gosta de crianas. -- Mais uma razo para ele ficar longe do Marcos. -- Ao mesmo tempo,  triste no sentir a alegria de ser pai. -- Ele escolheu assim. No tenho 
nenhuma pena. -- Voc ainda est magoada, no o perdoou. -- No mesmo. Ele no merece o filho que tem. -- Conservar mgoa no corao machuca muito. Se voc conseguisse 
perdoar e esquecer, ficaria livre para refazer sua vida afetiva. -- No quero esquecer. Ao contrrio, procuro ter sempre presente o que aconteceu. Em meio ao meu 
sofrimento, foi o que me deu foras para progredir. Eu poderia ter voltado para a casa de meus pais. Eles teriam me recebido bem. Mas isso seria confessar minha 
incapacidade de resolver meus problemas. Quando decidi vir para So Paulo, eles tentaram dissuadir-me relacionando os perigos que eu poderia correr. Disposta a fazer 
o que desejava, respondi que assumiria toda a responsabilidade pela minha prpria vida, Diante do que aconteceu, nem pensei em recorrer a eles. No foi nada fcil. 
Eu no tinha profisso rendosa, sequer poderia trabalhar por causa da gravidez. -- Admiro sua coragem. Como conseguiu? -- Recorri ao pensionato das freiras. Elas 
me receberam com carinho. L mergulhei no trabalho, me esforando para agrad-las. Era a raiva de Andr, a vontade de que ele soubesse o quanto eu era capaz que 
me deu foras para continuar. Depois, Marcos nasceu e me senti mais animada. -- Um filho  sempre uma bno. O nascimento de Mirela tambm me sensibilizou muito. 
As vezes me pergunto se no seria melhor eu romper com Breno. O que lhe direi quando crescer e comear a querer saber por que o pai no vive conosco? Mas eu o amo 
e no quero perd-lo. Prefiro dividi-lo com outra a romper. Depois, ele nos cerca de muito amor. -- Voc aceitou essa situao e no deseja sair dela. Portanto, 
quando Mirela comear a perguntar, diga a verdade. Lcia suspirou triste: -- Espero ter coragem. No quero que ela pense que eu no tenho dignidade e que meus valores 
morais so falsos. -- Ouvindo-a, sinto que fiz bem ocultando de Marcos que o pai est vivo. Ele pensa que o pai morreu. -- O que acontecer se um dia ele vier a 
saber a verdade? -- Ele vai saber, mas por mim, no momento oportuno. Por isso lhe peo que no conte nada a Breno. -- Fique tranqila. No direi nada. A partir daquela 
dia, Nina e Lcia estreitaram os laos de amizade dentro da empresa. Fora, cada uma seguia seu rumo.

Lcia era uma profissional eficiente e dedicada. Antnio estava satisfeito com seu desempenho, que deixava Nina mais disponvel para ajud-lo. Nina progredia a cada 
dia, revelando-se muito talentosa, o que fazia Antnio dizer a Mercedes com satisfao: -- Se Nina continuar assim, logo teremos que contratar outra assistente. 
Ela age com tanta presteza e rapidez que, apesar de termos dobrado o nmero de clientes, meu trabalho diminuiu. -- Tem de tomar cuidado. Ela vem se esforando demais. 
No quero que fique doente. -- Depois daquelas provas na faculdade, ela est melhor. O Dr. Renato me ligou para dar os parabns. Nina conseguiu fazer juntas as provas 
de dois semestres e ser aprovada com louvor nas duas. Passou para o terceiro ano. -- Que beleza! Se continuar assim, logo estar formada. -- Hoje ganhamos uma causa 
importante, aquela que o Dr. Olavo dizia que estava ganha. -- No diga! -- Nove anos de discusso. O processo era to volumoso que fiquei sem nimo de estud-lo. 
Entreguei-o a Nina, que fez um estudo completo, montou um dossi minucioso e muito esclarecedor. Quando nos sentamos para discutir o assunto, fiquei surpreendido. 
Ela sugeriu providncias, props um acordo muito razovel, to bom que eu no teria feito melhor. Diante do juiz, o cliente aceitou e, o que  mais importante, nossos 
argumentos foram to convincentes que ganhamos a causa. Ao final, o Dr. Olavo teve que engolir a decepo. Veio cumprimentar-me. -- Que bom! Voc deve dar um prmio 
a ela. -- Claro. Dei-lhe a metade do que recebemos. Afinal, ela fez quase tudo. Naquela mesma tarde, Breno foi esperar Lcia no fim do expediente. Ela cumprimentou-o 
surpreendida: -- Breno! Que bom v-lo! No o esperava hoje. -- Quero conversar com voc. -- Aconteceu alguma coisa? Voc me parece aborrecido. -- Vamos jantar juntos 
e falaremos. -- Est certo. Vou ligar para casa e avisar. Mirela fica me esperando para jantar. Foram a um restaurante nas proximidades e, depois de ela haver telefonado, 
sentaram-se em um lugar discreto e pediram o jantar. Enquanto aguardavam, ela comentou: -- Voc no est bem. O que houve? -- Problemas no escritrio. Hoje perdemos 
uma causa importante. O Dr. Olavo ficou muito irritado. -- No est acostumado a perder. -- O pior  que eu e Andr ficamos mal. Ele disse que descuidamos, que essa 
causa estava praticamente ganha e que a culpa  nossa. Apesar de que ele protege o Andr e desaba sua raiva mais em cima de mim. -- Claro, voc no tem o sobrenome 
do Andr. -- At o Andr ficou aborrecido. Ele no gosta quando o Dr. Olavo me discrimina. Estava inconformado. Ficamos uma semana repassando todo o processo, fizemos 
tudo como ele mandou, no cometemos nenhum erro nem esquecemos de nada, mas aconteceu. -- Pode acontecer a qualquer um. O Dr. Dantas  um excelente advogado. -- 
Sou forado a concordar. O Dr. Olavo disse que nunca perdeu uma causa para ele. Devo admitir que a defesa foi brilhante. Convenceu o juiz. Lcia sorriu: -- Sinto 
por voc, mas Nina mereceu essa vitria. Ela  maravilhosa! -- Nina? Espere um pouco... E aquela que me apresentou? Lcia arrependeu-se de haver mencionado o nome 
da amiga. -- E... -- Ela  advogada?

-- Ainda no  formada, mas o Dr. Dantas a considera muito. Diz que ela sabe mais do que muitos advogados. -- No pode ser. Eles devem ter consultado algum muito 
experiente. Ela no seria capaz daquela defesa. Anulou todas as nossas alegaes uma a uma de maneira convincente e clara. -- Que eu saiba, no consultaram ningum. 
O garom trouxe a comida e Breno ficou calado enquanto ele os servia. -- Sinto que voc tenha perdido. No quero que fique aborrecido comigo por estar trabalhando 
com o advogado da parte contrria. Quando fui contratada, no sabia que eles estavam cuidando dessa causa. -- No estou aborrecido com voc. Precisa trabalhar, pagam 
um bom salrio. Foi uma coincidncia. Ns nos esforamos ao mximo, mas ganhar ou perder no depende s de ns. O juiz  quem decide. -- E verdade. O Dr. Olavo ficou 
nervoso, contava com a vitria, mas por certo pensar melhor e reconhecer que vocs no tm culpa. Alis, se houve alguma falha, foi dele, porque vocs no fazem 
nada sem que ele opine. -- E. Ele nos culpa por no termos imaginado alguns detalhes que eles usaram na defesa. De fato, foram bem achados, mas ele tanto quanto 
ns no teve essa viso. Lcia mudou de assunto, falando sobre Mirela, contando suas gracinhas, e Breno aos poucos foi desanuviando a fisionomia. Ele adorava a filha. 
Seu rostinho alegre, seu sorriso bonito, seu carinho inocente faziam-no ficar de bem com a vida. Anabela, arrogante, atormentava-o com seu cime e ao mesmo tempo 
procurava diminu-lo a qualquer pretexto mencionando sua origem humilde. Ele no agentava mais conviver com ela. Contudo, seus dois filhos e o medo de prejudicar-se 
na carreira impediam-no de pedir a separao. Breno havia lutado muito para chegar  posio que desfrutava, Ganhava bem, estava economizando para fazer sua independncia 
financeira. Havia feito projetos para o futuro: quando houvesse consolidado sua reputao profissional, conquistado a confiana dos clientes, abriria seu prprio 
escritrio. Ento seria independente financeiramente, seus filhos estariam adultos, poderia desquitar-se de Anabela e casar-se, ainda que no exterior, com Lcia. 
At conseguir o que pretendia, precisava ser paciente, esforar-se, ignorar as humilhaes que sua mulher lhe impingia. Depois de ter levado Lcia em casa e ter 
visto Mirela, despediu-se. -- Obrigado pela fora. Cada dia que passa, mais eu amo voc. Um dia, no terei mais que me despedir deixando aqui o melhor pedao de 
mim. Ficaremos juntos para sempre. Lcia tinha receio de que esse dia nunca chegasse. Mas no quis aborrec-lo e sorriu ao responder: -- E o que eu mais desejo. 
Breno chegou em casa passava das onze, torcendo para que Anabela j estivesse dormindo. Subiu para o quarto. Pela rstia de luz que passava por baixo da porta, sabia 
que ela estava acordada. Suspirou resignado, abriu a porta e entrou. Sentada na poltrona ao lado da cama, Anabela folheava uma revista. Pela ruga na testa, ele viu 
logo que ela estava de mau humor. -- Finalmente voc chegou! Pensei que tivesse de passar a noite inteira acordada. Onde esteve at esta hora? Ele franziu o cenho 
e respondeu: -- Trabalhando. Tivemos um dia pssimo. Perdemos uma causa importante e ficamos no escritrio reavaliando tudo para ver se ainda poderemos recorrer. 
-- Liguei para l e no havia ningum. -- Ns precisvamos de silncio e concentrao. Mandamos a secretria para casa e desligamos o telefone.

-- No acredito em nada do que est dizendo. Fique certo de que um dia ainda vou descobrir onde voc passa o tempo depois do expediente. -- No adianta falar com 
voc. Estou exausto. Vou tomar um banho e ver se consigo dormir. Apanhou o pijama e foi para o banheiro. Irritada, Anabela foi atrs, reclamando. Breno pediu licena, 
fechou a porta e abriu o chuveiro. Procurou demorar o mais possvel para dar tempo a que ela dormisse. No estava agentando mais a presso. Temia no conseguir 
controlar-se. Mas, quando voltou ao quarto, Anabela continuava acordada. -- O que me irrita  que voc vem tarde, no me avisa, e ainda me evita. -- Eu estou cansado, 
aborrecido, quero ver se consigo dormir. -- Voc no me d ateno. Bem que eu deveria ter ouvido minha me. Ela me avisou que nosso casamento no ia dar certo. 
Fomos educados de forma diferente. Voc no tem considerao. Breno empalideceu. Estava no limite de sua resistncia. Trincou os dentes e retrucou: -- Se voc disser 
mais uma palavra, vou dormir no quarto de hspedes. Amanh terei um dia cheio, preciso estar descansado. Se voc continuar reclamando, essas rugas de sua testa vo 
marcar seu rosto para sempre. Anabela sobressaltou-se: -- Rugas? Que rugas? Correu ao espelho. Notou o vinco de preocupao e esforou-se para distender a fisionomia. 
Tinha pavor de envelhecer. Foi ao banheiro e procurou o creme antirrugas. Examinou cuidadosamenteo rosto com a lente e massageou a testa e o canto dos olhos com 
o creme. Breno, aliviado, aproveitou para apagar o abajur, virou-se para o lado e fingiu que estava dormindo. Anabela voltou pouco depois e deitou-se. Ela continuava 
irritada, mas esforou-se para controlar seus pensamentos. Na manh seguinte, Breno foi o primeiro a chegar ao escritrio. Meia hora depois, Andr entrou. Estava 
aborrecido. Ele tambm no esperava a derrota. Desabafou com Breno. -- Nunca pensei que o Dr. Dantas conseguisse nos derrubar. Ainda estou perplexo. -- Ele  um 
advogado conceituado. Tem nome. -- Nunca foi preo para ns. Alis, o Nunes me disse que ultimamente o Dantas tem aparecido muito, conseguido contratos vultosos. 
O Dr. Olavo no se conforma. -- Ontem fui ver a Lcia. Sabe como : ela me pe para cima. Essa histria me deixou muito aborrecido. O Dr, Olavo pensa que ns no 
fomos bons o suficiente. -- O Dr. Olavo quando est nervoso desabafa em voc. Para ser sincero, no gosto disso. No  justo. Voc  muito competente. Voc agenta. 
Se fosse comigo, eu responderia  altura. -- Voc pode. Eu, no. Voc se esquece da minha origem? -- Pelo fato de no ter um nome importante? O que vale  a competncia. 
Voc  to competente quanto eu ou ele. -- Voc  meu amigo. Sa daqui ontem muito aborrecido, mas a Lcia devolveu-me o bom humor. E calma, paciente e sabe como 
me animar. -- O mesmo no ocorre comigo. Janete no se interessa pelo meu trabalho. -- No sei se eu j lhe disse, mas Lcia trabalha no escritrio do Dr. Dantas, 
Andr surpreendeuse: -- E mesmo? O que ela faz l? --  secretria da assistente do Dr. Dantas. -- E quem  essa assistente, que tem at secretria? -- Lcia a admira 
muito. Disse que ela  muito competente. Garantiu que o Dr. Dantas deixou aquela causa aos cuidados dela. -- Ns a conhecemos? -- Voc no sei, mas nos encontramos 
casualmente e Lcia nos apresentou. E muito bonita. Embora Lcia afirme isso, no creio que seja verdade. Ela ainda nem est formada. Ele no iria deixar um caso 
to importante aos cuidados de uma estagiria.

-- Concordo. Devem ter assessoria de algum famoso que no quis aparecer e inventaram essa histria. Isso deve ter-lhes custado muito dinheiro. -- Pode ser. O curioso 
 que essa moa no me  estranha. Tenho certeza de que a conheo de algum lugar. No consigo me lembrar de onde. -- Ela trabalha em nossa rea. Deve t-la encontrado 
ao acaso. -- Lcia disse a mesma coisa. Pode ser... -- Procure informar-se melhor. Gostaria de saber quem os est monitorando. H uma outra causa cujo oponente  
o Dr. Dantas. Precisamos saber contra quem estamos trabalhando. -- No gosto de envolver Lcia. Est muito contente com esse emprego. Depois, para mim  muito conveniente 
que ela ganhe algum dinheiro. Anabela me controla at nas despesas e fica difcil explicar certos gastos. -- No sabia que ela era sovina. -- No  mesmo. Ao contrrio, 
gasta at demais. Ela vigia meus gastos por causa do cime. Sabe que uma amante custa caro. Andr meneou a cabea negativamente e respondeu: -- As vezes penso que 
voc gosta de viver perigosamente. J pensou se Anabela descobrir? -- J. Vai ser terrvel. Mas eu adoro Lcia, depois h Mirela. No saberia viver sem elas. Prefiro 
correr o risco, mas confesso que no  nada fcil. Voc soube escolher melhor, teve mais sorte no casamento. Andr suspirou. -- E, eu queria um casamento conveniente 
e consegui. Hoje no sei se valeu a pena. Sufoquei meus sentimentos, paguei um preo alto demais. Se ao menos Janete concordasse em ter um filho... -- Um filho  
uma emoo muito grande. Eu suporto esse casamento por causa dos meninos. No quero que eles sofram com nossa separao. Andr considerou: -- Um dia ela poder descobrir 
e seus filhos sofrero do mesmo jeito. -- No enquanto eu puder evitar. Lcia e Mirela so muito importantes para mim. No suportaria viver sem elas. J Anabela 
s pensa em si mesma. Vive se cuidando; se engorda alguns gramas, reclama, faz dieta. Tem medo de envelhecer. Para ela os filhos ficam em segundo plano. -- Eu gostaria 
de ter um filho. Janete no gosta nem de tocar no assunto. Minha me vive dando indiretas, meu pai fala claramente, mas ela desconversa. E vaidosa demais, tem medo 
de deformar o corpo. -- Bobagem! Lcia ficou mais bonita depois que Mirela nasceu. Tem um corpo perfeito. -- A natureza  perfeita. Mas a vaidade  maior. Voltando 
ao nosso assunto, com tato, talvez voc possa informar-se melhor sobre o tal assessor. Claro que no vamos prejudicar Lcia. Seremos discretos. -- O que pensa fazer 
se descobrir? -- Saber tudo sobre essa pessoa, agir sigilosamente. Ele nem vai saber que foi identificado. De posse dessas informaes, teremos condies de montar 
melhor nosso esquema de defesa. Tem certeza de que ningum vai saber quem foi nosso informante? -- Claro. Alis, por segurana, nem o Dr. Olavo dever saber. Vamos 
fazer um trabalho de mestre. Ele vai ter que reconhecer nossa competncia. -- A sua ele reconhece;  a minha que est em discusso. -- Mais uma razo para voc fazer 
o que estou pedindo. -- Est certo. Vou tentar. Duas semanas depois, Andr voltou ao assunto: -- E ento, descobriu alguma coisa? -- Tentei, mas foi intil. Lcia 
afirma com convico que no h ningum os assessorando. Cheguei  concluso de que diz a verdade. Andr ficou pensativo por alguns instantes, depois disse:

-- No pode ser. Nosso trabalho estava perfeito. O argumento que eles usaram foi coisa de gabarito. Conheo o trabalho do Dr. Dantas. E um bom advogado mas no teria 
essa perspiccia. Deve haver algum. -- Lcia continua afirmando que  sua chefe quem cuidou de tudo. Ela pode estar certa. -- O que voc sabe a respeito dela? -- 
Muito pouco. Alis, Lcia evita falar dela. Sei que vive sozinha, tem um filho pequeno e cursa o ltimo ano da faculdade. -- No parece que tenha nada especial. 
-- Ah! Agora me lembrei. Ela deve ter mesmo alguma coisa especial. No prestou vestibular como todo mundo. O Dr. Dantas convenceu o reitor a fazer alguns exames 
e parece que ela foi to bem que conseguiu eliminar algumas matrias. Vai concluir o curso em menos tempo. -- Essa mulher deve ser superdotada, ter um QI superior 
 mdia. Se isso for verdade, poderia explicar nossa derrota. -- Lcia tem grande admirao por ela. -- Vou procurar me informar. Tenho alguns amigos que lecionam 
em faculdade. S preciso do nome dela e da escola. -- Vou tentar descobrir. Naquele fim de semana, Nina havia ido com Marcos  casa de Mercedes e lhes contado que 
pretendia se mudar do colgio, dar mais conforto a Marcos. Marta lhe dissera que havia uma casa para alugar, perto da sua, trrea, com dois quartos espaosos, jardim 
na frente e pequeno quintal, por um preo razovel. Naquele mesmo dia foram ver a casa e tanto Nina como Marcos adoraram. Mercedes ofereceu-se para ser a fiadora, 
e uma semana depois Nina assinou o contrato. Tinha dinheiro para mobili-la. Finalmente estava conseguindo o que sempre desejara. Marcos se afeioara muito a Oflia, 
uma assistente que ajudava a tomar conta das crianas na creche, e Nina ofereceu-lhe emprego em sua nova casa. Oflia estava no colgio havia muitos anos. Moa do 
interior, criada na roa, fora seduzida por um vendedor que de tempos em tempos freqentava a fazenda de seu patro. Grvida, envergonhada perante a famlia, fugiu 
para a capital atrs do pai da criana. Sem conhecer a cidade e ter para onde ir, perambulando sem rumo, foi levada pela polcia  Assistncia Social do Estado, 
que a encaminhou para o colgio das freiras. L prestava servio sem remunerao. Continuou procurando localizar o pai da criana e com a ajuda das freiras acabou 
conseguindo. Descobriu que ele era casado, tinha muitos filhos e no queria reconhecer a criana. Quando o menino nasceu, foi avisado, mas nem apareceu para v-lo. 
Oflia jurou que nunca mais queria ningum e que viveria para o filho. Quando Nina procurou o colgio, grvida, tornaram-se amigas. Ela ajudou Nina a criar Marcos. 
Infelizmente, seu filho morreu aos dois anos de idade. Desesperada, Oflia apegou-se mais a Marcos. Quando Nina foi trabalhar fora do colgio, Oflia era quem tomava 
conta de Marcos alm do horrio estabelecido pelas freiras, e Nina a gratificava conforme melhorava seus vencimentos. Quando Nina a convidou para trabalhar com ela 
em sua nova casa, Oflia aceitou feliz. No queria nem salrio. Mas Nina gostava muito dela e sentia-se feliz por poder lev-la junto e pagar-lhe um salrio justo. 
Foi com grande alegria que elas se mudaram para a nova casa. Marcos estava cursando o terceiro ano primrio e ela procurou o colgio mais prximo para matricul-lo. 
Ele havia sido criado no colgio onde nascera e nunca havia freqentado outra escola. Nina notou que ele estava ansioso e no primeiro dia ela o acompanhou conversando 
e procurando transmitir-lhe confiana e tranqilidade.

Apesar disso, ele estranhou a mudana. Perdeu a fome, seu sono era agitado, agarrava-se mais a ela e a Oflia. Preocupada, Nina foi falar com a dtretora, que a tranqilizou 
dizendo que sua reao era natural e logo ele estaria adaptado. De fato, na segunda semana ele j havia voltado ao normal. Fizera novos amigos e mostrava-se mais 
alegre. Satisfeita, Nina notou que ele havia adotado uma postura mais desenvolta, mais prpria de sua idade. No era mais um beb. Adotava postura mais adulta e 
Nina orgulhava-se dele.

Naquela manh, chegou ao escritrio mais cedo e com muita disposio dedicou-se ao trabalho. Lcia colocou-a a par dos recados do dia e depois disse: -- Ontem Breno 
me perguntou seu nome completo. Nina sobressaltou-se: -- Para qu? -- Ele disse que era por curiosidade. Mas eu desconversei e no dei. -- Fez bem. Mas senti que 
ele ficou ainda mais interessado. Tenho certeza de que vai voltar ao assunto. -- Ser que ele se lembrou de onde me conheceu? -- Acho que no. Ele e Andr ficaram 
muito nervosos por teren perdido aquela causa. Os olhos de Nina brilharam e ela retrucou: -- E apenas o comeo. Lcia admirou-se: -- Voc diz isso em um tom ameaador! 
Nina dissimulou: -- E o prazer da vitria. Pretendo conseguir ganhar outras causas. -- Se ele voltar ao assunto, que farei? Nina pensou um pouco e depois respondeu: 
-- Pode dar o meu nome. -- Tem certeza? Voc no queria que Andr soubesse... -- Um dia ele teria que saber. Portanto, se Breno tornar a perguntar, pode dar o meu 
nome. -- Ele vir procur-la. -- No o receberei. Lcia suspirou. -- No quero que fique aborrecida comigo. Farei o que voc mandar. Estou do seu lado, adoro meu 
emprego, estou aqui para ajud-la e no para trazer-lhe problemas. -- Voc no tem culpa de nada. Estou comeando a pensar que Marta tem razo. Quando a vida cria 
uma situao,  porque estamos maduros para enfrent-la. -- Ela diz isso? -- Voc precisa conhec-la. E a pessoa mais lcida que conheo. Suas palavras tm o condo 
de me fazer compreender as coisas de uma forma melhor. Ao lado dela me sinto muito bem. -- Do jeito que voc diz, deve ser uma pessoa iluminada. -- Ela . Vrias 
vezes conversamos sobre Andr e ela sempre diz que a vida cria situaes para nos forar a enfrentar nossos medos. Que ia chegar um tempo em que eu no poderia mais 
esconder a verdade. -- Quando eu engravidei, Breno foi o primeiro a saber. No conseguiria esconder isso dele, Voc foi muito forte. -- Eu liguei-me a Andr por 
amor. No aceito o fato de ele haver me trocado por dinheiro. E o que mais me di foi a indiferena com relao a Marcos. -- Ele no sabe que Marcos existe!

-- Ele soube e no valorizou. No merece o filho que tem. -- Deus queira que voc nunca se arrependa dessa atitude. -- Claro que no vou me arrepender. -- Em todo 
caso, farei o possvel para no dar seu nome. Quando quero, sei escapar muito bem. Lcia saiu da sala disposta a no se envolver mais nesse assunto. No queria criar 
dificuldades para Nina. Depois que ela se foi, Nina recostou-se na cadeira, passando a mo pela testa como para afastar os pensamentos dolorosos. Ela no podia envolver-se 
mais com as lembranas. Sua cabea precisava estar lcida para dedicar-se ao trabalho com sucesso. Sacudiu a cabea como libertar-se e mergulhou na leitura dos papis 
 sua frente com firmeza e disposio. Breno entrou no escritrio apressado  procura de Andr. Encontrou-o ao telefone e esperou inquieto que ele terminasse. Andr 
desligou o telefone e fitou-o, dizendo: -- O que foi? Voc parece que viu assombrao! -- Aquela sua garota dos tempos de estudante, a Nina, como se chamava? Andr 
meneou a cabea admirado: -- Voc disse: Nina. Por qu? -- Nina de qu? Qual o nome completo? -- Nina Braga. Por qu? Breno deixou-se cair na cadeira, exclamando 
admirado: -- Ento  ela! -- Ela o qu -- A assistente do Dr. Dantas. Andr abriu a boca e fechou-a de novo sem articular palavra e esperou que ele continuasse: 
-- Estive com Lcia ontem. Perguntei o nome da sua chefe, mas ela, como sempre, desconversou. Fiquei intrigado. Por que tanto mistrio? Eu tinha certeza de que a 
conhecia. Ento, na hora do almoo, passei na porta do prdio e vi quando elas saram juntas. Esperei que se distanciassem e aproximei-me do porteiro. Ele me conhece 
como namorado da Lcia. Disse-lhe que era muito grato pelas atenes que a chefe de Lcia lhe dispensava e pretendia mandar-lhe flores em agradecimento. Era uma 
surpresa. Ento ele a chamou de D. Nina e deu-me exatamente o nome que voc disse. Andr deu um pulo da cadeira: -- Finalmente sei onde ela est! Voc sabe o quanto 
a tenho procurado. O que mais descobriu sobre ela? -- Quando ele disse Nina, me lembrei de onde a conhecia. Claro, era ela. Isso explicava a dificuldade de Lcia 
em me falar dela. Claro que me reconheceu e pediu-lhe para no dizer nada. -- O que mais? Sabe se ela se casou? -- Sei que  a chefe de Lcia e que tem um filho. 
-- Um filho? Qual a idade dele? -- No sei. Certa vez, Lcia mencionou que ela tinha um filho e por isso entendia seus problemas como me. Andr deixou-se cair novamente 
na cadeira e tornou: -- Tem certeza de que ela  a tal assistente do Dr. Dantas? -- Tenho. -- Voc deve estar enganado. Ela era uma moa simples, ingnua, alm do 
mais sem posses para estudar. -- Pode ter melhorado, no sei. O fato  que Lcia fala nela com admirao e respeito. Diz sempre que  o brao direito do Dr. Dantas. 
As colegas contaram-lhe que ela foi promovida. A Neide no gostou e foi despedida. -- Desde que o conheo, ele no fazia nada sem a Neide. -- Pra voc ver. Agora 
 a assistente pra c, assistente pra l. Ela freqenta a casa do Dr. Dantas e tanto D. Mercedes quanto Marta so ntimas dela.

Andr sacudiu a cabea, dizendo: -- Acho que voc deve estar enganado. Essa no se parece nem um pouco com a Nina que conheci. Deve ser outra pessoa com o mesmo 
nome. -- E ela! Depois que soube o nome, me lembrei. No tenho nenhuma dvida. -- Pois vou imediatamente procur-la. Preciso saber a verdade. -- Calma. Faa de conta 
que descobriu por acaso. No desejo prejudicar Lcia. -- Fique tranqilo. Farei melhor. Vou ligar para o Dantas e marcar uma entrevista em seu escritrio para falar 
sobre o caso em andamento. Vou como se no soubesse de nada. Assim, no comprometerei Lcia. -- Veja l o que vai fazer! O Dr. Olavo pode no gostar. -- Ele no 
precisa saber. Vou imediatamente. -- Calma. Tem de agir com naturalidade. -- E. No vai ser fcil esperar. Mas vou pedir para a Lurdes ligar. Mandou-a fazer a ligao 
e ficou esperando com impacincia. Ela retornou em seguida: -- Dr. Andr, ele disse que poder receb-lo amanh s dez. -- Diga-lhe que irei hoje porque viajo amanh 
e ficarei ausente por alguns dias. Ela saiu e voltou pouco depois: -- Ele pediu-lhe para ir s dezesseis horas. Est bem? -- Pode confirmar. Estarei l. Ela saiu. 
Andr olhou o relgio, levantou-se, foi at o cabide, vestiu o palet. -- Aonde voc vai? So s duas horas. Chegar l em menos de vinte minutos. -- Estou ansioso. 
O tempo vai custar a passar. -- Desse jeito, o Dantas vai perceber que voc est mentindo. Nina tambm vai desconfiar. No pensei que voc fosse ficar to ansioso. 
Andr tirou o palet, pendurou-o, sentou-se novamente. -- Hoje Nina vai ter que me dizer tudo. Voc pelo menos podia ter perguntado quantos anos o filho dela tem. 
A eu saberia se  meu ou no. -- Quantos anos ele teria? Andr pensou um pouco e respondeu: -- Mais ou menos nove anos. -- Sei o quanto voc deseja um filho. Mas 
 melhor no alimentar muitas esperanas. Nove anos  muito tempo. Voc casou, Nina pode ter feito o mesmo. Era uma moa pobre. Se tivesse tido um filho seu, certamente 
o teria procurado para ajud-la com as despesas. -- Pensei nisso, mas ela  muito orgulhosa. Eu pretendia continuar nosso relacionamento depois de casado. Contudo, 
Nina no aceitou. Desapareceu de tal maneira que nunca pude encontr-la. A no ser... -- A no ser.. -- H pouco mais de trs anos nos encontramos por acaso na rua. 
Estava mais bonita, muito elegante, bem vestida. No quis falar comigo. Saiu apressada, sem responder minhas indagaes. -- Certamente, melhorou de vida. Se no 
se casou, arranjou algum para sustent-la. Andr levantou-se irritado: -- O que  isso? Nina  uma moa honesta. Jamais faria isso. Mesmo me amando, tendo na barriga 
um filho meu, no quis mais relacionar-se comigo depois do meu casamento. -- Desculpe. So hipteses. O melhor mesmo  ir l, saber o que aconteceu. Apesar de que 
um filho agora poder criar problemas com Janete. J pensou se ela vier a saber? Andr deu de ombros. -- Ficar ofendida. Mas toda vez que falo no assunto ela d 
um jeito de escapar. E vaidosa demais. Tem horror de deformar o corpo com uma gravidez. -- Sei de algumas mulheres que pensam assim. Andr no respondeu. Estava 
mais interessado em seu prprio problema.

-- Enquanto espera, seria bom que voc desse uma olhada no caso da madeireira. Afinal,  sobre ele que vai conversar com o Dr. Dantas. Andr concordou e Breno colocou 
em sua mesa a pasta sobre o assunto. -- Boa idia. Vou inteirar-me dos detalhes. Assim, o tempo passar mais depressa e estarei preparado. A tarde, o Dr. Dantas 
chamou Nina e pediu: -- Veja-me a pasta do caso da madeireira. Quero dar uma lida. Nina foi buscar e colocou-a  sua frente. -- Este caso  recente. Voc j se inteirou 
dos detalhes? -- Sim. Vamos encontrar pela frente novamente o Dr. Olavo Cerque ira Csar. Os olhos do Dr. Dantas tinham um brilho de satisfao quando respondeu: 
-- E desta vez venceremos de novo. Ele contava com aquela causa ganha. Desta vez ele est preocupado. Mandou um de seus assistentes nos procurar para tratar do assunto. 
Nina sobressaltou-se: -- Quando? -- Hoje  tarde. Nina pensou em arranjar um pretexto para sair. Mas Dantas continuou: -- Vou precisar de voc. Est mais a par deste 
caso do que eu. -- O senhor tem mais capacidade para cuidar disso. -- Talvez venha para propor um acordo. Se voc o atender, ter mais condies de negociao. S 
aparecerei quando for conveniente. Nina sentiu o corao bater forte e respirou fundo. -- O que foi, Nina? Voc parece-me inquieta. -- E que eu preferia que o senhor 
tratasse desse assunto. -- Porqu? Nina sacudiu a cabea como a expulsar pensamentos desagradveis e respondeu: -- Por nada. Farei como o senhor quiser. -- Muito 
bem. Quando o Dr. Andr chegar, o receber em sua sala. Nina procurou controlar-se. Era uma profissional, precisava assumir a postura adequada. -- Sim, senhor. Ela 
saiu sentindo as pernas um pouco trmulas. Foi para sua sala, tomou um pouco de gua, colocou a pasta sobre a mesa e sentou-se. Respirou fundo. Afinal, o momento 
pelo qual havia esperado havia chegado. Ela no era mais a garota ingnua e crdula da juventude. Profissionalmente estava preparada para tratar do caso em questo. 
Sabia que um dia teria que tratar com Andr, e era isso exatamente que desejava. Ele haveria de arrepender-se do que lhe fizera. Foi ao toalete, olhou-se no espelho 
avaliando a aparncia. Sorriu com satisfao. Estava muito bem vestida e maquiada. Voltou  sala, sentou-se e tratou de ler o dossi do caso que teria de discutir 
logo mais com Andr. Lcia bateu delicadamente na porta e entrou. -- Nina, o Dr. Dantas disse que voc vai atender o Dr. Andr Cerqueira Csar. Ele deve chegar dentro 
de alguns minutos. O que faremos? indagou assustada. -- Exatamente o que o Dr. Dantas falou. Mande-o entrar aqui, eu vou atend-lo. -- Bem... eu pensei que voc... 
-- Estou preparada. No se preocupe. Controle o nervosismo. Quero que o Dr. Andr seja atendido com muita classe. Tenho certeza de que sabe como fazer isso. Lcia 
saiu e Nina olhou em volta. Sua sala era muito elegante e bem decorada. Agora era a hora dela. Tinha dado a volta por cima. Era ele quem a procurava para um acordo 
profissional. A esse pensamento, sorriu com satisfao. Estava calma e pronta para enfrentar o encontro.

Andr chegou pontualmente. Lcia recebeu-o e depois dos cumprimentos explicou: -- O Dr. Dantas pediu-me que o encaminhasse  sua assistente, a Dra. Nina. Ela  quem 
cuida preliminarmente de todos os casos e est em condies de atend-lo. Pede desculpas. Chegou um cliente muito preocupado e ele no teve como se esquivar. -- 
Est bem. Falarei com ela. Andr dissimulou a satisfao. Era exatamente essa pessoa que ele queria encontrar. Acompanhou Lcia ansioso. Lcia abriu a porta e anunciou: 
-- O Dr. Andr Cerqueira Csar. E, voltando-se para Andr, continuou: -- Entre, doutor, por favor. Ele olhou a mulher elegante, sentada atrs da escrivaninha, lendo 
alguns papis. A surpresa o emudeceu. Nina levantou-se, estendeu a mo, dizendo com voz calma: -- Como vai, Dr. Andr? Queira sentar-se, por favor. Lcia fechou 
a porta, mas ainda pde ouvir: -- Nina?!  voc?! -- Por favor, doutor... -- Procurei-a por toda parte! Nunca imaginei encontr-la aqui! -- Talvez o Dr, Breno tenha 
se lembrado de onde me conhecia e o senhor veio conferir. Mas isso no importa. Estamos aqui para falar de negcios. O tom srio e impessoal de Nina o irritou: -- 
Ele fez-me suspeitar de que era voc a assistente do Dr. Dantas. Mas eu no acreditei. -- Est vendo que ele no se enganou. Mas concordei em receb-lo para falar 
do caso da madeireira. -- No estou interessado no caso dessa madeireira. Quero falar com voc sobre nosso passado, o filho que voc estava esperando. -- O passado 
est morto. No h nada para conversar. Tudo acabou no dia em que nos separamos. E muito desagradvel voc tocar nesse assunto. -- Eu preciso saber o que aconteceu 
depois que voc me deixou. -- Para qu? Eu j esqueci. Voc escolheu outro caminho e eu tratei de cuidar da minha vida. -- Pelo jeito, cuidou muito bem. V-se que 
no precisou de mim -- respondeu ele irnico. -- Isso mesmo. No precisei nem vou precisar. Por isso, Dr. Andr, se no deseja falar sobre a madeireira, nosso assunto 
est encerrado. No temos nada mais para conversar. Nina disse isso com voz firme e levantou-se. Ele tentou ganhar tempo. Suspirou e fitando-a nos olhos, desafiador, 
respondeu: -- Est bem. Se quer falar da madeireira, vamos ao caso. Nina sentou-se novamente e sem desviar os olhos dos dele perguntou: -- O doutor deseja propor 
um acordo? -- E cedo para isso. No me parece que seja a melhor soluo. Nina discorreu sobre a situao com firmeza e concluiu: -- Vocs proporem um acordo neste 
momento seria vantajoso para seu cliente. Alm de poder conseguir um desconto maior, ainda ganharia tempo. Voc sabe como um caso destes pode demorar. Essa demora, 
alm do risco de perder, aumentar muito o montante da dvida. Os juros esto altos, como sabe. Andr olhou-a irritado: -- Voc fala como se estivesse certa da vitria. 
No  bem isso que eu sei. Essa demora vai prejudicar mais seu cliente do que o meu. -- Em uma causa como esta ningum pode ter certeza da vitria, e um acordo bem 
negociado, logo no incio, pode ser muito interessante para ambas as partes. Por isso, quando decidiu nos procurar, acreditei que pudssemos chegar a um denominador 
em que cada um concedesse alguma coisa, com evidente vantagem para todos. Pense nisso, Dr. Andr. Converse com o Dr. Olavo.

Andr pensou que ela tinha razo, mas no quis dar o brao a torcer. Ela no podia falar assim com ele, dar-lhe lies profissionais. Era muita petulncia! -- No 
temos mais nada para conversar -- disse ela levantando-se. -- Pense no assunto. Boa tarde, Dr. Andr. -- No vou embora assim. Voc vai ter que me dizer o que quero 
saber. -- Minha vida particular no interessa a ningum, muito menos a voc. -- Sei que tem um filho. -- Tenho. -- Que idade ele tem? -- Vou esclarecer. Marcos tem 
nove anos. Mas est registrado em meu nome. No consta o nome do pai. -- Ele  meu filho! Como pde fazer isso comigo? Por que nunca me contou? -- Foi voc quem 
voluntariamente nos abandonou. Portanto, no tem nenhum direito sobre ele. -- Nunca lhe perguntou pelo pai? -- Ele pensa que o pai morreu. Portanto, no precisa 
se preocupar. No tem nenhuma responsabilidade por ele. Eu sou suficiente para cuidar do seu futuro. Uma vez esclarecido esse assunto, espero que nunca mais volte 
a ele. Aceite de uma vez por todas que nosso relacionamento est definitivamente encerrado. Antes que ele pudesse responder, Nina chamou Lcia e pediu: -- O Dr. 
Andr est se retirando. Acompanhe-o at a porta, por favor. Andr olhou para Nina, depois para Lcia, que o esperava, e resolveu ir. Estava plido, sentia o peito 
oprimido, no queria que Nina notasse seu abatimento. No corredor, Lcia, olhando seu rosto, ofereceu: O senhor aceita um caf, uma gua? -- No, obrigado. Ele saiu 
e Lcia foi ter com Nina. Encontrou-a sentada atrs da mesa, pensativa. Ele estava plido, voc notou? Pensei que fosse passar mal. Fiquei penalizada. -- Ele no 
merece sua compaixo. E um homem insensvel, que valoriza mais o dinheiro, a posio, do que o amor verdadeiro. -- Breno andou me fazendo perguntas... eu no disse 
nada... -- Eu sei, Lcia. Eu o recebi porque quis. Estava na hora de Andr comear a sentir o peso do seu erro. -- Ele no tem filhos. Vai querer conhecer o menino. 
Nina riu irnica: -- Vai. Mas isso no muda nada. Marcos no vai saber que tem pai. Nunca permitirei que Andr se aproxime dele. -- Pelo que sei, a esposa dele no 
gosta de crianas. Breno me contou que ela vive dizendo que quer ter um, mas ele tem certeza de que  puro fingimento. -- Isso no me importa nada. Peo-lhe que 
guarde seus comentrios sobre Andr e sua famlia. -- Desculpe, Nina. No voltarei a tocar no assunto. Depois que Lcia deixou a sala, Nina pensou em tudo que Andr 
lhe dissera, Sorriu lembrando-se de sua palidez, de como ele tentou dissimular mas ficou descontrolado. Ele foi l sem muita certeza de encontr-la, embora Breno 
houvesse dito seu nome. Mas o que ele no esperava era encontrar uma Nina muito diferente da mocinha dcil e ingnua de outros tempos. Notou que ficou irritado. 
Claro, ele no conseguiu manipul-la. Nina trincou os dentes com raiva. Agora, era ela quem daria as cartas. Sabia que ele iria insistir, querer ver o filho. No 
ia permitir nenhuma intimidade. Andr deixou o escritrio de Nina perplexo. Aquela mulher bonita, elegante, de classe, no era a Nina que ele havia conhecido. A 
figura jovem de Nina desenhou-se em sua lembrana e ele

reconheceu que ela sempre havia sido bonita, possua uma elegncia natural. Mas naqueles tempos seus olhos eram alegres, cheios de entusiasmo, muito diferente da 
mulher que o recebera encarando-o friamente, tratando-o de igual para igual. Onde estava a doura que ele lembrava com saudade? Onde o sorriso amigo e o aconchego 
amoroso de seus braos quando voltava para casa? Passou a mo nos cabelos como querendo espantar aqueles pensamentos. Sua Nina, por quem continuava apaixonado, no 
se parecia em nada com essa mulher dura, objetiva e indiferente. Resolveu andar um pouco. Precisava pensar. Alcanou a Praa da Repblica. A tarde estava no fim 
e os pssaros passavam cantando reverenciando o sol que comeava a esconder-se. Andr sentou-se em um banco sem se importar com as pessoas que iam e vinham. Um filho! 
Que loucura! Ele tinha um filho com nove anos. Um rapazinho! Seria parecido com ele? Precisava vlo. Por que no insistira? Nina no tinha o direito de fazer isso. 
Querendo ou no, Nina teria que prestar-lhe contas. Iria procur-la e a faria mudar de idia. Se no conseguisse, iria  justia. Pensou em janete. Se ela soubesse, 
faria um escndalo. Talvez fosse melhor tentar convencer Nina por bem. Reconhecia que ela tinha razes para odi-lo. Agira como um canalha. Vrias vezes haviam feito 
planos de casar quando ele se formasse. Por que se deixara levar pela me? Por que se iludira com o ganho fcil, a carreira pronta? De que lhe valera tudo isso? 
No amava Janete. A princpio sentira-se atrado e chegara a pensar que um dia a amaria. Entretanto, quanto mais o tempo passava, mais ele se convencia de que entre 
eles no havia nada em comum. Janete era diferente do que ele gostaria. Seu temperamento sofisticado, sua excessiva preocupao com as aparncias o afastavam mais 
do seu convvio. Parecia-lhe que ela estava sempre representando um papel. Faltava alma, sua alegria era formal, sua postura adequada ao momento, seu olhar crtico 
e algumas vezes desdenhoso. Recordava com saudade os momentos vividos com Nina e reconhecia que nunca mais havia sido feliz. Se a procurasse, mostrasse arrependimento, 
talvez ela o perdoasse, permitisse sua aproximao com o menino e, quem sabe, ainda pudessem reviver o passado. A esse pensamento, Andr estremeceu. Ter Nina novamente 
submissa em seus braos seria um prmio pelo qual deveria lutar. Um pensamento apareceu de repente e ele levantou-se do banco preocupado: ela teria se casado? Precisava 
saber. Resolveu ir para o escritrio. Assim que entrou, Breno perguntou: -- Voc demorou! Ento, era ela? Andr deixou-se cair em uma poltrona e respondeu: -- Era. 
Est mudada, muito diferente da moa que conhecemos, mas continua bonita mesmo tendo se tomado uma executiva fria e calculista. -- No  essa a opinio que Lcia 
tem dela, Ao contrrio, diz sempre que ela  mais sua amiga do que chefe. Conseguiu saber sobre a criana? -- Sim. E meu filho e est com nove anos. Breno ficou 
calado por alguns instantes, comovido pelo tom com que Andr havia falado. Depois disse: -- Apesar de saber que a deixara grvida, por essa voc no esperava. -- 
No mesmo. Afinal, nem sempre uma gravidez chega a bom termo. Depois, como ela nunca me procurou, pensei que houvesse abortado. --  uma mulher corajosa e de carter. 
Outra em seu lugar teria se pendurado em voc. -- Ela  orgulhosa demais para isso. Jogou na minha cara que o menino pensa que o pai morreu e no se importa porque 
ela tem sido suficiente para fazer o papel de me e de pai. Disse que meu filho no precisa de mim para nada e que no vai permitir que eu o conhea. -- E voc, 
o que pensa fazer?

-- Pela minha cabea passou de tudo. Desde pedir perdo at recorrer  justia. -- Cuidado com isso. Um escndalo s iria prejudic-lo. Depois, uma ao dessas no 
seria justo com sua famlia. Janete nunca o perdoaria. -- O que Janete faria no me incomoda nem um pouco. Para ser sincero, nosso casamento vai de mau a pior. As 
vezes me demoro na rua s para retardar o momento de encontr-la. Breno olhou-o srio. A situao era pior do que imaginara. -- Voc no est se precipitando? O 
fato de ter reencontrado Nina no est fazendo com que queira rejeitar Janete? -- Pode ser que esse fato tenha me feito perceber mais claramente o que eu procurava 
negar a mim mesmo: que meu casamento com Janete foi um erro e que nunca seremos felizes juntos. -- Calma, Andr. No faa nada por enquanto. Voc est chocado. Espere 
a poeira assentar e s tome alguma atitude quando tiver certeza. -- Preciso ver esse menino. Nove anos,  um rapazinho. -- Voc no pode aparecer diante dele de 
repente e dizer: sou seu pai! Voc no sabe como esse menino lidou com sua ausncia esse tempo todo. -- Tem razo. No desejo prejudic-lo. Mas sinto vontade de 
saber tudo sobre ele. Depois, no sei como Nina tem vivido esses anos todos. Se casou, ama algum, afinal ela pode ter reconstrudo sua vida. -- Pelo que sei, ela 
vive sozinha com o filho. -- O que me intriga  que ela tem progredido muito financeiramente. Est terminando faculdade. Era uma moa pobre, simples. Como teria 
chegado ao que chegou? No s sustenta o filho, como estuda. Veste-se muito bem, aparenta ter dinheiro. -- O que est insinuando? -- Bem, ela continua linda, pode 
ter algum que a ajude nas despesas. -- Isso no sei. Mas ela freqenta a casa do Dr. Dantas, mantm laos de muita amizade com a filha e a esposa dele. -- Eu no 
entendo. -- Ela tem capacidade profissional. Lcia contou-me que o Dr. Dantas a consulta e eles discutem de igual para igual. Muitas vezes ele faz o que ela diz. 
-- Isso no entra em minha cabea. Ela no parecia ser assim, to capaz. -- Nina era muito jovem quando a conheceu. Pode ter desenvolvido essa capacidade depois. 
-- . Voc precisava ver com que desenvoltura ela falou no caso da madeireira, deu sugestes, props um acordo que, confesso, seria timo para ambos os lados. E 
surpreendente. Breno sorriu e considerou: -- No  fcil para voc descobrir que trocou uma prola verdadeira por uma falsa. -- No deveria dizer isso. -- Desculpe, 
no quis ofender Janete. Mas confesse que est irritado e arrependido de a ter preterido. Andr suspirou fundo e comentou: -- Desde que conversei com ela sinto um 
aperto no peito. Pode ser que seja isso. -- O que est feito, est feito. O melhor  tentar se acalmar. Afinal, sua situao no  to ruim assim. Sua esposa  uma 
bela mulher, tem classe, sua carreira vai bem, no lhe falta dinheiro. D um tempo. Nina vai pensar melhor e acabar cedendo. Toda me deseja o melhor para o filho, 
e voc pode dar-lhe uma vida boa. Isso vai pesar, tenho certeza. -- Deus queira. E, o melhor mesmo  deixar assentar a poeira. Vou tentar me dominar. Com o tempo 
ela acabar cedendo. Disposto a dar um tempo, Andr foi para sua sala. Sentou-se atrs da mesa, apanhou alguns papis que teria de assinar, mas, assim que comeou 
a ler, no entendeu nada do que estava escrito. Comeou de novo, mas seu pensamento estava em Nina, no filho que ele no conhecia, na vontade

que sentia de v-lo, tomar posse de todos aqueles anos que ficara ausente, saber tudo. Era intil querer trabalhar. Chamou a secretria e avisou: -- Preciso sair 
e no voltarei mais hoje. Amanh assinarei esses documentos. Uma vez na rua, respirou fundo. O sol j tinha se escondido prenunciando a noite. No tinha vontade 
de ir para casa. Comeou a andar pelas ruas, sem destino, perdido em seus pensamentos. Depois decidiu ir ao prdio onde Nina trabalhava. Aquilo no podia ficar assim. 
Falaria com ela de novo. Queria ver o menino. Mas, ao chegar perto do prdio, viu Breno na porta. Envergonhado, entrou em um bar para que o amigo no o visse. No 
queria parecer fraco. Pediu um caf. De onde estava podia ver Breno, que com certeza estava esperando por Lcia. Viu quando ela saiu e os dois passaram pela porta 
do bar, sem v-lo. Assim que eles se distanciaram, Andr foi para a porta do prdio. Nina teria que ouvi-lo. Esperou por meia hora, depois colocou uma nota na mo 
do porteiro e perguntou: -- Estou esperando por D. Nina. Sabe se ela vai demorar? -- D. Nina j foi embora. O senhor pode deixar um recado, que eu entrego. -- No 
 preciso, obrigado. Amanh entrarei em contato com ela. Saiu de l nervoso. Se soubesse onde ela morava, iria at l. Teria de esperar. Contrariado, foi para casa. 
Janete o esperava contrariada. Vendo-o, foi logo dizendo: -- Voc esqueceu do jantar na casa do Dr. Norberto. Estamos atrasados, no  de bom-tom chegar fora de 
hora em um jantar. Andr olhou-a nervoso e disse com frieza: -- Eu no vou. -- Como?! E o aniversrio de casamento deles, Todos os nossos amigos estaro l, inclusive 
seus pais. -- V voc. Eu no estou com vontade de fazer sala a ningum. Hoje, no. -- No estou entendendo voc! E um advogado de nome, precisa cuidar de sua carreira. 
O Dr. Norberto  muito importante. Muitas pessoas desejariam ser convidadas  sua mesa. -- Pois eu no vou. V voc. -- Eu nunca me apresentaria sozinha nesse jantar. 
O que as pessoas vo dizer? -- Isso no me interessa. Estou cansado, tive um dia negro e quero ficar em casa descansando. Janete olhou-o admirada. Nunca o vira to 
nervoso, O que teria acontecido? Ela havia se preparado o dia todo, comprado roupa, ido ao salo de beleza, feito maquiagem. Sentiu que as lgrimas desciam pela 
sua face. -- Espero que voc tenha uma boa explicao. Est sendo grosseiro comigo. Por que no disse isso antes? Agora, depois que me preparei toda, voc diz que 
no quer ir? -- Eu no disse nada porque voc no me perguntou. Alis, arranja compromissos sem me consultar. Quando eu chego cansado, voc sempre tem isso ou aquilo 
para fazer. Andr sabia que estava atirando sobre ela toda a sua irritao, mas no conseguia controlar-se. -- Voc nunca reclamou! Eu tenho me esforado para que 
tenha sucesso profissional. E assim que me agradece? Andr esforou-se para adoar a voz e considerou: -- Sinto muito. Hoje no tenho disposio para conversar. 
Vou tomar um banho e descansar. Janete ainda tentou argumentar, mas ele subiu e fechou-se no banheiro. Tomou um banho e trancou-se no escritrio. No estava disposto 
a conversar. Sentado em uma poltrona, por sua mente passou todo o seu relacionamento com Nina. Reconheceu que ela foi o grande amor de sua vida. Por que se deixara 
envolver pela ambio? Por qu? Agora era tarde. Ela o odiava. Mas havia o filho. Por mais que ela o desprezasse, ele era o pai. Tinha seus direitos e no ia abrir 
mo deles. Quando a criada bateu na porta avisando que ia servir o jantar, ele disse que no queria comer. Era madrugada quando finalmente foi para o quarto.

A casa estava silenciosa e na penumbra ele deitou-se e tentou dormir. Janete dormia, mas ele, apesar de haver se deitado tarde, ficou se revirando na cama, e custou 
muito a adormecer.

Na manh seguinte, quando Nina entrou na sala do Dr. Antnio, ele perguntou: -- Como foi seu encontro com o Dr. Andr ontem? Ele veio propor um acordo no caso da 
madeireira? -- No, senhor,. -- No?! Bem me pareceu estranho. Eles nunca vieram aqui. Mas o que ele queria? Nina remexeu-se inquieta. Depois disse: -- Era um assunto 
particular. Veio falar comigo. -- Com voc? Assunto particular? O que est acontecendo, que eu no sei? Nina respirou fundo, sentou-se na poltrona em frente  mesa 
dele e tornou: -- Nunca toquei neste assunto antes, mas agora sinto que  preciso. Vou contar-lhe a verdade. Em poucas palavras Nina contou-lhe tudo. O Dr. Antnio 
a olhava surpreendido. Quando ela terminou, ele perguntou: -- O que pensa fazer? -- Nada, doutor. No lhe dou o direito de ver meu filho. Ele nunca saber que Andr 
 seu pai. Antnio ficou pensativo por alguns segundos, depois disse: -- No acha que est sendo muito severa com ele? -- No. S eu sei o que passei para aceitar 
o que ele fez e criar meu filho sem pai. Agora que estou bem, que o menino est grande e posso dar a ele uma vida confortvel, Andr aparece querendo se aproveitar. 
Ele nunca se interessou pela vida desse menino. No merece nada. Ele que fique longe, tocando sua vida como escolheu, e nos deixe em paz. Se fizer isso, nunca ter 
do que se queixar. Mas, se insistir, ver com quem est lidando. -- Nina, cuidado. Voc ainda est muito magoada. No  bom guardar ressentimentos no corao. Isso 
est fazendo mal a voc. -- No est. Foi alimentando esse ressentimento que encontrei foras para trabalhar, estudar e criar meu filho. Foi pela vontade de provar 
a Andr que sou suficiente para cuidar sozinha do menino que eu tenho me esforado tanto. -- Do jeito que voc fala, soa como vingana. Voc  uma moa boa, no 
creio que seja capaz disso. -- No quero me vingar, mas fazer justia. Ele no quis o filho. Enquanto eu sofria a dor do abandono, ele se casou com outra e foi viver 
feliz. Agora, depois de tudo, ele volta e quer dar uma de pai? Isso no  justo. -- Seja como for, ele  o pai. Um filho  um vnculo muito forte. Ele pode reclamar 
a paternidade na justia. -- Se ele fizer isso, negarei sua paternidade. -- Ele pode fazer um exame de sangue. -- Esses exames so relativos. Depois, no creio que 
ele chegue a esse ponto. Seria um escndalo. Ele  casado. O que sua famlia pensaria disso? -- E uma possibilidade, apesar de tudo. Por isso seria aconselhvel 
voc no ser to dura com ele. Pode exacerb-lo. -- No consigo, doutor. S de pensar nele com Marcos, fico indignada.

-- Calma, Nina. Afinal, ele era muito jovem, e os jovens muitas vezes so influenciados pela famlia. Deve estar arrependido. -- Talvez. Mas isso no apaga o que 
ele fez. Ele ter que nos deixar em paz. Para isso, vou fazer tudo que puder. -- Andr no vai se conformar. Marcos pode descobrir que voc o impediu de ver o pai 
e no aceitar isso. Apesar do que houve, ele tem o direito de conhec-lo e de decidir se quer ou no privar de sua amizade. -- Ele pensa que o pai morreu durante 
minha gravidez. Aceitou muito bem essa situao e nunca comentou nada a respeito. No creio que sinta falta do pai. Eu tenho suprido todas as suas necessidades. 
Marcos  um menino feliz e alegre. O senhor o conhece e sabe que digo a verdade. -- Sei. Marcos  um menino amoroso e adora voc. Mas, apesar disso, sugiro que pense 
melhor. E um assunto muito delicado. -- A esta altura, a presena do pai iria perturb-lo. Ele est bem como est. No precisa de nada. Antnio no respondeu. Sentia 
que Nina estava determinada. Nada que dissesse iria faz-la mudar de idia. A raiva que ela sentia de Andr depois de tantos anos, sua falta de interesse em encontrar 
outro relacionamento amoroso faziam-no suspeitar deque ela, embora negasse a si mesma, no havia conseguido arrancar aquele amor do corao. Naquela noite, depois 
do jantar, Antnio contou a Mercedes o que havia acontecido e finalizou: -- Nina est resolvida a impedir que o Andr veja o filho, Fica indignada s em falar nisso. 
-- Apesar do tempo decorrido, ela no esqueceu. A dor ainda est viva como no primeiro dia. -- E isso que eu penso. Tentei faz-la compreender que a ligao entre 
pai e filho  um elo muito forte. Marcos, apesar de no falar, pode estar sentindo muita falta de um pai. Ele tem o direito de decidir se quer ou no estar com ele. 
-- Pelo que sei, Janete tem horror de ter filhos. Andria vive confidenciando s amigas que sonha em ter um neto e est muito decepcionada porque depois de tantos 
anos de casados isso no ocorreu. O que acontecer se ela descobrir que j tem um neto de nove anos? -- Como voc sabe disso? -- Minha prima Celina  muito amiga 
de Andria e comentou comigo. -- Voc acha que eles reconheceriam o neto? -- No sei. Andria  muito formal, cheia de regras sociais. Entre o desejo de ter um neto 
e o escndalo que sua presena provocaria, talvez ela preferisse ignor-lo. Depois, h Janere, orgulhosa, vivendo seu papel social. Essa, se descobrisse esse filho 
de Andr, nem sei o que faria. Pensando bem, Nina pode estar agindo certo. Ter essas duas mulheres como inimigas no seria nada bom para ela e Marcos. -- Voc acha 
que tentariam alguma coisa contra Nina? -- Voc no sabe o que mulheres com a vaidade ferida podem fazer. -- Tenho visto alguns casos e voc est certa. Mas acho 
difcil Nina conseguir segurar Andr. J pensou como ele deve estar? Nina nunca o procurou e ele no sabia que tinha esse filho. Suspeitava mas no tinha certeza 
de nada. -- Ele deve estar emocionado, ansioso. Tambm acho que no vai se conformar. Vai dar trabalho a Nina. Antnio suspirou pensativo e ficou calado por alguns 
instantes. Depois disse: -- Nina vai precisar de apoio. Ns vamos ajud-la. -- Isso mesmo. Faremos tudo que for preciso para que ela continue vivendo em paz. Mas 
temo que, depois de hoje, ela no consiga.

Andr acordou tarde naquela manh e seu primeiro pensamento foi para Nina. Isso no podia ficar assim, Ela teria de ceder. Estava atrasado. Levantou-se apressado, 
arrumou-se e desceu para o caf. Janete, vendo-o, comentou: -- Voc disse que queria sair cedo e est atrasado. -- Eu sei. No dormi muito bem esta noite. -- No 
dormiu e no me deixou dormir. Remexeu-se inquieto, resmungou e at brigou. Voc est com algum problema? -- No. Foi s um pesadelo. -- Com quem estava brigando? 
-- Com ningum. Vou embora, estou atrasado. -- No vai sair assim, sem comer nada. Sente-se. Vou mandar servir. Alguns minutos mais no vo fazer diferena. Andr 
suspirou e sentou-se. Sentia o peito oprimido e vontade de discutir com Janete. Controlouse. Ela no tinha nada com suas preocupaes. Serviu-se de caf e apanhou 
um biscoito. Janete sentou-se do seu lado e, vendo que ele continuava calado, disse: -- Teve uma hora em que voc gritou que era uma injustia, que no podia permitir. 
Posso saber do que se trata? Andr irritou-se: -- Como posso saber? Foi um pesadelo, nem lembro mais como foi. -- Ele teria dito algo comprometedor? Moderou o tom 
e continuou: -- Estou tratando de uma causa complicada. Devo ter me envolvido demais. -- Meu pai sempre diz que um advogado no pode entrar no emocional nem se envolver 
com os clientes. S assim ter lucidez para trabalhar. Andr levantou-se: -- Sei disso. -- Voc no comeu nada -- Estou com pressa. Antes que ela dissesse alguma 
coisa, afastou-se rapidamente. Janete sentou-se pensativa: -- No gostei nada disso. Ouvi muito bem quando ele disse: "Ela no pode fazer essa injustia comigo". 
A tem coisa. Andr nunca se impressionou com nenhum caso... No foi s um pesadelo. Ele est inquieto, irritado... Talvez seja bom falar com papai para conversar 
com o Dr. Olavo e descobrir de que casos Andr est tratando. Andr foi para o escritrio. Breno o esperava: -- O cliente chegou e o Dr. Olavo j perguntou por voc. 
-- Tive uma noite de co. No estou com disposio para essa conversa. D uma desculpa e, por favor, fale com ele. -- Est bem. H mais alguma informao que no 
esteja anotada? -- No. Preciso falar com Nina. -- E melhor tomar um calmante, dar um tempo. Voc no me parece em condies de conversar com ningum.

-- No posso esperar Quero ver meu filho. -- Se quer convencer Nina a consentir que se aproxime de Marcos, precisa usar bom senso, saber ajeitar as coisas. Voc 
no est bem. -- No estou mesmo. D para notar tanto assim? -- Bom, eu o conheo h tantos anos e nunca o vi to alterado. Andr colocou a mo no brao de Breno 
dizendo: -- De fato. Essa notcia caiu sobre mim como uma bomba. -- E uma notcia boa. Deve ficar alegre. Andr passou a mo nos cabelos e considerou: -- Como ficar 
alegre sabendo que fui leviano, inconseqente, ftil? -- No  hora de se culpar. Voc no tinha o amadurecimento de hoje. Fez o que achou bom na poca. -- Mas Nina 
me condena, no pensa assim. Ela teve coragem de dizer ao meu filho que eu morri. Acha isso justo? -- Ela quis evitar que ele soubesse a verdade. -- Mas eu estou 
vivo! Ele nem sabe que eu existo. -- De nada adianta voc ficar se torturando. Isso s vai piorar as coisas. O que tem a fazer  procurar se acalmar, s procur-la 
quando estiver melhor e puder conversar. Afinal, voc  o pai do Marcos. Ela vai acabar aceitando. Mas precisa ir com jeito. Ela entregou-se a voc inteiramente 
e foi abandonada, enganada, trocada por outra. E natural que esteja ofendida. -- Reconheo que tem razo. Mas no sei se vou agentar esperar. Minha vontade  correr 
at ela e obrig-la a reconhecer meus direitos de pai. -- Calma. J pensou em Janete, em D. Andria? Quer saber? Eu acho que a atitude de Nina preservou seu nome 
diante de sua famlia. Ela, ao contrrio de outras que conheo, nunca o incomodou nem cobrou nada. Voc deveria estar agradecido. Andr suspirou nervoso. -- Eu errei 
mas no vou repetir o mesmo erro. Eu tenho um filho! Janete, apesar de dizer que quer filhos, sempre se esquivou. Eu sei que ela no teve porque no quis. -- Nina 
 discreta. Voc pode convenc-la a deix-lo aproximar-- se de seu filho, sem que para isso precise reconhec-lo publicamente. Assim, sua famlia estaria preservada. 
-- E eu continuaria me sentindo um covarde. -- Voc quer se punir, sofrer, pagar pelo que fez. -- Pode ser. Mas vou reconhecer meu filho e todos vo saber. Se Nina 
recusar-se a me receber, entrarei na justia. Ela ter que aceitar minha paternidade. Breno neneou a cabea, discordando: -- No faa isso. Nina ficar ainda mais 
indignada. A secretria entrou na sala: O Dr. Olavo est chamando o Dr. Andr com impacincia. -- Andr no est se sentindo bem. Eu atendo. Depois que Breno saiu, 
Andr apanhou o telefone e ligou para Nina. Lcia atendeu: -- D. Nina saiu. Quer deixar recado? -- Sei que ela est e no quer me atender. Diga-lhe que, se no vier 
ao telefone, irei at a. Depois de alguns segundos de silncio, Lcia respondeu: -- O senhor est enganado. Se no acredita, pode vir verificar. -- Talvez eu v 
mesmo. Em todo caso, diga-lhe que eu liguei e que nossa conversa ainda no acabou. Se ela no me procurar para tratarmos do nosso assunto, eu o farei. No vou desistir. 
-- Darei seu recado. Lcia desligou e foi  sala de Nina: -- Ele est nervoso, disse que no vai desistir. No seria melhor conversar com ele de uma vez e decidir 
a questo?

-- Com o que ele quer, eu nunca concordarei. Por isso, qualquer conversa ser perda de tempo. Diga-lhe isso se telefonar ou aparecer novamente por aqui. No fim da 
tarde, quando Lcia saiu do escritrio, encontrou-se com Breno, como de costume: -- Andr vai nos dar trabalho. -- Tentei convenc-lo a dar um tempo, esperar, ir 
com calma, mas ele est determinado. -- Nina tambm. Diz que  intil conversar, porque nunca vai concordar com o que ele quer. -- O que me preocupa  que Andr 
est muito nervoso. Ns nos conhecemos desde a faculdade e nunca o vi to descontrolado. Se Nina insistir, tenho medo de que ele faa alguma loucura. -- Que loucura? 
Ele pode agredir Nina? -- No digo isso. Mas cismou que vai reconhecer o filho de qualquer jeito, quer Nina concorde ou no. -- Isso no vai acabar bem. Talvez, 
se Nina conversasse com calma, ele acabasse at fazendo o que ela quer. Mas no. Ela tem muita raiva dele. -- O orgulho no  bom conselheiro. Voc no conhece D. 
Andria nem a Janete. As duas vo despencar quando souberem. Nem sei o que sero capazes de fazer. -- Contanto que deixem Nina em paz... -- Se Andr entrar na justia, 
todos ficaro sabendo. Elas ficaro furiosas. -- Aconselhe-o a desistir dessa idia. S vai agravar o problema. -- J aconselhei, mas Andr est se sentindo culpado. 
Quer se punir, enfrentar a famlia, a sociedade, tudo. Disse que no quer continuar sendo covarde. -- Ele vive bem com a esposa? -- Nosso relacionamento  mais profissional. 
O Dr. Olavo me convida para as festas em sua casa, mas no privo da intimidade deles. D. Andria valoriza nomes, posio, sempre muito atenciosa com gente importante 
e, claro, indiferente com pessoas que considera sem prestgio, assim como eu. -- Talvez tenha sido por isso que Andr preferiu casar-se com Janete. Pelo que sei, 
a famlia dela  importante. Claro que foi por influncia dela. Ele era muito apaixonado por Nina. -- Mas no teve coragem de enfrentar a me. -- Eu at o entendo. 
Sou de origem simples. Estudei muito para poder chegar aonde cheguei, mas, apesar de Andr e o Dr. Olavo tratarem-me de igual para igual, noto que tanto D, Andria 
como Janete me olham como se eu fosse menos. As duas so muito pretensiosas e, francamente, no creio que Andr seja feliz ao lado delas. -- Vai ver que ele  igual. 
-- A  que voc se engana. Fomos colegas de faculdade. Ele o moo rico, de famlia importante; eu um estudante pobre, trabalhando muito para poder graduar-me. Ns 
nos tornamos amigos desde os primeiros dias. Andr sempre foi um bom companheiro. Depois de formados, fui trabalhar com um advogado classe-mdia, mas consegui sobressair-me 
em um caso importante, o Dr. Olavo soube e fez-me uma proposta de trabalho. Andr soube e procurou-me e foi ele quem me props sociedade. -- Voc  scio do Dr. 
Olavo? -- No. O Dr. Olavo  o diretor, mas em nosso escritrio h vrios advogados, associados entre si. Cada empresa jurdica atende a uma rea. Todos mantemos 
contratos com a empresa do Dr. Olavo. -- Ele  conceituado e famoso. -- Faz por merecer a fama que tem. Supervisiona nosso trabalho com eficincia. Eu soube que 
D. Andria foi contra ele fazer sociedade comigo, mas Andr foi irredutvel. Temos trabalhado muito bem juntos. -- Ainda acho que Nina deveria conversar com Andr, 
tentar uma soluo pacfica. Mas ela fica irritada s em ouvir o nome dele. -- E pena. Em todo caso, tente falar com ela e eu com ele. Vamos ver o que conseguimos.

Quando Nina chegou em casa no fim da tarde, Marcos j havia voltado do colgio e ela o abraou com carinho. Depois, sentou-se com ele no sof e quis saber o que 
ele havia feito na aula. Marcos comeou a contar e enquanto ele falava Nina no pode deixar de notar como ele estava parecido com Andr. O mesmo sorriso, a maneira 
de inclinar a cabea quando ouvia, a vivacidade nos olhos. Mais tarde, quando o menino j estava dormindo, Nina, sentada em uma poltrona na sala, tentava ler uma 
revista e resistir  presso de suas lembranas. Ela havia esquecido e levado a vida para a frente. Por que agora tudo reaparecia com a mesma fora de antes Andr 
era o culpado de tudo. Sua presena levava-a de volta ao passado, e isso ela no podia permitir. Ao mesmo tempo reconhecia que durante todos aqueles anos havia trabalhado 
para esse reencontro, quando triunfaria sobre ele, aparecendo como uma mulher inteligente, competente, capaz. Havia conseguido, porm essa vitria no lhe deu o 
que ela esperava. Ao invs da satisfao, a dor reapareceu com a mesma fora. Ela no podia ceder. Andr no podia saber o quanto ela ainda sofria e chorava seu 
amor rejeitado. Por mais que lhe doesse, era preciso ficar firme e evitar a todo custo que ele se aproximasse do filho. Naquela mesma tarde, Janete foi ao escritrio 
do pai. Vendo-a entrar, Jlio deixou o jornal que lia sobre a escrivaninha e foi abra-la: -- Que bom v-la, minha filha! Depois de beij-la na face, sentou-se 
ao lado dela no sof, dizendo alegre: -- Ento, o que voc quer? -- Falando assim, d impresso que o visito s quando desejo alguma coisa! -- No foi isso que eu 
quis dizer. Acontece que tenho o maior prazer em fazer alguma coisa para voc. -- Senti saudade, papai. -- Faz tempo que no nos visita. Temos sentido sua falta. 
Sua me anda queixosa. Quando ligamos, voc nunca est em casa. -- Voc sabe como : Andr precisa manter boas relaes. -- Eu sei, filha. No a estou censurando. 
Quer um caf, uma gua, um ch? -- No, obrigada. Janete suspirou pensativa e Jlio indagou: -- Voc parece preocupada. Aconteceu alguma coisa? Por enquanto, no. 
-- Isso significa que h alguma coisa. O que ? -- Nos ltimos dias Andr tem estado inquieto, nervoso, irritado. Tentei conversar, mas ele diz que est preocupado 
com o trabalho. -- Pode ser mesmo, Andr sempre foi muito responsvel. -- No acho que seja isso. Alguma coisa aconteceu com ele. Sinto que seu comportamento mudou. 
-- Pode ser impresso. -- No , no. Esta noite ele remexeu-se e quase no me deixou dormir. Resmungou, discutiu, brigou e gritou que era tinia injustia e no 
podia permitir. -- Deve ser problema de trabalho mesmo. Esqueceu que ele trabalha com a justia? -- Pode ser, mas desde que nos casamos nunca o vi to irritado. 
Gostaria que voc conversasse com Dr. Olavo para saber se est havendo um problema com algum cliente. -- No vejo motivo para voc ficar to preocupada. Hoje mesmo 
farei o que me pede. -- Seja discreto. No lhe diga que fui eu quem pediu. -- Pode deixar. Sei como fazer isso. Janete deixou o escritrio do pai satisfeita. Tinham 
um jantar no clube  noite, mas Andr j lhe dissera que no iria. Ela no desejava passar mais uma noite tediosa em casa. Com certeza ele se fecharia no escritrio 
ou iria dormir cedo. Mas teria pacincia, pelo menos at o dia seguinte. Andr passou o dia nervoso. Telefonara vrias vezes, mas Nina se recusava a v-lo. Estremecia 
s em pensar que tinha um filho de nove anos e nem sabia como ele era.

Nina estava irredutvel, mas ele no desejava esperar mais. Decidiu ficar escondido e segui-la quando ela deixasse o escritrio. Assim descobriria onde eles residiam 
e poderia ver o menino. Viu quando Nina saiu com Lcia, despediu-se dela, foi ao estacionamento, apanhou o carro e saiu. Ele estava sem carro. Apanhou um txi e 
pediu para segui-la discretamente. Quando ela parou em frente  garagem, ele ficou na esquina, despediu o txi, esperou que ela entrasse. Depois caminhou at a casa. 
Seu corao batia descompassado. Ficou parado em frente  grade olhando o jardim bem cuidado, a casa bonita onde algumas luzes acesas indicavam que havia mais pessoas 
l alm dela. Sentiu vontade de apertar a campainha, mas conteve-se. E se ela estivesse morando com outro? Embora continuasse solteira, estava bonita, bem vestida, 
mais atraente do que antes. Era difcil crer que continuasse sozinha. Se Nina soubesse que ele estava ali, certamente ficaria irritada, poderia at se mudar, desaparecer, 
como fizera da outra vez, O melhor seria ir at l durante o dia, enquanto ela estivesse trabalhando, e tentar ver o menino. Ouviu vozes l dentro, mas no conseguiu 
distinguir o que diziam. Para no chamar a ateno, afastou-se um pouco e ficou caminhando pelas proximidades. Seu filho estava to perto e ao mesmo tempo to distante. 
Naquele momento, ele poderia estar l, do lado de dentro, usufruindo do amor de Nina e do carinho do filho. Nunca ele sentiu tanto arrependimento como naquele momento! 
Nina fora o grande amor de sua vida. Por que se deixara levar pela ambio? Por que menosprezara os sentimentos dela acreditando que ela aceitaria ser a outra, vivendo 
uma vida marginal? Lgrimas rolavam pelo seu rosto enquanto ele remoa suas lembranas. Passou a mo pela face tentando reagir. A vida havia lhe dado a oportunidade 
de ser feliz e ele trocara tudo pelas aparentes facilidades que alimentam a vaidade mas que deixam um vazio no corao. Era muito tarde quando chegou em casa. Janete, 
preocupada, o esperava acordada. Vendo seu abatimento, no se conteve: -- Andr! O que est acontecendo? Por que no veo para o jantar? Andr olhou-a e no teve 
coragem para dizer nada. Ela no tinha nenhuma culpa. Ele fora o nico responsvel pelo que estava passando. Ela continuou: -- Estou esperando Quero saber o que 
est acontecendo! -- No est acontecendo nada. No estou me sentindo bem. Vou tomar um banho e descansar. -- Isso  que no. Temos de conversar! No posso deixar 
passar. Sou sua mulher. Voc est mudado. Arredio, nervoso, vem se afastando de todos. Quero saber o que h. -- J disse que no h nada. No quero conversar. Estou 
cansado e vou dormir. -- Voc no me deixou dormir dreito a noite passada. -- No se preocupe. No vou incomod-la. Dormirei no quarto de hspedes. Ele subiu apressado 
e Janete trincou os dentes com raiva. Tinha certeza de que alguma coisa muito grave estava mesmo acontecendo. Ela no ia deixar assim. Precisava dar um jeito de 
descobrir. Passava das nove quando Andr acordou na manh seguinte. Apesar de cansado, custara a dormir. Levantou-se apressado, arrumou-se e desceu para o caf. 
Janete o esperava na sala folheando uma revista com impacincia. Vendo-o, cercou-o dizendo: -- Voc ontem foi grosseiro e intolervel. -- Sinto muito. No tive inteno. 
Com licena, estou atrasado. -- Voc no vai sair assim, sem nenhuma explicao... O que pensa que eu sou? -- Deixe-me passar, no quero ser indelicado com voc. 
No estou me sentindo bem. Espero que compreenda. -- Voc me trata como uma estranha. Est mal e no conta por qu. Quero ajud-lo. Para isso servem as esposas. 
-- Ajudar mais me deixando em paz. Janete meneou a cabea negativamente: -- No d para entender sua atitude. -- Por favor. Preciso ir. Estou atrasado.

Antes que ela dissesse mais alguma coisa, ele voltou-se e saiu. Janete foi atrs dele dizendo: -- No vai tomar caf? Ele pareceu nem ouvir. Apanhou o carro e saiu. 
Ela entrou em casa preocupada. Imediatamente ligou para o pai, que ainda estava em casa. -- Pai, voc conversou com o Dr. Olavo? -- Conversei, filha. -- O que ele 
disse? Sabe de alguma coisa? -- Falamos por mais de uma hora. Ele disse que est tudo bem. No h nada acontecendo. No precisa se preocupar. -- Ontem Andr no 
veio jantar. Chegou passava da meia-noite. Estava abatido, cansado. Quando quis saber o que estava havendo, ficou irritado. Sabe o que ele fez? Foi dormir no quarto 
de hspedes. -- Voc quer que eu fale com ele? -- No. Isso no. Vou falar com Andria. Talvez ela possa descobrir alguma coisa. Esta situao est me tirando do 
srio. Alguma coisa muito grave est ocorrendo, e eu vou saber o que . -- Fique calma. Fale com Andria. No faa nada sem falar com ela. Se precisar,  s dizer. 
Farei o que quiser. Andr chegou  porta do prdio do escritrio, sentiu a cabea zonza. Lembrou-se de que no havia ingerido nada desde o dia anterior. Entrou em 
uma padaria, pediu um lanche e um caf com leite. Depois decidiu no ir trabalhar. Telefonou para Breno avisando. -- O que vai fazer, Andr? Venha at aqui pelo 
menos para conversarmos um pouco. Isso lhe far bem. -- No estou com cabea para trabalhar. Avise o Dr. Olavo que no estou me sentindo bem e que fui procurar um 
mdico. -- No  isso que voc vai fazer. -- No. Ontem fui atrs da Nina e descobri onde ela mora. Vou at l ver o menino. -- Cuidado. Marcos no sabe que voc 
 o pai. Pode se chocar. Lembre-se de que  uma criana. -- Claro. O que acha que eu sou? S desejo v-lo. No agento mais pensar nele sem saber como . -- V com 
calma. -- No vou perturb-lo. Pode crer. Breno desligou o telefone preocupado. O Dr. Olavo havia perguntado por ele insistindo em saber se estava acontecendo alguma 
coisa: -- Andr est esquisito. Sabe se est doente? -- Estava indisposto, nada grave. -- Deve haver alguma coisa. Ontem o Jlio veio ver-me e fez-me algumas perguntas 
sobre Andr. Eu garanti que estava tudo bem, mas tenho minhas dvidas. -- Ele est adoentado, nada de mais. Est indo procurar o mdico e logo estar bem. Olavo 
olhou-o firme e disse: -- Para o Jlio vir aqui perguntar, alguma coisa h. Como vai o relacionamento dele com Janete? -- No sei, doutor. Mas acredito que esteja 
tudo bem. Ele no disse nada. Olavo ficou pensativo alguns instantes, depois considerou: -- Nunca acreditei que esse casamento fosse durar. Eles so to diferentes... 
Breno surpreendeu-se: -- Por qu, doutor? -- Sua amizade com Andr vem dos tempos de faculdade. Ele mudou muito depois do casamento. Era um rapaz idealista, irradiava 
alegria, disposio. Aos poucos foi se transformando. Em seus olhos no h mais aquele brilho entusiasta. H momentos em que parece entediado, triste. No concorda 
comigo? -- Sim. De fato, ele mudou. Com o tempo, todos ns mudamos. Olavo sorriu:

-- Nem tanto. Voc est sendo discreto, mas eu sinto que h alguma coisa. Talvez outra mulher. Breno balanou a cabea negativamente. Ia falar, mas Olavo no lhe 
deu tempo: -- No se preocupe. Para o Jlio, minha resposta ser sempre a mesma. Est tudo bem. Aprecio Andr, o respeito e admiro. Embora ele seja meu sobrinho, 
no desejo intrometer-me em sua vida. Breno hesitou um pouco, depois disse: -- O senhor  muito perspicaz. De fato, Andr est passando por uma crise pessoal. Mas 
no quero trair sua confiana, prefiro que ele mesmo lhe conte tudo. -- Gostaria de saber se h alguma coisa que eu possa fazer para ajud-lo. -- No momento, ningum 
poder fazer nada. E uma questo ntima que compete a ele resolver. -- Est bem. Vocs dois sabem que podem contar comigo sempre. -- Obrigado, doutor. Andr saiu 
da padaria, apanhou o carro e foi at a casa de Nina. Parou alguns metros antes da entrada e ficou observando. Era uma casa bonita com dois pavimentos, com um jardim 
bem cuidado. As janelas do andar de cima estavam abertas. O corao de Andr bateu mais forte. Havia gente em casa. Ficou atento. Marcos poderia aparecer a qualquer 
momento. Mas ele no apareceu. Pouco antes do meio-dia, uma mulher apareceu e fechou as janelas. Pouco depois ela saiu e Andr decidiu segui-Ia. Ela caminhou alguns 
quarteires, virou uma rua e Andr emocionado a viu parar na porta de um colgio ao lado de algumas mes. As crianas comearam a sair enchendo o ar de um burburinho 
alegre e ruidoso. Andr, corao batendo forte, no tirava os olhos de Oflia. Foi quando viu um menino alegre e bonito aproximar-se dela, que o beijou com carinho 
na face. Lentamente comearam a caminhar e Andr emocionado observava sentindo lgrimas descerem pelas suas faces, num misto de alegria e dor. Seu filho! Aquele 
menino bonito, forte, alegre, era seu filho! Eles viraram a esquina e Andr ligou o carro e os seguiu lentamente. Queria parar, conversar com ele, ouvir sua voz, 
saber como ele era. Os dois continuavam caminhando, conversando animadamente sem perceber que estavam sendo seguidos. Chegaram em casa e, antes de entrar, Oflia 
foi chamada por uma senhora da casa vizinha e ambos pararam. Enquanto Oflia conversava, Marcos esperava tranqilo. Naquele instante, Andr, dentro do carro, parado 
poucos metros depois, pode v-lo bem. Marcos era muito parecido com ele. Era seu filho, no havia dvida. Eles entraram e Andr ainda ficou algum tempo dentro do 
carro. Depois resolveu ir embora. Queria rever suas fotos de criana. Sua me tinha uma enorme coleo delas. Foi procur-la. Andria, vendo-o entrar, surpreendeu-se: 
-- Andr! Aconteceu alguma coisa? Voc est com uma cara! Ele tentou dissimular, sorriu e respondeu: -- No aconteceu nada, Eu estava meio cansado, indisposto, tirei 
o dia para descansar. Tive vontade de vir at aqui conversar um pouco. -- Voc foi ao mdico? -- Eu ia, mas melhorei. Estou bem. -- No parece. Ainda acho que deve 
ir. Posso marcar com oDr. Luciano. -- No se incomode, mame. E um simples resfriado. -- Mesmo assim, no deve descuidar. A criada apareceu e avisou que o almoo 
ia ser servido. Ela mandou colocar mais um prato, porm Andr interveio: -- Uma hora atrs tomei um lanche e estou sem fome. Romeu, que havia se aproximado, abraou 
o filho e insistiu: -- Faa-nos companhia. -- Obrigado, papai, mas eu comi. Gostaria de descansar um pouco em sua biblioteca enquanto almoam.

Os dois foram para a copa e Andr subiu as escadas rumo  biblioteca. Quando passava pelo corredor, ouviu soluos. Algum chorava copiosamente na saleta que dava 
para o quarto de Milena. Preocupado, Andr tentou abrir a porta mas estava trancada. Deu a volta pelo quarto da irm e entrou na saleta. Ajoelhada no cho, com os 
cotovelos apoiados na cama, o rosto entre as mos, Milena soluava. Penalizado, Andr aproximou-se, colocou as mos sobre os ombros dela dizendo: -- Milena, o que 
foi? Por que est chorando desse jeito? O que aconteceu? Ela estremeceu e no respondeu. Andr forou-a a levantar-se e abraou-a com carinho, Ele nunca se importara 
com o temperamento inquieto da irm, nem tentara compreend-la. Sua me dizia que era caso de psiquiatra e ele pensava que no podia fazer nada. Mas naquele momento 
em que ele se sentia to fragilizado, as lgrimas dela o comoveram como nunca havia acontecido. Vendo que ela continuava chorando baixinho, disse: -- Chore, minha 
querida. Desabafe. H momentos na vida em que precisamos chorar, pr para fora toda a dor que estamos sentindo. Ela no respondeu. Ele a abraou com carinho enquanto 
ela continuava soluando, e Andr sentiuse culpado por nunca ter tentado compreender o que se passava com ela. Por que ela se sentia to triste? No encontrando 
palavras para dizer, continuou abraando-a carinhosamente em silncio. Aos poucos ela foi serenando. Andr conduziu-a at o sof e sentou-se a seu lado. Ofereceu-lhe 
um leno. Milena enxugou os olhos, estremecendo de vez em quando. Ele acariciou seus cabelos dizendo: -- Seja o que for que estiver acontecendo com voc, eu estou 
do seu lado para proteg-la. Quero que saiba o quanto eu gosto de voc e que sempre poder contar comigo. -- Obrigada. Mas ningum poder ajudar-me. -- No diga 
isso. Por que no me conta o motivo de tantas lgrimas? -- No h um motivo especial. E tudo, Minha vida  intil e vazia. Sou desajeitada e ningum gosta de mim. 
Sempre foi assim, estou conformada, mas  que s vezes tudo fica pior. -- Voc est enganada. E uma moa bonita, instruda, rica, tem tudo para ser feliz. Por que 
se deprecia tanto? Milena deu de ombros e no respondeu. Andr continuou: -- O que voc precisa  reagir, olhar a vida com mais alegria, voc  jovem. Ter muitas 
oportunidades para ser feliz. -- A felicidade no foi feita para mim. Andr colocou as mos nos ombros dela dizendo: -- Milena, olhe para mim. Ela obedeceu. Ele 
prosseguiu: -- Aconteceu alguma coisa grave que voc no quer me contar? Fale com sinceridade. Seja o que for, estou aqui para ajud-la. -- No aconteceu nada. E 
o de sempre. Uma tristeza, um desnimo, uma vontade de morrer,.. -- No diga isso. De hoje em diante vou cuidar de voc. Ela fez um gesto vago: -- No vai adiantar. 
No quero dar trabalho. -- No posso v-la assim. Estou me sentindo egosta, culpado, pensando s em mim. Sua tristeza me entristece. Vamos, arrume-se um pouco e 
desa para almoar. -- No estou com fome. V voc. -- Tambm no estou vontade de comer. Estou precisando da sua ajuda. Ela fixou-o surpreendida: -- Oque ? -- 
Voc sabe onde esto as fotografias de quando ramos crianas? -- Sei. Porqu?

-- Para ser sincero, hoje tambm estou me sentindo triste, com saudade daqueles tempos. Vim aqui pensando em rever essas fotos. Ajude-me a encontr-las. -- Vamos 
 biblioteca. Ela levantou-se e Andr a acompanhou ao escritrio do pai, onde ficava tambm a biblioteca. Milena foi a um armrio e tirou dois lbuns, entregando-os 
ao irmo. -- Venha, Milena, vamos ver juntos. Sentaram-se no sof e foram um dos lbuns. De repente, Andr sobressaltou-se diante de uma foto sua, reconhecendo o 
quanto se parecia com Marcos. Havia notado a semelhana, mas no imaginou que fosse tanta. Emocionado, no conteve as lgrimas e Milena, notando sua emoo, colocou 
a mo sobre a dele dizendo sria: -- Sinto que voc tambm est triste, amargurado, cheio de remorso. Seu corao est oprimido, tanto quanto o meu. Andr olhou 
nos olhos dela e notou tanta solidariedade que no se conteve. Comeou a falar do seu amor por Nina, do seu casamento errado, do seu arrependimento e da descoberta 
de que tinha um filho de nove anos, muito parecido com ele. Milena ouviu com interesse sem interromper nem comentar. Quando ele terminou, ela perguntou: -- O que 
pensa fazer? -- Quero reconhecer meu filho. Nina no vai poder nos separar. No tem esse direito. -- Ela ainda est muito ferida, porque ainda o ama. -- No creio. 
Ela me odeia. Se voc visse a frieza com que me tratou, a raiva, no diria isso. -- Voc confiou em mim, contou seu segredo, vou contar-lhe o meu. Mame diz sempre 
que sou desequilibrada, vive me levando ao psiquiatra, talvez ela esteja certa. Mas no sei o que acontece comigo, h momentos em que as pessoas chegam perto de 
mim e eu sinto o que elas esto pensando, o que sentem, o que vai lhes acontecer. E terrvel. No comeo tentei falar sobre isso, mas ningum acreditava. Chegaram 
a dizer que sou louca. Ento me calei. Mas no sei lidar com isso. Andr olhou-a surpreendido: -- Sente o que os outros esto pensando? Tem certeza de que no est 
sendo vtima de uma iluso? -- Tenho. Porque em seguida as pessoas falam coisas, agem do jeito que eu sabia que fariam, elas me provaram que no  iluso. Eu sinto 
mesmo. As vezes eu no controlo e acabo falando o que estou sentindo. -- Como assim? -- Tristeza, raiva, revolta, a onda vem to forte que no consigo dominar. Quando 
dou por mim estou chorando, como hoje, brigando com as pessoas, como tenho feito. No  isso que eu quero. Mame no acredita, diz que preciso me controlar. Fao 
fora, algumas vezes eu consigo, mas outras no. Por isso no gosto de ir a festas ou fazer amigos. Acabo sempre dando vexame. Voc tambm acha que estou ficando 
louca? Andr abraou-a com carinho. -- No. Nunca ouviu falar em telepatia? E uma cincia comprovada. Deve ser isso que voc tem. Prometo que vou pesquisar, vamos 
estudar o assunto. -- Voc acha? Ah! Se eu pudesse me livrar disso... -- Vamos ver. Romeu abriu a porta e vendo-os conversando animadamente no sof admirou-se. -- 
Vocs deveriam comer alguma coisa -- disse. -- No podem ficar sem comer. Andr fechou o lbum, levantou-se: -- Nossa conversa deu-me fome. Vamos comer. Voc me 
far companhia. Milena concordou e, diante dos olhos surpreendidos do pai, eles se dirigiram  copa, sentaram-se  mesa e a criada apressou-se a servi-los. Andria 
olhou-os mas no disse nada, Milena estava com olhos vermelhos, mas parecia calma e ela dava graas a Deus. Foi falar com Romeu expressando sua admirao:

-- No entendi o que aconteceu. Andr e Milena resolveram almoar juntos e conversavam animadamente. Ela parecia normal. O que ser que aconteceu? -- No sei. Tambm 
me surpreendi vendo-os sentados no sof folheando o lbum de fotos, conversando. Seja o que for, foi bom porque Milena hoje estava impossvel, chorosa. Pelo menos 
parece melhor. Milena comeu com apetite e sorriu olhando com cumplicidade para Andr. -- Mame deve estar louca para saber o que conversamos. -- E um segredo nosso. 
-- Isso mesmo. Depois de almoar, Andr despediu-se dos pais e Milena acompanhou-o at o jardim. Quando ele fez meno de despedir-se, ela disse: -- No entre na 
justia. Seja paciente. O caminho  esse. Sua voz estava mais grave e Andr olhou-a admirado. -- O que foi que disse? Ela balanou a cabea. -- Eu disse alguma coisa? 
No me lembro. -- Voc disse para eu no entrar na justia. -- Se eu disse e no me lembro, faa. Quando isso acontece, embora no me recorde bem das palavras, sinto 
que vai acontecer. Andr deixou a irm impressionado. Sentia-se mais calmo, aquela agitao havia passado. O caso de Milena o deixou intrigado. Ela no lhe parecia 
uma pessoa desequilibrada. Por mais estranhas que tenham sido suas palavras, sentiu que eram sinceras. Foi para o escritrio. Breno o esperava ansioso. -- O Dr. 
Olavo perguntou por voc. Parecia preocupado. O Dr. Jlio andou lhe fazendo perguntas sobre voc. Andr ficou pensativo por alguns instantes, depois considerou: 
-- Com certeza, Janete foi incomodar o pai com suas queixas e dvidas a meu respeito. Notou que no tenho estado bem. Como eu no disse nada, foi atrs dele. Isso 
me irrita profundamente. Fazme sentir acuado, espionado. E horrvel. -- O Dr. Olavo tambm havia notado sua preocupao, mas respondeu a ele que estava tudo bem, 
que no havia nada. Ele gosta muito de voc. -- Sei disso. Vou conversar com ele. Dirigiu-se  sala do tio, bateu levemente e entrou: -- O senhor estava me procurando? 
-- Sim. Voc no me pareceu bem. Est doente? -- No, tio. Estava indisposto. Ele fixou seu rosto e perguntou: -- Sei que no  da minha conta, mas voc  meu sobrinho 
preferido. Brigou com Janete? -- No. Acontece que nem sempre estou disposto a contar-lhe todos os meus pensamentos. H momentos em que sinto vontade de ficar s. 
Ela no aceita isso. -- Janete  uma mulher dominadora. Se voc no for firme, acabar fazendo tudo que ela quer. Andr olhou-o surpreendido. Era a primeira vez 
que o tio emitia opinio sobre ela. -- De fato, Janete  voluntariosa e eu no posso fazer-lhe todas as vontades. -- Tem razo. Mas parece-me que de alguns dias 
para c voc tem estado mais nervoso do que o comum. D impresso que h alguma coisa a mais... -- H, sim. Tenho estado preocupado com Milena. -- E uma menina problemtica. 
-- Estou pensando em ajud-la. Mame a tem levado ao psiquiatra, mas ela no melhora. Venho me sentindo culpado por no a ter apoiado e tentado fazer alguma coisa 
para ajud-la. -- O que poderia fazer? Voc no  mdico.

-- E isso que me entristece. Mas decidi dar-lhe carinho, apoio. -- Isso  bom. Voc est abatido. Continua indisposto? -- Estou me sentindo melhor. Pode ficar tranqilo 
que no descuidarei do trabalho. -- Eu soube que voc esteve com o Dantas para tratar do caso da madeireira, No acha muito cedo? Ele poder interpretar isso como 
uma fraqueza. -- Estive examinando esse caso e cheguei  concluso de que um acordo bem-feito seria vantajoso para ambos os lados e lucrativo para ns. -- Em que 
se baseia para afirmar isso? Andr colocou para o tio todos os argumentos que Nina usara como se fossem seus, e no final Olavo balanou a cabea dizendo: -- No 
havia pensado nisso. Talvez voc tenha razo. Vou examinar o caso pessoalmente e faremos uma reunio para decidir. Andr deixou a sala do tio aliviado por no haver 
contado seu caso, tendo justificado seu nervosismo sem precisar mentir. Sentia-se mais calmo e decidiu retomar seu trabalho. Entrou em sua sala e Breno o acompanhou. 
-- Estou voltando ao trabalho. Como vo as coisas? Breno resumiu os acontecimentos e terminou: -- E bom ver que se sente melhor. Desistiu de entrar na justia? -- 
No. Decidi esperar um pouco mais, ver se Nina me ouve. Vai depender dela. Eu vi o menino. -- A Nina sabe disso? -- No. Fiquei de tocaia perto da casa dela, segui 
a empregada quando foi busc-lo no colgio. -- Falou com ele? -- Ainda no. Mas  um menino lindo, saudvel, muito parecido comigo. Breno sorriu: -- Voc est fantasiando! 
-- Fui  casa de mame olhar minhas fotos na idade dele. Somos muito parecidos. -- V com calma. Com o tempo Nina vai compreender que no pode impedi-lo de assumir 
seu filho. -- Ela me odeia. Est determinada. Vai querer me impedir. Mas eu tambm estou decidido a me aproximar dele. Tenho me sentido culpado e no quero continuar 
me omitindo. Farei meu papel de pai, Nina concorde ou no. -- Talvez voc consiga. Lcia gosta muito de Nina, diz que  educada, justa, bondosa, trata todos com 
respeito. Eu fico mais preocupado com Janete e D. Andria. Se voc reconhecer o menino, elas no vo aceitar. Vo infernizar sua vida. -- Janete comea a me cansar. 
E prepotente, ftil, pretensiosa. Diz que concorda em ser me, mas est me enganando. Ela no quer mesmo ter filhos. -- Cuidado, Andr. Voc nunca falou assim de 
janete. -- H tempo venho observando, sua forma de pensar  muito diferente da minha. Quer me manipular. No gostei nada de Janete ter ido queixar-se ao pai. Casei-me 
com ela porque era bonita, de sociedade, mas no por causa de seu pai ser desembargador. Tanto  verdade que, quando me bacharelei, ele queria que eu fosse trabalhar 
em uma grande empresa e eu preferi ficar com meu tio, que generosamente me convidou para ficar aqui. -- Seu tio tambm  um advogado de nome. -- Isso mesmo. Depois, 
desde menino ele falava que se eu me formasse iria trabalhar com ele. -- Acho que  porque no tem flhos. Apegou-se a voc. -- E. Ele nunca se casou e, que eu saiba, 
no tem filhos mesmo. -- Por que no lhe conta tudo? Tenho certeza de que o apoiaria. Alm disso, lhe daria timos conselhos. -- Vou esperar um pouco mais e ver 
como ficam as coisas. Voc sabe que o tio perguntou por que fui ao escritrio do Dr. Dantas e tive de explicar.

-- Contou o que foi fazer l? -- Claro que no. Quando dei por mim, estava repetindo as palavras de Nina como se fossem minhas para dar soluo ao caso. Ele gostou, 
voc acredita em uma coisa dessas? -- Pelo que Lcia conta, Nina  muito competente e o Dr. Dantas no faz nada sem trocar idias com ela. Andr balanou a cabea 
negativamente: -- Isso tudo me parece mentira. Quem diria que aquela mocinha simples, pobre, do interior, chegaria aonde ela chegou? Breno sorriu e respondeu: -- 
As vezes a humilhao, a raiva induzem as pessoas a lutar para conseguir progredir. Talvez voc, sem saber, a tenha auxiliado a galgar o lugar onde est. Andr ficou 
pensativo alguns instantes. Depois respondeu: -- No creio. O que fiz foi ruim e nunca daria bons resultados. Vou retomar o caso da madeireira. O tio quer saber 
como est e fazer uma reunio. Vamos ver no que d. Enquanto Andr pedia  secretria para apanhar a pasta, Breno olhava satisfeito. Afinal, Andr parecia ter recuperado 
um pouco o equilbrio. Voltou  sua sala disposto a terminar a petio que estava fazendo.

Nina chegou ao escritrio um pouco atrasada. Antnio havia marcado uma reunio com um cliente e desejava que ela estivesse presente. Dirigiu-se apressada para sua 
sala, onde Lcia a esperava. -- Estou atrasada! O Dr. Mendes j chegou? -- Acabou de chegar e j est na sala com o Dr. Antnio. Mandei servir um caf. Aqui esto 
todos os relatrios que pediu. Estendeu a pasta e Nina determinou: -- Vou at l. Quando chamar, voc me leva tudo. Deixou a bolsa no armrio, deu uma olhada no 
espelho, ajeitou a roupa e foi  sala de Antnio. Bateu levemente e entrou. Eles estavam tomando caf e conversando. Depois dos cumprimentos, Nina sentou-- se e 
esperou que eles iniciassem o assunto a ser tratado. Ento chamou Lcia com os documentos e comearam a analislos. Mendes era um empresrio bem-sucedido no ramo 
de confeces e estava enfrentando um problema srio com um dos scios, que estava desviando dinheiro. Apesar das evidncias, ele relutava em aceitar essa idia, 
ao que Antnio observou: -- As provas so concludentes. Se no tomar providncias enrgicas, acabar falindo. -- Trata-se de um primo de minha mulher. Fica difcil. 
E se estivermos enganados? -- Dr. Mendes, est claro que ele desviou o dinheiro. Veja este extrato. No h engano. Sinto muito, mas ele est mesmo lesando sua empresa. 
Nesse instante eles ouviram gritos de pavor e imediatamente se levantaram. Nina abriu a porta assustada. Correrias, e os trs foram ver o que estava acontecendo. 
Gilda estava cada em frente  porta do banheiro, desmaiada, e Maria, plida, tentava reanim-la. -- O que aconteceu? -- indagou Nina. -- No sei. De repente, ouvi 
Gilda gritar, corri e a encontrei aqui. Antnio abaixou-se e Mendes ajudou-o a levant-la e levaram-na ao sof na sala da diretoria. Nina apanhou um copo com gua 
enquanto Antnio esfregava os pulsos tentando reanim-la. -- E melhor chamar o mdico -- sugeriu Mendes. -- Ela est apenas desmaiada -- respondeu Antnio. -- Olha, 
est voltando. De fato, Gilda estava respirando melhor. Abriu os olhos e olhou em volta como querendo situar-se. Depois levou a mo ao peito e gritou: -- Eu vi! 
Era ela. Antnia, estava l, dentro do banheiro! -- No pode ser -- disse Nina. -- Foi alucinao! Antnio interveio: -- Conte o que viu. -- Quando abri a porta 
do banheiro, ela estava em p diante do espelho de costas para porta. Virouse e disse: "Gilda, me ajude!" Ela estava plida, com o mesmo vestido do enterro, respirando 
com dificuldade. Eu acho que gritei e depois no vi mais nada! -- Acalme-se -- pediu Antnio. -- Ela gostava de voc e no vai lhe fazer mal. Est precisando de 
oraes. -- Nunca mais vou entrar naquele banheiro! Tenho medo! Cruz credo! Nunca tinha visto alma do outro mundo!

-- Sempre h uma primeira vez. No precisa ter medo. Vamos rezar para que ela seja auxiliada e encaminhada para onde precisa ir -- disse Antnio. Depois apanhou 
o copo que Nina segurava com mo trmula e deu-o a Gilda. -- Beba, vai sentir-se melhor. Ela obedeceu. Antnio continuou: -- Vamos todos rezar pedindo a Deus que 
a ajude. Em seguida ele fez uma orao pedindo a Deus que Antnia pudesse ser auxiliada. Depois ele voltou-se para Gilda: -- Ento, sente-se melhor? -- Sim. Estou 
mais calma, mas ainda que viva cem anos nunca vou esquecer. Ela parecia viva! -- Ela est viva! -- respondeu Antnio. -- Ela se suicidou, todos vimos, fornos a seu 
enterro! -disse Maria, assustada. -- O corpo dela morreu, mas o esprito continua vivo. Essa  a primeira descoberta que o suicida faz depois da morte: que apesar 
de tudo continua vivo. Outro dia voltaremos a esse assunto. Nina, cuide dela. Eu e o Dr. Mendes vamos continuar. Nina ajudou Gilda a levantar-se, apoiando-a, e saram 
da sala. Depois que se foram, Mendes sentou-se novamente em frente  escrivaninha de Antnio e perguntou: -- Voc acredita mesmo que ela esteja dizendo a verdade? 
-- Claro. Infelizmente, Antnia era nossa funcionria e suicidou-- se dentro daquele banheiro. Era jovem, foi uma tristeza. -- No teria sido uma alucinao? Ela 
no estaria impressionada com esse suicdio e imaginou ter visto? -- Se fosse assim, ela teria tido alucinaes logo aps o fato, no agora, que faz tanto tempo. 
Era ela, estou certo disso. -- E difcil acreditar que algum que morreu possa voltar. -- E mais comum do que imagina. Minha filha desde muito pequena via os espritos 
e os descrevia para ns com tal riqueza de detalhes que nos convenceu. Eu sempre me perguntei para onde iriam os que morrem, mas no tinha certeza de nada. Minha 
mulher era mais incrdula. Contudo, tantas foram as evidncias, que fomos forados a admitir. Hoje no temos mais nenhuma dvida. O Dr. Mendes baixou a cabea pensativo, 
depois disse: -- Se isso for verdade, acho que estou cometendo um grande erro. -Porqu? -- Meu filho est com oito anos mas desde os dois anos diz que v pessoas 
do outro mundo, conversa com elas. Eu e minha mulher o levamos ao psiquiatra, que o vem tratando h anos sem sucesso. Ele no nos conta mais como fazia antes, mas, 
quando no estamos perto, ele continua conversando com seres invisveis. -- Tirando esse detalhe, ele tem demonstrado algum desequilbrio mental? -- Ao contrrio. 
Tem um QI alto, responde a tudo com desenvoltura, o psiquiatra diz at que ele  altamente dotado. Isso que no entendo. Dantas sorriu e considerou: -- Voc tem 
algum compromisso para esta noite? -- No. Porqu? -- V jantar em minha casa, leve sua esposa e seu filho. Conhecer minha filha e descobrir como lidar com seu 
filho. Temos muito o que conversar. -- Est bem. Iremos. Quanto ao nosso assunto, voltarei outro dia. Sinto que no estou em condies de decidir nada hoje. -- Est 
certo. Mas esteja l antes das oito. Depois que ele se foi, Antnio chamou Nina: -- Como est Gilda? -- Mais calma. Contudo no consegue falar em outra coisa. Maria 
est muito assustada. Quer pedir-lhe licena para trazer um padre para benzer tudo aqui.

-- Depois falarei com elas. No se preocupe, que tudo est sob controle. Eu temia que isso fosse acontecer. Marta me preveniu de que o esprito de Antnia circulava 
por aqui e que teramos notcias dela. -- Ento  verdade! Apesar de haver lido nos livros que Marta me emprestou que isso  possvel, nunca pensei que fosse acontecer 
aqui. -- E natural. Desde que ela morreu estamos tentando ajud-la. Infelizmente o suicida leva tempo para recuperar-se. Voc tem algum compromisso para esta noite? 
-- No, senhor. -- Gostaria que fosse jantar em minha casa. Convidei o Dr, Mendes com a famlia. -- Foi para compensar um pouco o tumulto que ele presenciou aqui? 
-- No. Foi porque ele tem um filho que precisa de orientao espiritual. Tenho certeza de que poderemos ajud-los. Leve Marcos, o filho dele tem quase a mesma idade 
do seu. -- Iremos. Marcos adora ir  sua casa. Depois que Nina deixou a sala, Antnio ligou para Mercedes, colocando-a a par dos acontecimentos e falando do jantar. 
Tudo combinado, ele retomou o trabalho satisfeito. Observador dos fatos da vida, sempre estudando seus significados, teve certeza de que o aparecimento de Antnia 
exatamente no momento em que Mendes estava em sua sala foi uma forma de ajud-lo a compreender mais sobre a espiritualidade e ao mesmo tempo ajudar o esprito dela. 
Essa genialidade da vida, utilizando-se de todos os eventos para conseguir seus objetivos de desenvolvimento do esprito ao mesmo tempo beneficiando a todos os envolvidos, 
o encantava. Andr deixou o escritrio s seis e meia e no foi para casa. Entrou em uma lanchonete, comeu um sanduche, tomou um refrigerante. Depois, entrou no 
carro e foi parar perto da casa de Nina. As luzes estavam acesas e de onde estava podia ver o carro dentro da garagem. Sentiu vontade de tocar a campainha, mas conteve-se. 
Eram sete e meia quando a criada abriu o porto, Nina e Marcos entraram no carro e saram. Andr ligou o carro e os seguiu discretamente. Aonde iriam quela hora? 
Viu quando ela parou em frente  casa do Dr. Dantas, tocou a campainha, abriram o porto e ela entrou com o carro. Ele estava pensando o que fazer, quando outro 
carro se aproximou e parou diante da casa. Dele desceram um casal e um menino. Andr reconheceu o Dr. Mendes e famlia. Eram muito amigos de seus pais. Quando ele 
construiu a maior de suas fbricas, todo o material de construo fora fornecido pela empresa de seu pai. Seriam amigos de Nina? Precisava descobrir. Queria saber 
tudo que se relacionasse com ela e seu filho. Talvez encontrasse uma maneira de faz-la mudar de idia a seu respeito. Ficou l mais de uma hora, mas, vendo que 
no voltavam, decidiu ir para casa. Assim que entrou, encontrou Janete irritada: -- Onde estava? Telefonei para o Dr. Olavo e ele me disse que no sabia onde voc 
estava. -- Ele deixou o escritrio antes que eu. No podia mesmo saber. -- Todas as noites terei que esper-lo para o jantar? Os criados ficam irritados quando no 
jantamos no horrio. Todo o servio da casa fica desorganizado. -- Nesse caso, no precisa me esperar para jantar. Jante no horrio. Quando eu no puder chegar cedo, 
comerei fora. -- No  isso que eu quero. Voc  meu marido. J fica fora o dia inteiro. O que est acontecendo? -- No est acontecendo nada. No precisa incomodar 
seu pai com suas dvidas, No gosto que voc lhe pea para me vigiar. Sei perfeitarnente cuidar de mim. Janete olhou-o indignada: -- Voc est diferente. Nunca me 
tratou assim. Pode ter certeza de que vou descobrir do que se trata. -- Estou cansado, trabalhei muito, vou descansar. No quero conversar agora.

Ele subiu e ela ficou furiosa. Com certeza havia outra mulher. S podia ser isso. Andr estava preocupado, abatido, distante. Decidiu que no dia seguinte iria conversar 
com Andria. Talvez ela soubesse de alguma coisa. Na casa do Dr. Dantas, Nina foi recebida com o carinho de sempre. Enquanto conversava com Mercedes sobre a apario 
do esprito de Antnia, Marcos entretinha-se com Marta. Ela possua um jeito encantador de contar histrias que o menino adorava. Quando Mendes chegou com a esposa 
e o filho, Mercedes levantou-se para cumpriment-los. Depois de conversar com os donos da casa, ele aproximou-se de Nina dizendo: -- Esta  Altamira, minha esposa, 
e aquele meu filho Renato. O menino aproximara-se de Marcos e Marta e conversava com eles animadamente. -- Muito prazer, senhora -- disse Nina. -- Pelo jeito, nossos 
filhos j se apresentaram. -- Estou encantada. Renato nem sempre  to comunicativo. -- Com certeza j sentiu o carisma de Marta. Ela tem um jeito especial de lidar 
com as crianas. Marcos a adora. Enquanto esperavam o jantar, entretinham-se conversando quando de repente Renato saiu para o jardim quase correndo. Marta e Marcos 
o seguiram. Altamira lanou um olhar preocupado ao marido, que imediatamente se levantou, fazendo meno de os seguir. Mercedes interveio: -- No se preocupe, Dr. 
Mendes. Marta cuidar deles. -- E que... a senhora no sabe... -- disse Altamira. -- Quando ele faz isso,  porque est tendo uma crise. Sinto muito. Acho que no 
devamos ter vindo. -- No visitamos ningum com ele. Como o Dantas me disse que podia ajud-lo, pensei que aqui no iria acontecer... -- Ao contrrio -- respondeu 
Antnio. -- Aqui  o lugar onde deve acontecer. Precisamos avaliar melhor o caso dele. -- Acho melhor voc ir atrs deles -- pediu Altarnira ao marido. -- No h 
necessidade. Marta sabe o que fazer -- disse Mercedes. Renato havia se escondido atrs de um arbusto no jardim. Marta aproximou-se dizendo: -- Pode sair, Renato. 
Eu j vi o menino. -- Voc viu? -- Vi. Ele  seu amigo e deseja conversar. Desde pequeno que vocs conversam. -- Mas agora no quero mais. Minha me fica nervosa, 
me leva ao mdico, meu pai fica assustado. Chega disso. Marta aproximou-se dele, segurou seu brao e puxou-o para um banco dizendo: -- Vamos nos sentar aqui e conversar. 
Marcos os observava admirado. Renato perguntou-lhe: -- Voc tambm viu ele? -- No. Renato voltou-se para Marta: -- Acho que voc est dizendo isso apenas para acalmar. 
No viu nada. -- No tenho o hbito de mentir. Eu o vi. Ele  magro, cabelos crespos, olhos castanhos, veste cala marrom e camisa azul. E um menino bonito e bom. 
Muito seu amigo. Diz que se chama Mrio. -- Voc viu mesmo! E ele. -- No precisa ter medo. E um esprito bom. -- Eu sei. Ns brincamos muito. Mas meus pais acham 
ruim e sofrem. Por isso eu no quero mais falar com ele. -- No vai conseguir. Voc tem o sexto sentido aguado. V os seres de outras dimenses, como eu. -- Puxa! 
Voc tambm v?

-- Vejo. -- Seus pais no ficam zangados com voc por isso? -- No. Eles acreditam em mim, sabem que  verdade. Voc sempre viu os espritos, no ? -- Sim. Mas 
antes eu pensava que todos estavam vendo. -- S v quem tem uma sensibilidade maior. Vou explicar melhor. O universo  infinito. Nele h muitos mundos, uns diferentes 
dos outros, e todos so habitados por espritos criados por Deus para se desenvolverem e aprenderem a viver melhor. Por exemplo, para viver aqui, nosso esprito 
precisou vestir um corpo de carne e aprender a fazer as coisas aqui, andar, comer, trabalhar. -- A gente nasce pequeno. Nosso esprito  pequeno? -- indagou Marcos. 
-- No. Nosso esprito  adulto. J vivemos neste mundo algumas vezes. Ocorre que nosso esprito dispe de um corpo muito malevel.Quando temos de nascer aqui, torna-se 
pequenino. -- Por qu? -- indagou Renato. -- Porque precisamos de tempo para nos habituarmos com o corpo de carne, que  pesado, e tambm para aprendermos a conduzi-lo 
e manusear as coisas materiais. Por isso nascemos pequenos e vamos crescendo com o tempo. -- Os velhos tambm tm esse corpo malevel? -- indagou Marcos. -- Todos 
os seres o tm. E esse corpo que chamamos de astral que formata o novo corpo em formao, de acordo com as necessidades do seu esprito. -- Quer dizer que eles vo 
ser crianas de novo? -- perguntou Renato. -- Isso mesmo. -- Ento  por isso que eu j me vi velho e sabendo de muitas coisas. As vezes a professora d uma aula 
e eu no s sei o que ela vai dizer como tambm as respostas. Puxa! -- Isso eu tambm sinto -- exclamou Marcos, admirado. -- E que vocs j viveram outras vezes 
aqui. Embora no se recordem com clareza, tudo quanto viveram est guardado em seu inconsciente e provoca essas sensaes. Renato ficou pensativo alguns instantes, 
depois indagou: -- Quer dizer que eu vou continuar vendo eles? -- Vai. Renato passou a mo nos cabelos e considerou: -- No gosto de mentir. Mas meus pais no compreendem. 
-- Vou contar-lhe um segredo: seus pais esto comeando a acreditar. Renato meneou a cabea negativamente e disse: -- E difcil. Seria preciso acontecer um milagre. 
-- Pois esse milagre aconteceu. Vou contar-lhe um segredo. Em poucas palavras Marta falou sobre o que acontecera no escritrio e finalizou: -- Tenho certeza de que 
foram seus amigos espirituais que provocaram isso bem na hora em que seu pai estava l. -- Nossa! Eu pedia ao Mrio que no aparecesse mais e ele me dizia para ter 
pacincia, que eles iriam me ajudar. Ele tem muitos amigos l onde ele vive. As vezes, quando durmo, ele me leva a esse lugar. E muito lindo. -- Leva como? -- indagou 
Marcos, admirado. -- Voando. Ele me abraa e ns samos, atravessamos paredes, deslizamos pela cidade. Eu sinto muita alegria quando acontece isso. -- As vezes eu 
sonho que estou voando, mas ningum vem me buscar. Converso com pessoas que no conheo. Quando acordo, lembro de tudo, mas depois esqueo -- interveio Marcos. -- 
Voc tambm faz viagem astral. Seu corpo fica dormindo e seu esprito sai -- esclareceu Marta. -- S que voc no v quem o est amparando. -- Porqu? -- Talvez 
ainda no esteja preparado. As pessoas no so iguais. H diferentes graus de sensibilidade.

-- Acho que eu teria medo -- disse Marcos. -- No -- respondeu Renato. -- So pessoas como ns. De vez em quando vejo coisas feias, mas Mrio me ensinou a rezar 
e logo isso desaparece. Ele diz que o mundo astral  igual aqui: tem gente boa e ruim. Cada um escolhe com quem deseja ficar. -- Isso mesmo -- atalhou Marta sorrindo. 
-- Mrio tem instrudo voc. -- Voc vai me ensinar como fazer isso? -- pediu Marcos, srio. -- As vezes sonho com coisas ruins e acordo com medo. Corro para a cama 
de minha me, seno no consigo mais dormir. A criada apareceu para avisar que o jantar ia ser servido. -- Que pena! -- comentou Renato. -- Eu quero saber mais! 
-- ajuntou Marcos. -- Vamos comer. H muito tempo para conversarmos. Quando eles entraram na sala de jantar, todos estavam se acomodando na mesa. Altamira, preocupada, 
olhou para eles. Apesar da conversa que tivera com o marido e de haver concordado em ir quele jantar, no gostava nada dessa histria de espritos. Sempre ouvira 
dizer que era perigoso lidar com isso. Renato era uma criana. Preferia que no o tivessem levado l para falar disso. Mas os meninos estavam alegres, fisionomia 
distendida, o que em parte a tranquilizou. Provavelmente no haviam tocado no assunto. O jantar decorreu agradvel. Depois, enquanto os adultos foram sentar-se na 
sala para o caf e o licor, Marta convidou os meninos para subirem ao seu quarto, onde pretendia mostrar-lhe alguns livros. Altarnira olhou para o marido preocupada, 
depois comentou: -- No demorem. No podemos ir embora tarde. Renato acorda muito cedo para o colgio. Eles subiram e Mercedes sentou-se no sof ao lado de Altamira, 
enquanto os dois homens foram para o outro lado da sala. Mendes gostava de fumar e no queria incomodar as senhoras. Depois de tomarem caf, Mercedes disse: -- Noto 
que voc est preocupada com a conversa que Marta est tendo com seu filho. -- E... de fato abe como , no  que eu no confie em sua filha, mas o caso do Renato 
 muito srio. Temo que essa histria de espritos perturbe mais a cabea dele. Mercedes olhou-a sria e respondeu: -- Negar uma experincia verdadeira que ele tem 
s porque voc no consegue ver o que ele v  que pode perturb-lo. Nunca pensou nisso? -- O mdico diz que  uma fantasia e alimentar essa iluso pode prejudic-lo. 
-- Nunca pensou que ele pode estar vendo seres que existem mesmo, em um estado diferente do nosso, que residem em outras dimenses do universo? -- No creio que 
haja vida em outro lugar fora da Terra. A cincia nunca comprovou isso. -- Por enquanto, porque ainda no possuem instrumentos adequados para registrar o que ocorre 
em mundos de diferente consistncia energtica, que movimentam suas molculas mais rpido do que nossos instrumentos podem registrar. Altamira olhou-a admirada. 
-- De onde tirou essa idia? Como aceitar coisas que no temos como verificar se so verdadeiras? -- Porque muitas pessoas em todas as partes do mundo vem as mesmas 
coisas, do mesmo jeito. A mediunidade tem se manifestado em toda parte, com os mesmos sintomas, independente da religio, nacionalidade, crenas de cada um. Depois, 
h cientistas de credibilidade inquestionvel que pesquisaram e comprovaram que a vida continua depois da morte do corpo, que a morte  apenas uma viagem, uma mudana 
de lugar. -- No posso crer. Fico insegura aceitando uma situao como essa, sem provas convincentes. -- Tenho alguns livros que gostaria de emprestar-lhe. Lendo-os 
talvez encontre as respostas que procura. Quando Marta comeou a relatar coisas que s ela via, a conversar com seres de outro mundo, eu e meu marido ficamos muito 
assustados. At ento no tnhamos nenhum conhecimento desse assunto. Ao contrrio, educados dentro do catolicismo, era-nos difcil aceitar o que estava

acontecendo. Como nenhum mdico conseguiu resolver essa situao, decidimos observar, tentar entender por que Marta tinha essa particularidade. -- Renato est na 
mesma situao. Os mdicos no conseguem cur-lo. -- Uma coisa era certa: Marta era uma criana saudvel, alegre, inteligente. Seu desenvolvimento normal pela idade, 
at precoce em muitos aspectos. -- O mesmo que Renato. -- As vezes, diante de certas pessoas ela ficava sria e dizia coisas inusitadas a respeito delas, de sua 
vida. Muitas vezes conversava mandando recados de seus parentes falecidos, comovendo a todos pela veracidade. Quando lhe pedamos para explicar de onde tirara aquelas 
palavras, ela sorria e dizia que no sabia. Simplesmente as palavras vieram-lhe  mente e sua boca falava. Outras vezes descrevia a pessoa que tinha lhe dado o recado 
e para nosso espanto o parente chorava emocionado, atestando a veracidade da mensagem. Como duvidar diante de tantas provas? Altarnira estava emocionada. Mercedes 
havia descrito exatamente o procedimento de Renato. Ficou pensativa alguns instantes, depois disse: -- No sei o que dizer ou fazer. Renato j no fala nada em nossa 
frente, mas eu sei que ele continua como antes. -- Ele sabe que vocs no gostam e no deseja desagrad-los. Vocs precisam saber que, quando a sensibilidade abre, 
no h como impedi-la de manifestar-se. E um fenmeno natural que todos possuem em menor ou maior grau. Tanto Marta como Renato tm essa faculdade muito desenvolvida. 
No grau em que esto, encaram esses fenmenos com naturalidade e admiram-se porque a maioria no consegue ainda sentir como eles. -- De fato. No comeo ele perguntava 
por que ns no estvamos vendo. Quer dizer que ele vai continuar assim? -- Tudo indica que sim. -- Nesse caso, fico desanimada. No sei lidar com isso. E difcil 
para mim. -- Voc ter que estudar o assunto para apoi-lo. Tenho certeza de que, quando Renato notar que vocs compreendem seu modo de ser, ter tranqilidade para 
cumprir sua tarefa no mundo. Vocs estreitaro os laos de amor que os une. -- Tenho medo dessa histria de cumprir sua tarefa no mundo. Todo missionrio sofre muito. 
-- Quando falo em tarefa, no estou me referindo a religio. A mediunidade  uma capacidade do esprito que todos ns ternos. A diferena  que nossos filhos a possuem 
em alto grau de desenvolvimento. -- A que se refere, ento? -- Toda pessoa que nasce no mundo traz um programa de desenvolvimento interior que  de sua responsabilidade 
realizar. Est aqui para aprender, desenvolver a conscincia e tomar posse dos potenciais que a vida lhe deu como ferramenta de progresso. Realizar a tarefa  conseguir 
fazer isso. A abertura da sensibilidade ajuda a entender melhor a vida e os valores essenciais ao progresso que precisa alcanar. -- Quer dizer que h um programa 
para ns neste mundo? -- Claro. Sem isso a vida no teria finalidade. Os valores ticos perderiam a utilidade. -- De fato. Quando vejo os maus terem sorte e os bons 
serem prejudicados, me pergunto qual a vantagem de ser honesto. -- A conscincia tranqila  uma delas. Voc perceber as outras quando descobrir que a vida responde 
a todas as suas atitudes, Cedo ou tarde, quem transgrediu os eternos valores do esprito receber a resposta adequada. -- Voc acredita nisso? -- Tenho certeza. 
Basta observar as pessoas  nossa volta. Se o fizer com ateno, perceber como acontece. -- Tenho visto pessoas que h vinte anos agiam mal, continuam agindo e 
tm sorte.

-- Quanto mais a pessoa tem conhecimento, mais rpido a vida responde. Essa resposta visa a educar, no a punir. Isso significa que ela espera que a pessoa amadurea, 
progrida um pouco mais, tenha condies de aproveitar a lio. Devo esclarecer que, com determinadas pessoas mais resistentes, pode no acontecer nesta encarnao, 
mas em outras. Apesar disso, se voc estiver atenta, encontrar muitas outras para comprovar o que estou dizendo. -- O que est me dizendo faz crer que a vida tenha 
sabedoria e poder. -- A vida  Deus em ao e Ele pode tudo! Se tiver interesse, como eu j disse, posso emprestarlhe alguns livros que a ajudaro a compreender 
melhor. -- Tenho interesse. Preciso entender o que est acontecendo dentro de minha casa, com meu filho. Confesso que este assunto tem me angustiado muito. -- Entendo, 
Mas tudo vai mudar daqui para a frente. Estou certa disso. Sentada em uma poltrona ao lado delas, Nina folheava uma revista. No desejava ser indiscreta. Ouviu o 
que as duas conversavam, mas abstinha-se de dar opinio. Notava o constrangimento de Altamira e no se julgava com conhecimento suficiente para tomar parte na conversa. 
Mercedes, voltando-se para ela, disse: -- A Nina tambm vai precisar estudar mais este assunto. -- O filho dela tambm tem problemas? Nina apressou-se a responder: 
-- No. Ele est muito bem. -- Nesse caso... -- Ele tambm tem muita sensibilidade. Mas por enquanto ainda no se manifestou -- esclareceu Mercedes. -- Marta j 
me preveniu. De fato, Marcos  sensvel, intuitivo, s isso. -- Voc no fica com medo? -- No. Est tudo bem com ele. -- Nesse caso  bom no tocar nesse assunto 
para que ele no venha a ficar como Renato. -- Vocs no falavam nada sobre isso, o que no impediu sua mediunidade de manifestar-se -- considerou Mercedes. -- Seria 
bom que todos os pais estudassem os fenmenos espirituais. Assim, saberiam proteger a famlia das possveis invases de espritos perturbadores. Elas continuaram 
conversando at que Nina, olhando o relgio, se levantou: -- Est na hora de ir embora. Marcos levanta cedo para a escola. Altamira levantou-se tambm: -- Ns tambm 
precisamos ir. Nina subiu para cham-los e desceram em seguida. Eles estavam alegres e bem-dispostos, o que tranqilizou Altamira. Depois que eles se foram, Mercedes 
disse ao marido: -- Ela est resistente. Marta sorriu e tornou: -- Ela ter que ceder. Renato  um esprito lcido, veio para trabalhar com os espritos. Est consciente 
disso e nada o demover. Eles tero que aceitar. -- O Mendes j aceitou. Conversamos muito e ele entendeu perfeitamente o caso do filho. Emprestei-lhe o "Livro dos 
Espritos". Ele est muito interessado. A esposa acabar por convencerse. Afinal, a verdade tem fora. Marta sorriu e considerou: -- Eu tive muita sorte por nascer 
aqui com vocs. Renato passou por maus bocados. -- Ns  que tivemos sorte por ter uma filha como voc. -- disse Mercedes, passando o brao nos ombros da filha. 
-- Vamos dormir, que  tarde. Os trs, abraados, subiram para dormir.

Nina chegou em casa pensativa. Durante o trajeto de volta, Marcos contara animado a conversa que haviam tido com Marta, mostrando-se muito interessado sobre as outras 
dimenses do universo e a comunicao com os espritos, No tinha dvida de que Renato dizia a verdade e gostaria de poder ser como ele. Ela, apesar da onvivncia 
com Marta, de respeitar a famlia de seu chefe e amigo, aind no conseguia ter a mesma certeza deles. Marcos foi dormir. Nina foi para o quarto, deitou-se, mas 
sentia-se inquieta. De repente, uma tristeza, uma sensao de medo a acometeu e ela acendeu a luz do abajur, levantou-se e foi tomar gua na cozinha. Talvez tivesse 
ficado impressionada com aquela conversa. Seria melhor no deixar Marcos envolver-se com aquele assunto. Ele poderia ficar sugestionado. Voltou para o quarto e deitou-se. 
A lembrana do que acontecera no escritrio veio-lhe  mente. Antnia teria mesmo estado l? Gilda no teria tido uma alucinao? Lembrou-se do dia do suicdio, 
do enterro, da indiferena da tia de Antnia. Por que ela teria cometido o suicdio? Nina queria dormir e resolveu reagir. Precisava esquecer esse triste acontecimento. 
Rezou pela alma dela e procurou pensar em outra coisa. Havia um caso que precisaria estudar no dia seguinte e ela rememorou os detalhes, as providncias que precisaria 
tomar, at que, cansada, apagou a luz do abajur e finalmente adormeceu. Sonhou que estava caminhando por um corredor escuro, sentia o peito oprimido, angstia e 
a mesma tristeza que a envolvera pouco antes. Queria sair desse lugar e procurava a sada sem a encontrar. Finalmente chegou a um lugar escuro onde vultos passavam 
por ela provocando-lhe arrepios de medo. Aflita, sentiu que precisava deixar aquele lugar. Foi quando divisou uma moa de rosto agradvel, que a abraou dizendo: 
-- Venha comigo. Vou lev-la de volta. Nina sentiu-se calma, mas nesse instante ela viu Antnia em sua frente, rosto plido, olhos encovados, estendendo as mos 
e gritando aflita: -- Nina, por favor, me ajude! No agento mais! Nina acordou ouvindo aquele grito de dor. Assustada, sentou-se na cama, corao batendo descompassado, 
pernas trmulas. Passou a mo na testa como para apagar aquela imagem assustadora. Acendeu o abajur e aos poucos foi se acalmando. O que teria acontecido? Teria 
visto mesmo o esprito de Antnia ou fora uma alucinao? A cena no escritrio, a conversa na casa de Mercedes, teriam provocado aquele sonho? Levantou-se. Estava 
com medo de dormir e sonhar de novo. Marta dissera-lhe que os suicidas no tm paz. Seria verdade? Antnia estaria vagando naquele lugar horrvel sofrendo pelo gesto 
que cometeu? Pedira-lhe ajuda. O que poderia fazer por ela? Mandar rezar uma missa? Tentou pensar em outra coisa, talvez tudo no passasse de uma iluso. Ela havia 
ficado impressionada com os fatos daquele dia. Mas a lembrana do encontro com Antnia no lhe saa do pensamento. Foi to real!

Se fosse verdade, por que ela no teria ido pedir ajuda de Marta ou de Mercedes? Elas saberiam como ajud-la. Apesar do esforo para esquecer e poder dormir, o dia 
estava amanhecendo quando Nina, cansada, conseguiu pegar no sono. Trs horas depois, quando o despertador tocou, Nina custou a acordar e precisou fazer grande esforo 
para levantar. Pensou em Marcos. Ele teria dormido bem? Vestiu-se e foi ao quarto dele, mas ele j havia descido para o caf. Encontrou-o na copa. -- Ento, meu 
filho, dormiu bem? -- Muito bem. Ele parecia bem-disposto e Nina sentou-se para o caf. Marcos continuou: -- Me, o Renato  como a Marta. Ele tambm v os espritos. 
-- Ns j falamos sobre isso ontem. -- A me dele no entende e o pai  igual. Por isso ele no conta mais nada a eles. Cada vez que falava o que estava vendo, eles 
o levavam ao mdico, e o remdios alm de no adiantar o deixavam indisposto. -- Esse assunto  delicado. Seria bom que voc no pensasse muito nessas coisas. -- 
A Marta disse que precisamos estudar os fenmenos porque tanto eu como ele temos mediunidade. Eu gostaria muito de aprender como  isso. No quero ficar tendo pesadelos 
nem me envolver com espritos perturbados. Eles fazem reunies uma vez por semana. Eu pedi para participar. -- Devia ter me perguntado antes. Essas reunies so 
para as pessoas da famlia. -- Ela disse que j convidou voc para ir e que se voc for eu poderei ir junto. Nina tentou contemporizar: -- Vamos ver. Est na hora 
de voc ir. No pode chegar atrasado na escola. Depois que ele se foi, Nina lembrou-se do sonho e pensou: -- Vou espaar minhas visitas  Marta. Marcos precisa esquecer 
esse assunto. Chegou ao escritrio e encontrou Gilda ao telefone falando sobre que lhe acontecera na vspera. Vendo-a entrar, ela finalizou: -- No posso conversar 
mais. Est na hora de trabalhar. Passe na minha casa  noite e falaremos melhor. Nina aproximou-se e perguntou: -- Est mais calma? -- Estou. Mas esta noite quase 
no dormi, No consigo esquecer como ela estava. -- No deve levar to a srio. Pode ter sido uma iluso. -- Que nada, Nina. Era ela! Estava com aquele vestido igualzinho 
do enterro. Olhos encovados, magra, plida, estendendo as mos. Nina sentiu um calafrio. Em seu sonho ela estava assim mesmo. -- Ontem, quando sa daqui, fui  igreja 
pedir para rezar uma missa. Mas, quando o padre soube que ela havia se suicidado, disse que no podia, que a igreja no permite. Fiquei triste. Ela est sofrendo 
muito, pediu ajuda. Mas ns s podemos rezar, nada mais. -- A orao  s o que podemos fazer. -- Minha amiga freqenta um centro esprita. Eu estava falando com 
ela. Disse que vai me orientar. Eu tinha ouvido falar que os espritos aparecem para as pessoas, mas eu nunca tinha visto nada. Foi a primeira vez e quase me matou 
de susto. Nunca mais quero ver nada. -- Voc est impressionada. Vamos esquecer esse assunto. -- Eo que eu mais quero. Mas a cena volta e sinto medo. No vou entrar 
mais naquele banheiro. Vou usar o do corredor. -- Vamos trabalhar. Nina foi para sua sala mas reconhecia que seu sonho tambm no lhe saa do pensamento. Guardou 
a bolsa e sentou-se disposta colocar toda a ateno no trabalho. Quando entrou na sala do Dr. Dantas, ele levantou os olhos e fixou-a:

-- Nina, voc est abatida. Aconteceu alguma coisa? -- No. E que eu custei a dormir e, quando consegui, tive um pesadelo. -- Voc deve ter ficado impressionada 
com o que aconteceu aqui ontem. -- Deve ser isso. Acabei sonhando com Antnia. -- Ela ainda no est bem. Como foi esse sonho? -- Como o senhor disse, fiquei impressionada. 
No foi nada de mais. -- Conte assim mesmo. Nina relatou tudo e depois ele considerou: -- Ela deve estar nos cercando procurando ajuda. Voc deve ter ido procur-la 
durante o sono. -- Eu nunca faria isso. -- Quando nosso corpo dorme, nos liberamos e muitas vezes vamos ao astral em busca das pessoas. Da forma como contou, voc 
foi, sim, mas teve a ajuda de um esprito amparador. Eles nos ajudam em nossas viagens astrais. O lugar que voc visitou deve ser onde ela vive agora. -- Nesse caso, 
como ela pde vir aqui ontem? -- Porque o pensamento dela estava aqui. Ela precisa de ajuda e vocs eram muito amigas. Eu me lembro que se davam bem. -- Isso . 
At agora me pergunto por que ela no nos falou sobre seus problemas. Se o tivesse feito, teramos evitado essa loucura. Estou certa disso. -- Mas ela no o fez. 
Marta afirma que no so apenas os sofrimentos ocasionados pelo suicdio que a atormentam. H algo mais. Alguma coisa que ela deseja que faamos. -- O que seria? 
Ela s tinha aquela tia com a qual, eu creio, nunca se deu bem. Antnia era o oposto dela. Se ao menos houvesse deixado uma carta, algum pedido... Assim no poderemos 
fazer nada. -- Ela mesma nos dir, quando puder. -- Ai, Dr. Antnio, eu preferia que ela no fizesse isso, No gostaria de ter aquele sonho de novo. Ele sorriu e 
considerou: -- Fugir no vai adiantar. Melhor ser dar-lhe oportunidade de se comunicar. -- O senhor diz isso com uma calma... -- Voc precisa habituar-se, Nina. 
Essa  uma realidade que mais cedo ou mais tarde voc ter que enfrentar. -- No pretendo aprofundar-me nesse assunto. Pode parecer simples para o senhor, mas para 
mim no. Sinto-me insegura, nervosa. Ele fitou-a srio e no respondeu logo. Ao cabo de alguns instantes considerou: -- A insegurana passar quando tiver estudado 
melhor. Enfrentar os medos  melhor do que contemporizar. Quando est na hora de aprender, a vida costuma insistir. -- Quer dizer que posso sonhar com ela de novo? 
-- Se o esprito de Antnia quer alguma coisa de ns, far tudo para se comunicar. -- Ela no precisa de mim para isso. Pode perfeitamente conversar com Marta, que 
 mais categorizada do que eu para entend-la. Ela poder ir  reunio em sua casa e esclarecer tudo. -- Acontece, Nina, que no funciona assim. Em todas as manifestaes 
dos espritos h recados, objetivos a alcanar, que vo muito alm do que  primeira vista nos parecem. -- Como assim? -- Se Antnia, ao invs de aparecer aqui para 
Gilda, houvesse ido  minha casa em uma sesso regular, o Dr. Mendes no teria tomado conscincia do problema do filho. Foi preciso que os fatos fossem como aconteceram 
no s para que Renato pudesse ser auxiliado, como voc pudesse ser alertada para essa realidade e Gilda descobrisse que a vida continua depois da morte. Embora 
tenha sido um susto para vocs, a vida, ao auxiliar Antnia, o fez a todos ns, cada um do seu jeito. -- De fato, pensando assim,.. Mas, apesar disso, sinto muito 
medo. No  agradvel pensar em morte nem sonhar com algum em tal estado de sofrimento. -- Pense em como o esprito de Antnia deve estar sofrendo.

-- Ela pede ajuda e nada podemos fazer. isso  muito triste. -- Procure pensar nela no como a viu nesse sonho mas como ela era quando estava entre ns. Lembre-se 
dos bons momentos de convivncia que tiveram, faa de conta que ela continua como era. Isso vai ajud-la, tenho certeza. -- Est bem. Tenho uma foto que tiramos 
juntas. Vou tentar esquecer o sonho e pensar nela como era. -- Faa isso. Sempre que lembrar do sonho, olhe a foto e pense que ela est assim, igual ao retrato. 
Nina foi para sua sala e procurou a foto. Lembrava-se de hav-la colocado em uma pasta com outras da empresa. Encontrou-a e sentou-- se fixando-a. As trs estavam 
sorrindo: ela, Antnia e Gilda. Depois do expediente, as trs haviam ido a uma lanchonete comemorar o aniversrio de Gilda. Naquele tempo, Neide no lhes permitia 
nenhuma comemorao dentro da empresa, mesmo depois do expediente. Nina lembrou-se de que foi depois de uma conversa na sala com Neide que Antnia fechou-se no banheiro 
e deu cabo da vida, O que teriam conversado? O que teria acontecido para que ela tomasse aquela atitude desesperada? Sempre que pensava nisso, arrependia-se de no 
a haver seguido. Nunca imaginou que ela fosse se matar. Olhou a foto e reconheceu que apesar de aquele momento ter sido de alegria, o sorriso de Antnia era vago 
e havia muita tristeza em seus olhos. Alis, ela nunca falava de si mesma, de sua vida nem de sua famlia. Pela primeira vez, Nina comeou a pensar que Antnia poderia 
ter algum segredo, alguma coisa que ficara sem resolver e que a impedia de seguir seu caminho no outro mundo. Sentiu um arrepio e guardou a foto novamente na gaveta. 
Ainda estava muito impressionada com aquela histria. Seria melhor esquecer e cuidar de trabalhar. Decidida, apanhou uma pasta, abriu-a e mergulhou na leitura. Dois 
dias depois, Andr resolveu passar pelo escritrio e conversar com Nina. Queria fazer mais uma tentativa para resolver aquele caso pacificamente. Na portaria do 
prdio foi informado de que ela havia sado e voltaria dentro de duas horas. Disposto a esperar, Andr resolveu ir a um restaurante prximo para almoar. Nos ltimos 
tempos, quase no ia almoar em casa. Evitava a companhia de Janete, que a cada dia se tornava mais desconfiada e insistente, fazendo perguntas desagradveis que 
ele no queria responder. O lugar estava lotado, e ele resolveu esperar. -- Como vai, Andr? Ele voltou-se e viu o Dr. Mendes sorrindo. -- Bem, e voc? -- Bem. Eu 
o vi entrar. No h lugar. Venha sentar-se conosco. Andr aceitou de bom grado e acompanhou-o. Sentado na mesa estava o Dr. Dantas, que se levantou e o cumprimentou. 
A conversa fluiu natural e Mendes contou que estava processando o scio. Trocaram idias sobre o caso e foi Mendes quem levantou o assunto: -- Chega de falar nesse 
safado. Altamira no se conforma. Eu prefiro falar sobre espiritualidade. Sabia que estou estudando o assunto? Andr surpreendeu-se. Mendes sempre fora descrente. 
Seus pais comentavam que ele parecia ateu. -- Como foi isso? -- Aconteceu no escritrio do Dantas. Ele  mestre nesse assunto. Em poucas palavras Mendes contou tudo. 
Andr interessou-se muito. Alm da vontade de descobrir mais sobre Nina e o filho, havia o caso de Milena. -- Foi bom saber disso, Dr. Dantas. Talvez possa orientar-me. 
H alguns dias conversei com Milena. Ela garante que  capaz de sentir o que as pessoas pensam, sentem. As vezes no consegue controlar as emoes e isso acaba criando 
caso com as pessoas. Pensei em telepatia. Acha que  possvel?

-- A telepatia  um fato comprovado. Mas o caso dela est me parecendo que vai alm disso. -- Como assim? -- Mediunidade. J ouviu falar nisso? -- J. Mas nunca 
imaginei que fosse o caso dela. -- E o que me parece. Mas para ter certeza precisaremos estudar melhor, conhecer mais sobre ela. -- Milena  tmida, instvel, vai 
da euforia  depresso com facilidade. Minha me no descuida, leva ao psiquiatra, mas eles no conseguiram cur-la. H temporadas que fica um pouco mais estvel, 
mas em outras piora. Ela me confessou que se esfora para controlar certas emoes mas no consegue. Acaba falando coisas a contragosto e envolvendo-se em situaes 
desagradveis. -- Ela precisa de ajuda espiritual e principalmente de compreenso. Seria bom que estudassem o assunto para poder auxili-la. -- Com Andria isso 
no ser fcil -- disse Mendes srio. -- E -- concordou Andr. -- Minha me no aceitaria essa possibilidade. J meu pai  mais compreensivo. O que nos aconselha, 
Dr. Dantas? -- Minha filha Marta tem muita sensibilidade. Ela v, sente e ouve os seres de outras dimenses do universo. Gostaria que Milena a conhecesse. Ela poderia 
melhor do que eu orientar o caso. -- Ela faria isso por ns? -- Claro, Andr. Fale com Milena. Se ela quiser, poder ir tomar um ch em casa. Tanto Mercedes como 
Marta tero muito prazer em receb-los. -- Obrigado, doutor. No sei se devemos aceitar. No desejo incomodar. -- Deve, sim -- interveio Mendes. -- Minha vida mudou 
depois da noite em que fornos l. Havia outro menino, filho da Dra. Nina, o Marcos, que tambm possui sensibilidade. No como Renato, mas Marta disse que tambm 
 mdium. Andr estremeceu e Dantas notou mas no disse nada. Sem notar a emoo de Andr, Mendes continuou: -- Marta  um encanto. Tem o dom de encantar a todos. 
Os meninos a adoraram. Tenho certeza de que vai ajudar sua irm. -- D. Altamira tambm j aceitou que Renato  mdium? Mendes riu bem-humorado: -- Ela est tentando. 
Lutando com a incredulidade. Por que ser que  to difcil para ns aceitarmos a vida aps a morte? -- Porque estamos vivendo dentro da matria, em um mundo onde 
parece que tudo tem comeo, meio e fim. J no universo, tudo  infinito -- considerou Dantas. -- Gostaria de ajudar Milena -- tornou Andr. -- Ela se isola com receio 
de ser inconveniente. Sempre que recebemos amigos, minha me faz tantas recomendaes que ela acaba fechando-se no quarto e no querendo ver ningum. Dantas tirou 
do bolso um carto e entregou-o a Andr dizendo: -- Convido vocs para irem  minha casa conversar. Eis o telefone. Pea a Milena para ligar e combinar com Marta. 
Se for  noite, estarei em casa e terei a maior satisfao em receber seus pais. Andr apanhou o carto, hesitou um pouco, depois disse: -- Agradeo o convite, mas 
por enquanto  melhor deixarmos meus pais fora disso. Eu irei com Milena. -- Como queira. Sinto que Milena est precisando de ajuda, por isso aconselho-o a ir o 
quanto antes. -- Poderei ir esta noite mesmo se no tiverem outro compromisso. -- Combinado. Estaremos esperando. Depois de haverem almoado, Andr se despediu. 
Ao deixar o restaurante no teve coragem de ir ao escritrio falar com Nina. Pensou que talvez fosse melhor aproximar-se do Dr. Dantas e de sua famlia.

Nina os estimava, freqentava-lhes a casa. Ele no tivera inteno de fazer isso, desejava sinceramente ajudar Milena, mas a situao o estava favorecendo e talvez 
esse fosse o melhor caminho para uma soluo pacfica. O Dr. Dantas voltou ao escritrio perguntando-se o que a vida desejava dele aproximando-o de Andr, que, alm 
de trabalhar para um concorrente, tinha um caso complicado com Nina. Ela estava intransigente. No queria de forma alguma que Andr se aproximasse de Marcos. Mas 
seria o melhor? Andr no tinha filhos e essa proximidade no iria trazer maiores problemas para seu casamento? Por outro lado, seria justo privar Marcos de relacionar-se 
com o pai? Quando Nina entrou em sua sala, ele disse: -- Hoje eu e o Mendes almoamos com Andr. -- Ele o foi procurar por minha causa? -- No, Foi ocasional. Fomos 
almoar e ele estava sem lugar. Mendes  muito amigo da famlia dele e o convidou para nossa mesa. Nina suspirou aliviada. Antnio continuou: -- Mendes mencionou 
Renato e seus problemas espirituais, e Andr interessou-se por causa de sua irm. Milena tem tido muitos problemas. Penso que  um caso de mediunidade. Convidei-o 
para lev-la a minha casa esta noite, conversar com Marta. Sinto que poder ajud-la. Ao deixar a sala do chefe, Nina firmava o propsito de espaar as visitas a 
Marta. No podia expor Marcos a um encontro casual com Andr. Estava escurecendo quando Andr foi para a casa dos pais. Andria, vendo-o, surpreendeu-se: -- Voc 
aqui a esta hora, aconteceu alguma coisa? -- Nada. Est tudo bem. Quero falar com Milena. Rapidamente, Andr subiu ao quarto da irm, sem dar tempo a que Andria 
o crivasse de perguntas. A porta estava fechada a chave e Andr bateu chamando: -- Milena, abre, sou eu. Ela abriu, ele a abraou e pediu: -- Feche a porta. Temos 
que conversar. Sentou-se ao lado dela no sof e contou-lhe a conversa que tivera com Dantas. -- Fiquei de lev-la l esta noite para conversarmos com Marta. Milena 
hesitou: -- No sei... Tem certeza de que eles podem me ajudar? -- Tudo indica que sim. O Dr. Mendes garante que  a pessoa certa. -- Como ele pode saber? Andr 
relatou o caso de Renato e finalizou: -- Ele disse que conseguiu entender o problema do filho e tudo melhorou. -- No sei se algum pode me ajudar. A vida inteira 
tenho sofrido e nunca ningum conseguiu. -- Mas devemos tentar. O Dr. Dantas  um homem muito srio e muito respeitado. Se ele garante que pode nos ajudar, vamos 
experimentar. No custa nada irmos l conversar um pouco. Ela pensou um pouco, depois decidiu: -- Est bem. Irei. -- Iremos depois do jantar. Virei busc-la. -- 
Por que no janta aqui? -- Est bem. Vou ligar para Janete. Milena pendurou-se no pescoo dele e deu-lhe um beijo na face: -- Obrigada por voc ter se interessado. 
Mesmo que no consiga nada, fico feliz com seu interesse. -- Voc vai ficar bem -- garantiu ele. -- Farei tudo para isso. Quando ele desceu, Andria o esperava curiosa. 
-- Vou ligar para Janete e avisar que ficarei aqui para o jantar. Papai ainda no chegou? -- Deve estar chegando. Por que no convida Janete para vir tambm?

-- Porque no vou demorar aqui. Depois do jantar vou sair com Milena. -- Com Milena? Aonde vo? -- Visitar um amigos meus. -- Por que isso? O que est tentando fazer? 
-- Milena precisa reagir, relacionar-se. E jovem, no pode ficar fechada em casa. -- Ela no sai porque no quer. Alis, eu vivo dizendo isso. Quem so esses amigos? 
-- Um advogado que tem uma filha da idade dela. -- Voc no precisa fazer isso. Vai se aborrecer. Ela vai dar o costumeiro vexame e envergonhar voc. Seria melhor 
no ir. -- Voc est pr-julgando. No faa isso. -- Se tivesse suportado o que j suportei com ela, no diria isso. Ela  imprevisvel. Milena estava na porta da 
sala e disse nervosa: -- E melhor no irmos mesmo. No quero dar nenhum vexame. Andr lanou um olhar irritado para Andria e abraou Milena, que estava com os olhos 
cheios de lgrimas. -- Nada disso. Vamos sair, sim. Faremos melhor. Est pronta? Ela concordou com a cabea. -- Nesse caso, vamos embora. Jantaremos em um restaurante. 
Conheo um lugar muito bom. Voc vai gostar. Antes que Andria sasse da surpresa, ele segurou a mo de Milena e levou-a embora. No carro, ele comentou: -- Voc 
no pode impressionar-se com o que mame diz. Ela no entende nada do que se passa com voc. -- Acontece que eu tenho mesmo criado problemas para ela. Sabe como 
. Mame gosta que tudo seja perfeito. Eu nunca consigo fazer as coisas do jeito que ela quer. As vezes eu at me esforo, mas, de repente, fao tudo ao contrrio. 
-- Vamos mudar de assunto, jantar em um lugar gostoso e depois iremos visitar a Marta. Vai dar tudo certo. Assim que Andr saiu, Andria ligou para Janete para contar-lhe 
a novidade. -- Ele saiu com ela e foram a um restaurante. Acredita nisso? -- Eu digo que Andr est diferente. O que ser que deu nele? Nunca se interessou pelos 
problemas da irm. --  esquisito mesmo. Ele no lhe disse nada sobre isso? -- Nada. Alis, nos ltimos tempos, quase no conversa comigo. Cheguei a pensar que havia 
outra mulher. Mas, depois do que me disse, comeo a acreditar que esteja com algum problema nervoso. Ele mudou muito. No parece o mesmo de antes. Talvez seja bom 
falar com o Dr. Romeu e sugerir que Andr procure um mdico para se tratar. -- Voc acha mesmo que ele precisa? -- No tenho outra explicao. Ele est muito nervoso, 
mudou de atitude comigo, no pra em casa, quando est fecha-se no quarto e no conversa. Alguma coisa muito sria est acontecendo com ele. -- Vou falar com Romeu. 
Vamos ver. -- Faa isso. Andr e Milena, sentados no restaurante, conversavam. Animada com o interesse do irmo, que a ouvia atencioso, ela falou de seus sentimentos, 
dos pensamentos que turbilhonavam sua mente, das emoes inexplicveis que muitas vezes no conseguia controlar. A medida que ela falava, Andr parecia estar vendo-a 
pela primeira vez. Da surpresa que ela sentia quando uma frase que dissera sem pensar acabava acontecendo, do medo, da insegurana que esses fatos lhe provocavam.

-- E a primeira vez que conto isso a algum. Voc deve estar me julgando desequilibrada. Eu at acho que sou. Mas, apesar disso, h momentos em que sinto dentro 
de mim uma clareza, uma lucidez, uma certeza muito grande de que tudo isso tem uma funo e um dia ainda vou descobrir qual. Nessa hora sinto muita paz e a sensao 
de que tudo est certo. -- E surpreendente. O Dr. Dantas me disse que Marta poder nos ajudar a entender esse processo. -- No vejo a hora de irmos at l. Andr 
olhou o relgio e respondeu: -- Est na hora de ir. Vamos pedir a conta. Meia hora depois, chegaram  casa de Dantas, que os recebeu com alegria. Pouco antes, Antnio 
conversara com Mercedes sobre a visita de Andr e finalizou: -- Estou me perguntando por que a vida nos aproximou de Andr. -- Ns nos conhecemos h tantos anos 
e nunca passamos dos cumprimentos formais. -- Do que se admira? A vida tem seu prprio caminho. Se nos aproximou deles, deve querer alguma coisa de ns. Vamos ficar 
atentos, fazer nosso melhor. Sinto que essa moa precisa de ajuda espiritual. -- Mas o que dir Nina quando souber? Ela ainda est muito magoada com Andr. -- Vamos 
fazer nossa parte e Deus far o que for melhor. Vendo-os entrar, Mercedes levantou-se para cumpriment-los, convidando-os a sentar-se. Marta entrou em seguida. Cumprimentou 
Andr, abraou Milena com carinho. -- Estou contente que tenha vindo disse sorrindo. -- Est mais do que na hora de cuidarmos da sua sensibilidade. Em seguida, Marta 
descreveu com naturalidade tudo que Milena sentia, repetindo, quase com as mesmas palavras, o que ela dissera ao irmo no restaurante meia hora atrs. Andr observava 
surpreendido, e Milena, olhos emocionados, sentia seu corpo tremer. Marta segurou a mo dela e tornou: -- Sente-se. No se preocupe. No vai acontecer nada. Feche 
os olhos e relaxe. Milena obedeceu e desandou a chorar. Um pranto sentido, longamente reprimido. Andr fez meno de interferir, mas Antnio fez-lhe sinal para que 
no o fizesse. Marta levantou as mos para o alto e pediu: -- Vamos orar em nossos coraes, em silncio. Depois, colocou as mos sobre a cabea de Milena, sem a 
tocar por alguns instantes, orando em silncio. Em seguida comeou a pass-las ao redor do corpo dela, como se estivesse arrancando alguma coisa e jogando fora. 
Por fim, levantou as mos novamente, passando-as da testa aos ps, voltando vrias vezes. Milena havia parado de chorar, apenas seu corpo estremecia de vez quando. 
Marta olhou-a e perguntou: -- Como se sente? -- Aliviada. Parece que saiu de mim um peso enorme. Andr, que no conseguira rezar, preocupado com os acontecimentos, 
no sabia o que dizer. Sentiu que alguma coisa sria estava acontecendo ali, mas no se atreveu a perguntar. Milena continuou: -- Estou envergonhada. No consegui 
conter o pranto. E a primeira vez que venho aqui. Por favor, me desculpem. Mercedes aproximou-se: -- No se sinta constrangida. Foi bom ter chorado. Voc deve ter 
vivido sob tenso durante muito tempo e era preciso jogar fora as energias reprimidas. Por isso sentiu alvio. -- Foi uma limpeza energtica -- disse Marta sorrindo. 
-- Meus amigos espirituais limparam sua aura e a revitalizaram. Vai sentir-se muito bem. -- Estou me sentindo bem. H momentos em que fico assim, mas depois tudo 
volta. Seus amigos podem me curar?

-- Voc no est doente -- respondeu Marta sorrindo. -- Eles apenas deram uma ajuda a fim de que voc aprenda a lidar melhor com sua sensibilidade. -- Quer dizer 
que minha vida ser sempre assim, com altos e baixos? -- Quer dizer que voc tem mediunidade e precisa aprender a lidar com ela. -- O que  mediunidade? -- E uma 
faculdade natural que todos possuem, em menor ou maior grau, e que lhe permite ver, sentir o que acontece alm dos cinco sentidos fsicos, penetrar em outras dimenses 
do universo, registrando o que se passa com os que vivem nesses mundos, principalmente os que j viveram aqui. -- E por isso que eu sinto e vejo coisas e pessoas 
que ningum v? -- E. Voc possui mais desenvolvido o sexto sentido. isso significa que voc, alm de no ser doente,  mais dotada que a maioria das pessoas. Voc 
consegue perceber o que elas no podem. -- Mas eu no quero. Tenho sofrido muito por causa disso. -- Voc sofre porque no sabe lidar com o que sente. Mas,  medida 
que estudar, conhecer as leis que regem a vida, saber cuidar melhor de sua sensibilidade. Desenvolver a intuio, saber escolher melhor seu caminho e poder ainda 
esclarecer aqueles que esto despertando para a espiritualidade. -- Mas continuarei vendo coisas desagradveis com as pessoas. -- Por certo. Mas saber que cada 
um vive o prprio processo de amadurecimento e com o tempo descobrir que a vida faz tudo certo. -- Muitas vezes senti vontade de prevenir as pessoas sobre os perigos 
que as envolvem, mas no tive coragem. Depois acontecem coisas ruins com elas e eu me arrependo. -- Nesses casos  preciso ter bom senso. No se pode dizer s pessoas 
tudo o que vemos com elas. Podem se impressionar e ficar mais vulnerveis. A arte de ajudar  muito difcil. -- Ento por que nos mostram o que vai acontecer de 
ruim? -- So raros os casos em que podemos intervir diretamente. Quase sempre, eles nos so mostrados para que possamos auxiliar orando e enviando sobre os envolvidos 
energias positivas. Quando um momento de dor se aproxima, na maioria dos casos est em circunstncias que o tomam inevitvel. Mas nossas energias iro fortalecer 
os envolvidos fazendo com que suportem com mais coragem aqueles momentos e no se demorem na depresso, aumentando o sofrimento. -- Tenho visto coisas muito tristes 
com certas pessoas. Algumas esto rodeadas por figuras assustadoras, e isso me faz muito mal. -- Eu sei. E bom saber que no existe vtima. Cada um atrai em sua 
vida as pessoas que se afinam com seu modo de ser. E assim em nossa sociedade. No colgio dava para perceber bem isso. Entre os alunos, os grupos se formavam entre 
os que tinham as mesmas preferncias. Milena sorriu: -- E verdade. Mas eu nunca me liguei a nenhum grupo. Minhas amizades eram apenas sociais. Nunca tive uma amiga 
ntima. Acho que no havia ningum como eu. -- Como pode saber? Nestes assuntos as pessoas tm medo de falar. O preconceito ainda  grande. Tenho certeza de que 
voc nunca contou o que sentia para ningum. -- E verdade. Eu tinha medo de ser ridicularizada. Fazia o maior esforo para que ningum notasse o que estava sentindo. 
Eu tinha horror de ir ao colgio por causa disso. Marta passou a mo nos cabelos de Milena dizendo sria: -- Est na hora de voc se libertar desses medos e descobrir 
como voc pode usar esses conhecimentos para melhorar sua vida e ser mais feliz. -- Voc acha que um dia aprenderei? Marta sorriu e considerou: -- Tem um moo alto, 
moreno, olhos cor de mel, trajando uma camisa verde-clara e cala marrom, que est me dizendo que depende s de voc. Ele j tentou lhe dizer muitas coisas, mas 
voc no acredita nele.

Milena levantou-se admirada: -- De fato, ele tem aparecido, tentado conversar, mas eu no lhe dou chance. Ento no  coisa da minha cabea, ele existe mesmo ! -- 
Claro que existe! Diz que deseja ajud-la. Sua vida vai mudar muito daqui para a frente. Sua maior fora est em ser verdadeira. Marta aproximou-se de Andr, olhou-o 
fixamente, embora seus olhos estivessem sem expresso, e continuou: -- Tenha pacincia. Seu arrependimento no vai trazer o passado de volta. No entre na revolta, 
no deixe que o orgulho dite suas atitudes. Para alcanar o que deseja, ter que agir com o corao. S o bem atrai o bem. Lembre-se disso. Marta sentou-se e disse 
com naturalidade: -- Mame, pode me dar um caf? Mercedes saiu da sala e o silncio se fez. Andr, surpreendido, no sabia o que dizer. As palavras de Marta, ditas 
com uma voz firme e mais grossa do que habitualmente tinha, sua conversa com Milena, o impressionaram muito. Olhou para Marta e perguntou: -- O que foi que disse? 
Ela olhou-o sorrindo: -- Eu disse alguma coisa? -- Disse... -- No me lembro. Antnio interveio: -- Quando algum fala atravs dela, como agora, quase sempre logo 
depois ela esquece. Mercedes voltou segurando uma xcara com caf e entregou-a a Milena. A criada mais atrs serviu os demais colocando uma bandeja com biscoitos 
sobre a mesinha ao alcance deles. Marta tomou o caf, enquanto Milena no quis. Estava ansiosa para continuar a conversar, queria saber mais. -- Sinto que h muitas 
perguntas em sua cabea. Vem, vamos  biblioteca. Desejo mostrar-lhe um livro. Depois que elas deixaram a sala, Andr considerou: -- No  s ela quem tem perguntas 
a fazer. O que aconteceu aqui hoje deixou-me perplexo. Quando estvamos vindo para c, Milena falou-me de suas dvidas, dos problemas que a vida toda tem enfrentado. 
Marta repetiu tudo, em alguns momentos at com as mesmas palavras, deu algumas respostas. D impresso que ela ouviu nossa conversa. -- Ela no, mas certamente o 
esprito que os acompanhava ouviu e inspirou as palavras dela. -- E incrvel... -- Mas tudo  natural. Para comear a estudar esses fatos, voc precisa saber que 
a sobrevivncia do esprito depois da morte do corpo, o fato de o esprito ir viver em outro mundo onde possui vida social, a reencarnao, a comunicao dos espritos 
so fenmenos da natureza. Nada  sobrenatural. O fato de muitos no conseguirem perceber essa realidade no significa que no exista. Apenas os que desenvolvem 
mais sensibilidade registram esses fatos. Nossos amigos espirituais dizem que com o tempo todos tero essa sensibilidade. O sexto sentido  um dom do ser humano 
que se manifesta conforme o momento da evoluo de cada um. -- Se tudo isso faz parte da vida, por que a cincia ainda no admite? -- A cincia deseja registrar 
elementos sutis atravs de aparelhos inadequados. Porm, quando conseguir melhorar os equipamentos, vo obter todas as comprovaes. Ento, vo criar uma nomenclatura 
sofisticada para eles e brigar pela paternidade da descoberta. Mas isso no importa. A vida tem como eliminar os abusos. Voc sabe que hoje a cincia humana vem 
se desenvolvendo vertiginosamente. J h quem tenha conseguido mensagens de pessoas mortas nos gravadores, e na Itlia h um pesquisador que procura fazer contato 
com os que partiram do mundo, atravs de um

aparelho de televiso. Ele obteve a apario da filha morta, e eu tenho essa pesquisa. Posso mostrar-lhe. -- Eu no sabia nada disso. Trata-se de um estudo srio. 
-- Serssimo. Quando esses fatos forem definitivamente provados, nossa sociedade se transformar. -- Por certo. A morte perder seu significado trgico. -- A violncia 
vai desaparecer. O crime mostrar sua inconvenincia. -- Como assim? -- Sabendo que apesar de matar o corpo, a pessoa continua vivendo em outro lugar e que poder 
at querer vingar-se, perseguindo seu assassino, interferindo em sua vida, o homem pensar melhor e procurar uma soluo menos drstica para resolver suas diferenas. 
-- Estou perplexo. Quem morreu pode mesmo interferir na vida das pessoas? -- Tanto para proteger como para perturbar. Depende das atitudes de cada um. -- Mesmo quando 
essa pessoa no tem muita sensibilidade? -- Mesmo assim. Claro que os mdiuns registram com mais facilidade essas presenas. Quanto aos outros que se julgam imunes 
a essas influncias ou mesmo que no acreditam nelas, registram cada um  sua maneira as energias dos espritos que os rodeiam. H os que sentem sintomas de doenas, 
dores, indisposies, vivem nos consultrios mdicos sem que eles consigam diagnosticar a causa, tornam-se hipocondracos. H os que tm pesadelos, insnia, mal-estar, 
pensamentos negativos, fecham-se no medo, acabam deprimidos e insatisfeitos. -- Eles podem intervir na vida das pessoas a esse nvel? -- Eles invadem a aura, que 
 a energia que cada pessoa irradia, e lanam nela seus pensamentos. Claro que cada pensamento emitido possui a energia equivalente. Se quem recebe acha que esse 
pensamento  seu, est aceitando essa influncia. -- Basta isso? -- Sim. H momentos em que passam pela nossa cabea os pensamentos mais estranhos. Sugestes desagradveis, 
medos, que provocam insegurana, depresso. Nesses momentos  preciso reagir, no os alimentar. Essa  a forma de impedir que espritos desequilibrados interfiram 
em nossa vida. -- E por isso que Milena apresenta tanta instabilidade emocional? -- Claro. Ela, alm de sentir, v pessoas, ouve o que dizem. Para quem no conhece 
a espiritualidade, pode ser assustador. Mas,  medida que ela aprende as leis de influncia, certamente conseguir lidar bem com a sua sensibilidade. -- E o que 
eu mais quero. Ela no usufruiu sua adolescncia nem sua mocidade. Quero estudar tudo isso e ajud-la a superar. Andr hesitou um pouco, depois continuou: -- H 
um outro assunto pessoal que eu gostaria de ouvir sua opinio. Mercedes levantou-se dizendo: -- Com licena, vou conversar um pouco com as meninas. Ela saiu da sala 
e Andr ficou calado durante alguns segundos pensativo. Depois disse: -- O que aconteceu aqui esta noite deixou-me muito sensibilizado. Confesso que a vontade de 
ajudar Milena veio no momento em que me dei conta de que tenho me omitido com relao a ela. Nunca procurei entender o que ela sentia, nem dar-lhe o carinho que 
ela merece. Estou arrependido. -- O apoio que est dando a ela  muito importante. Voc no sabia o que estava acontecendo. Tenho certeza de que seus pais tambm 
no fazem idia. -- Eles no acreditam em nada disso. Vou conversar com eles, mas no sei se conseguirei convenc-los. -- No se preocupe com eles por enquanto. 
A vida tem meios de cuidar de tudo melhor do que ns. Procure apoi-la e estudar melhor o assunto. Vamos confiar na vida. Tudo tem sua hora. -- E. De fato. Apoiar 
Milena, ouvi-Ia, tentar fazer alguma coisa, tem me feito muito bem. Contudo, h outro caso que me preocupa.  sobre isso que desejo ouvir sua opinio.

-- Fale. -- E sobre Nina. Ela lhe contou que nos conhecemos h muitos anos? -- Sim. Depois que voc esteve em nosso escritrio ela me contou tudo. At ento eu no 
sabia de nada. Andr passou a mo nos cabelos e suspirou triste: -- Esse  o pior remorso que me atormenta. Estou muito arrependido do que fiz. Primeiro porque Nina 
foi o grande amor de minha vida, depois porque me deixei levar pela ambio de minha me e fiz um casamento de convenincia. Meu casamento foi um erro. Minha mulher 
 muito diferente de mim, nunca fui feliz ao lado dela. Alm disso, tem horror a crianas e, embora no diga abertamente que no deseja filhos, faz tudo para evit-los. 
Andr fez uma pausa e vendo que Antnio o ouvia com ateno continuou: -- Eu me casei com Janete pensando que Nina me amava tanto que, apesar do casamento, nosso 
relacionamento continuaria. No tencionava deix-la. Quando voltei da lua-de-mel, descobri o quanto estava enganado. Hoje me envergonho dessa atitude. Nina desapareceu 
da minha vida sem deixar rastro. Desde esse dia nunca deixei de procur-la. Imaginava que ela, vendo-se abandonada, teria se livrado da gravidez. S poucos dias 
atrs, quando vocs ganharam aquela causa, foi que acabei descobrindo seu paradeiro e a existncia de Marcos. -- Um menino muito inteligente e bonito. -- Fui v-lo 
s escondidas na sada do colgio, Nina no me perdoa de jeito nenhum. Ela hoje est muito diferente da Nina que conheci. Era uma moa doce, alegre, carinhosa. Transformou-se 
em uma mulher fria, vingativa, dura. -- O medo dc sofrer cria uma couraa de defesa. Nina  uma mulher muito corajosa, sabe o que quer. Educa muito bem o filho. 
-- Ela no quer que eu me aproxime dele. Apesar do que fiz, Marcos  meu filho No pode me impedir de estar com ele. No vou aceitar isso nunca. Estou arrependido. 
Por que ela me nega o direito de corrigir meu erro e aliviar a conscincia? Andr calou-se tentando impedir que as lgrimas corressem pelo seu rosto. No conseguiu. 
-- O que pretende fazer? -- Reconhecer a paternidade. Dar meu nome a ele e ser um bom pai. E o que posso fazer agora. -- J pensou nas implicaes legais perante 
sua famlia? -- Sim. Mas isso no importa. Estou disposto a enfrentar todos os obstculos. Sinto-me tocado quando penso em meu filho. E um sentimento forte que grita 
dentro de mim. Nina no tem o direito de me impedir de estar com ele, ajud-lo a crescer e ser feliz. -- Voc est magoado com Nina. Mas tente compreender. Ela foi 
ferida em seus sentimentos. Foi trada, abandonada no momento em que mais precisava de apoio. No estou julgando voc. No tenho essa competncia. Entendo que quando 
somos jovens no sabemos bem lidar com nossos sentimentos. S quero que compreenda as razes dela. -- Sei que a magoei muito, mas estou arrependido e disposto a 
corrigir o erro. -- Voc n tem como. Para reconhecer seu filho ter que brigar com sua famlia. Talvez Nina no deseje passar por essa situao. -- Ela me odeia. 
Deseja vingar-se. Est usando Marcos para isso. -- No seja injusto. Nina  uma mulher valorosa, admirvel, criou seu filho sozinha, trabalhou, estudou,  uma vencedora. 
Eu a admiro e respeito muito. -- Estou desesperado. Desde que a encontrei no consigo dormir, trabalhar, no tenho paz. -- Lembre-se das palavras de Marta. No entre 
na revolta. "No deixe que o orgulho dite suas atitudes." Acalme-se. Se deseja se aproximar de Marcos, precisa ter pacincia, saber esperar. Apesar do que voc disse 
sobre Nina, eu afirmo que ela continua doce e bondosa. -- Como pode ter essa certeza? Quando fala comigo, noto o brilho de dio em seu olhar. -- Voc tambm est 
chocado com a descoberta. Tente se acalmar. No faa nada de que possa a vir a arrepender-se depois. Marcos  seu filho e esse fato tem muita fora. Se deseja corrigir 
seus

erros, o primeiro passo  entender. As mulheres so mais sensveis do que ns, do grande importncia aos sentimentos. Ela o amou muito, entregou-se a voc com toda 
a fora do seu afeto. Sua atitude a feriu profundamente. Conheo Nina, tem um senso tico muito atuante. Seu erro foi pensar que ela pudesse aceitar ser sua amante 
depois que estivesse casado. -- Reconheo isso. Estou arrependido. Mas ela me nega o direito de corrigir meu erro. -- Durante anos ela lutou para criar o filho sem 
pai. Pode imaginar o esforo que precisou fazer? Os momentos difceis que precisou suportar? -- Se ela houvesse me procurado, eu a teria ajudado. No precisaria 
sofrer nada disso. -- Ela mesma me disse que aceitou a separao e tratou de deixar seu caminho livre. Penso que nas circunstncias foi o melhor que poderia fazer. 
Alis, admiro-a por isso. Voc  um homem rico. Outras o teriam importunado, reclamado, procurado tirar partido. Foi nobre da parte dela. -- Isso aumenta meu remorso 
e faz-me sentir mais canalha. -- A bem da verdade devo dizer que Nina, depois que se separou de voc, nunca mais teve ningum. Voc sabe como , uma mulher jovem, 
bonita, culta como ela,  muito assediada. Sei de alguns que dariam tudo para que ela os aceitasse. Mas Nina trancou o corao e s pensa no filho e no trabalho. 
Andr suspirou inquieto e respondeu: -- Mas o pior  que eu ainda a amo muito. Nestes anos todos nunca deixei de am-la. Se ela me quisesse, eu largaria tudo. Bastaria 
uma palavra dela. Antnio olhou-o srio e arriscou: -- Ser que voc no est dizendo isso apenas porque ela tornou-se uma conquista difcil ou porque seu casamento 
no est sendo satisfatrio? Andr sacudiu a cabea energicamente: -- No. Claro que depois que a perdi foi que pude avaliar o quanto a amava. Mas desde ento a 
tenho procurado. Quantas vezes pareceu-- me v-la em outras mulheres e quando me aproximava percebia que estava enganado? Se ela sofreu, eu tambm sofri. Paguei 
caro pelo meu erro. Um casamento errado j no  castigo bastante? -- Pode ser. Mas foi uma escolha sua. -- No sei o que fazer. Estou inquieto, triste, sem rumo. 
-- Nesse caso no faa nada. E arriscado tomar qualquer deciso nesse estado. Acalme-se. Deixe a poeira assentar. Nesse meio tempo Nina vai pensar melhor. -- Desculpe 
o desabafo. E que esta noite tudo me parece diferente. No saberia explicar. -- Quando a espiritualidade toca nossa alma, tudo se transforma. E preciso lembrar que 
no estamos ss. Ao nosso redor esto espritos amigos, dispostos a nus ajudar a encontrar um caminho melhor. Eu costumo conversar com eles, agradecer o apoio e 
pedir ajuda. Sei que jamais apontam o que devo fazer porque no interferem em meu livre-arbtrio, mas me inspiram bons pensamentos, aclaram minhas idias e assim 
tenho condies de decidir melhor. -- Apesar dos meus erros, ser que me ouviro? -- Eles nunca julgam nem criticam ningum. S esclarecem. Tente e ver. -- E o 
que farei. Mercedes entrou na sala acompanhada das duas moas e Andr levantou-se dizendo: -- Est na hora de irmos. -- J? -- indagou Milena. -- E tarde. No devemos 
abusar. -- Fiquem  vontade. -- interveio Mercedes sorrindo. -- Desculpe -- respondeu Milena. -- Andr tem razo, E que nunca me senti to bem em um lugar Marta 
segurou a mo de Milena dizendo: -- Por que esto com tanta pressa? Agora que encontrei uma amiga, no desejo que v embora. -- Fico contente por vocs -- disse 
Mercedes. E voltando-se para Andr concluiu:-- De fato, Marta nunca teve uma amiga ntima. Estou feliz que tenham se encontrado.

-- Obrigada por me dizer isso -- respondeu Milena. -- Voltaremos outro dia -- disse Andr. -- Agora precisamos ir. Despediram-se carinhosamente e depois que os dois 
se foram Marta comentou: -- Milena no se recorda, mas ns somos amigas h muito tempo. Como  bom t-la a meu lado! Quando se viu a ss com o marido, Mercedes tornou: 
-- Marta est feliz. Andr falou sobre Nina? -- Sim. Vou lhe contar tudo. Depois de ouvir a narrativa do marido, Mercedes concluiu: -- Apesar do que Nina nos disse, 
Andr no me parece ser mau. De fato, Demonstra bons sentimentos. Quando se relacionou com Nina, era muito jovem. Depois, estava sob influncia de Andria, e voc 
sabe como ela . -- Por outro lado, Nina nunca poderia aceitar o que ele lhe props. -- Concordo. Mas acredito que se ele soubesse a verdade teria assumido o filho. 
Mercedes ficou pensativa por alguns instantes, depois disse: -- Nina entregou-se a ele por amor. Esse filho representava para ela um prmio. O fato de Andr haver 
sugerido o aborto a magoou muito e significou que ele no a amava como pensava. Por isso no acredita no arrependimento dele. -- De certa forma ela tem razo. Mas 
Andr  pai do Marcos. Essa verdade no pode ser negada. Ele tem direito sobre o menino. -- Direito legal, voc quer dizer. No podemos esquecer que existem leis. 
Ele garante que vai reconhecer o menino e tem o amparo da lei. -- Ser que ele vai fazer isso mesmo? -- Ele garante que vai. Aconselhei-o a ter pacincia, tentar 
resolver amigavelmente. Janete far um escndalo quando souber. -- Andria tambm. As duas vo unir-se contra Nina. -- Temos que confiar na ajuda espiritual. Depois 
de tantos anos eles se reencontraram e fico me perguntando, o que ser que a vida pretende com isso? -- S Deus sabe. Ns vamos rezar por eles e confiar na sabedoria 
da vida.

 partir daquela noite, Milena e Andr passaram a freqentar as reunies espritas na casa do Dr. Dantas todas as quartas-feiras. Nesses dias, no fim da tarde, Andr 
passava na casa dos pais e saa com Milena, s regressando depois da meia-noite. Eles no haviam dito nada aos pais, e Andria, intrigada, assim que saam ligava 
para Janete: -- O que ser que est acontecendo? Andr lhe disse aonde vo? -- Nem uma palavra. Quando pergunto, diz que Milena  jovem e precisa passear um pouco. 
-- A tem coisa! Ele nunca se preocupou com as depresses de Milena. O estranho  que s saem s quartas-feiras s sete e meia. -- De fato,  estranho. -- Ele vem 
aqui, sobe no quarto de Milena e ficam horas conversando. Quando eu chego, param. -- Se no fosse com ela, eu ficaria com cime, Andr mudou muito. Tem sado quase 
todas as noites. Nas noites em que fica em casa, tranca-se no escritrio, lendo at tarde. -- Vai ver que est trabalhando em algum caso difcil. -- No sei. Ele 
no comenta nada. Parecemos dois estranhos vivendo na mesma casa. J tentou falar com Milena, perguntar aonde vo? -- J. Mas ela desconversa. Voc sabe como ela 
. O que me intriga  que Milena tambm est diferente: se arruma melhor, vai ao salo de beleza, Comprou discos e fica ouvindo msica. Ontem a surpreendi cantando. 
Imagine! -- Estou abismada! J Andr anda srio, triste, no ternos ido a lugar algum, aceitado nenhum convite nem convidado, ningum, para nossa casa. Nossos amigos 
perguntam se ele est doente, se brigamos, se nosso casamento vai mal. Estou envergonhada! No sei mais o que lhes dizer. -- Tenho pedido a Romeu que converse com 
ele, procure saber o que est acontecendo. Ele tentou duas vezes, mas Andr no conta nada. Diz que est tudo bem e ele no deve preocupar-se. Romeu  comodista, 
voc sabe, alega que Milena est melhor, mais alegre. Fica satisfeito por Andr lev-la para passear. -- Posso pedir ajuda de papai, mas no sei se isso ser bom. 
Do jeito que as coisas esto, Andr pode zangar-se. Ele anda muito nervoso, fica irritado quando papai o procura para falar sobre nosso relacionamento. -- Nesse 
caso  melhor no envolver seu pai. Vamos tentar descobrir. -- Como? -- Podemos contratar um bom profissional. -- Um detetive particular? Acho perigoso. -- Minha 
amiga Dalva conhece um de confiana. Cuidou do caso dela, em pouco tempo descobriu tudo. Ela ficou muito satisfeita com o trabalho dele. -- Nesse caso, podemos experimentar. 
-- Deixe comigo. Hoje mesmo irei visit-la e obter o endereo.

-- Fico muito agradecida. Sinto que meu casamento est por um fio. Apesar do que me disse, pode haver outra mulher. -- No creio. Voc est exagerando. Se houvesse 
outra mulher, ele no sairia com Milena. -- Acontece que Andr mal fala comigo. No tem me procurado. -- Ele deve estar preocupado com trabalho. Por que no tenta 
uma aproximao? Tenho certeza de que sabe como fazer isso! -- Acha que no tentei? Comprei roupas, fiz tratamento de beleza, mudei o perfume, mas ele nem nota. 
E como se eu no existisse. Andria suspirou preocupada. -- O caso  pior do que eu pensava. No acha que est na hora de ter um filho? Tenho certeza de que ele 
mudaria com voc. A rotina do casamento acaba com o romantismo, mas um filho pode reacender o interesse. Janete no concordava, mas no quis irritar a sogra. -- 
, tenho pensado nisso. Eu quero ter um filho, mas no vem, no sei por qu. -- Talvez precise consultar outros especialistas. Posso ajud-la nisso, se desejar. 
-- No sei como agradecer seu interesse. Antes de qualquer providncia nesse sentido, preciso saber o que est acontecendo. -- Est certo. Hoje mesmo lhe darei o 
endereo. Janete desligou pensativa. Precisava fazer alguma coisa. No podia continuar saindo sozinha ou ficar fechada em casa enquanto Andr saa com Milena. A 
sonsa de sua cunhada bem poderia estar acobertando alguma amiga. O intrigante era saber que Milena no tinha amigas. No adiantava ficar tentando descobrir. Contratar 
um detetive fora uma boa idia. Naquela mesma tarde, Nina levou alguns documentos para o Dr. Dantas assinar. Depois de ler e assin-los, ele os devolveu. Ela ia 
sair, mas ele olhou-a nos olhos dizendo: -- Nina, aconteceu alguma coisa em minha casa que a desagradou? Apanhada de surpresa, ela corou e apressou-se a responder: 
-- No. Por que pergunta isso? -- Voc no tem aparecido por l como antes. Mercedes acha que aconteceu alguma coisa que a aborreceu. -- No aconteceu nada. -- Marta 
acha que voc ficou assustada por ela ter dito que Marcos tem mediunidade. -- De fato, isso me assusta um pouco. Ainda no sei bem o que  isso. Acho cedo para ele 
se preocupar com a vida aps a morte. -- Nesse caso, poderia nos ter dito. Marta falou o que pensava, mas ela sabe respeitar sua vontade. No precisava ter se afastado. 
Todos gostamos muito de vocs e ternos sentido sua falta. -- Desculpe, doutor. Fiquei muito assustada com o que aconteceu aqui. Depois, o pesadelo com Antnia foi 
horrvel. Fiquei com medo. -- Fugir no vai adiantar. Ela est querendo se comunicar. Precisa de ajuda. -- Eu no tenho como fazer isso. Nem sei o que farei se sonhar 
com ela de novo. -- Se acontecer, lembre-se de perguntar o que ela quer. -- Vou rezar para ela me deixar em paz. -- Tem outra coisa que desejo dizer-lhe. E sobre 
Milena. -- A irm de Andr? -- Sim. Ela sempre foi uma menina problemtica. Fez tratamento psiquitrico. -- Eu sei. Andr comentava comigo que ela era doente. -- 
Naquele dia em que eu e Mendes almoamos com Andr, pedi-- lhe que levasse Milena a minha casa e, de fato, tratava-se de um caso de mediunidade, -- Ela tambm?

-- O interessante  que as duas se entenderam, porquanto Marta descreveu o esprito que Milena tambm v e ela ficou aliviada por descobrir que no era doente. Tornou-se 
animada, alegre, falante, o que despertou o interesse de Andr pela espiritualidade. Eles esto freqentando nossas sesses s quartas-feiras. Ainda bem que me afastei. 
Seria embaraoso nos encontrarmos em sua casa. -- Se no deseja v-lo, basta no ir no dia em que eles vo. No precisa afastar-se de uma vez. -- Ser melhor. Ele 
pode aparecer de surpresa. -- No tem o que temer. Vocs j conversaram. -- E. Mas, mesmo assim, no desejo que ele se aproxime de Marcos. -- Ele conversou comigo 
sobre vocs. -- Vai ver que ele foi  sua casa s por isso, para tentar convenclo a interceder, -- No seja injusta, Nina. Voc me conhece, sabe que eu nem ningum 
de minha famlia se prestaria a isso. -- Desculpe, doutor. E que esse assunto me tira do srio. -- Nesse caso, no falaremos mais nisso. -- E melhor mesmo. Nina 
foi para sua sala, sentou-se, apanhou alguns papis mas no conseguiu trabalhar. Sentia-se nervosa, irritada, O fato de Andr haver se aproximado dos seus amigos 
mais queridos a incomodava. Certamente ele fora fazer-se de vtima, sendo que ele era o nico culpado do afastamento. Depois de tudo quanto ela sofrera arcando sozinha 
com as conseqncias daquele relacionamento, ele aparecia querendo roubar-lhe o filho. Era demais. No fim da tarde, quando entrou novamente na sala do Dr. Dantas, 
ele apanhou os papis que ela lhe entregou para assinar, colocou-os sobre a mesa e fixando seus olhos disse: -- Nossa conversa deixou-a nervosa. -- Foi s na hora, 
j passou. -- No  verdade. Est agitada, abatida. Sente-se, vamos conversar. -- O senhor est enganado. No vamos voltar ao assunto. -- E preciso, Nina. Sente-se, 
por favor. Ela obedeceu tentando conter as lgrimas que estavam prestes a cair. -- Acalme-se. Vamos analisar os fatos. Tanto eu como minha famlia nunca nos aproximamos 
de Andr, embora freqentemos a mesma roda de pessoas e tenhamos amigos comuns. De repente, nos encontramos naquele restaurante, atravs do Mendes, ele relata o 
problema de Milena. Voc sabe que trabalhamos com os nossos amigos espirituais e temos o hbito de esclarecer as pessoas sobre espiritualidade. Sempre com a finalidade 
de auxiliar. -- Eu sei, doutor. -- Senti de imediato que ela precisava de ajuda e ofereci os recursos de que disponho para isso. Tudo ficou claro quando eles foram 
 minha casa. Ns teramos feito isso com qualquer pessoa que nos procurasse nas mesmas condies. -- Eu sei, doutor. No os estou criticando. Ao contrrio. Fico 
contente que Milena se recupere. -- Tenho certeza disso, sei que tem bons sentimentos. Mas quero chamar sua ateno para os sinais que a vida est dando de que chegou 
a hora de encarar a situao e resolv-la. -- Tudo ficou resolvido quando Andr decidiu casar-se com outra. -- Engana-se. Ele estava iludido e voc tambm. A situao 
de vocs nunca foi resolvida. -- E um mal sem remdio. Nunca vou esquecer o abandono, o descaso aos meus mais puros sentimentos. Agora ele aparece e diz que se arrependeu. 
Mas no h nada que se possa fazer. -- Voc nunca o procurou para dizer-lhe que tinham um filho. -- Ele sabia que eu estava grvida e que jamais faria um aborto.

-- No quero entrar no mrito de nenhum dos dois. O que estou observando, e isso desejo esclarecer para seu prprio bem,  que ele fez um casamento errado quando 
se deixou persuadir pela famlia a casar por convenincia e hoje est sofrendo os resultados disso. -- Foi ele quem disse isso para o senhor? -- No. H alguns comentrios 
em sociedade e Mercedes ficou sabendo. Inclusive, parece que Andr deseja muito ter filhos mas ela no quer. -- Bem feito. Ele no merece mesmo ser pai. -- No seja 
maldosa, Nina. Isso no combina com voc. -- Desculpe, doutor. Quando se trata de Andr, perco o controle. -- A ferida que h em seu corao ainda est aberta. Voc 
continua sofrendo pelo amor que sentia por ele. -- H muito tempo que esse amor morreu. S ficou a raiva. -- E hora de perdoar, Nina. Esquecer. Voc  jovem, tem 
uma vida toda pela frente. Enquanto guardar essa mgoa no corao no poder ser feliz. -- No consigo, doutor. E essa raiva que tem me impulsionado para a frente, 
 a vontade de provar a ele que sou inteligente, capaz, forte. Que posso conduzir minha vida e a de meu filho oferecendo a ele tudo que Andr nos negou. -- Isso 
 orgulho ferido, Nina. Machuca voc e tira do seu caminho o verdadeiro prazer da realizao. Faz voc desejar sempre mais, e  o que a est impedindo de compreender 
melhor o passado. De notar que Andr  apenas um homem, com lados positivos e pontos fracos. -- Eu me entreguei a esse amor de peito aberto. Pensei que ele houvesse 
feito o mesmo. Mas estava enganada. -- Estava apaixonada. No estou querendo defender as atitudes dele. Apesar de tudo, ele a amava. -- No creio. Amor no  isso. 
-- Talvez no. Mas ele era jovem, foi fraco, deixou-se conduzir pelas ambies da me. Eu a conheo, sei o quanto valoriza a posio social. -- Pois agora ele que 
fique com a famlia que tem. -- O que estou tentando dizer  que a vida os est aproximando de ns. Alguma coisa boa ela pretende com isso. Nina suspirou: -- O que 
o faz pensar isso? Nada de bom pode vir deles. -- Talvez seja para voc limpar seu corao e passar a viver plenamente sua vida, o que voc no tem feito desde que 
se separaram. Pense nisso, Nina. No vou dizer mais nada. S lembrar que ns gostarnos muito de voc e de Marcos e no vamos nos conformar com seu afastamento de 
nossa casa. No pode nos castigar s porque estamos auxiliando Milena. Nina levantou-se e sorriu. Sua inquietao havia passado. Sentia-- se mais calma. -- Eu tambm 
sinto falta de vocs. -- Aparea sbado l em casa. Andr s vai s quartas-feiras. -- Est bem, irei. Depois que ela deixou a sala, Antnio ligou para Mercedes: 
-- Conversei com Nina e ela ficou de ir a nossa casa no prximo sbado. -- Que bom. Como ela est? -- Magoada, triste. Parece que o tempo no passou. Ela continua 
sofrendo como no primeiro dia. Pobre Nina. Vamos nos esforar para alegr-la. -- O crculo est se fechando, mas  preciso dar tempo. Tudo vai acontecer no momento 
certo. -- Eu sei. S nos resta rezar e esperar. Nina voltou a sua sala pensativa. As palavras do Dr. Dantas voltavam  sua mente: "A vida os est aproximando de 
ns, alguma coisa boa ela pretende."

No podia concordar com isso. A famlia de Andr era esnobe, nunca veria com bons olhos um filho de Andr fora do casamento, mesmo que ela agora desfrutasse posio 
melhor. Embora Andr afirmasse estar arrependido, era igual a eles, casara-se por ambio. A influncia deles seria perniciosa para Marcos. Depois, ele pensava que 
o pai havia morrido. Havia se conformado com isso. No demonstrava sentir falta. Saber que ela havia mentido, que o pai o havia desprezado, no seria despertar a 
revolta em seu corao? No. O Dr. Dantas estava errado. Nada de bom poderia vir da proximidade daquela famlia. Eles iriam odiar. Fariam escndalo. Marcos sofreria. 
Ela no poderia permitir. Talvez fosse melhor mesmo evitar a casa do Dr. Dantas. Iria l no sbado, colocaria seu ponto de vista, eles haveriam de entender. Tendo 
decidido isso, tentou trabalhar, mas no conseguiu prestar ateno ao contrato que estava lendo. Insistiu. Leu vrias vezes, mas pareceu-lhe confuso. Deixou-o de 
lado, passou a mo nos cabelos, suspirou triste. Por que tinha que ser assim? Por que a vida queria tirar-lhe os nicos amigos que possua? Essa era a verdade. Se 
a vida havia aproximado Andr e Milena de seus amigos, era para afast-la deles, uma vez que ela no aceitava essa convivncia com Marcos. A presena freqente de 
Andr na casa do Dr. Dantas a estava privando da alegria de conviver com esses amigos. Isso no era justo. Andr escolhera o prprio caminho. Tinha vida social intensa. 
Muitos amigos. Nunca havia se aproximado do Dr. Dantas. O problema de Milena no havia sido um pretexto para chegar at Marcos? Uma onda de revolta a envolveu. Andr 
no tinha esse direito. O Dr. Dantas havia se interessado por ela, ajudara-a profissionalmente, abrira as portas de sua casa, onde ela e Marcos foram recebidos com 
carinho. Marcos adorava visit-los. Ele havia lhe tirado tudo. No lhe bastara deixla abandonada nos momentos mais difceis de sua vida?No fora o bastante ter 
negado a Marcos o direito de viver? A cabea lhe doa e Nina decidiu sair, dar uma volta. Apanhou a bolsa, avisou a secretria que no estava se sentindo bem e s 
voltaria no dia seguinte. Uma vez na rua, no foi apanhar o carro no estacionamento. Resolveu dar uma volta pela cidade. Entrou em uma farmcia, comprou comprimidos 
para a dor de cabea, pediu um copo de gua e ingeriu um. Depois caminhou pelas ruas, olhando as vitrines procurando distrair-se. Viu um vestido bonito, elegante 
e pensou: -- H quanto tempo no vou a uma festa? Pensou em compr-lo, mas desistiu. No teria onde us-lo. Esse pensamento a deixou irritada. Em um ponto o Dr. 
Dantas estava certo. Desde que Andr a deixara ela perdera o prazer de viver, s pensara em estudar, subir na vida, conquistar nome e posio. Onde estava a moa 
alegre e sonhadora de outros tempos, que adorava cantar, danar, ir a festas? As palavras do Dr. Dantas voltaram-lhe  mente: "Talvez seja para voc voltar a viver 
plenamente, coisa que no tem feito desde que se separaram." Ele tinha razo quanto a isso. Reconhecia que a falta de dinheiro a limitara, mas agora estava ganhando 
bem, podia fazer amigos, ter vida social, comprar boas roupas, divertir-se. Resolveu voltar e entrar na loja para experimentar o vestido, Enquanto esperava a vendedora 
ir buscar seu nmero para provar, ela viu uma senhora sair do provador. Reconheceu-a de imediato. Era Olvia, tia de Antnia. Olvia olhou de volta e no vendo a 
vendedora aproximou-se de Nina e falou: -- Voc tambm trabalha aqui? -- No. Estou comprando um vestido. -- Desculpe. Como no vi a vendedora... A moa apareceu 
com o vestido para Nina, que o apanhou para ir ao provador. Olvia olhou-a sria e perguntou:

-- Voc no era colega de Antnia? Nina notou pelo tom de sua voz que ela estranhava o fato de estar em uma loja fina comprando um vestido caro. Sentiu-se feliz 
de poder responder  altura: -- Sim. Alm de colega fui amiga dela. Lamento no ter podido impedi-la de fazer o que fez. Permita que me apresente. Apanhou um carto 
e entregou-o a ela, que leu: Dra. Nina Braga -- Advogada. -- Prazer. No sabia sua posio. A senhora vai dar-me licena. Vou provar o vestido. Se precisar de alguma 
coisa, estamos  sua disposio em nosso escritrio. Nina entrou no provador e Olvia ficou olhando para o carto pensativa. Talvez precisasse mesmo consultar um 
advogado. No poderia falar com os amigos do marido. Alm de tudo, uma mulher seria conveniente. -- A senhora gostou da blusa? -- indagou a vendedora, solcita. 
-- A cor no ficou bem em mim. -- Ternos outras cores, outros modelos. -- Tenho que ir. Estou atrasada para um compromisso. Na prxima semana voltarei. Obrigada. 
Ela se foi e a vendedora esperou que Nina sasse do provador. Ela apareceu em seguida, rosto corado e sorrindo: -- Ficou timo. Vou levar este. Nina pagou, apanhou 
a sacola com o vestido e decidiu comprar complementos para ele. Percorrendo as lojas, comprou uma bolsa e sapatos combinando. Quando voltou ao estacionamento para 
apanhar o carro, sua dor de cabea havia passado. Satisfeita, foi para casa. Vendo-a entrar, Marcos correu a abra-la: -- Veio cedo, que bom. Talvez possa me ajudar 
a entender um texto que preciso analisar. -- Faremos isso mais tarde. Tenho outras coisas para fazer agora. Segurando as sacolas das compras, foi para o quarto. 
Colocou tudo sobre a cama, olhando com satisfao. Depois abriu o guarda-roupas e fez espao para guard-las. Depois de guardar tudo, sentou-se pensativa. Talvez 
tivesse se precipitado comprando um vestido de festa. Era verdade que ela deixara de tudo depois que se separara de Andr. Mesmo depois que Marcos nasceu, o dinheiro 
era pouco e o tempo tambm. Sua situao de me solteira a tornara retrada, sem vontade de ter amigas que pudessem intervir em sua vida pessoal. Tinha planos e 
no podia desviar a ateno de seus objetivos. Mas, mesmo agora, depois que conquistara uma situao financeira estvel, no desejava freqentar festas, manter vida 
social. No pensava em encontrar um novo amor, casar-se. Uma desiluso fora o bastante para saber que no podia confiar em algum. Ir a certos lugares era atrair 
admiradores, o que considerava desagradvel. Notava o interesse masculino onde passava, e por vrias vezes fora difcil afastar os insistentes e convenc-los de 
que no estava interessada em namorar. Olhou o vestido com certa tristeza e pensou: -- Vai ficar guardado. Qualquer dia destes pode aparecer ocasio para us-lo. 
Fechou o guarda-roupas e resolveu no pensar mais nisso. Desceu e foi ter com Marcos, disposta a ajud-lo nos deveres escolares. Na manh seguinte, chegou cedo ao 
escritrio. Sentia-se melhor e estava disposta a recuperar o tempo perdido no dia anterior. Mergulhou no trabalho. Uma hora depois, Lcia entrou na sala dizendo: 
-- H uma senhora ao telefone que insiste em falar com voc pessoalmente. Tentei saber o assunto, mas ela disse que  particular. -- Perguntou o nome? -- E D. Olvia 
Fontoura, disse que voc a conhece. Nina surpreendeu-se.

-- Pode passar. Eu atendo. Quando o telefone tocou, Nina atendeu prontamente: -- Al, D. Olvia? -- Como vai, doutora? -- Bem, obrigada. Em que posso ser-lhe til? 
-- Desejo marcar uma hora com voc para uma consulta profissional. Se possvel para hoje mesmo. -- Preciso ver a agenda, aguarde um momento, por favor. Apertou o 
interfone, Lcia atendeu. No havia nada importante marcado para aquela tarde. -- Pronto, D. Olvia, poderei atend-la hoje s dezesseis horas. Est bem? -- Combinado. 
Estarei a. Nina desligou e imediatamente foi  sala do Dr. Dantas. Bateu levemente e entrou. Ele levantou a cabea e sorriu: -- Hoje voc est com bom aspecto. 
O descanso fez-lhe bem. -- Sinto-me melhor, obrigada. Lembra-se da tia de Antnia, Olvia Fontoura? -- Aquela mulher desagradvel? -- Ela mesma. Ontem quando sa 
daqui estava com muita dor de cabea e fui andar um pouco, tornei um comprimido e fui olhar as vitrines. Entrei em uma loja para ver um vestido e encontrei com D. 
Olvia. A loja era de grife, roupas finas, e ela pensou que eu trabalhasse l. Desfiz o engano e me apresentei, oferecendo-lhe um carto. -- Fez muito bem. -- Esqueci 
o encontro, mas agora h pouco ela ligou querendo uma consulta com urgncia. Como no tinha nada para esta tarde, marquei para as dezesseis horas. O que ser que 
ela quer? -- Alguma orientao. Com aquele jeito de olhar os outros por cima, pode bem ter arranjado alguma encrenca na justia. -- O senhor quer atend-la? -- De 
modo algum. Poupe-me esse trabalho. Afinal ela procurou voc. -- Est certo. Vamos ver o que ela deseja. Acha que teria alguma coisa a ver com Antnia? Ele meneou 
a cabea pensativo durante alguns instantes. Depois disse: -- Talvez no. Elas viviam separadas e no se davam bem. -- Tem razo. Logo mais saberemos. As dezesseis 
horas em ponto, Olvia foi conduzida  sala de Nina, que a recebeu educadamente. Depois dos cumprimentos, Nina pediu que se sentasse na poltrona em frente  sua 
mesa, sentandose por sua vez. Esperou que ela falasse. -- Foi bom t-la encontrado ontem. Eu estava precisando muito de um profissional e preferia que fosse uma 
mulher. -- Continue, por favor. -- H certas coisas que s a sensibilidade feminina pode entender. O que vou lhe contar  um segredo e espero que fique entre ns. 
-- O sigilo faz parte do nosso trabalho. Pode falar. -- Bernardete, nica irm de meu marido, deu um mau passo na juventude. Fugiu de casa com um jovem estudante 
de engenharia. Os pais proibiram o namoro por tratar-se de um rapaz sem futuro, que trabalhava para custear os estudos, o que fazia com dificuldade. Eles descobriram 
que ela o ajudava a pagar a faculdade. -- Bernardete? No era a me de Antnia? -- Sim, Bernardete  me de Antnia. Foi um escndalo abafado a custo. Eles no chegaram 
a se casar. Ernesto morreu em um acidente, deixando Bernardete grvida. Ela procurou os pais, quis voltar para casa, mas, quando souberam da gravidez, no a quiseram 
de volta. Nina recordou-se do seu prprio caso e suspirou triste. Procurou controlar a emoo. -- Continue, por favor.

-- Os pais dela insistiram com ela para que fizesse o aborto como condio para voltar para casa, porm ela recusou-se terminantemente. Como a famlia no voltou 
atrs, ela foi embora. Durante quatorze anos, no ouvimos mais falar dela. Uma noite, Artur chegou em casa abatido, nervoso. -- O que aconteceu? -- perguntei. -- 
Foi a Bemardete. Acaba de falecer. -- Como soube? -- Ela estava doente havia algum tempo. Eu fiz o que podia, mas no conseguimos salv-la. -- Fiquei irritada. Percebi 
logo que Artur a havia ajudado todos esses anos s escondidas de todos ns, da famlia, Ento eu disse: -- Voc sabia onde ela estava e nunca me disse nada? O que 
mais voc faz s escondidas, como um ladro? Nina controlou-se para no dizer o que estava pensando da atitude dela. Na profisso sabia que no podia emocionar-se, 
fosse o que fosse que o cliente dissesse. -- Prossiga. -- Discutimos. Foi terrvel. Mas no  sobre isso que vim falar. O pior aconteceu depois. Ele insistiu para 
que eu fosse ao enterro, e l apresentou-me: -- Esta  minha sobrinha Antnia. -- Ela chorava muito e ele a abraou dizendo-lhe palavras carinhosas. Percebi logo 
que eles tinham intimidade. Ficou claro que Artur costumava visit-las. Depois do enterro, ele mandou-a arrumar suas coisas e levou-a para nossa casa. Eu pressenti 
que no ia dar certo. Mas ele no permitiu que eu interferisse. Nina interveio: -- E uma histria triste. -- Conforme eu previa, desde que chegou, Antnia s me 
deu trabalho. Tinha hbitos diferentes dos nossos. Eu no gostava que ela aparecesse quando recebia nossos amigos. Como explicar sua origem? Como dizer que ela era 
filha bastarda de Bemardete? Mas Artur sempre foi condescendente demais. Tratava-a como uma princesa, isso eu no podia tolerar. Ela foi causa de todos os desentendimentos 
que tive com Artur, Ficou quatro anos em nossa casa. At que um dia ela conseguiu um emprego e resolveu sair de casa. Arranjou uma vaga em uma penso. Fiquei aliviada. 
Mas uma noite, trs anos depois, Artur chegou em casa com um recm-nascido nos braos. Fiquei assustada. Nosso nico filho j estava moo. -- Onde vai com essa criana? 
Por que a trouxe para nossa casa? -- E um menino que precisa de ajuda. Prometi  sua me que cuidaria dele. Pretendo adot-lo. -- Fiquei emudecida de surpresa. Adotar 
uma criana desconhecida? Apesar de estar habituada com o seu exagerado desejo de ajudar as pessoas, no concordei. Aquilo era demais. Respondi nervosa: -- Isso 
no. Voc est indo longe demais. Deve tratar-se de algum filho bastardo de uma me desequilibrada. -- Ento ele me olhou muito srio e respondeu: -- Ele ficar 
aqui, em nossa casa, e ter todo o conforto e todas as oportunidades que eu puder lhe oferecer. -- Eu fiz de tudo para faz-lo mudar de idia. Mas foi intil. Como 
me recusei a cuidar do menino, ele arranjou uma pajem, transformou uma das sutes adaptando-a para ele. Colocou a pajem l cuidando de tudo. Foi um horror. Quase 
nos separamos por causa disso. Diante de tanta insistncia, comecei a suspeitar que Eriberto, esse  o nome do menino, fosse filho dele com alguma sirigaita. Coloquei 
um detetive atrs dele, mas no descobri nada. Artur no tem outra mulher,  muito dedicado ao trabalho. Contei-lhe tudo isso para que possa entender minha situao. 
-- Estou entendendo. Continue.

-- Agora vou chegar ao ponto que me trouxe aqui. Artur perdeu o pai h dez anos e h um ano sua me tambm faleceu. Eu soube que ele recebeu a herana, mas negou-se 
a dizer-me quanto foi. Os pais dele eram ricos, possuam propriedades, aes, jias. Claro que eu tinha direito de saber. Ento, entrei no escritrio dele, achei 
a chave da escrivaninha e fui verificar os documentos. Descobri que neles Eriberto estava com o mesmo sobrenome nosso. E tem mais: ele havia passado metade dos bens 
que herdou dos pais para o menino. Fiquei alarmada. No posso permitir que prejudique nosso filho. Antero est casado, formando uma famlia. No posso deixar que 
seja espoliado em seus direitos por um bastardo. -- Quantos anos tem o menino? -- Seis, mas isso no muda nada. Eu quero saber o que preciso fazer para entrar na 
justia e conseguir a anulao desses documentos. -- A senhora no assinou nenhum desses documentos? -- No. Mas eu os li. Eriberto foi registrado como nosso filho 
legtimo, usa nosso nome. -- A senhora viu o registro de nascimento dele? -- No, Mas, nos documentos que li, Eriberto aparece como filho legtimo meu e de Artur. 
O que no  verdade. Quero entrar na justia e reclamar os direitos de meu filho. -- Antes de fazer isso, seria bom que a senhora conversasse com seu marido. Pea-lhe 
explicaes sobre esses documentos. -- Ele no vai me dizer. Nem o montante da herana quis di-zer-me. -- Fica difcil opinar sem ver os documentos. Depois, para 
fazer uma reclamao na justia  necessrio document-la devidamente, Sem isso no ser possvel. -- Ele registrou esse menino como meu filho sem eu saber! Onde 
est nossa justia? Ento um homem pode fazer o que quiser sem que se possa fazer nada? -- Eu no disse isso. Mas a justia funciona atravs de provas. -- Eu posso 
prestar queixa dizendo que o registro  falso e Eriberto no  meu filho. Arrumo algumas testemunhas. Tenho amigos que me conhecem h anos e que sempre estiveram 
por perto. Podem restabelecer a verdade comprovando que eu nunca tive esse filho. Apesar do controle a que estava habituada, Nina a custo conseguia controlar a indignao. 
Procurando manter a calma tornou: -- A senhora gostaria de tomar uma gua, um caf? -- Um caf, por favor. Nina pediu a Lcia que providenciasse. Enquanto esperavam, 
Nina considerou: -- Ainda penso que o melhor seria a senhora conversar com seu marido, tentar entender melhor por que ele fez isso. Ele deve ter razes fortes que 
a senhora desconhece para assumir a responsabilidade dessa criana de maneira to firme. -- A nica explicao seria de que ele  o pai. Foi o que pensei a princpio, 
mas ele nega isso, e, depois do que o detetive falou, pode estar dizendo a verdade. Voc no conhece Artur. Ele  muito condescendente com as pessoas. Vive dando 
dinheiro aos empregados, protegendo uns e outros. No sei de quem ele herdou isso. Nem parece da famlia. Os Fontouras so pessoas de classe e muito exigentes com 
seus relacionamentos. Sabem manter distncia como convm das pessoas que no pertencem  sua classe social. Lcia bateu na porta e a copeira pediu licena, entrou, 
serviu o caf, colocou um pratinho com delicados biscoitos e retirou-se. Nina tomou caf devagar, enquanto pensava no que diria a Olvia. Era um assunto desagradvel 
e ela no pretendia aceitar essa causa. Olvia colocou a xcara sobre a bandeja e continuou: -- Desejo recorrer  justia o quanto antes. Preciso saber quais as 
primeiras proviaencias e os seus honorarios. Nina colocou a xcara na bandeja por sua vez, e disse sria: -- A senhora j pensou nas conseqncias de uma atitude 
dessas? Como acha que seu marido vai reagir?

-- Ele vai brigar, com certeza. Ele  mole com as pessoas, mas, quando toma uma deciso, no volta atrs. -- Nesse caso pode haver entre vocs um srio desentendirnento. 
-- Estou disposta a tudo. No posso permitir que ele jogue fora o patrimnio de meu filho. -- Essa atitude pode provocar uma separao. E difcil para um homem aceitar 
que a esposa cobre suas atitudes atravs da justia. -- Se ele quiser a separao, pior para ele. Todos os nossos amigos esto do meu lado. Sabem que nestes vinte 
e oito anos de casamento tenho sido uma esposa dedicada. -- Pense bem. Depois de viver tanto tempo juntos,  difcil aceitar uma separao. Pode se arrepender. -- 
Isso no. Quando nos casamos, ele era um homem dedicado. Mas depois de algum tempo tornou-se indiferente. Vive para a profisso, e nos ltimos tempo temos nos visto 
muito pouco. Ele est sempre em algum congresso, em palestras, em simpsios. Valoriza mais o trabalho do que a famlia. Nina olhava-a pensativa. Ela continuou: -- 
E ento, o que preciso para fazer o que pretendo? Nina ficou calada por alguns segundos, depois disse: -- Primeiro vai precisar escolher quem ser seu advogado, 
passar uma procurao a ele, que lhe esclarecer os primeiros passos. -- No entendi. Vim procur-la porque quero que voc seja minha advogada. -- Fico agradecida 
por sua preferncia, mas infelizmente no vou poder aceitar sua causa. -- Porqu? -- No momento estou muito envolvida em vrios processos e sem tempo para me dedicar 
a um novo trabalho como seria necessrio. Ela levantou-se dizendo: -- Nesse caso, deveria ter-me dito logo antes que eu lhe contasse os segredos de nossa famlia. 
-- A senhora pediu-me uma consulta. Foi o que fiz. Quanto aos segredos de sua famlia, pode ficar tranqila. Nenhuma palavra do que conversamos sair desta sala. 
Como eu lhe disse, em nossa profisso guardamos sigilo absoluto. Olvia suspirou inquieta. -- Fiz mal vindo procur-la. Deveria ter procurado um advogado mais conceituado. 
Tenho amizade com grandes advogados, que prazerosamente aceitariam essa causa. Escolhi voc por no ser pessoa das nossas relaes. -- Infelizmente no poderei aceitar. 
-- Quanto ao preo da consulta? -- Acerte com minha secretria. Ela inclinou a cabea e saiu sem se despedir. Nina deixou-se cair na poltrona aliviada. Decididamente 
essa mulher era intolervel. O rosto triste de Antnia voltou em sua lembrana. Mais uma vez arrependeu-se de no haver se aproximado mais dela. Pobre moa, sempre 
triste, O que teria acontecido em sua vida para fazer o que fez? Nina sentiu uma onda de tristeza lembrandose de Antnia. O que ela no sabia e no pde ver,  que 
o esprito de Antnia, rosto lavado em lgrimas, estava a seu lado, emocionado, implorando ajuda.

Depois que Olvia saiu, Nina permaneceu algum tempo pensando no que ela lhe contara. A situao desse menino a emocionou muito. O que teria acontecido com a me 
dele? Pensou em Marcos e imaginou: o que teria sido dele se ela houvesse morrido? A esse pensamento, sentiu a angsta aumentar. Tentou reagir. Ela estava bem, havia 
conseguido criar Marcos com amor e dar-lhe tudo de que ele precisava. Resolveu esquecer o ocorrido e trabalhar. Apanhou alguns documentos que precisava rever, mas 
a insatisfao, a angstia no iam embora. Levantou-se, tomou um copo de gua e foi procurar o Dr. Dantas. Bateu na porta mas no teve resposta. Lcia aproximou-se 
dizendo: -- O Dr. Dantas precisou sair. Disse que no voltar mais hoje. E alguma coisa que eu possa ajudar? -- No, obrigada. Falarei com ele amanh. O resto da 
tarde, Nina procurou esquecer aquela conversa desagradvel. Estava claro que ela ficara sensibilizada por ser um caso que a fazia recordar-se de sua prpria experincia. 
Em sua profisso precisava ser impessoal, fazer valer a lei e cuidar dos interesses dos seus clientes sem envolver-se. No aceitara a causa e no deveria pensar 
mais no assunto. Disposta a isso, mergulhou no trabalho varrendo da mente qualquer pensamento que no fosse o assunto que precisava resolver. Assim, conseguiu trabalhar, 
mas o esforo constante acabou por provocar forte dor de cabea. Ficou aliviada quando acabou o expediente e preparou-se para ir embora. Na sada, encontrou-se com 
Lcia. Desceram juntas. -- Voc est bem? -- indagou ela. -- Estou com dor de cabea. -- Notei que voc no ficou bem depois da visita daquela senhora. Quando pediu 
caf voc estava plida. -- De fato. Essa senhora fez-me lembrar de Antnia e esse assunto  sempre muito doloroso. -- Quer um comprimido? -- J tomei. Estou s 
um pouco cansada. Vai passar. -- Quer que eu v com voc at sua casa? -- No  preciso. Estou bem. Olha l, o Breno est  sua espera. At amanh. Ela cumprimentou 
Breno com um aceno de cabea e saiu. Lcia aproximou-se de Breno, que a beijou na face com carinho. Depois dos cumprimentos, Lcia perguntou: -- Como vo as coisas 
com Andr com relao  Nina?

-- Ele melhorou. Est mais calmo. No tem falado em entrar na justia para reclamar a paternidade do filho. Por que pergunta? -- Nina no est bem, Imaginei que 
fosse por causa dele. -- No que eu saiba. Alis, depois que ele comeou a freqentar a casa do Dr. Dantas todas as semanas, tem estado mais calmo. -- O Dr. Dantas 
 boa pessoa. Nina gosta muito dele. Acho estranho de repente Andr comear a ir l. Ser que  por causa de Nina? -- A princpio tambm pensei, mas ele levou a 
irm, que sempre teve problemas. Voc sabia que o Dr. Dantas lida com espiritismo? -- Ouvi dizer. -- Andr est convencido de que o problema da irm tem relao 
com isso. Ele vai l com Milena assistir a sesses espritas. Diz que ela melhorou muito. Mas, para ser sincero, eu tenho notado que ele tambm ficou muito melhor. 
Tem estado mais calmo. At me aconselhou a procurar um centro esprita para ir. -- Para qu? -- Para ajudar Anabela a melhorar o gnio. Mas eu acho que o caso dela 
no tem nada a ver com espritos. O mau gnio  dela mesmo. No h orao que cure. Lcia ficou pensativa e no respondeu. Entristecia-se sempre que se lembrava 
de que Breno tinha uma esposa, a quem deveria ser fiel e eles estavam traindo. -- O que foi? Voc ficou triste de repente. Ela suspirou e respondeu: -- No gosto 
de pensar que estou entre voc e ela. E uma situao muito desagradvel. Se no fosse por Mirela... Ele abraou-a com carinho: -- No diga uma coisa dessas! Meu 
casamento foi um erro! Eu amo voc. Mirela  tudo para mim. Eu tambm gostaria de assumir publicamente nossa relao. Mas h outras coisas em jogo. Por enquanto 
no  possvel. -- No estou exigindo nada, Entenda. Mas s vezes fico triste por estar envolvida em uma situao dessas, que sempre condenei nos outros. -- Eu tambm 
no gosto. O que sei  que amo vocs duas e no saberia mais viver sem vocs. Meu relacionamento com Anabela  apenas formal. Um dia ainda estaremos livres para 
viver nossa vida juntos. Voc vai ver. -- Eu tambm no saberia viver sem voc. Vamos para casa. Abraados, eles foram para o carro antegozando o prazer de encontrar 
a pequena Mirela. Nina chegou em casa sentindo a cabea latejar. O comprimido no fizera nenhum efeito. No quis jantar. Certificou-se de que Marcos jantou bem e, 
como j havia feito os deveres escolares, foi para o quarto ver televiso. Ela foi para o quarto, deitou-se sem acender a luz e procurou relaxar para desfazer a 
tenso e melhorar. Aos poucos foi conseguindo e adormeceu. Sonhou que estava em um lugar escuro, sentiu-se angustiada e procurou ansiosamente a sada. Entrou por 
um corredor fracamente iluminado no fim do qual uma porta se abriu e Antnia surgiu. Estava com a mesma roupa com que havia sido enterrada, rosto contrado, fisionomia 
plida, mos estendidas em sua direo. Nina quis gritar mas no conseguiu emitir nenhum som. Apavorada, desejou fugir mas seus ps pareciam de chumbo e ela no 
saiu do lugar. Antnia aproximou-se, rosto lavado em lgrimas, e disse: -- Nina, no fuja de mim. Por favor, me ajude! -- No posso fazer nada pensou Nina aflita. 
-- Voc pode, sim. Estou arrependida, sofrendo muito. A morte no  o fim. Agora eu sei. Ela vai perseguir meu filho como fez comigo. S voc vai poder ajud-lo! 
No me abandone, eu imploro. Tenha piedade de mim.

-- Ela encostou a mo gelada no brao de Nina, que sentiu aumentar seu pavor. Finalmente conseguiu gritar e acordou suando frio, respirao difcil. Sentou-se na 
cama procurando coordenar as idias. Oflia entrou no quarto assustada: -- O que aconteceu? Ouvi voc gritar. -- Ela estava aqui, Oflia, de novo me pedindo ajuda. 
-- Ela quem, Nina? -- Antnia, minha colega que se suicidou. -- Cruz credo, Deus nos livre e guarde. E bom rezar. Tenho medo de alma de outro mundo! -- Foi s um 
pesadelo. A tia dela esteve em meu escritrio esta tarde. E uma mulher antiptica, deixou-me nervosa, com dor de cabea. Eu associei essa visita com Antnia e provoquei 
esse pesadelo. Oflia meneou a cabea: -- Acho bom voc procurar fazer alguma coisa para afastar essa alma daqui. Dizem que os suicidas no ficam em paz. -- No 
se impressione. J passou. -- Vou fazer um ch de cidreira. Seria bom tambm comer alguma coisa. Voc no comeu nada. -- S o ch est bem. No estou com fome. Marcos 
entrou no quarto dizendo srio: -- Por que no vai falar com Marta? Ela entende dessas coisas. Nina fez um gesto de contrariedade. -- Tive um pesadelo. No  o que 
est pensando. -- Ouvi voc dizer que a Antnia, sua colega que se matou, estava aqui pedindo ajuda. -- Esse no  um assunto para voc. -- Por qu? Do que tem medo? 
Se ela era sua amiga, no est querendo fazer-lhe nenhum mal. -- No estou com medo de nada. Antnia era uma boa moa. -- Olhando para Oflia continuou: -- Voc 
no ia me fazer um ch? Ela saiu apressada e Marcos sentou-se ao lado dela na cama. -- Me, ainda acho que voc deveria falar com Marta. -- No  preciso. Estou 
bem. -- Sabe o que ? Se o esprito de Antnia est precisando de ajuda, querendo alguma coisa, ela no vai desistir. Se voc for falar com Marta, ela saber o que 
Antnia deseja, a ajudar e ela poder seguir em paz. Nina olhou para o filho admirada. Ele falara a mesma coisa que o Dr. Dantas. Lembrou-se da figura de Antnia 
no sonho e disse como para si mesma: -- No quero nunca mais ter esse pesadelo. -- Nesse caso, trate de fazer alguma coisa para ajud-la. Nina lembrou-se das palavras 
dela: "A morte no  o fim. Agora eu sei. Ela vai perseguir meu filho como fez comigo." Essas palavras eram estranhas. Antnia no tinha filhos, Se fosse mesmo o 
esprito dela, nunca teria dito isso. O melhor era esquecer. Fora apenas um mau sonho. -- Vamos esquecer isso, meu filho. Est tudo bem. Vamos descer. Oflia j 
deve ter feito o ch, assim voc me far companhia. Marcos sorriu e concordou. Desceram abraados. Sentaram-se, Oflia serviu o ch e, enquanto tomavam, Nina perguntou 
sobre as aulas dele no colgio, sobre seu relacionamento com os colegas. Queria esquecer o pesadelo. Marcos demonstrava interesse em falar sobre a comunicao dos 
espritos, o que a preocupava. Um menino como ele no era para encher a cabea com um assunto que alm de srio poderia ser perigoso. Quando terminaram, enquanto 
Marcos voltou  televiso no quarto, Nina apanhou uma revista e acomodou-se em uma poltrona para ler. As matrias eram interessantes e ela mergulhou na leitura mas 
mesmo assim de vez em quando um o fato de ele querer aproximar-se do filho a deixaram nervosa e era provvel que estivesse com uma gastrite.

Foi  cozinha e pediu a Oflia que esquentasse a sopa que preparara para o jantar. Sentia-se cansada, corpo pesado, mas o pior era a inquietao. No conseguia ficar 
muito tempo parada, subiu para o quarto abriu uma gaveta e decidiu mudar a arrumao, mas acabou deixando para outro dia. Desceu novamente, tomou um pouco de sopa 
imaginando que ficar sem comer seria pior. Quando terminou, Nina apanhou novamente a revista e sentou-se na sala. O telefone tocou e Oflia atendeu e avisou que 
era para ela. Nina no estava com disposio para atender. Fez sinal que no, mas era tarde, ela j havia dito que Nina estava em casa. -- E Marta. Eu disse que 
voc estava. Nina atendeu procurando encobrir a irritao. -- Como vai, Marta? -- Bem. Eu liguei para perguntar: o que est acontecendo com voc? -- Nada. Um ligeiro 
mal-estar de estmago. Acho que comi algo que me fez mal. Logo estarei bem. -- H pouco vi voc muito angustiada, inquieta, andando de um lado a outro. Aconteceu 
alguma coisa que a desagradou? -- De fato. Atendi uma cliente muito desagradvel, fiquei com dor de cabea. Tomei remdio, melhorou um pouco mas ainda estou angustiada. 
-- A angstia no  sua mas do esprito de Antnia. Ela est do seu lado. Nina sentiu aumentar sua tontura. -- No pode ser. -- A pessoa que voc atendeu tem a ver 
com ela. -- Tem. E a tia dela. -- No adianta fugir, Nina. Antnia confia em voc e est lhe pedindo ajuda. E melhor conversar com ela. -- No quero fazer isso. 
Se  ela, no posso fazer nada. -- Est bem. Sei como ajudar voc a melhorar. Vou dar um pulo a. -- No  preciso. No quero incomodar. -- Eu e mame estamos com 
saudades. Faz tempo que vocs no aparecem. Dentro de quinze minutos estaremos a. Nina no teve como recusar. Desligou o telefone sentindo a inquietao aumentar. 
Tomou um copo de gua e no conseguiu ler. Ficou caminhando de um lado a outro. Meia hora depois, Marta e os pais entraram na sala e Nina apressou-se a abra-los. 
Sentia as pernas trmulas, atordoamento, dores ora no estmago ora na nuca. -- Desculpem. No estou bem. Depois que falei com voc meu mal-estar aumentou. Marta 
alisou seus cabelos com carinho. -- Voc vai ficar bem. Segurou as mos dela e pediu que ela se sentasse a seu lado no sof. Sem largar suas mos disse: -- Vamos 
mentalizar luz e orar para que nossos amigos espirituais nos protejam. Marta fechou os olhos e murmurou sentida prece solicitando ajuda. E concluiu: -- Estamos aqui 
 disposio dos espritos para colaborar no que for necessrio. No mesmo instante, o corpo de Marta estremeceu e ela disse com voz entrecortada: -- Nina! Sou eu, 
Antnia! Finalmente consigo falar com voc! Marta largou as mos de Nina enquanto ela, tomada de emoo, no conseguia conter as lgrimas. Com voz embargada, Marta 
continuou: -- Desculpe. No desejo perturb-la! Mas... no tenho ningum neste mundo. Tenho sofrido muito. Fui fraca. No soube enfrentar as conseqncias das minhas 
atitudes. Voc sempre foi muito boa comigo. Sou muito grata por tudo quanto fez por mim, mas no posso ter sossego pensando em meu filho! Estou desesperada. Voc 
 me, passou o mesmo que eu, vai compreender. Nina estremeceu e perguntou admirada:

-- Ento no foi um pesadelo! Voc tem mesmo um filho! -- Sim. Minha desgraa comeou no dia em que minha me morreu e meu tio levou-me para morar com ele. Tia Olvia 
nunca me suportou. Tinha cime de mim, talvez por ser jovem, no sei. Juro que nunca dei motivo para que fosse assim. Tentei agrad-la de todas as formas, mas nunca 
consegui. Marta calou-se por alguns segundos e Nina pediu: -- Continue. -- Bem, desde o primeiro dia me senti atrada pelo meu primo. Antero era cinco anos mais 
velho do que eu e fiquei fascinada. Era bonito, galanteador. Perto da me demonstrava ser indiferente, mas, quando ela virava as costas, ele me cercava de atenes. 
Me apaixonei perdidamente. Mas ele namorava e eu procurei esquecer. Quando eu estava com dezenove anos, ele finalmente marcou o casamento e fiquei desesperada.Uma 
noite, ele me viu chorando, me abraou e confessou seu amor por mim. Disse que ia se casar para fazer a vontade dos pais mas que era a mim que ele amava. Eu acreditei. 
Passamos a nos ver s escondidas. Aconteceu o inevitvel. A partir dessa noite, ele passou a freqentar meu quarto. Haviam marcado o casamento para breve, ele quis 
romper com ela para ficar comigo. Recusei. No podia dar esse desgosto a meu tio. Ele deixou de ir ao meu quarto. Menos de uma semana para o casamento dele, desconfiei 
que estava grvida. Assustada, com medo de minha tia, no disse nada a ningum. Decidi ir embora. Arrumei minhas coisas e fui. No queria atrapalhar o casamento 
de Antero. Eu o amava muito e queria que ele fosse feliz. -- Seu tio concordou com sua partida? -- indagou Nina. -- Ele viaja muito, estava fora. Sa de l sem ter 
para onde ir, possua um pouco de dinheiro guardado, pois tio Artur sempre foi generoso comigo. Procurei uma penso modesta e corri atrs de um emprego. No consegui. 
Quando o dinheiro acabou, telefonei para tio Artur e ele foi at a penso, pagou o que eu estava devendo e queria me levar de volta. Quis saber quem era o pai, eu 
disse a verdade. Ele insistiu para eu voltar, mas eu no quis. Olvia havia dito a ele que eu fora embora porque estava cansada deles e queria viver minha vida a 
meu modo. Ele tentou me encontrar mas no tinha o endereo. Marta suspirou enquanto as lgrimas voltaram a descer pelas suas faces. Respirou fundo e continuou: -- 
Meu tio fez tudo por mim e, quando meu filho nasceu, ele convenceu-me a entregar-e a criana. Alegava que registraria o neto como seu filho, assim ele seria respeitado 
por todos, teria um nome e ainda herdaria todos os bens a que tinha direito. Chorei muito mas por fim concordei. Ele o levou e eu, mesmo a distncia, acompanhei 
seu desenvolvimento. Ele estava com um ms quando fui trabalhar naquele escritrio. Pouco depois conheci voc. -- Agora compreendo por que voc estava sempre triste. 
-- Acho que era meu destino. Livrei-me de Olvia e encontrei D. Neide. A vida para mim tornou-se muito triste. Sentia saudades de Antero e mais ainda de meu filho. 
Angustiada, muitas vezes, depois de deixar o escritrio no fim da tarde, ficava em frente  casa dos meus tios na esperana de ver meu filho. Uma tarde, minha tia 
surpreendeu-me em frente ao jardim e ficou muito zangada. Aproximou-se antes que eu pudesse me esconder e expulsou-me dali: -- O que est fazendo aqui? V embora, 
no quero que ningum a veja por perto. Voc  a vergonha de nossa famlia. O que pretende? Se pensa em voltar para morar aqui, est enganada, jamais permitirei. 
Volte para a vida desregrada que escolheu. Nervosa, tentei explicar: -- No quero nada. Estava apenas passando. -- No creio. O que est planejando? Pensa que vai 
comover Artur com sua cara fingida? Fique sabendo que no ter mais nada dele. Um carro parou em frente ao porto e reconheci Antero com a esposa. Olhou-me surpreendido 
enquanto ela observando a chegada deles gritou enfurecida: -- Saia daqui! Nunca mais aparea.

Antero desceu do carro e aproximou-se de mim com olhar indagador: -- Antnia! O que est acontecendo com voc? Antes que eu pudesse responder, Olvia abriu o porto. 
Aproximou-se de ns dizendo: -- Se quer saber, eu vou dizer. Ela se prostituiu, anda arrastando o nome de nossa famlia na lama. Por isso no a quero por aqui. A 
esposa de Antero havia se aproximado e eu, coberta de vergonha, no tive foras para responder. Sa correndo desesperada sem olhar para trs. Aquela noite no consegui 
dormir. Pela minha cabea passavam todos os momentos de minha vida desde a morte de minha me. Pensamentos tristes povoavam minha mente. Ento pensei em acabar com 
a vida. Mas a lembrana de meu filho me angustiava. Momentos havia em que eu desejava morrer e outros que sentia medo. Naquela manh, sem pregar olho a noite toda, 
pequei o veneno de matar ratos que havia comprado e coloquei-o na bolsa. No escritrio no conseguia trabalhar. Minha cabea estava confusa, doa muito. Fui falar 
com D. Neide que no estava bem e pedir para me dispensar. -- Voc est com olheiras. Vai ver que passou a noite na farra e agora quer ir descansar. Apesar de magoada, 
tentei conversar, dizer que me sentia mal, mas ela no concordou: -- Voc vai trabalhar como todo mundo, seno pode pedir a conta. Sa da sala correndo, peguei o 
veneno e fui ao banheiro. O resto voc sabem. Marta fez uma pausa enquanto as lgrimas desciam pelo seu rosto e as outras duas tentavam controlar a emoo. Depois 
de ligeira pausa ela prosseguiu: -- Foi a pior coisa que eu poderia ter feito. Se minha vida estava ruim, a partir desse dia ficou muito pior. A morte  uma iluso 
e a vida continua, os problemas continuam agravados por males fsicos que eu havia provocado. Sofri muito e no quero falar nisso agora. A bondade divina  infinita 
e, apesar do que fiz, tenho recebido muita ajuda. Mas o pior  descobrir o que est acontecendo com Eriberto. Olvia o odeia, deseja prejudic-lo de todas as formas. 
-- Seu tio  um homem bom e no vai permitir. -- Ela vai encontrar um jeito. -- Antero sabe que tem um filho? -- No. Se souber, vai contar  Olvia. A vida dele 
correr perigo. Tenho sentido os pensamentos dela. -- Nesse caso, o que voc espera que eu faa? -- Procure meu tio. Fale com ele. Diga-lhe que Eriberto corre perigo. 
Ele precisa ser afastado daquela casa. Nina remexeu-se na cadeira, inquieta. -- No sei se ele me ouviria. No me conhece. Vai pensar que estou louca ou coisa pior. 
-- Por favor. No tenho muito tempo. Querem me levar para um lugar de tratamento. Tenho sofrido muitas dores. Mas antes de ir quero deixar isso resolvido. S assim 
terei paz. -- Veremos o que se pode fazer. Vamos rezar e pedir a inspirao divina interveio Mercedes. -- Sua histria nos comove muito. Faremos o que estiver ao 
nosso alcance para ajud-la. Entretanto,  preciso que voc nos ajude tambm. Seu filho tem proteo. Precisamos confiar que nada de mau vai lhe acontecer. Sua confiana 
 importante para que nossos amigos espirituais tenham condies de auxili-lo. Reze e confie. O bem sempre ser mais forte do que o mal. -- Eu era confiante mas 
mesmo assim o mal tomou conta de mim. -- Voc era ingnua, o que  diferente. Confiou em pessoas; se houvesse confiado na sabedoria da vida, no teria aberto a porta 
para o mal entrar. Medite sobre isso e aprenda com sua triste experincia para no cometer o mesmo erro. Agora v, que Deus a abenoe. Marta suspirou e pouco depois 
abriu os olhos dizendo: -- Me, pode me dar um copo de gua? Nina apressou-se em buscar e voltou em seguida oferecendo o copo a Marta, que foi tomando devagar, Nina 
sentou-se novamente. Sentia-se tocada, emocionada, no encontrando palavras para expressar-se. Mercedes quebrou o silncio:

-- Vou pedir gua para voc tambm. Levantou-se, foi  copa e pediu a Oflia para providenciar. Depois de Nina tomar a gua, indagou: -- Sente-se melhor, Nina? -- 
Sim. O mal-estar passou como por encanto. Mas o que aconteceu aqui me impressionou muito. Marta sorriu e considerou: -- A vida continua. Antnia estava do seu lado 
angustiada. Eu senti. Por isso resolvemos vir aqui para que ela pudesse dizer o que desejava. Voc preciasa entender que esses fatos so naturais. Fazem parte da 
vida, que continua em outras dimenses do universo. J conversamos sobre isso. -- Mas eu tinha dvidas. Hoje descobri que voc falava a verdade. Eu sonhei com Antnia 
me pedindo ajuda para o filho. Duvidei porquanto no sabia da existncia dele. Voc no sabia nada disso, vem aqui, Antnia se comunica e fala exatamente a mesma 
coisa. Contou sua triste histria. Ainda penso que, se eu houvesse tentado conversar com ela naquela dia, ela no teria se suicidado. -- No se culpe, Nina. Ela 
estava deprimida, no sabia lidar com seus prprios problemas. No sei se voc teria conseguido impedi-la. Depois, voc no imaginou que ela ia fazer o que fez. 
-- Isso mesmo -- disse Marta. -- Ela fraquejou e recebeu dura lio. Talvez essa seja a forma de Antnia aprender a valorizar mais as oportunidades que a vida lhe 
ofereceu. -- Ela est me pedindo que interfira na vida de pessoas que no conheo. No me sinto em condies de fazer isso. -- Ela confia em voc -- tornou Mercedes, 
pensativa. -- Pense no caso. Pea inspirao a Deus. Tenho certeza de que encontrar uma forma de ajud-la. Nina contou-lhes a visita de Olvia querendo contrat-la 
como advogada para anular o registro de Eriberto e finalizou: -- Recusei. A visita dela fez-me mal. Deixou-me angustiada. -- Isso significa que a vida est colocando 
voc dentro dessa histria -- disse Mercedes. -- Mesmo sem saber do que se tratava no aceitei. Agora muito menos. -- No  a isso que mame se refere. Mas ao fato 
de voc ficar conhecendo todos os lados da questo para poder atuar.  um sinal de que a vida est cooperando para voc poder fazer isso. -- No tenho como. No 
posso chamar essas pessoas e contar-lhes o que aconteceu aqui. Vo dizer que estou louca. Se algum fizesse isso comigo, nunca acreditaria. -- No penso que voc 
deva fazer nada disso -- tornou Mercedes. -- Mas acredito que, depois do que aconteceu,  melhor preparar-se, ficar atenta porquanto no tenho dvidas de que outros 
acontecimentos viro envolvendo essas pessoas que lhe daro oportunidade de fazer alguma coisa em favor delas. -- Isso mesmo -- afirmou Marta. -- E assim que as 
coisas acontecem. Voc se sente culpada por no haver dado a devida ateno a Antnia quando ela estava em crise. Sensibilizado pelo sofrimento, o esprito de Antnia 
sentiu sua amizade, sabe que voc est sendo sincera. Por isso a est assediando, procurando ajuda. -- Voc disse uma vez que os espritos de luz esto sempre dispostos 
a auxiliar os que esto sofrendo no astral. Eles com certeza podem fazer por ela muito mais do que eu. Por que permitem que ela continue sofrendo? -- Porque eles 
respeitam o livre-arbtrio de cada um. Sabem que todo auxlio s funciona se o necessitado cooperar. Antnia ainda se encontra muito perturbada por suas iluses. 
Em seu sofrimento ainda h muita revolta, impotncia, frustrao por no haver logrado acabar com a vida. Nesse estado no consegue perceber a verdade, alm do que 
a preocupao com o filho ficou agora muito maior. Ela sabe o quanto Olvia o detesta. Pode ler os pensamentos dela a respeito e fica ainda mais angustiada. -- Posso 
compreender. Se eu estivesse no lugar dela, acho que enlouqueceria -- disse Nina, pensativa.

-- Antnia precisava tomar contato com a realidade. Nada melhor para isso do que ficar ao redor das pessoas com as quais ela se relacionava, sentir seus pensamentos 
e avaliar melhor os fatos. Por isso foi-lhe permitido permanecer mais tempo por aqui -- esclareceu Marta. -- Tudo isso me emociona e ao mesmo tempo me deixa insegura. 
Gostaria de ajudar, mas no sei como. -- No se preocupe com o problema de Antnia. Ela j est sob proteo dos espritos de luz. Eles trabalham em favor de todos 
os envolvidos, incluindo voc -- tornou Marta sorrindo. -- De fato. A vida tem dado sinais de que  hora de voc interessar-- se pela espiritualidade. Ao dizer isso, 
entenda que no estou falando de religio -- disse Mercedes. -- Como assim? Mercedes continuou: -- Falo do Criador, que estabeleceu leis perfeitas que funcionam 
de acordo com o nvel de cada um, organizando e disciplinando tudo no universo. As religies refletem as interpretaes que os homens fizeram das revelaes que 
a inteligncia da vida concede  humanidade para agilizar o progreso e permitir que a evoluo se processe com menos atrito, menos dor. Chega um momento em que a 
maturidade do esprito no lhe permite aceitar mais as meias-verdades que os homens estabeleceram em suas interpretaes e deseja mais. Inicia ento a busca para 
os verdadeiros valores da alma. -- Isso est acontecendo com voc -- esclareceu Marta. -- Como voc sabe? -- Porque a vida est lhe mandando sinais como que dizendo 
que  hora de voc se aprofundar na busca espiritual -- continuou Marta. -- Como fazer isso? -- Ligando-se com Deus e pedindo que lhe mostre o caminho. Ficando atenta 
para perceber os sinais que a inteligncia universal vai lhe mostrar -- tornou Mercedes. -- Ser suficiente? -- E o mais importante. A leitura, a meditao tambm 
podem ajudar. Marcos entrou na sala dizendo: -- Me, por que no me avisou que elas estavam aqui? As duas o abraaram com carinho, enquanto Nina dizia: -- Pensei 
que voc estivesse dormindo. -- Desci para tomar um copo de leite. Eu estava vendo um filme, mas se soubesse teria descido. -- Vamos at a copa. Eu tambm estou 
com fome. -- Ns precisamos ir embora -- disse Mercedes. -- Ah, no! Fiquem mais um pouco. Quero conversar com Marta. Nina levantou-se dizendo: -- Vocs vo nos 
fazer companhia. Elas concordaram. Nina serviu um lanche e a conversa fluiu agradvel. Meia hora depois elas se despediram. Nina acompanhou Marcos, acomodou-o na 
cama e depois foi para o quarto. Sentia-se calma. Toda a angstia havia desaparecido. Deitou-se e pouco depois adormeceu.

Nina acordou bem-disposta na manh seguinte, mas a histria de Antnia no lhe saa do pensamento. Assim que chegou ao escritrio, procurou o Dr. Dantas. -- D. Mercees 
j lhe contou o que nos aconteceu ontem? -- Sim. Antnia se comunicou para pedir ajuda. -- Na noite anterior eu havia sonhado com ela me pedindo para ajudar o filho, 
Fiquei intrigada. No acreditei que pudesse ser verdade, mas fiquei muito mal. Marta sentiu e foi com D. Mercedes a minha casa. Ento Antnia se comunicou, falou 
a respeito de sua preocupao com o filho e relatou toda a sua vida. Confesso que no consigo esquecer esse encontro. -- Agora voc tem certeza de que a vida continua. 
-- Sim. Apesar de no gostar desse assunto, no h como duvidar. Depois que conversamos, meu mal-estar desapareceu como por encanto. E extraordinrio! -- E natural, 
Nina. Tudo isso faz parte da vida e  natural. Quando entender isso, seu medo vai desaparecer. Saber que a morte no  o fim de tudo, que continuamos existindo em 
outro lugar e somos os mesmos,  motivo de alegria, no de tristeza. Apesar do que fez, Antnia continua viva, sofrendo vendo desmoronar suas iluses mas tendo que 
reconhecer os prprios limites, pagando o preo de suas escolhas. Agora ela sabe que, se houvesse optado por enfrentar seus problemas com coragem, sofreria menos. 
-- Mas ela no teve sorte. Perdeu a me muito cedo, precisou conviver com uma tia perversa, viu o homem que amava e pai de seu filho casar-se com outra sem se importar 
com ela, separou-se do filho. Tremo s em pensar nisso. Depois, ela era uma moa inexperiente. D para entender por que chegou ao suicdio. -- Voc est fazendo 
o mesmo que ela, enxergando os fatos pelo lado pior. Vocs no observaram os outros lados. Ela perdeu a me cedo porque precisava aprender a cuidar de si mesma, 
mas foi protegida pelo tio que a amava e lhe deu todo o carinho. Quanto  tia problemtica, era uma oportunidade de aprender a relacionar-se com as pessoas e exercitar 
a tolerncia. Quanto ao rapaz, no sabemos como os fatos aconteceram. Ele pode ter se apaixonado por ela de verdade ou apenas cedido a uma tentao de momento. Seja 
como for, ela aceitou. -- Concordo com tudo isso, mas menos com a indiferena dele pelo filho. Ele no tomou nenhuma atitude. Foi preciso o av assumir a paternidade.

-- Ser que ele sabia que tinha um filho? Alis, nesta histria falou-se muito da participao do av, da tia Olvia, mas ningum mencionou o rapaz. Voc tambm 
no contou a Andr que ele era pai. Ela pode ter feito o mesmo. Nina baixou a cabea confundida, hesitou um pouco e respondeu: -- E. Pode ter acontecido. -- Nina, 
 difcil julgar. Como eu disse, nesse caso havia muitos fatores positivos, porm Antnia escolheu olhar os fatos de maneira negativa. E um hbito que muitos tm. 
Mas pagam um preo caro por isso. Todos desejamos ajudar Antnia. Vamos fazer isso orando em favor dela, para que enxergue a verdade e obtenha paz. -- E. Vou fazer 
isso mesmo. -- Aparea l em casa, Nina. Estamos com saudade daqueles encontros. Marcos est nos fazendo falta. -- Sbado  tarde iremos at l. Marcos adora estar 
com vocs. Nos dias que se seguiram, Nina se sentiu bem e dedicou-se ao trabalho. No sbado levou Marcos  casa de Mercedes e passaram uma tarde muito agradvel. 
Apesar de a lembrana de Antnia estar na memria de todos, falaram pouco no assunto. A conversa que Nina tivera com o Dr. Dantas a fizera analisar melhor a situao 
de Antnia, e Nina acabou sentindo que ele tinha razo. Antnia passara por problemas delicados, mas sempre fora amparada pelo tio amoroso, que lhe dera tudo, educando-a, 
oferecendo-lhe oportunidade de ter uma vida boa. Por que as pessoas pensam sempre no pior? Por que no enfrentam seus desafios, ignoram sua prpria fora e preferem 
fugir? Esse pensamento levou-a a seu prprio caso. Ela havia enfrentado tudo, mas no por entender o lado positivo e sim pela raiva de admitir a prpria impotncia 
e pelo orgulho de mostrar a Andr que era melhor do que a mulher que ele escolhera para esposa. Esses pensamentos tumultuavam a cabea de Nina, que mergulhava no 
trabalho procurando esquecer tudo. Mas  noite, quando se recolhia para dormir, eles voltavam fazendo-a recordar-se de tudo quanto lhe acontecera. Se ela houvesse 
contado a ele que tinha um filho,o que teria mudado? Por certo lhe ofereceria uma penso para satisfazer sua conscincia e isso teria sido infinitamente pior. Ele 
pretendia continuar seu relacionamento com ela depois do casamento, o que a revoltava ainda mais. Era uma prova de que ele a considerava indigna de ser sua esposa. 
Esse pensamento a incomodava muito. Ela agira certo e continuaria assim. Ele no tinha o direito de intervir na vida de Marcos. Nos ltimos dias ele no os havia 
assediado. Talvez houvesse desistido. Melhor assim. Poderiam viver em paz. Mas apesar disso ela no se sentia em paz. Por qu? Havia conquistado o sucesso profissional, 
conseguido provar a ele que era to inteligente e capaz quanto a mulher pela qual ele a trocara, mas esse pensamento no lhe proporcionara o sentimento de realizao 
profissional que imaginara. Ao contrrio. Continuava sentindo aquele vazio no peito, aquela sensao desagradvel de perda, aquela mgoa que comeara no dia em que 
Andr a abandonara. Na verdade, conseguira dar ao filho uma vida confortvel. isso era bom, mas no o bastante para faz-la esquecer o passado e torn-la feliz. 
Nesses momentos sentia que precisava esquecer, virar essa pgina de sua vida. Tentava encontrar outros interesses alm do trabalho, mas era intil. O passado reaparecia 
mais forte do que nunca e Nina sentia aumentar seu rancor por Andr, como se ele fosse responsvel pelos seus pensamentos.

No escritrio, o telefone tocou. Nina atendeu. Era Marta: -- Al. Como vai, Marta? -- Bem. Estou ligando para convidar vocs para vir  minha casa no sbado. -- 
Voc obteve mais alguma notcia especial sobre Antnia? -- No. Desejo reunir alguns amigos queridos para comemorar meu aniversrio. -- Obrigada pelo convite. -- 
Conto com vocs. Avise o Marcos que o Renato vir! -- Ele vai gostar. -- Eu mais ainda. Espero vocs. Nina desligou o telefone imaginando um presente para ela. Olhou 
o relgio: passava um pouco das quatro. Sairia um pouco mais cedo para escolher alguma coisa bem bonita. Passava das cinco quando Nina deixou o escritrio e foi 
andando pelo centro olhando as vitrines em busca de uma sugesto. Entrou em uma loja e dirigiu-se  seo de perfumaria. Marta adorava perfumes. Foi difcil escolher, 
mas por fim decidiu-se. Comprou, pagou, mandou embrulhar para presente e ficou encostada no balco esperando. De repente a porta da loja abriu com certa violncia 
e um homem entrou correndo, dirigiu-se ao balco, pulou para dentro e abaixou-se dizendo  balconista: -- Esto me perseguindo. Se voc disser onde estou vai se 
arrepender. Antes que a moa tivesse tempo de responder, dois policiais entraram, olharam ao redor e aproximaram-se do balco perguntando  balconista: -- Onde est 
ele? Vimos que entrou aqui. A moa sentia a ponta de uma lmina fina encostada em sua perna e no conseguiu responder. -- Ele est aqui. Vamos encontr-lo. Nina 
esperava nervosa e continuou calada. Nesse instante um moo muito elegante entrou, aproximou-se. Um dos policiais foi ter com ele. -- Meu colega mandou o gerente 
fechar as portas. Ningum pode entrar ou sair daqui enquanto no o encontrarmos. Trata-se de um gatuno perigoso. Fique tranqilo. Vamos reaver sua carteira. Um dos 
guardas fez ligeiro sinal ao outro, indicando o balco, piscou para Nina e disse  balconista:

-- V buscar um copo de gua para esta moa. Ela est muito assustada. Com o corao aos saltos, ela obedeceu e assim que saiu os dois pularam para dentro do balco 
e dominaram o ladro. Encontraram o relgio de ouro e a carteira que ele havia roubado e a entregaram ao moo, que respondeu aliviado: -- Ainda bem. O relgio  
lembrana de famlia. H os documentos tambm. Eles algemaram o homem e enquanto um deles o conduzia  viatura o outro considerou: -- O senhor precisa me acompanhar 
para formalizar a queixa. -- Talvez no seja necessrio. -- Se no for, ele logo ser solto e estar roubando outra pessoa. Ele estava com uma faca. Pode fazer coisa 
pior. -- Vou apanhar meu carro no estacionamento e irei em seguida. Basta dar-me o endereo. -- Nesse caso vou anotar seus dados. Como  seu nome? -- Antero Fontoura. 
Nina sobressaltou-se. Teria ouvido bem? O policial deu a direo e se afastou. O rapaz olhou Nina dizendo: -- Imagino que deve estar nervosa. Lamento. -- De fato. 
Foi desagradvel, mas j passou. Felizmente no houve dano maior. Seu nome lembrou-me uma pessoa que conheo. -- Quem? -- D. Olivia Fontoura. -- E minha me. Que 
coincidncia! E amiga dela? Nina abriu a bolsa, apanhou um carto e entregou-o a ele dizendo: -- No exatamente. Sou advogada. Antnia, uma sobrinha dela, trabalhava 
em nosso escritrio. Nina notou que o olhar dele se entristeceu quando respondeu: -- Era l que ela trabalhava quando aconteceu? -- Sim. A moa entregou o pacote 
a Nina dizendo: -- Desculpe o trabalho. No foi nossa culpa. -- Eu sei. Obrigada. Nina estendeu a mo a Antero: -- Voc teve sorte. At outro dia. -- Tambm vou 
sair. Acompanhou-a at a rua e continuou: -- Aceitaria tomar um caf, um refresco comigo? Gostaria que falasse um pouco sobre Antnia. Nunca soube bem como as coisas 
aconteceram. Nina emocionou-se. Sentiu que no podia recusar: -- Aceito um caf. Entraram em uma lanchonete, sentaram-se e Antero pediu caf e alguns salgadinhos. 
Depois que a garonete os serviu, Nina perguntou: -- O que quer saber? -- Tudo. -- Conheci Antnia quando entrei no escritrio de advocacia do Dr. Dantas para trabalhar. 
Eu ainda no havia me bacharelado. Ficamos amigas. Ela era uma moa muito doce, mas muito triste. Nunca falava de seus sentimentos. Nina falou sobre o suicdio e 
como conhecera Olvia. No teve coragem de mencionar a comunicao que o esprito dela fizera atravs de Marta nem o filho deles. Antero ouviu em silncio, rosto 
entristecido. Quando ela finalizou, considerou: -- Quando ela veio para nossa casa era uma moa alegre, cheia de vida. Vivia cantando. No se parecia nem um pouco 
com essa que voc descreveu. Um dia, sem dar nenhuma explicao, ela foi

embora, No consegui entender por qu. Minha me disse que ela havia ido porque queria ser livre para levar uma vida desregrada, mas no acreditei. -- Voc est 
certo. Antnia era uma moa sria, irrepreensvel. -- Minha me  mulher de idias muito rgidas. Interpretava mal a alegria e a exuberncia dela. -- Voc dava-se 
bem com ela? -- Eu gostava muito dela. Se ela no houvesse ido embora, talvez... -- ele fez uma pausa, olhos perdidos em um ponto indefinido por alguns segundos. 
-- Talvez? -- Tudo houvesse sido diferente. Nossa casa ficou muito triste sem ela. Certa tarde, quando fui at a casa de meus pais, ela estava na porta discutindo 
com minha me. Tentei conversar, mas ela saiu correndo. Foi a ltima vez que a vi. Nina suspirou pensativa. Estava claro que Olvia havia manipulado o filho para 
evitar seu relacionamento com Antnia. Era provvel que ele no soubesse mesmo que eles haviam tido um filho e que esse menino era Eriberto. Mas era cedo para falar 
nisso. No podia precipitar os acontecimentos. O rapaz parecia-lhe bem diferente da me. Falava de Antnia com carinho. Talvez a tenha amado. Conversaram um pouco 
mais, ele relembrando detalhes da personalidade de Antnia, at que Nina levantou-se dizendo: E tarde, preciso ir. Foi um prazer conhec-lo. -- Algum j disse que 
Deus escreve certo por linhas tortas. O assaltante me proporcionou chance de conhec-la e podermos falar sobre um fato que h muito vem me preocupando. O suicdio 
de Antnia abateu-se sobre mim como uma bomba. -- Sobre todos ns. Quando penso nela, no me perdo por no ir atrs quando se trancou naquele banheiro. -- Fico 
me perguntando o que teria lhe acontecido para tomar uma deciso to drstica. -- Algo me diz que um dia ainda saberemos. Antero apanhou a carteira, tirou um carto 
e entregou-o a Nina dizendo: -- Agradeo sua gentileza de me contar tudo isso. Aqui tem meu carto. Se descobrir mais alguma coisa, me procure. Ainda tenho algumas 
perguntas sem respostas. -- Combinado. Nina estendeu a mo em despedida. No trajeto de volta at sua casa ela rememorava aquele inusitado encontro. A forma como 
os fatos aconteceram a fazia suspeitar que uma fora maior a estava auxiliando para que ela pudesse fazer alguma coisa em favor de Antnia. Mercedes havia dito que, 
se fosse para ela ajudar aquele menino, a vida se encarregaria de criar as oportunidades para isso. A esse pensamento Nina emocionou-se. Estava ansiosa para contar 
tudo a ela e a Marta, mas decidiu esperar pelo dia seguinte quando iriam cumpriment-la pelo aniversrio. Marta havia dito que o ch seria servido s cinco mas gostaria 
que Nina fosse mais cedo. Apesar de estar ansiosa para contar as novidades, Nina no quis abusar. Passava das quatro quando chegou na casa do Dr. Dantas com Marcos. 
Foi recebida por Mercedes, que os abraou, e logo apareceu Marta com Renato. E uma moa. Depois dos cumprimentos a aniversariante Marta apresentou: -- Milena, e 
minha amiga Nina. Nina estremeceu, No pensara nessa possibilidade. Olhou a moa, que lhe estendia a mo olhandoa nos olhos, e procurou controlar a emoo. -- Muito 
prazer -- disse, apertando-lhe a mo e olhando com curiosidade seu rosto, involuntariamente procurando traos de sua semelhana com Andr. A no ser pela cor de 
pele e dos cabelos, ela no se parecia com ele. Rosto delicado, traos finos, olhos profundos. Tentando controlar o embarao, Nina tornou:

-- Vim mais cedo porque aconteceu uma coisa. Gostaria de conversar com vocs antes que cheguem as outras pessoas. Marta pediu que os dois meninos fossem brincar 
no jardim, o que eles fizeram com boa vontade. -- Vamos ao escritrio de papai. L ficaremos mais  vontade. Mame ficar aqui para receber mais alguns amigos que 
vo chegar. -- Notando que Milena no sara do lugar, continuou: -- Venha, Milena. Ela respondeu hesitante: -- No sei se devo. Deve ser particular. -- E sobre um 
caso que estamos tratando. Voc poder nos ajudar. Uma vez acomodadas no escritrio, Nina contou o que lhe acontecera na vspera, finalizando: -- Antero me pareceu 
muito diferente da me. Talvez no saiba mesmo nada sobre o menino. Demonstrou muito carinho para com Antnia. Milena, que at ento estivera calada, disse: -- Ele 
estava apaixonado por ela. Mas a me percebeu e fez tudo para separ-los. Ele nunca soube que ela ficou grvida e muito menos que tem esse filho. Nina no conteve 
um gesto de surpresa. Milena mantinha agora uma postura ereta, falara com voz firme, tornando-a muito diferente da moa que conhecera momentos antes. Indagou: -- 
Como voc sabe? Meu amigo espiritual est me dizendo. -- O que mais ele diz? -- indagou Marta. -- Que ele se arrependeu muito de haver se casado por convenincia, 
para fazer a vontade da me. Amava Antnia. Pela esposa sentia apenas amizade. Quando soube do suicdio, abalou-se muito. Ultimamente no tem se sentido bem. -- 
Eu sei -- continuou Marta. -- Antnia o est assediando, preocupada com o filho. Deseja que ele saiba da existncia do menino e possa proteg-lo. -- Isso mesmo -- 
tornou Milena. -- Ele tem sonhado muito com ela, fica angustiado, triste, e no sabe o porqu. A  que voc entra -- concluiu, dirigindo-se a Nina. -- Acham que 
deveria contar tudo a ele? Vai dizer que estou louca. -- Voc no precisa fazer isso -- disse Marta. -- Continue rezando em favor deles e no momento certo os fatos 
vo acontecer. -- E impressionante a f que vocs tm... -- Se tivesse passado pelas experincias que ns duas passamos, tambm a teria -- esclareceu Marta com um 
sorriso. -- Isso mesmo -- aduziu Milena. -- Pea tambm a paz para seu corao atormentado. Esquea o passado e procure ser feliz. Voc merece! Nina sobressaltou-se. 
Olhou fixamente para Milena, que abrira os olhos e modificara completamente tanto a postura como a expresso de seu rosto. -- O que foi que disse? -- indagou Nina. 
-- Eu disse alguma coisa? -- murmurou Milena, admirada, Disse. Pode repetir, por favor? Marta inteneio: -- Ela no se lembra. Milena  como eu, tem o mesmo tipo 
de sensibilidade. As vezes eu fico consciente e sei o que estou dizendo, embora esteja servindo de mdium para um amigo espiritual. Outras vezes, fico ausente e 
no lembro de haver dito nada. Foi o que aconteceu agora com Milena. -- No me recordo do que disse, mas vi uma moa alta, esbelta, morena, cabelos castanhos, que 
estendia as mos para voc pedindo ajuda. -- E Antnia! -- tornou Nina, admirada. -- Voc v os espritos? -- Desde pequena. Eu pensava que todos os estavam vendo 
e falava. Minha famlia no acreditava e dizia que eram alucinaes. Passei a no lhes contar mais, porm continuei vendo, sentindo, percebendo o que estava acontecendo 
com as pessoas e no podendo dizer nada. Sofri muito. No

ia a festas, no tinha amigas, vivia  margem de tudo. Conheci Marta atravs de meu irmo, que se empenhou em me ajudar. Desde esse dia, minha vida mudou muito. 
Recuperei o prazer de viver. -- Assim que nos vimos, ficamos amigas. Temos impresso de que nos conhecemos h muito tempo -- disse Marta. -- E muito bom ter amigos. 
Esta casa  um lugar privilegiado. -- Eu tambm me sentia muito s antes de conhec-los. Penso que j tomei muito tempo da aniversariante. Seus convidados devem 
estar chegando. -- Foi bom temos conversado -- disse Marta. -- Estou me sentindo. muito bem. -- Eu tambm -- garantiu Milena, Conversando prazerosamente, elas foram 
at a sala onde estavam os pais de Renato, conversando animadamente com os donos da casa. Marcos e Renato entraram e foram abraar Marta. -- Voc agora vai ficar 
conosco -- disse Marcos. -- Isso mesmo. Temos muito que conversar. Vamos para seu quarto? pediu Renato. -- Agora no posso. Mais tarde darei um jeito -- respondeu 
ela sorrindo e retribuindo o abrao. Nina foi apresentada a duas senhoras que no conhecia, e a conversa fluiu agradvel. Altamira aproximou-se de Nina e tornou 
alegre: -- Viu como meu filho est bem? -- Sim. Parece timo. -- Vou lhe dizer uma coisa: no incio fiquei com medo de vir s sesses espritas com ele. Ficava nervosa. 
Mas, ao contrrio do que eu temia, ele foi se acalmando, ficou mais alegre, dorme bem e, o que  melhor, melhorou muito nos estudos. Confesso que eu e meu marido 
tambm melhoramos. Vendo Renato bem, estamos mais alegres. -- D para notar isso. -- Seu filho tambm est muito bem. Interessante a afinidade deles. Renato ficou 
muito feliz ao saber que Marcos estaria aqui hoje. -- Marcos tambm, ao saber que iria encontr-lo aqui. Altamira afastou-se e Nina olhou os dois meninos conversando 
com Milena e Marta. Sentiu certa tristeza. Por certo Milena no sabia que Marcos era seu sobrinho, e era muito provvel que Marcos, por sua vez, nunca descobrisse 
esse lao de parentesco. Por que a vida teria que ser assim? Por que seu filho teria de viver afastado da prpria famlia? Mercedes aproximou-se, colocou o brao 
sobre os ombros de Nina e disse baixinho: -- Aproveite o momento bom que estamos vivendo. Deixe a tristeza de lado. -- Tem razo. E que h coisas inesperadas que 
fogem ao nosso controle. -- No se preocupe. A vida faz tudo certo. Confie. Marta havia se afastado um pouco e Milena sentara-se no sof, os meninos sentaram-se 
um em cada lado dela, que, tendo um livro nas mos, mostrava-lhes algumas gravuras fazendo uma narrativa que ambos acompanhavam com entusiasmo. Nina observou que 
os olhos de Milena eram muito semelhantes aos de Marcos. Mercedes, notando a tristeza dela, chamou-a para participar do grupo de mulheres que conversavam sobre assuntos 
da atualidade. As pessoas eram inteligentes, agradveis, e Nina entregou-se ao prazer de uma boa conversa, de tal sorte que o tempo passou rpido. O ch foi servido 
acompanhado de muitas guloseimas. O ambiente estava agradvel e ningum pensava em ir embora. Marta e Milena levaram os meninos ao jardim, conversavam sentados em 
um banco. Havia escurecido e as primeiras estrelas j apareciam e a brisa leve espelhava o delicado perfume das flores no ambiente. Nina pensou que era hora de ir 
embora. Levantou-se e foi ao jardim em busca de Marcos. Chegando l, seu corao disparou. Andr estava sentado entre Marcos e Renato',enquanto as duas moas se 
entretinham conversando animadas.

Nina empalideceu e esforou-se para controlar o nervosismo e manter a calma. Fitou Marcos ansiosa e notou que ele estava relaxado, prestando ateno ao que Andr 
dizia, olhando-o com naturalidade. Certamente ele no havia lhe contado nada. Quando conseguiu controlar o nervosismo, ela chamou: -- Marcos, ns j vamos. Entre 
para se despedir. -- J, me? A conversa est to boa... No podemos ficar um pouco mais? -- No. Est na hora de ir. Venha. Todos se levantaram e Andr aproximou-se 
de Nina dizendo: -- Vocs podiam ficar um pouco mais. Nina irritou-se mas procurou controlar-se. -- Temos que ir. No insista. -- Precisamos conversar. -- Tudo que 
tnhamos de dizer j foi dito. Espero que no insista. Estamos em uma festa. No  o momento para isso. -- Eu sei. Mas gostaria de procur-la em outro lugar. Vendo 
que Marcos havia se aproximado e olhava-os com certa curiosidade ela tornou: -- Vamos entrar, Marcos. Precisamos nos despedir. -- E dirigindo-- se a Andr continuou: 
-- Se deseja tratar daquele caso, no h nada que eu possa fazer. Voc precisa se conformar. No adianta me procurar. Vamos deixar as coisas como esto. -- No vou 
insistir. Mas no aceito essa deciso. Voltaremos ao assunto em outra ocasio. Nina no respondeu. Segurou Marcos pelo brao e conduziu-o para dentro. Despediram 
se rapidamente de todos e foram embora. Durante o trajeto, Marcos indagou: -- De onde voc conhecia o irmo da Milena? -- Ele  advogado como eu, tivemos uma causa 
que ele perdeu e nosso escritrio ganhou. -- Ele no  bom advogado? -- , mas nesse caso ns fomos melhores. Agora chega de falar nisso. -- E que eu gostei muito 
da Milena e dele. -- Fazia tempo que ele estava l? -- S um pouco. Ele foi buscar Milena e ns pedimos para ela ficar mais um pouco. Ele nos contou uma histria 
muito boa de quando ele estava no colgio. -- Sei. Falar em colgio, j fez seus deveres para amanh? -- Eu preferia falar da festa. Quando eu fizer aniversrio, 
voc poderia fazer uma festa como essa. Eu poderia convidar todas essas pessoas. -- Vamos ver -- desconversou ela. Talvez fosse melhor no voltar  casa de Marta. 
Agora que Milena freqentava l, Andr por certo usaria isso para aproximar-se de Marcos. No podia permitir isso. Um sentimento de rancor a acometeu. Por que ele 
teria que se infiltrar na casa de seus melhores e nicos amigos? Andr j havia infelicitado sua juventude e continuava e perturbar sua vida. J no bastava o passado 
que ela gostaria de esquecer? Uma vez em casa, depois que Marcos foi para seu quarto, Nina apanhou um livro na tentativa de esquecer a preocupao. Mas a cena de 
Andr sentado ao lado de Marcos reaparecia em sua mente, deixando-a angustiada. Na casa de Marta, depois que Nina saiu, Renato foi  procura dos pais deixando Andr 
junto com as duas moas. Ele sentou-se no banco, passando a mo nos cabelos como que tentando arrancar da cabea os pensamentos que o incomodavam. -- E preciso ter 
pacincia -- disse Marta. -O tempo dissolve todas as mgoas e o amadurecimento renova as idias. -- Ela est sendo dura comigo. Eu errei, mas quero de alguma forma 
reparar o erro. Nina no pode ser to vingativa.

-- Ela no  vingativa -- respondeu Milena. -- Acontece que a ferida que carrega em seu peito ainda no cicatrizou. -- Isso no  ser vingativa? -- Isso  uma manifestao 
de dor -- esclareceu Marta. -- Eu no sabia que ia lhe causar tantos sofrimentos. No foi intencional. -- Voc sabia que ela o amava e pensou em se aproveitar desse 
sentimento. Pretendia ficar com as duas. Fez o que pensava ser melhor para voc naquele momento. Os fatos mostraram o quanto estava iludido. Nina joga a culpa em 
voc, mas ela  a responsvel pelos sofrimentos que at hoje a infelicitam. -- Por que diz isso? Eu fui o causador de tudo. -- No. Voc foi leviano, usou o afeto 
dela confiando que ela fosse aceitar um relacionamento extraconjugal. No percebeu que, para o temperamento sincero de Nina, ela nunca aceitaria uma situao dessas. 
Claro que voc agiu mal. Contudo, se Nina houvesse compreendido que voc no era como ela imaginava, que tinha pontos fracos, que ela tambm se iludira, se enganara, 
teria reconhecido sua parte de responsabilidade nos fatos. Teria deixado voc de lado, virado essa pgina de sua vida. Se houvesse feito isso, certamente teria encontrado 
outro amor, hoje nem se lembraria do passado. A voz de Marta estava ligeiramente modificada e Milena a observava emocionada. Andr respondeu: -- Apesar de tudo, 
eu no gostaria de v-la casada com outro. -- Voc quebrou o compromisso assumido com ela, fez sua escolha, com isso libertou-a para seguir outro caminho. -- Eu 
errei. Estou pagando preo do meu erro. Gostaria que Nina pelo menos entendesse isso. -- Ela preferia que houvesse sido diferente. Sofreu, mas foi forada a aceitar 
e corajosamente reagiu, esforando-se para dar uma vida digna ao filho. Teve a dignidade de no perturbar sua vida pessoal e assumir as conseqncias de um relacionamento 
frustrado. -- Eu preferia que ela no houvesse feito isso. Assim que regressei da viagem de npcias, procureia por toda parte. No consegui encontr-la. Durante 
anos sofri me perguntando o que teria acontecido com ela e a criana. -- No se martirize com o que aconteceu. Seja paciente. -- Hoje, quando entrei aqui e o vi, 
tive que fazer enorme esforo para me controlar, agir com naturalidade. Mas dentro de mim alguma coisa gritava querendo abra-lo e dizer que ele era meu filho! 
Contive-me pensando que uma atitude dessas iria perturb-lo. No quero que seja assim. Desejo que ele seja preparado para chegar  verdade. -- Fez bem -- interveio 
Milena. -- Ele me disse que seu pai morreu durante a gravidez de Nina. -- Outra injustia. Como ela pde dizer-lhe essa mentira? -- Foi a maneira que ela encontrou 
para explicar sua ausncia -- considerou Marta. -- Ela decidiu que nunca o procuraria nem perinitiria que soubesse a verdade. Para ela, voc morreu no dia em que 
a deixou para se casar com outra. -- Mas eu estou vivo! Ele precisa saber a verdade. Mercedes aproximou-se deles, cumprimentou-o e depois disse a Marta: -- Por que 
no convidou o Dr. Andr para entrar e tomar alguma coisa? -- Ele chegou, ficamos conversando. Vamos entrar -- justificou Marta. -- Aqui fora est muito agradvel. 
Se no se importa, gostaria de ficar mais um pouco. -- Esteja  vontade -- respondeu Mercedes. Ela entrou e Andr considerou: -- Ainda estou muito emocionado. Vamos 
esperar mais um pouco para entrar. Milena abraou o irmo dizendo com carinho: -- Tenha calma, algo me diz que um dia tudo mudar. O tempo muda todas as coisas. 
Vamos confiar na vida.

Andr suspirou e respondeu: -- E difcil para mim passar por isso e no fazer nada. Encontrar Nina, conhecer Marcos modificou minha vida. No estou suportando o 
compromisso com janete. Ela est cada dia mais desagradvel. Com voz firme, Marta respondeu: -- Voc assumiu esse compromisso livremente. Se no deseja mais mant-lo, 
 um direito seu, mas ter que arcar com as conseqncias. Ela no vai aceitar com facilidade. -- Tenho certeza disso -- concordou Milena. -- Pense bem se  isso 
o que realmente deseja. -- Por enquanto no tenho certeza de nada. S sei que no somos felizes juntos. Nunca fomos, mesmo antes de eu rever Nina e Marcos. -- O 
futuro pertence a Deus e Ele sempre faz o melhor -- tornou Marta sorrindo. -- Vamos entrar, Dr. Andr. L dentro tem um bolo de chocolate delicioso.  hora de adoar 
um pouco sua vida. Ele sorriu, concordou e, abraado  irm, entrou na sala para cumprirnentar os outros convidados.

Em uma poltrona em sua luxuosa sala de estar, tendo entre as mos um livro que fingia ler, Olvia observava discretamente o marido, que, acomodado em sua cadeira 
favorita, entretinha-se na leitura de uma revista. Ela precisava encontrar um jeito de afastar Eriberto. Pensando bem, talvez fosse melhor no bater de frente recorrendo 
 justia. Artur era um homem bom, tolerante, mas muito teimoso. Quando decidia alguma coisa, no voltava atrs. A conversa com Nina a fizera pensar e concluir que 
no desejava brigar com ele. O relacionamento deles no estava bom. Fazia muito tempo que ele no tinha um gesto de carinho. Mas ela o amava e no queria uma separao. 
Josefa pediu licena e entrou trazendo Eriberto pela mo: -- Ele veio dar boa-noite. Artur colocou a revista sobre a mesinha e abriu os braos dizendo: -- Venha 
me dar um abrao. O menino sorriu feliz e com olhos brilhantes atirou-se nos braos de Artur, que o beijou na testa com carinho. Olvia esforou-se para esconder 
o desagrado. Para aquele menino insignificante, Artur se desdobrava em atenes. Quando o via, seus olhos brilhavam emocionados. Havia colocado Eriberto sobre seus 
joelhos e disse a Josefa: -- Deixe-o aqui. Eu mesmo vou lev-lo para dormir. -- Voc me conta de novo aquela histria do homem que queria conversar com os bichos? 
-- Conto, sim. Mas eu tenho uma outra que voc vai gostar mais. -- Ento voc conta primeiro a dos bichos e depois a outra. Artur riu divertido. Em seguida perguntou 
como havia sido seu dia, o que ele fizera na escola, etc. Olvia fingia ler, lutando para conter-se e no dizer o que estava pensando. No era possvel que aquele 
menino fosse um qualquer. Talvez estivesse enganada acreditando que o marido lhe fosse fiel. Havia mais de dez anos Artur, em razo dos chamados de emergncia no 
hospital que no lhe permitiam ter um horrio fixo para dormir, tinha se instalado em um quarto separado. Desde ento, raras vezes a procurava para um relacionamento 
ntimo.

Observando bem, Artur era um homem bonito, cheio de sade. Com certeza tinha outra mulher. Por isso havia se afastado dela. Aquele menino bem que poderia ser filho 
deles. Assim tudo estaria explicado. O registro em seu nome, o amor que sentia por ele, a alegria que demonstrava claramente. -- D boa-noite para sua tia e vamos 
subir. Eriberto aproximou-se dela receoso. -- Boa noite, tia. -- Boa noite -- respondeu ela secamente. Artur precisava entender que a presena daquele menino a contrariava 
muito, Eles subiram as escadas conversando e Olvia sentiu uma onda de rancor. Artur estava abusando de sua confiana. Se ele pensava que ela ia aceitar aquela situao, 
estava enganado. Daria um jeito de livrar-se daquele fedelho de uma forma ou de outra. Jamais permitiria que ele, alm de usufruir do carinho de Artur, ainda herdasse 
parte de seus bens. Se no podia ir pelos meios legais, procuraria outros. O que no podia era cruzar os braos e aceitar aquela humilhao. No quarto, Artur esperou 
Eriberto vestir o pijama, acomodou-o na cama, recostou-se ao lado dele. -- Vai me contar aquela histria? Artur acenou que sim e comeou a contar e enquanto falava 
observava aquele menino lindo, rosto expressivo, olhos redondos e negros como os de Antnia, mas o nariz reto, o queixo proeminente, os cabelos ondulados assemelhavam-se 
muito aos de Antero.  medida que contava a histria, Eriberto reagia, corrigindo alguma pequena modificao que inadvertidarnente Artur fazia, cobrando cada detalhe. 
Artur sorria orgulhoso, reconhecendo o quanto ele era observador e inteligente. No fim, Eriberto dormiu e Artur ajeitou as cobertas com carinho, depositando um beijo 
em sua testa. Ficou ali mais um pouco pensando. Era-lhe desagradvel notar a intolerncia de Olvia, sua implicncia com ele, seu cime. As vezes se perguntava se 
teria feito bem em atender ao pedido de Antnia, ocultando a verdade. Queria chamar Antero  responsabilidade. -- Ele precisa saber que tem um filho Que suas atitudes 
tiveram conseqncias. -- No, tio. Ele no teve culpa de nada. Nunca me forou. Acontece que eu me apaixonei por ele e o envolvi. -- Mas ele  um homem. Eu o ensinei 
a enfrentar as conseqncias de suas atitudes. No posso mentir para ele. -- Ele est casado. Um filho pode atrapalhar sua felicidade. Eu o amo muito e desejo que 
seja feliz. -- Pense bem, Antnia. Aconteceu antes do casamento. Glria pode entender, perdoar, e tudo se arranja. -- Nenhuma mulher aceita uma traio. Eles eram 
noivos. -- Podemos conversar com ela, explicar. -- No, tio. Se insistir nisso, irei embora com meu filho e voc nunca mais nos ver. -- Isso no. No posso permitir. 
Como iriam sobreviver? -- Posso trabalhar. -- Com um beb no colo? -- Darei um jeito. -- No. Nesse caso, deixe-o comigo. Vou registr-lo como filho legtimo e o 
criarei com todo o amor e conforto. -- O que dir a tia Olvia? Ela nunca vai aceitar. -- Se no posso contar a Antero,  melhor que ela tambm nunca saiba. Direi 
que  filho de um paciente cujos pais morreram e que decidi adot-lo. Ela ter que aceitar. Apesar do seu temperamento intolerante, no se atrever a enfrentar-me. 
-- No sei, tio... No gostaria de separar-me dele.

-- Voc  jovem. Bonita. Um dia vai encontrar um homem de bem que a valorize, vai amar, se casar. Ter outros filhos. Se ele ficar com voc, mais cedo ou mais tarde 
Antero vai descobrir. Tenho cer teza disso. As lgrimas corriam pelas faces de Antnia quando ela disse: -- Vai ser difcil para mim... -- Nos veremos com freqncia 
e poder v-lo quando desejar. -- Preciso pensar. D-me alguns dias. -- Est bem. Voltarei no sbado para saber o que decidiu. Pense que comigo seu filho estar 
protegido, ter um nome, uma famlia. No sbado, conforme havia prometido, ele voltou a procurar Antnia. Entre lgrimas ela lhe disse que havia pensado muito e 
compreendera que para o bem do menino e garantir seu futuro, aceitaria sua proposta, se ele jurasse nunca contar a verdade a ningum. Acreditava que assim ele estaria 
protegido. Tinha medo de que Olvia o perseguisse se descobrisse que era seu filho e de Antero. Poucos dias depois ela arranjou um emprego e ele acreditou que esse 
caso estivesse resolvido. Cumpriu sua palavra, visitando-a sempre. Nos primeiros tempos levara o menino alguma vezes para que ela o visse, porm notou que, ao invs 
de confort-la, a presena dele a deixava mais deprimida, sofria por ter de separar-se dele. Por essa razo, espaou esses encontros, preferindo levar fotos para 
que ela visse como ele estava bem. Apesar da tristeza dela, ficou chocado quando, em uma de suas viagens fora do Pas, Olvia telefonou informando-o que Antnia 
havia se suicidado. Apressou o quanto pde seu regresso, ansioso para saber detalhes do acontecimento. Olvia em poucas palavras contou-lhe o que sabia e desde esse 
dia Artur se perguntava se separ-la do filho teria contribudo para que ela tomasse essa deciso. Se o tivesse deixado com ela, dando-lhe condies financeiras 
para cri-lo, talvez ela no houvesse feito isso. Talvez ele tivesse sido egosta pretendendo educar o neto, como fizera com o filho. Olhando o rosto de Eriberto 
adormecido, esse sentimento voltou muito forte. Pareceu-lhe ver Antnia, rosto lavado em lgrimas, mos estendidas dizendo: -- Voc prometeu proteg-lo! Faa isso. 
Eu estou vigiando. Artur meneou a cabea como para expulsar esse pensamento. Alisou a testa de Eriberto e pensou: -- Que pensamento bobo! Foi como se Antnia estivesse 
aqui me cobrando. Que iluso. Quem morre no volta. Depois, tenho feito tudo que prometi. Decidido, levantou-se beijou a testa do neto e saiu fechando a porta com 
suavidade. Desceu at a sala, apanhou novamente a revista disposto a continuar a leitura. Olvia no se conteve. -- E incrvel como voc me trata E capaz de fazer 
tudo por esse menino que no se sabe de onde veio, enquanto eu, sua esposa, sou relegada a segundo plano. Por que est fazendo isso comigo? -- No seja implicante, 
Olvia. Pelo menos uma vez tente ver as coisas como so. Eriberto  uma criana que considero como um filho, enquanto voc  adulta o bastante para entender que 
ele precisa muito do nosso carinho. -- No sei por qu. Para mim  um intruso que apareceu no sei de onde para intrometer-se em nossas vidas. Voc o registrou como 
filho, colocou em meu nome sem me pedir permisso, coisa que ningum faz. As vezes penso que ele  realmente seu filho e me pergunto quem ser a me dele. -- Voc 
est totalmente enganada. Ele passou a ser meu filho desde o dia em que decidi adot-lo. E uma criana inteligente, linda, que trouxe alegria para nossa casa. -- 
S se for para voc. Desde que ele entrou aqui, no tenho tido paz. -- Fico triste ouvindo-a dizer isso. Vi logo que voc no gostou de eu t-lo trazido para c, 
mas eu esperava que com o tempo voc se sensibilizasse. Um criana, com sua espontaneidade, inspira alegria, conquista afeto. Mas estou vendo que voc continua insensvel, 
mantendo seu corao fechado.

-- Quem fechou o corao foi voc. Mudou muito depois que nos casamos. No tem para mim um gesto de carinho. Ao contrrio. Percebo que me evita, no conversa, no 
fala do seu trabalho nem de suas preocupaes. Vive arranjando desculpas para no jantar em casa ou sair comigo. -- Ultimamente tenho vindo jantar todas as noites. 
-- Tem, mas penso que  para mimar o menino, contar-lhe histrias, lev-lo para dormir. Hoje ficou l em cima com ele quase uma hora. Voltou e pegou a revista, como 
se eu nem estivesse aqui. -- Sinto muito que esteja se sentindo assim. Estamos casados h muitos anos e nesse tempo j falamos tudo que tnhamos para dizer um ao 
outro, Voc sabe, na minha profisso preciso me atualizar. H muito o que aprender. Quando volto para casa, estou cansado, desejo descansar e dormir. -- Mas tem 
tempo para Eriberto. -- Tenho. Ele me traz alegria com suas tiradas alegres, seu sorriso maroto, seu jeito carinhoso de me abraar. A presena dele me faz muito 
bem. -- Voc gosta mais dele do que de mim. -- No seja ridcula! No queira competir com uma criana. No posso levar voc a srio. E por isso que muitas vezes 
no tenho vontade de conversar. Sempre acabo me aborrecendo com suas palavras. -- Se estou mal-humorada, a culpa  sua. -- Vou subir para dormir. No d para conversar 
com voc. Boa noite. Ele subiu sem lhe dar tempo para responder e Olvia, irritada, ficou ali, pensando em uma forma de afastar Eriberto de sua casa. Precisava encontrar 
uma maneira de fazer isso sem que Artur desconfiasse dela. Olvia foi para o quarto, deitou-se e custou a pegar no sono. Revirava-se na cama inquieta, e, quando 
conseguiu adormecer, sonhou que estava andando por um caminho escuro e um vulto a perseguia. De repente o vulto parou em sua frente impedindo-a de seguir e ela reconheceu 
Antnia. Estava plida, fisionomia contrada, segurou-a pelos ombros e disse: -- Se voc fizer alguma coisa para Eriberto, eu acabo com voc. Est tramando contra 
ele mas eu o estou protegendo. Se tentar algo, vai se ver comigo. Olvia tremia apavorada, um suor gelado provocava arrepios em seu corpo. Angustiada, quis fugir 
e acordou com o corao batendo forte, sentindo ainda os arrepios desagradveis, tendo dificuldade de respirar. De um salto levantou-se, procurou a jarra de gua, 
encheu um copo e bebeu procurando acalmar-se: -- Foi um pesadelo. Apenas isso -- pensou. -- Estava to nervosa que fui sonhar com aquela infeliz. Acalmou-se um pouco, 
mas a figura plida de Antnia, tal qual a vira no sonho, no lhe saa do pensamento. Tentava se acalmar raciocinando que era um disparate Antnia amea-la por 
causa do menino. Ela nem sequer o conhecia. Era bobagem ficar assim por causa de um pesadelo. Mas, apesar de tentar se convencer disso, sentiu medo de dormir. Abriu 
a gaveta da cmoda, apanhou o vidro de calmantes e tomou um comprimido. Deitou-se novamente, e desta vez adormeceu sem sonhar. Acordou tarde na manh seguinte e, 
quando desceu para o caf, Artur j havia sado e Eriberto estava no jardim com a pajem. Josefa fora contratada por Artur no dia seguinte ao que ele o levara para 
sua casa. Ela viera do interior de Minas Gerais a pedido de um colega de Artur, que nascera na mesma cidade e conhecia sua famlia. Tinha oito irmos menores e estava 
difcil ao pai mant-los. Aos dezesseis anos ela estava decidida a trabalhar e ajudar os seus.

Sabendo disso, o colega de Artur a recomendara porquanto se tratava de gente simples mas muito boa. Artur simpatizou com ela desde o primeiro dia e deixou o beb 
a seus cuidados. Ela demonstrou boa experincia, pois desde cedo ajudara a me a cuidar dos irmos. Contudo, ela notou logo que Olvia era diferente do marido e 
no gostava nem um pouco do menino. Amorosa, dedicada, sabendo que ele havia sido adotado, comoveu-se por ele no ter me. Foi com muito amor que se dedicou a ele 
e Artur sentiu-se aliviado, confiante com ela por perto. Diante da implicncia de Olvia com Eriberto, disse a Josefa que o menino estava sob a responsabilidade 
dela porque sua esposa no tinha pacincia para assumir essa tarefa. Durante aqueles anos, Josefa procurou sempre que possvel afastar Eriberto da proximidade de 
Olvia. Por isso, quando o dia estava bonito, logo depois do caf, ela o levava ao jardim, onde ficavam at o almoo. Depois, o levava  escola e ia busc-lo no 
fim da tarde. Nesse meio-tempo cuidava das roupas e dos aposentos deles. Artur havia colocado Eriberto no quarto de Antero e adaptado o quarto de vestir para Josefa. 
Eram aposentos espaosos e arejados, tendo um banheiro requintado. Olvia ficou contrariada, pois pretendia colocar os dois em um pequeno quarto nos fundos da casa. 
Colocar aquele menino que no sabia bem de onde viera e uma moa da roa naqueles aposentos de luxo que Antero reformara com todos os requintes modernos era demais 
para ela. Protestou mas no conseguiu demover Artur e teve que ceder. Ele sabia o que estava fazendo. Eriberto era seu neto, filho de Antero, era natural que ocupasse 
o espao que fora de seu pai e usufrusse de tudo que era dele. Sem dar ouvidos a Olvia, fez a adaptao, clareando as paredes, colocando mveis infantis, e os 
instalou l. -- Se quer pr o menino no quarto de Antero, acho um desperdcio mas, j que insiste, no posso fazer nada, mas aquela roceira  demais. Ela vai para 
o quartinho dos empregados. -- Nada disso. Uma criana precisa de cuidados a todo momento. Voc no vai se levantar durante a noite quando ele chorar ou estiver 
doente. -- Claro que no. J criei meu filho e chega. -- Criou  modo de dizer, porquanto nunca se levantou durante a noite para atend-lo. -- No fiz isso porque 
no precisei. Tinha uma boa enfermeira e depois a bab. Mas quem providenciou tudo para ele fui eu. -- Est bem. No vamos discutir. Mas Josefa vai ficar l, com 
ele. Sentada na sala, Olvia podia ver atravs da janela Josefa e Eriberto brincando no jardim. Eriberto ria sonoramente e Olvia, irritada, levantou-se, fechou 
a cortina. A risada alegre do menino a incomodava. Por que esse moleque indesejado tinha sade, ria feliz e Antero no conseguira ainda um filho saudvel Glria 
fizera duas tentativas e em ambas abortara espontaneamente no quarto para o quinto ms. Se fosse um filho de Antero, ela ficaria feliz. Ele viria perpetuar o nome 
da famlia e herdaria o patrimnio deles. No podia admitir que metade desse patrimnio fosse para as mos daquele indigente que em m hora Artur recolhera. Josefa 
entrou e foi preparar Eriberto para ir  escola, Depois, desceram e foram  copa para ele almoar. Olvia no permitia que ele comesse junto com eles na sala. Artur 
no almoava em casa e  noite, na hora do jantar, ela dizia que ele havia jantado mais cedo porque era melhor para ele. Artur nunca soube que ela havia proibido 
Josefa de coloc-lo na mesa com eles, mesmo sabendo que aos seis anos Eriberto j havia aprendido a portar-se educadamente. Olvia ouviu barulho de carro, levantou-se 
e foi  janela. Seu rosto iluminou-se. Antero havia chegado. Dirigiu-se ao saguo de entrada para abra-lo. -- Ainda bem que voc chegou! -- Vim almoar com voc. 
Como vai?

-- Mal. Ultimamente tenho vivido solitria. Seu pai no me convida para sair. -- Ele  muito ocupado. Por que no sai com suas amigas? -- No gosto. Tenho marido. 
Antes ele saa comigo. Agora, desde que recolheu esse menino, d mais ateno a ele do que a mim. Antero abraou-a sorrindo: -- Voc est com cime de uma criana! 
-- Que no sabemos de onde veio. Seus antecedentes, etc. Acho isso um perigo. Josefa apareceu na porta com Eriberto, dizendo: -- Cumprimente o Dr. Antero. O menino 
levantou os olhos para Antero: -- Como est, Dr. Antero? Antero apertou a mo que ele lhe estendia e respondeu: -- Vou bem, e voc? -- Tambm. Agora tenho que ir. 
Est na hora da escola. -- Voc gosta da escola? -- Gosto. Tenho l muitos amigos e j aprendi a ler. -- J? -- disse Antero fingindo admirao. -- Qualquer dia 
destes vou lhe trazer um livro e ver se isso  verdade. O rosto de Eriberto iluminou-se e seus lbios abriram-se em um sorriso. -- Que bom! Adoro ler. O senhor vai 
ver que leio tudo. -- Voc vai perder a hora -- interveio Olvia. -- Deixe a conversa para outro dia. -- Sim, senhora. At outro dia, Dr. Antero, No esquea o que 
me prometeu. -- At outro dia. No vou esquecer. Eles saram e Olvia no se conteve: -- E melhor no dar corda para esse moleque. Ele  muito confiado. Viu como 
cobrou voc? Antero olhou-a e respondeu: -- Voc continua implicando com Eriberto. No acho que ele seja confiado. Ao contrrio. Parece ser muito bem-educado para 
mm menino de sua idade. -- Voc no deveria se preocupar com ele. J basta seu pai, que o estraga com tantos cuidados. O que eu acho que seria bom voc fazer  me 
ajudar para que Artur o leve embora. -- Para onde? Papai disse que ele no tem famlia. -- Se ele deseja proteg-lo, poderia coloc-lo em um colgio e, na minha 
opinio, estaria fazendo muito. Meu filho, Artur o registrou como nosso filho legtimo. Ele nunca poderia ter feito isso. J se deu conta de que um dia ter que 
dividir nosso patrimnio com ele? -- Isso nunca me preocupou. Se papai achou por bem tomar essa atitude, deve ter um bom motivo. Eu respeito muito as decises dele, 
que sempre foram sensatas. Depois, o patrimnio a que se refere  resultado do trabalho dele, que tem todo o direito de dispor de seus bens como achar melhor. Eu 
tenho uma profisso, uma empresa que est indo bem, No preciso de nada. Voc no deveria preocupar-se com isso. Tenho certeza de que papai no faria nada que nos 
prejudicasse. -- No concordo com isso. Voc  nosso filho legtimo. No pode ser espoliado dessa forma. -- Voc no est vendo os fatos como eles so. Vamos mudar 
de assunto. Vim aqui para fazer-lhe companhia e no para falarmos de assuntos desagradveis. -- Um dia Glria conseguir o filho que tanto desejam. Ele  o dono 
de nosso patrimnio e est sendo lesado. Antero colocou as mos nos braos de Olvia, olhou-a nos olhos e respondeu: -- E melhor no contar com isso por enquanto. 
Da ltima vez ela correu risco de vida. No desejo sentir-me responsvel pelo que possa lhe acontecer. -- Voc no vai desistir! -- Eu j desisti. Glria s pensa 
nisso, s fala nisso, mas o mdico nos aconselhou a fazer um tratamento, chegou a sugerir que adotssemos uma criana.

-- Deus nos livre! Mais um! -- Eu achei uma soluo boa. Mas Glria no quer nem ouvir falar. -- Ainda bem. -- Vamos deixar esse assunto e falar de coisas alegres. 
Vim para almoar com voc e no para aborrec-la. Uma hora depois, Antero despediu-se. Uma vez no carro, ele pensava sobre o relacionamento dos pais. Reconhecia 
que Olvia tinha um temperamento difcil, ele mesmo muitas vezes irritava-se com as opinies que ela dava sobre as pessoas, com suas atitudes mesquinhas, seu mau 
humor. Se ele, que era filho, no se sentia bem ao lado dela, imaginava o quanto esse convvio seria penoso para seu pai. Ele era o oposto dela. Generoso, afetuoso, 
altrusta, sempre disposto a ajudar os outros. Pessoas assim nunca deveriam ter se casado. Sentia que, apesar de estarem vivendo juntos, Artur colocara uma distncia 
entre eles, dormindo em quarto separado, passando a maior parte do tempo fora de casa. Ele trabalhava muito, mas Antero sabia que ele ficava a maior parte de seu 
tempo livre na Associao Mdica, onde prestava servios como voluntrio. Perspicaz, ele notava que o pai no sentia prazer em ir para casa e se perguntava: at 
quando o pai agentaria aquela situao? A adoo de Eriberto, sua dedicao a ele, fora uma maneira de satisfazer sua afetividade. Lembrou-se de como Artur gostava 
de Antnia, dava ateno a ela, permanecendo horas conversando, o que nunca o vira fazer com Olvia. Talvez, se no houvesse adotado Eriberto, ele j tivesse se 
separado dela. Por isso Antero o apoiava. Entendia que o menino era a vlvula de escape da aridez daquele relacionamento. Ele mesmo sentia-se cansado da companhia 
de Glria. Ela era uma moa alegre, cheia de projetos profissionais ao deixar a faculdade de arquitetura. Mas tudo isso caiu por terra depois do casamento, principalmente 
diante das duas tentativas malsucedidas de ser me. Em vo Antero tentara faz-la retomar seus antigos projetos, mas ela nem sequer queria falar sobre isso. Vivia 
obcecada pela idia de engravidar, comprava livros sobre fertilidade, gestao, e conseguira no ms anterior um gravidez psicolgica da qual ainda no havia conseguido 
sair inteiramente, alegando que o mdico estava errado e procurando outros profissionais afirmando que estava grvida de fato. Para acalm-la, o mdico havia sugerido 
a adoo de um beb, afirmando que isso a faria voltar ao normal. Mas ela no queria de forma alguma. Eles se conheciam desde crianas. As famlias eram amigas e 
desde muito cedo estimulavam o namoro. Glria era bonita, educada, alegre. Antero gostava dela. Mas, depois que Antnia foi morar com eles, alguma coisa mudou em 
seu corao. Antnia era radiante, cheia de vida. Apesar de Olvia a tratar com rispidez, ela no ligava. Dizia que o carinho do tio e dele a deixavam de bem com 
a vida e com as implicncias de Olvia. O amor brotou entre eles e, quando aconteceu o inevitvel, Antero desejou romper com Glria, mas Antnia no permitiu. No 
queria causar um desgosto para os tios, que estavam muito contentes com esse casamento. Ele comeou a pensar que talvez Antnia no o amasse o suficiente para um 
compromisso maior. Sabia que seus pais no concordariam com o casamento deles, principalmente a me, mas estava disposto a enfrentar todos os obstculos. Quando 
sua me lhe disse que a prima tinha ido embora de casa e deu a entender que ela estava se relacionando com outro, ficou chocado. Pensou em procur-la e saber o que 
estava acontecendo. Mas, se no acreditou que ela houvesse descambado para uma vida desregrada como Olvia insinuou, imaginou que ela poderia ter se apaixonado por 
outro. Apesar de decepcionado, Antero resolveu esquecer e dedicar-se a Glria, que o amava de verdade. Sofreu com o suicdio de Antnia e no compareceu ao enterro 
porque estava fora do Pas e sua me s lhe contou quando regressou.

Desde ento se arrependia de no a ter procurado. O cime o impedira de ir v-la e muitas vezes se perguntava se ela teria feito isso, caso ele a tivesse amparado, 
tentado ajud-la de alguma forma a resolver seus problemas. Ele havia sido egosta, pensado apenas em si mesmo, sem se preocupar com ela. Nos ltimos meses, a lembrana 
de Antnia havia se tornado mais viva. Havia sonhado com ela, muito triste, abatida, pedindo ajuda. Acordava angustiado, nervoso. Sua conversa com Nina afirmando 
que ela levara vida exemplar deixou-o intrigado. Principalmente dizendo que ela no tinha ningum e que em seu velrio havia apenas os companheiros de trabalho. 
Era possvel que ela tivesse ido embora com outro e que esse amor no tivesse dado certo. Talvez essa tenha sido a causa de seu suicdio. Precisava saber a verdade. 
Assim que chegou ao escritrio, Antero procurou em sua carteira o carto que Nina lhe dera. Era possvel que ela tivesse as respostas que procurava. Ligou e pouco 
depois a secretria passou para Nina. Depois dos cumprimentos Antero tomou: -- Tenho pensado muito na conversa que tivemos sobre Antnia. Ela no me sai do pensamento. 
E que h alguns pontos que eu gostaria de esclarecer para poder entender por que ela se matou. -- Eu j lhe contei o que sabia. -- Tenho me sentido culpado por no 
a ter procurado e tentado ajud-la. H coisas que eu no lhe contei e gostaria de falar sobre isso. No tenho a quem recorrer. Sei que voc  pessoa ocupada e no 
tem nada a ver com o que est acontecendo comigo, mas, pela amizade que teve com Antnia, aceitaria tomar um caf comigo no fim da tarde para podermos conversar? 
Eu lhe serei muito grato. -- Sim. Voc pode me apanhar s quatro e meia, na porta do nosso prdio. Ela deu o endereo e assim que desligou o telefone foi  sala 
do Dr. Dantas contar-lhe a novidade. Ele ouviu atentamente e depois disse: -- Eis a chance que voc esperava. -- Estou nervosa. No sei se devo lhe contar toda a 
verdade, O que me aconselha? -- Acalme-se. Certamente voc estar inspirada por nossos amigos espirituais. Na hora certa saber o que dizer. -- Mas eu no tenho 
mediunidade. Seria melhor que o senhor ou Marta conversassem com ele. -- Voc foi a escolhida para isso e deve seguir sua intuio. Mais tarde, se for preciso ns 
conversarmos com ele, o faremos. No vamos nos precipitar. -- Estou insegura. -- Lembre-se que no estar sozinha. Vou ligar para Mercedes e pedir que ela e Maiia 
faam vibraes a vocs. Tenho certeza de que vai dar tudo certo. Nina voltou  sua sala, sentou-se mas no conseguiu concentrar-se no trabalho. O rosto de Antnia 
no lhe saa do pensamento. -- Deus permita que eu possa ajud-la de verdade. Gostaria muito que ela pudesse ficar em paz. As quatro e meia Nina apanhou a bolsa 
e desceu. Antero j se encontrava  sua espera. Estendeulhe a mo dizendo: -- Obrigado por haver concordado em falar comigo. Vamos a um lugar sossegado onde possamos 
conversar. Meu carro est no estacionamento. Nina o acompanhou procurando controlar a ansiedade. Notou logo que Antero estava angustiado, abatido. Certamente havia 
se atormentado com o drama que comeava a pressentir. Precisava ficar calma para conseguir agir com serenidade e bom senso. Sabia que era muito srio e importanteo 
que tinha para revelar. Sentados em um lugar discreto em uma casa de ch, Nina esperava que Antero entrasse no assunto O ch acompanhado de algumas guloseimas fora 
servido e, depois dehaverem tomado alguns goles, Antero tornou: -- Apesar de voc me haver dito que havia me contado tudo sobre Antnia, sinto que h alguma coisa 
mais que no teve coragem ou noquis me contar. Nina ia responder, porm ele no lhe deu tempo e continuou:

-- Antes de dizer qualquer coisa, quero fazer uma confisso. Eu me apaixonei pela minha prima e teria me casado com ela se me houvesse aceitado. Mas ela recusou. 
Percebi que no me amava como eu pensava. Havia tanta tristeza na voz ele que Nina no se conteve: -- Voc foi o nico e grande amor da vida dela. Antero segurou 
a mo de Nina com fora: -- O que est dizendo? Como sabe disso? Ela lhe falou sobre mim? -- Sim. Mas continue. No final lhe contarei tudo. -- Eu sofri muito acreditando 
que ela no me queria. Eu estava noivo, conhecia Glria desde criana, nossas famlias desde cedo apoiaram nosso namoro. Quando ela foi embora, procurei reagir, 
dediquei-me a Glria e casei-me com ela. Antero fez ligeira pausa e notando que Nina ouvia com ateno continuou: -- Minha me disse que ela decidiu deixar nossa 
casa porque quera ser livre para levar uma vida desregrada. Claro que no acreditei. Apesar do que houve entre ns, eu sabia que era uma moa direita. Imaginei 
que ela houvesse se apaixonado por outro e tivesse ido embora com ele. Confesso que foi difcil para mim imagin-la nos braos de outro. Mas esforcei-me para esquecer. 
-- Voc no a viu mais? -- Uma tarde, quando fui com Glria visitar minha me, ela estava no porto. Mas, assim que me viu, foi embora correndo. Eu queria ir atrs 
dela, saber se estava bem, Mas minha me impediu. No a vi mais. -- Ento aconteceu o suicdio. Voc no foi ao velrio. -- Estava viajando. Minha me no me avisou. 
Fiquei sabendo alguns dias depois, quando regressei. At hoje no me perdo por no ter ido atrs dela naquela tarde. -- Sei como  isso. Tenho o mesmo sentimento. 
No sei como vai reagir ao que vou lhe contar. Antes preciso dizer que a morte de Antnia tem me conduzido por um caminho que nunca imaginei. -- Como assim? -- Tentarei 
explicar. Um caminho do qual tentei fugir mas agora, depois do que aconteceu, sinto que daqui para a frente terei que enfrentar. -- No estou entendendo aonde quer 
chegar. -- Antes devo esclarecer que, embora eu intuitivamente imaginasse que a alma de quem morre deveria ir para algum lugar, nunca pensei que pudesse se comunicar 
conosco. -- H quem acredite que os espritos dos que morreram podem voltar para conversar. Por acaso... Antnia... -- Sim. Ela tem me aparecido em sonhos, pedindo 
ajuda. Vou contar-lhe como foi. Nina falou sobre o Dr. Dantas, sua famlia, especialmente sobre Marta, e narrou tudo quanto Antnia lhe havia dito atravs de Marta. 
No ocultou nada. Quando mencionou o filho, Antero no conteve a emoo. As lgrimas desciam pelo seu rosto sem que ele conseguisse evitar. Nina falava baixinho, 
sensibilizada pelo momento, escolhendo as palavras com cuidado. Antero ouvia atento o que ela dizia e a certa altura apanhou um leno tentando enxugar as lgrimas 
que teimavam em continuar caindo. Nina fez uma ligeira pausa, depois disse: -- No sei se estou fazendo bem em contar-lhe tudo isso, mas Antnia pediu ajuda para 
Eriberto. No tenho como ajudar, mas voc, que  o pai dele, pode fazer isso. Infelizmente sua me no aceita esse menino. Ela me procurou para entrar na justia 
e provar que ele no tem direito a nada. -- Meu pai deveria ter me contado tudo. Minha me tem um gnio forte, est sempre reclamando. Meu pai  muito diferente. 
Eu pensei que a adoo do menino havia sido uma forma de compensar sua afetividade. -- Pelo que sei, ele prometeu a Antnia, jurou que nunca lhe contaria nada. Ela 
no queria atrapalhar sua felicidade.

-- Ela no queria mas atrapalhou. Eu a amava de verdade. Se houvesse se casado comigo, nada disso teria acontecido. Hoje estaramos juntos, felizes, criando nosso 
filho. -- Antnia estava insegura, era inexperiente, adorava o tio, sabia que sua me no aceitaria o casamento de vocs, no desejou ser instrumento de desentendimento 
da famlia. -- Tem razo. Ela era muito tmida. Vivia em nossa casa contra a vontade de minha me, que no a poupava. Ao contrrio, no perdia chance de diminu-la 
mesmo diante das pessoas. Eu tambm fui fraco. Aceitei a deciso dela como falta de amor, sem me lembrar das inmeras provas de afeto que havia me dado. -- Agora, 
tudo isso acabou. Voc tem sua vida com sua esposa e precisa virar essa pgina. -- H Eriberto. Ele  meu filho. Algumas vezes notei sua semelhana com Antnia, 
os mesmos olhos negros e brilhantes, o mesmo sorriso. Mas nesses momentos eu pensava estar fantasiando. -- O que pensa fazer? -- Assumir a paternidade. Eu posso, 
devo e quero cuidar dele. -- Quando eu soube a verdade, no pensei em procur-lo. Fiquei apreensiva porquanto desejava atender ao pedido de Antnia mas no sabia 
como. O assunto  delicado. Eu no queria procurar vocs e contar essa histria. No sabia como reagiriam. Tanto Mercedes como Marta me acalmaram dizendo que eu 
no precisaria fazer nada. Que, se a espiritualidade nos mostrara a verdade, eles nos proporcionariam as condies de ajudar. Confesso que no acreditei muito nisso. 
Mas, quando nos encontramos naquela loja de forma to inesperada, compreendi que era com voc que eles queriam que eu conversasse. --  verdade, sem falar que eu 
no costumo andar pela cidade naquele horrio. Pensei que nosso encontro havia sido obra do acaso, mas agora percebo que uma fora maior nos uniu. Antero calou-se 
emocionado e Nina sentiu-se sensibilizada tambm. -- Estou descobrindo que a vida tem recursos que eu nunca havia imaginado e, que ao nosso lado h sempre um amigo 
espiritual nos inspirando. E o que Marta sempre diz. Isso nos conforta. -- O que me conforta  saber que Antnia, apesar de seu ato de loucura, continua existindo 
em outro lugar, sentindo o mesmo amor que sentia por mim e por nosso filho. -- J pensou como vai fazer para assumir a paternidade de Eriberto? Vai criar um problema 
com sua esposa, e com sua me. -- Acontea o que acontecer, terei que enfrentar. Errei muito com Antnia, estou pagando alto preo por isso. No posso continuar 
omisso e errar com Eriberto. Estou decidido, mas preciso pensar em como fazer, que providncias tomar. Preciso abrir um processo de reconhecimento de paternidade. 
Como advogada, o que me aconselha? -- Primeiro, conversar com sua famlia. Eles precisam saber a verdade. -- Poderia falar com papai. Mas tenho quase certeza de 
que ele no vai concordar, para poupar Glria e mame. Ele odeia discusses, ao contrrio de mame, que parece estar sempre brigando com tudo e todos. -- Posso fazer 
uma sugesto? -- Claro. Ser um favor. -- Gostaria de apresent-lo ao Dr. Dantas e famlia. Eles esto acompanhando o caso e, alm da experincia de vida que possuem, 
Marta poder pedir orientao espiritual. -- Eu adoraria. Quando poderemos ir? -- Falarei com eles ainda hoje. -- Gostaria de ir v-los esta noite. Sinto vontade 
de ir at a casa de meus pais, abraar meu filho, lev-lo para minha casa. Sei que no devo fazer isso. Ele tem seis anos apenas, no desejo perturblo. -- Precisa 
controlar a ansiedade. O bem estar dele deve estar em primeiro lugar. -- Eu sei. Acontece que sempre desejei ter filhos. Nestes sete anos de casamento minha esposa 
teve dois abortos espontneos. Na ltima vez, Glria correu srio risco de vida e, embora ela queira

muito ter um filho, tenho procurado evitar. Pensei que nunca pudesse ser pai. Mas hoje descobri que tenho um filho, um menino lindo, saudvel, inteligente. Fica 
difcil controlar o entusiasmo. -- Esperar um pouco mais no vai prejudicar. O importante  saber como conseguir o que pretende sem criar problemas maiores. Vou 
conversar com meus amigos e ligarei para voc assim que tiver a informao. Agora preciso ir. Meu filho est me esperando. -- Est certo. Posso deix-la em casa. 
-- No  preciso. Meu carro est no estacionamento perto do escritrio. Ficarei l. Ele pagou a despesa e saram. Dentro em pouco ele a deixou na porta do estacionamento. 
Ao despedir-se, segurou a mo dela com carinho dizendo: -- Obrigado por tudo que tem feito por mim e por Antnia. Deus a abenoe. Nos olhos dele havia o brilho de 
uma lgrima. Nina sentiu um calor brando no peito, sorriu e respondeu: -- No agradea. Com tudo isso, tenho aprendido mais do que voc. Ele se foi e Nina, uma vez 
no carro a caminho de casa, no conseguia esquecer aqiele encontro. Por que a vida a colocara diante daquele caso? Por que a fizera presenciar a emoo de um pai 
que no sabia da existncia do filho, sua alegria, sua vontade de cuidar dele? Suspirou pensativa. Andr passara pela mesma coisa e reagira da mesma forma. O caso 
fora diferente. Ela havia sido abandonada enquanto Antnia havia se recusado a casar com Antero. Mas, salvo esse detalhe, ambos estavam passando pelo mesmo problema. 
Andr tambm no tinha filhos com Janete. Diziam que era ela quem no queria. De certa forma, esse fato a deixava satisfeita, porquanto ele a desprezara por causa 
de uma mulher aparentemente estril. Pensando bem, talvez fosse melhor que ele houvesse tido filhos, assim no ficaria tanto atrs de Marcos. Mas ao pensar nisso 
sentiu um aperto no peito. Era-lhe prazeroso perceber o interesse dele pelo filho. Sentiu uma ponta de remorso. Estaria fazendo bem impedindo Marcos de conhecer 
o pai? No estaria agindo apenas pelo desejo de vingana? Se um dia ele descobrisse que o pai estava vivo e que ela o impedira de v-lo, aprovaria? A esse pensamento, 
Nina estremeceu. Ele nunca poderia saber a verdade. Ela o ensinara a ser verdadeiro em quaisquer circunstncias. Seria terrvel saber que ela ocultara um assunto 
to grave que dizia respeito a sua vida. Por que fora envolver-se nesse caso de Antnia? O melhor seria apresentar Antero aos amigos e deixar que eles o orientassem. 
Era o mximo que poderia fazer. As providncias que Antero iria tomar eram problema dele com a famlia. Depois das apresentaes, daria sua parte por encerrada. 
Decidida, assim que chegou em casa ligou para Mercedes informando-a de tudo, finalizando: -- Antero deseja conversar com vocs, pedir orientao espiritual. O que 
direi a ele? -- Traga-o amanh a nossa casa, s sete e meia. Mas amanh  dia da sesso. No seria melhor outro dia? -- No. Marta est me dizendo que  para vocs 
virem amanh  noite. -- Eu tambm? -- Os dois. Nina hesitou um pouco, depois disse: -- Est bem. Falarei com ele. Se aceitar, iremos. -- Estaremos esperando. E 
importante que ambos compaream. Depois que desligou o telefone, Nina ficou indecisa. Sabia que Andr costumava freqentar essa reunio. No queria encontrar-se 
com ele. Por mais que se distanciasse, os fatos pareciam coloclos frente a frente. A maneira incisiva com que Mercedes falara a fizera entender que precisava acompanhar 
Antero. Por outro lado, seria melhor enfrentar Andr, mostrando-se indiferente.

Sabia que isso teria que acontecer cedo ou tarde. De nada lhe valeria fugir. Escolhera a mesma profisso dele querendo mostrar sua capacidade, seu valor. Agora que 
estava conseguindo, no podia voltar atrs. Se Antero concordasse em ir  sesso no dia seguinte, ela iria com ele. Por outro lado, estava curiosa para ouvir a orientao 
que ele receberia. Se Antnia se comunicasse, ela gostaria de estar presente. Decidiu telefonar para Antero na manh seguinte. No gostaria de ligar para sua residncia. 
Mas Antero no conseguiu esperar que ela ligasse. Ligou depois do jantar. Estava ansioso para saber quando iria conhecer a famlia do Dr. Dantas. Nina explicou: 
-- Bem, falei com Mercedes e ela pediu para irmos amanh  noite. Devo esclarecer que eles fazem uma sesso esprita, no sei se voc deseja ir. -- Claro que eu 
vou. Depois da nossa conversa  o que eu mais desejo. -- Nesse caso, iremos. Combinaram que ele iria busc-la s sete na noite seguinte. Mesmo sabendo que Renato 
iria, decidiu no levar Marcos. Ele era muito criana para preocupar-se com comunicao de espritos. Depois, havia a presena de Andr. Antero foi busc-la na hora 
combinada e, quando chegaram, Mercedes os esperava no saguo, ao lado do marido. Depois das apresentaes, ela disse: -- Est na hora, vamos nos acomodar. Quando 
eles entraram na espaosa sala onde se daria a sesso, as pessoas j se encontravam acomodadas, algumas ao redor da mesa, outras sentadas mais atrs. Sobre a mesa, 
alguns livros, flores, uma bandeja com copos e uma jarra com gua. Nina notou que Andr e Milena estavam sentados ao lado de Marta ao redor da mesa. Mercedes acomodou 
os dois nas cadeiras mais atrs e foi sentar-se ao lado do marido. Nina notou que Andr a olhou srio e com olhar indagador. Sentiu vontade de rir. Antero era um 
homem bonito. Talvez ele tenha imaginado que houvesse uma relao afetiva entre eles. Ele nunca a havia visto em companhia de outro. Sentiu prazer em pensar nisso, 
apesar de nunca mais haver se envolvido com ningum. As luzes foram apagadas, a sala ficou em penumbra, iluminada apenas por uma lmpada azul. Mercedes fez uma breve 
orao, pedindo a proteo divina e a assistncia dos espritos iluminados. Depois as luzes foram acesas, o Dr. Dantas apanhou um dos livros, pediu a uma senhora 
presente que o abrisse ao acaso, o que ela fez e entregou-o de volta, O Dr. Dantas leu: "O Amor cobre a multido dos pecados". Tratava-se de uma mensagem de um amigo 
espiritual estudando o amor, com delicadeza, profundidade, falando do prazer que o esprito sente ao alcanar esse sentimento em toda a sua plenitude. Terminava 
afirmando que amor  luz. Que quem ama dessa forma desfruta da alegria, tem motivao de viver. Deseja que o ser amado seja feliz mas no se perturba quando isso 
no acontece e, mesmo que seu amor no seja correspondido, sabe esperar tempos melhores, porquanto tem certeza de que um dia aquele ser vai amadurecer e encontrar 
a felicidade. Talvez para muitos ainda seja difcil entender esse sentimento, pela incapacidade de perceber que ainda carregam carncias e pontos fracos que se misturam 
turvando sua lucidez. Mas um dia todos amaro uns aos outros verdadeiramente e a humanidade encontrar harmonia e paz. Depois, as luzes foram apagadas novamente 
e o silncio se fez, apenas quebrado pelo som de uma msica suave. De repente, Milena suspirou profundamente, depois disse: -- Estou feliz por estar aqui hoje, trazendo 
comigo uma pessoa que tem sofrido muito, deseja se comunicar mas est muito emocionada. Peo a todos que nos ajudem, orando para que ela consiga. O silncio se fez 
por alguns minutos, mas, de repente, Marta gritou: -- Perdo! Quero pedir perdo! Eu errei... pequei contra a vida, mas eu pensei que acabaria com meu sofrimento, 
mas no... tudo ficou muito pior. Por favor, me ajudem... Ela soluava em desespero e Milena alisando a cabea de Marta disse: -- Calma, Antnia. Tudo vai passar 
e voc vai melhorar.

-- Eu estava iludida. Perdo. Ajudem meu filho, ele no tem culpa de nada. Marta estremeceu e parou de chorar, enquanto Milena continuou: -- No momento ela no poder 
continuar. Foi medicada e agora est descansando. Desejo agradecer a todos pela ajuda que nos deram. Eu tambm tenho minha parcela de culpa em tudo isso. Quando 
meu marido morreu, no me conformei. Eu estava grvida de Antnia e o amava muito. Sem entender o que a vida pretendia me ensinar com esse fato, entreguei-me  depresso. 
Mesmo depois que minha filha nasceu, muitas vezes eu chorava a ausncia dele, sem entender que os relacionamentos obedecem s nossas necessidades de progresso. Eu 
ainda no sabia que um dia nos veramos de novo. Cultivando a tristeza, a falta de motivao, acabei desenvolvendo a doena que me vitimou. Cheguei aqui como suicida, 
embora houvesse feito isso indiretamente, Ainda no encontrei com Ernesto, como esperava, mas logo descobri o quanto estava errada abandonando minha filha em plena 
adolescncia. Meu irmo cuidou dela com carinho, mas minha cunhada a odiou desde o primeiro dia. Hoje sei que elas viveram situaes mal resolvidas em outras vidas. 
E eu que havia, antes de nascer, prometido ajud-las a resolver esses assuntos nesta existncia, no fiz a minha parte e acabei deixando-as entregues a si mesmas. 
Lgrimas corriam pelas faces de Milena, que fez ligeira pausa, pouco depois continuou: -- Eu sabia que Antnia e o primo iriam se apaixonar, encontrar barreiras, 
mas tambm que havia possibilidade de se entenderem e tudo com o tempo se regularizar. Mas no. Minha filha iludiu-se, julgou-se menos, veio a gravidez e ela preferiu 
afastar-se. Depois que seu filho nasceu, pensei que esse menino a motivaria a enfrentar a situao, e que um dia ainda seriam felizes. Mas ento meu irmo, desejando 
suprir o papel que o pai do menino no pudera fazer, assumiu tudo, levou a criana. Ela cedeu, mas morreu um pouco nesse dia, Nunca mais foi feliz e acabou fazendo 
o que fez. Foi preciso que eu lhes contasse tudo, porque h algumas pessoas presentes que precisavam saber, e desta vez eu espero que o que estamos fazendo no seja 
em vo. Obrigada por tudo. Temos um longo caminho de regenerao pela frente. Rezem por ns. Apesar de tudo, hoje foi um dia feliz, porquanto conseguimos ajudar 
minha filha. Ela precisa de um longo tratamento, mas estou certa de que um dia tudo estar bem. Antnia queria ficar. Ns lhe prometemos que, quando estiver melhor, 
a traremos novamente para ter notcias do filho. Devo esclarecer que, com essa promessa e a presena de algum a quem ela ama muito e confia que vai ajudar o menino, 
finalmente ela aceitou o afastamento para se tratar. Um abrao agradecido da Bemardete. Milena calou-se e fez-se um silncio emocionado. Nina olhava de vez em quando 
para Antero, cujo rosto lavado em lgrimas, tanto quanto o dela, a fizera colocar a mo no brao dele como que para dar-lhe foras. Atravs de uma senhora presente, 
um amigo espiritual fez uma preleo sobre o amor, a alegria, a harmonia e o perdo. Quando ela terminou, o Dr. Dantas fez uma prece de agradecimento e encerrou 
a sesso. As luzes foram acesas e as pessoas tomaram um pouco da gua que estava sobre a mesa e foram saindo discretamente. Andr, visivelmente emocionado, no tirava 
os olhos de Nina e Antero, que, acanhado, mantinha os olhos baixos. Milena aproximou-se de Andr dizendo: -- Vamos embora, Eles precisam conversar. -- Quem  esse 
moo? Por que est com Nina? -- Trata-se de um caso que estamos tentando audar. No caminho lhe contarei tudo. -- Eu quero conversar com Nina. Noto que ela est emocionada. 
As palavras que ouvimos nos tocaram muito. Talvez ela esteja mais acessvel. -- Este no  o momento. Vamos deix-la refletir. E preciso confiar e deixaras coisas 
acontecerem. -- E difcil esperar. Preciso agir, fazer alguma coisa. -- Contenha sua ansiedade. Mentalize luz, pea a ajuda espiritual e fique atento. A sabedoria 
da vida tem seus prprios caminhos. E bom aguardar que ela sinalize, ento saber o que e como fazer.

Milena pegou Andr pela mo e foram saindo. Embora contrariado, ele foi. Na sala ficaram apenas Nina e Antero. Marta aproximou-se: -- Meus pais esto se despedindo 
dos amigos e j viro. Como est se sentindo? Antero respirou fundo e considerou: -- E difcil dizer. Ainda no me recuperei do choque. Esta noite tive a prova definitiva 
de que a vida continua depois da morte. Penso que, se todos tivessem essa certeza, a vida no mundo seria diferente. -- Um dia isso acontecer. No momento nem todos 
esto preparados para receber esse conhecimento. E por isso que a revelao  relativa e individual. Os donos da casa voltaram e sentaram-se ao lado deles. -- Esta 
noite fomos abenoados com um trabalho maravilhoso, que nos comoveu a todos -- tomou Mercedes. -- Diante do que Nina me havia contado, eu vim acreditando em vida 
aps a morte, mas o que aconteceu aqui me impressionou demais. O sofrimento de Antnia, o amor de minha tia Bernardete, cujo sofrimento preocupou a famlia quando 
meu tio Ernesto morreu. Ela nunca aceitou a separao. Meu pai se preocupava muito com a tristeza dela, era sua nica irm. Nunca esquecerei esta noite. -- Eu tambm 
-- murmurou Nina. -- Vocs falavam de fatos que ocorriam durante as sesses, mas eu jamais pensei que fosse assim. -- Esta noite ns fomos muito felizes. Conseguimos 
um ambiente propcio para que os espritos de luz pudessem trabalhar. Nem sempre isso acontece. -- H pessoas mal-intencionadas, que no fazem bom uso da mediunidade 
-- disse Nina. -- Isso  verdade. Mas mesmo quando as pessoas so sinceras, de boa-f, desejam o bem, h outras variveis que podem dificultar a que as manifestaes 
aconteam com a clareza desta noite -- esclareceu Antnio. -- Como assim? -- indagou Nina. -- As energias de um ambiente sofrem vrias influncias. Alm das pessoas 
que residem no local, das que moram nas vizinhanas e at do ambiente social da cidade ou do planeta -- respondeu Antnio. -- Pessoas vivas? -- indagou Antero. -- 
Voc quer dizer reencarnadas. Os que morreram continuam vivos. Mas os pensamentos, hbitos, atitudes, crenas das pessoas, encarnadas ou no, criam energias que 
circulam  nossa volta. Se prestar ateno, notar que h momentos em que o ambiente fica eletrizado, provoca inquietao. Pensamentos negativos nos invadem a contragosto, 
como que vindos do nada. Quando o ambiente est pesado, fica mais difcil aos espritos iluminados aproximarem-se de ns -- explicou Antnio. -- Cultivando o pensamento 
positivo, a prece, conseguimos melhorar o ambiente onde estamos, abrindo um espao para que eles possam se manifestar, mas nem sempre o suficiente para que as comunicaes 
dos espritos sejam to lcidas como as de hoje -- interveio Mercedes. -- Alm do que lembrou Antnio -- a maioria dos mdiuns so conscientes. Enquanto os espritos 
comunicantes esto falando atravs deles, ficam com medo de errar. Muitas vezes, por causa disso, omitem nomes, datas, coisas que poderiam lev-los a se enganar. 
-- Eu pensei que os mdiuns no tivessem conscincia de nada -- tornou Antero. -- H mdiuns inconscientes, mas so menos numerosos. A grande maioria so conscientes, 
mas entre eles h vrios nveis de conscincia -- disse Antnio. -- Nesse caso seria melhor que todos fossem inconscientes disse Nina. -- Isso no  verdade. O mdium 
inconsciente, ainda que tenha f, confie nos espritos, fica inseguro porquanto teme ser usado por entidades perturbadoras. J quando  consciente, pode bloquear 
se sentir que  alguma coisa ruim. Eu algumas vezes, conforme o momento, fico inconsciente, mas me permito trabalhar assim desde que esteja ao lado de meus pais 
-- opinou Marta.

-- Quer dizer que voc pode controlar a mediunidade? -- indagou Nina. -- Com o tempo voc vai aprendendo quando segurar ou deixar ser. E um processo que no d para 
explicar. Eu sinto, eu sei -- respondeu Marta. -- Com relao aos fenmenos espirituais, ainda temos muito o que aprender. Cada pessoa tem seu prprio processo de 
evoluo, de aprendizagem, nveis de sensibilidade e de conscincia. O que posso dizer  que, quando despertamos para a necessidade de estudarmos a vida, a espiritualidade 
e principalmente quando adquirimos a certeza de que somos eternos, passamos a enxergar o mundo  nossa volta de maneira diferente. Nos tornamos mais compreensivos, 
mais corajosos e confiantes na fonte da vida -- esclareceu Antnio, cujo tom de sinceridade comoveu Antero. -- De fato -- concordou ele. -- Depois do que se passou 
aqui, no serei mais o mesmo. Estou ansioso para assumir a paternidade de Eriberto, mas no sei como fazer isso sem magoar minha esposa, meu pai e principalmente 
confundir a cabea do meu filho. Mas sinto que no poderei deixar de fazer o que  de minha responsabilidade. Tia Bernardete frisou que Antnia confia em mim. -- 
O assunto  delicado. Voc precisa refletir antes de tomar qualquer iniciativa. No se apresse. Pense no amor que sente por esse filho e na vontade que tem de proteg-lo, 
am-lo, ajud-lo a conquistar a prpria felicidade -- sugeriu Mercedes. -- Se fizer isso, vai notar que surgiro em sua mente as primeiras providncias que deve 
tomar -- disse Marta. -- Talvez eles possam dizer a voc o que eu devo fazer. -- Eles nunca faro isso, porque a tarefa  sua. Voc  quem deve decidir o que fazer. 
Eles vo inspir-lo, sugerir algumas alternativas. -- Mas eu no tenho a sua sensibilidade. -- Certo, mas possui a sua prpria. Todas as pessoas tm a possibilidade 
de serem inspiradas pelos espritos. Ningum est s. Todos ternos  nossa volta muitos amigos espirituais dispostos a nos inspirar bons pensamentos. -- No corro 
o risco de ser enganado por espritos menos evoludos? -- A que entra seu bom senso, seu discernirnento, sua postura tica. Quem est no bem nunca aceitar uma 
idia ruim que possa prejudicar algum. Acredite que qualquer atitude que venha a tomar, neste ou em outros casos, a responsabilidade diante da vida ser s sua. 
E por isso que os bons espritos nunca interferem diretamente em nossas decises. Sugerem bons pensamentos e esperam que faamos nossas escolhas -- finalizou Marta. 
-- O que no  nada fcil -- comentou Nina pensando em seus prprios problemas. -- Engana-se respondeu Marta. -- Por mais que esteja perdido nas iluses do mundo, 
nosso esprito sente quando faz algo bom ou quando preferiu o mal. As energias so muito distintas, como que respondendo a nossa atitude. Acontece que quem est 
muito envolvido no negativo sente mas no quer ver e acaba pagando um preo muito alto pela escolha ruim. -- Foi o que aconteceu a Antnia -- disse Nina pensativa. 
-- Sim interveio Antnio. -- Ela se colocou na situao de vtima, alimentou um complexo de inferioridade, julgou-se fraca e acabou destruindo no s sua chance 
de felicidade como atentando contra o sagrado direito de viver. E triste reconhecer isso. -- Ela no era fraca, uma vez que no teve medo de se suicidar -- lembrou 
Nina. -- Alm do que foi correspondida no amor. Meu caso foi muito pior, mas, se ela houvesse feito o que eu fiz, teria sido melhor. -- Certamente -- aduziu Marta 
-, mas a fora da vingana pode fazer algum reagir, contudo no conduz  felicidade. Deixa sempre um vazio no peito, uma tristeza indicando que  preciso perdoar. 
S o perdo alivia e liberta o esprito. Nina baixou a cabea e no respondeu. Antero notou seu constrangimento e interferiu: -- Quer dizer que eu preciso refletir 
sobre tudo isso, pedir ajuda espiritual e esperar pela inspirao.

-- Isso mesmo -- disse Antnio. Antero levantou-se dizendo: -- Vou tentar. Agora, penso que j abusamos demais da bondade de todos vocs. Temos que nos despedir. 
-- Foi um prazer conhec-lo -- tornou Mercedes, -- Venha quando quiser. -- Posso vir na prxima sesso? Desta vez foi Antnio quem respondeu: -- No apenas na sesso, 
mas sempre que quiser conversar um pouco. Teremos o maior prazer em receb-lo. Eles se despediram e, uma vez no carro, Antero lembrou: -- Eu estou to envolvido 
em meu drama pessoal e no pensei que voc pode estar tambm precisando de um amigo. Suas palavras ainda h pouco deixaram transparecer isso. -- De fato. Tambm 
estou vivendo um dilema doloroso. -- Depois do que fez por mim, saiba que tem um amigo pelo resto da vida. Se eu puder ajudar de alguma forma, disponha. -- Obrigada. 
Talvez um dia eu lhe conte tudo. O que se passou esta noite mexeu muito comigo. No tenho condies de falar no assunto. -- Entendo. Estarei  sua disposio quando 
desejar. Pretendo vir na prxima sesso. Se quiser, poderemos vir juntos. -- Ainda no sei se virei. Mas agradeo o convite de corao. O carro parou na porta da 
casa de Nina, despediram-se com um aperto de mo. Ela entrou e foi direto para o quarto. Preparou-se para dormir. Uma vez deitada, lembrou-se de tudo quanto havia 
acontecido e se perguntou mais uma vez por que a vida a teria colocado ao lado de Antero, que estava vivendo um problema quase igual ao dela. Diante de todos os 
antecedentes desse caso, ela percebia claramente haver uma fora maior direcionando tudo. Seu conhecimento com Antnia, a presena inesperada de Antero naquela loja, 
ela sendo escolhida para contar-lhe a verdade e, agora, a deciso dele de assumir a paternidade do filho. Ela sentia que tudo isso lhe fora mostrado para que ela 
repensasse seu prprio caso. Mas Nina no queria ceder. No para Andr, que a trocara por outra quando ela mais precisava de seu apoio. Atormentada por esses pensamentos, 
custou a dormir. S muito tarde, cansada, finalmente conseguiu pegar no sono, um sono pesado, sem sonhos.

Andr deixou a casa do Dr. Dantas a contragosto. Assim que entraram no carro, ele no se conteve: -- Por que voc me tirou de l daquele jeito? Uma hora terei que 
conversar com Nina sobre nosso filho. O momento e o local seriam ideais. Depois, no gostei do sujeito que estava com ela. -- Acalme-se, Andr. O Dr. Antero  um 
bom rapaz e est passando por um problema difcil. Alis, muito parecido com o seu. -- Como assim? E uma longa histria que vou lhe contar quando voc estiver em 
condies de me ouvir. -- Voc viu a intimidade de Nina com ele? -- No vi nada de mais, Ela estava comovida e tentava confortar o moo. Depois, no gostei do tom 
de sua voz. Voc fala como se ela lhe devesse explicaes sobre suas relaes de amizade. Nina  uma mulher livre, enquanto voc  um homem casado. Noto que est 
com cimes. Andr mordeu os lbios irritado. -- O que  isso? Voc tambm est contra mim? -- Claro que no, e voc sabe disso. Eu notei como voc ficou quando viu 
os dois entrarem. -- Deu para notar? Eu no esperava v-la com outro. -- Garanto a voc que Nina no tem nada com Antero. Mas essa  uma realidade que ter de aceitar. 
Nna  uma mulher linda, fina, respeitada. Algum dia vai encontrar algum e refazer sua vida. -- O que me preocupa  meu filho. A idia de que ele pode vir a ter 
um padrasto me faz mal. -- Cuidado. Sinto que em seu corao ainda h uma chama do amor que nutriu por ela. -- E impresso sua. O que me interessa mesmo  meu filho. 
Apenas isso. -- Nesse caso, no preciso lhe falar sobre o caso de Antero. -- Voc prometeu. Estou curioso. Milena sorriu e disse:

-- Est bem. Vou lhe contar. Quando Nina comeou a trabalhar no escritrio do Dr. Dantas, tinha uma colega chamada Antnia, que um dia se trancou no banheiro e se 
suicidou. Nina era amiga dela e ficou muito abalada, principalmente porque ningum sabia de sua famlia. O carro parou em frente  casa e Milena pediu: -- Vamos 
entrar, depois eu conto o resto. Eles entraram e pretendiam ir direto ao quarto dela, mas os pais estavam na sala e vendo-os foram abra-los. Depois dos cumprimentos, 
Andria perguntou: -- Afinal, aonde voc foram? -- Visitar alguns amigos -- respondeu prontamente Milena. -- Que amigos, posso saber? Desta vez quem respondeu foi 
Andr: -- Um amigo meu, advogado. Eles tm uma filha da mesma idade que Milena e elas so muito amigas. -- Milena tem amigas? -- estranhou Andria. Romeu interveio: 
-- Por que no as teria, Andria? Pea  criada para nos trazer um caf. Quando Andria deixou a sala um pouco contrariada, Romeu continuou: -- Sabem como sua me 
 curiosa. Quanto a mim, fico feliz quando os vejo juntos. Tenho notado que Milena est mais calma, mais alegre. -- E verdade, papai. Andr tem me auxiliado muito. 
Sou muito grata a ele -- respondeu Milena abraando o irmo. -- Eu descobri que tenho uma irm maravilhosa. Lamento no haver percebido isso h mais tempo. E, voltando-se 
para ela, ele perguntou: -- Voc no ia me mostrar aquele livro em seu quarto? Deixe o caf para depois. -- E verdade. Vamos subir. Quando Andria voltou, olhou 
em volta decepcionada: -- Onde eles esto? -- No quarto de Milena. Ela foi mostrar-lhe um livro. -- No sei a causa de tantos mistrios. Todas as semanas no mesmo 
dia e horrio, Andr sai com Milena. Nunca dizem aonde vo. Falei com Janete mas ela tambm no sabe de nada. Quando esto em casa, ficam conversando no escritrio 
a portas fechadas ou no quarto dela. Est acontecendo alguma coisa com eles e eu preciso descobrir o que . -- No est acontecendo nada. Milena tem estado bem nos 
ltimos tempos, e eu acho que  graas a Andr, que a tem levado para passear, conhecer seus amigos. -- Por que ento no convida Janete para essas visitas? -- Porque 
ela iria atrapalhar. -- Que horror, Romeu. Ela  a esposa dele. -- Mas Milena nunca se deu muito bem com ela. Alis, no sei se voc notou, mas ela ignora nossa 
filha. Para Janete,  como se ela no existisse. Mal a cumprimenta. -- Pudera. Depois de algumas tentativas, cansou. J esqueceu o quanto nossa filha  desagradvel 
quando quer? Vou subir e cham-los para o caf. -- Vamos esperar. Vo descer logo. Olvia apanhou uma revista e sentou-se novamente, contrariada. Romeu, por sua 
vez, apanhou o livro que deixara sobre a mesinha e mergulhou na leitura. Milena entrou no quarto com Andr, fechou a porta  chave e comentou: -- Mame no agenta 
mais de curiosidade. Mas ainda no quero que ela saiba de nada. Quando descobrir aonde vamos, vai fazer uma cena daquelas e eu no estou disposta a perder minha 
paz. Me sinto to bem! -- Um dia teremos que contar. Acho que papai, pelo menos, poderia saber. -- . Ele  diferente dela. Mas ainda  cedo. Vamos esperar um pouco 
mais.

-- Como quiser. Mas estou ansioso para saber o resto da histria. Acomodaram-se e Milena contou tudo que sabia. A medida que ia falando, Andr se emocionava mais. 
Quando ela finalizou, ele no se conteve: -- Quer dizer que aconteceu com ele o mesmo que comigo. A situao  a mesma. -- Foi o que dissemos  Nina. Mas ela alega 
que no. -- Como no? -- Disse que Antero props casamento a Antnia. Foi ela quem recusou. Mas que voc a enganou, traiu e desprezou. -- Ela no pode dizer isso. 
Eu no sabia que ela tinha tido esse filho. -- Mas sabia que ela estava grvida. Logo... -- Pensei que depois de tudo ela houvesse dado um jeito... -- Nem fale uma 
coisa dessas, que fica pior. Nina  uma moa valente que assumiu sozinha as conseqncias desse relacionamento. -- Est certo. Eu errei, mas quero corrigir o erro. 
Ela no pode me impedir de assumir meu filho. As vezes penso que voc est do lado dela, contra mim. -- No  verdade. Desejo de todo corao que voc consiga o 
perdo de Nina e o amor de seu filho. Mas  preciso reconhecer que voc agiu mal, ela sofreu, lutou, e o que mais me preocupa  que ela disse ao filho que o pai 
morreu. -- Ela nunca deveria ter dito isso. -- Voc preferia que ela houvesse contado que voc os havia abandonado para casar-se com outra? Andr passou a mo nos 
cabelos como para afastar os pensamentos desagradveis. -- De fato, reconheo que o caso  delicado. Por essa razo  que ainda no o procurei para contarlhe a verdade. 
-- H que se pensar no bem-estar dele. -- Eu sei. Mas Nina no deseja nem ouvir falar nisso. Assim fica difcil. J pensou se eu tiver que recorrer  justia para 
reclamar a paternidade? -- Voc no vai fazer isso Somos pessoas de f. A vida tem sabedoria e amor para nos ajudar a resolver esse caso de uma forma melhor para 
todos. -- No sei se posso esperar por isso. Quanto mais penso no passado, mais noto o quanto errei, Estou arrependido, mas no sei se mereo a ajuda espiritual. 
-- Voc est sendo sincero. Vamos confiar. -- Se eu pudesse voltar atrs, teria me casado com Nina. Eu a amava muito. No sei como pude agir daquela forma. -- Talvez 
j tenha aprendido a lio que precisava, porquanto acho que os espritos j o esto ajudando. -- Acha mesmo? -- Claro. Por que Nina foi envolvida no caso de Antero? 
No ser esse o jeito de faz-la olhar o que lhe aconteceu de uma maneira diferente? Ela ficou muito comovida. Tenho certeza de que deve estar pensando muito no 
assunto. Por isso, vamos rezar, confiar e esperar. -- Voc tem o dom de me acalmar, Estou me sentindo melhor. -- Lembre-se que ns no estamos sozinhos. A nosso 
lado h sempre um esprito de luz a nos inspirar. Andr beijou-a na testa sorrindo: -- Ainda bem que voc est me ajudando. Agora, vamos descer e tomar aquele caf 
com mame. Ela deve estar inquieta  nossa espera. Milena riu divertida. Os dois desceram as escadas de mos dadas e Andria olhou-os admirada. -- Ainda  tempo 
de tomarmos esse caf? -- indagou Andr sorrindo. -- Claro. Mandei servir na copa. Quero que experimentem um bolo delicioso que Maria fez. Eles a acompanharam, e, 
depois que se acomodaram, Andria os serviu com alegria e sentou-se por sua vez para conversar.

Andr e Milena trocaram um olhar malicioso. Eles sabiam o que ela queria mas no lhe deram chance de perguntar nada. Enveredaram por assuntos triviais, sempre to 
a gosto de Andria, sem lhe dar tempo de fazer perguntas. Tomaram caf, comeram uma fatia de bolo e Andr despediu-se enquanto Mjlena, dizendo-se com sono, foi para 
o quarto. Romeu havia se recolhido e, assim que se viu sozinha, Andria apanhou o telefone e ligou para Janete. -- Estou ligando porque aconteceu novamente esta 
noite. Andr saiu com Milena e voltaram no mesmo horrio. Ele no lhe disse aonde foram? -- No. Nos ltimos tempos ele mal conversa comigo. O que ser que est 
acontecendo? No estou suportando mais esta situao. Estou pensando em falar com papai para intervir. Andr est passando dos limites. -- No acho uma boa opo. 
Voc sabe como ele . Quando se irrita fica pior. -- No posso fazer de conta que est tudo bem. Qualquer dia destes posso ter alguma surpresa desagradvel. Ento 
poder ser tarde demais para tomar providncias. -- Voc est me assustando! Eles podem no estar fazendo nada de mais. Afinal, est saindo com a prpria irm. No 
h motivo para ficar to nervosa. -- Se fosse s isso, no estaria do jeito que estou. O que me preocupa  que ele mudou comigo. No conversa, no sai junto, est 
sempre triste, com ar de preocupao. -- Estar com alguma problema nos negcios? -- Meu pai garante que no, mas no escritrio notaram que ele anda diferente, preocupado, 
nervoso. Eu sei que est acontecendo alguma coisa. Ningum muda assim do nada. -- Talvez seja bom colocar um detetive particular atrs dele para descobrir. -- Eu 
j fiz isso durante trs dias mas no descobrimos nada. Achei que era perda de tempo. -- Ento no sei o que dizer. Noto que Milena deve saber de tudo mas no conta 
nada. -- Voc podia conseguir que ela contasse o que sabe. -- Ela  uma pessoa difcil. E nos ltimos tempos ficou mais evasiva. No consigo arrancar nada dela. 
-- Tente, Andria. Afinal  sua filha, deve saber um jeito de fazla se abrir. -- Acho difcil. Em todo caso, vou tentar e se souber de alguma coisa eu ligo. -- 
Estarei esperando. Estou ouvindo o barulho do carro. Andr deve estar chegando. Vou desligar. Obrigada pelo aviso. Ela desligou, sentou-se na sala folheando uma 
revista. Andr entrou, cumprimentou e ia subir mas Janete o deteve: -- Andr, preciso conversar com voc. -- E tarde. Estou cansado. Amanh tenho de levantar cedo. 
-- Fiquei esperando at agora e espero que me oua. -- Aconteceu alguma coisa? -- Voc  quem vai me dizer. No estou suportando mais esta situao. Voc mudou muito. 
Isolouse de nossos amigos, no vamos a lugar nenhum. Quando est em casa no conversa, parece zangado, nervoso. O que est acontecendo? -- Nada. -- No pode ser. 
Ningum muda assim de uma hora para outra. Voc parece outra pessoa. -- Eu sempre fui assim, no gosto muito de visitas formais, conversas frvolas, desinteressantes. 
-- Voc nunca me disse isso e me acompanhava a todos os lugares. -- Mas eu cansei. Descobri que no gosto de ir a certos lugares nem da companhia de certas pessoas. 
-- Em sociedade no podemos agir assim. Voc tem uma carreira para zelar. Precisa manter bons relacionamentos. No pode viver como um bicho do mato. Se continuar 
assim, logo estar esquecido e pobre.

-- No se preocupe. Temos um bom patrimnio. Se isso acontecer, deixarei tudo para voc. -- No diga isso nem brincando. -- Vou subir, estou cansado, quero dormir. 
Boa noite. -- Ainda no terminei. Por que me trata assim? -- No a estou tratando mal. Acontece que estou cansado,  tarde e quero dormir. Andr deu meia-volta e 
antes que ela tivesse tempo de responder apressou-se em subir as escadas. Desolada, Janete sentou-se em uma poltrona, pensativa. Lembrou-se dos tempos de namoro, 
quando ela, muito apaixonada e com a conivncia de Andria, o envolvia de todas as maneiras, arranjando festas, compromissos, situaes para mant-lo a seu lado. 
Isso no estava adiantando mais. Andr parecia ter voltado a ser como no incio do namoro, quando Andria fazia tudo para juntar os dois e ele sempre encontrava 
um jeito de escapar. Houve uma poca em que ela imaginou que nunca conseguiria conquist-lo, mas com o tempo acabou conseguindo. As vezes ela se irritava notando 
que Andr no era ambicioso. No desejava conseguir fama, poder. Janete pensava diferente. Gostava de ser importante, de gastar sem se importar com o montante, ser 
paparicada por joalheiros, colunistas sociais, aparecer nas revistas de moda e na televiso. Vrias vezes seu pai comentara a falta de interesse de Andr em cultivar 
amizades de pessoas importantes. Eles acreditavam que isso era fundamental para subir na vida. Naquele momento, janete comeou a pensar em quanto seu amor por Andr 
a havia prejudicado. Se no estivesse to apaixonada a ponto de esquecer suas prioridades, teria notado que ele se satisfazia com uma vida medocre. Mas ela no 
estava disposta a aceitar uma situao dessas. Faria tudo para que ele reagisse, mas, se ele continuasse agindo assim, seria prefervel a separao. Ao pensar nisso, 
estremeceu. Ela o amava. No queria separar-se dele. Precisava encontrar um jeito de faz-lo repensar e voltar atrs. Ela sempre fora uma mulher de sorte. Haveria 
de conseguir o que desejava. Precisava dormir, descansar. Pensando assim, foi se deitar e mais calma logo conseguiu adormecer. No dia seguinte, Antero se levantou 
e, quando desceu para o caf, Glria o esperava. Ele a cumprimentou, sentou-se, serviu-se de caf com leite, po com manteiga, comeou a comer e notou que ela, sentada 
em sua frente, no se serviu. -- No est com fome? -- Estou enjoada. Preciso esperar passar. Agora no posso ficar sem comer. Antero olhou-a preocupado. -- Acho 
melhor ir ao mdico para uma consulta. Todas as manhs voc est enjoada. Isso no pode continuar. -- No preciso de mdico. Na gravidez  comum sentir enjo pela 
manh. Vai passar. Antero colocou a xcara sobre o pires, colocou a mo sobre a dela dizendo: -- Voc fez um exame na semana passada e deu negativo. No est grvida. 
-- O mdico est enganado. Esse exame no foi bem-feito e at pode ter sido trocado no laboratrio. Eu sei que estou grvida. Tenho todos os sintomas. Esqueceu que 
j estive grvida duas vezes? -- No. Mas deve se lembrar que o mdico disse para no ficarmos preocupados excessivamente com a gravidez. Em nosso caso seria conveniente 
dar um tempo, esquecermos a idia de termos filhos, porque a ansiedade atrapalha o processo. -- Voc no entende! Eu sei que sou capaz de ter um filho, tanto que 
j estou grvida e desta vez vai dar tudo certo. Antero olhou-a penalizado e resolveu contemporizar. -- Mesmo assim. Se voc estiver certa, mais um motivo para relaxar, 
no ficar s pensando nisso. Tente distrair-se, pensar em outras coisas.

-- No consigo. Nove meses passam depressa e eu preciso estar com tudo pronto para quando ele chegar. -- Voc j comprou enxoval, preparou o quarto, falta muito 
pouco. Em um ms compraremos tudo. -- O que me deixa nervosa  perceber que voc no acredita que nosso filho vai chegar. Acha que estou mentindo? -- No. Sei que 
est sentindo os sintomas. S acho que precisamos esperar e, nesse meio-tempo, voc precisa se distrair. Antero levantou-se, despediu-se da esposa, foi para o escritrio 
de sua empresa. Precisava pensar em Eriberto. O tempo resolveria o problema da esposa. Um dia, ela teria que se render  verdade. Iria sofrer, mas teria que se conformar. 
Uma vez em seu escritrio, recomendou  secretria que s o interrompesse em caso de urgncia. Sentou-se em uma poltrona e rememorou todos os acontecimentos. Ele 
mantinha um bom relacionamento com o pai, que sempre fora companheiro e cuja generosidade ele conhecia muito bem. Decidiu que o primeiro passo seria conversar com 
ele e dizer-lhe o que desejava fazer. Ligou para oconsultrio e a secretria informou que ele s estaria livre a partir das quatro da tarde. -- Diga-lhe que passarei 
em seu consultrio nesse horrio. Tenho um assunto importante a tratar com ele. -- Darei o recado. Antero desligou, chamou sua secretria e informou: -- Vou estar 
aqui at as trs e meia. Pode me passar tudo que tenho para resolver hoje. -- Tem uma reunio com alguns fornecedores marcada para esse horrio. -- Transfira para 
a semana que vem. No h nada urgente. Isso pode esperar. Faltavam cinco minutos para as quatro quando Antero entrou no consultrio do pai. Artur estava sentado 
atrs da mesa escrevendo. Vendo-o entrar, levantou-se sorrindo: -- Que bom v-lo! Est tudo bem com voc? -- Est. Precisamos conversar sobre um assunto muito importante. 
-- Aconteceu alguma coisa? -- Quero falar com voc sobre Eriberto. Sei que ele  meu filho e de Antnia. Artur abriu a boca, fechou-a de novo, deixou-se cair na 
cadeira olhando-o assustado: -- Quem lhe disse isso? -- Vou lhe contar toda a histria, mas  verdade, no ? Eriberto  meu filho! Artur levantou a cabea olhando 
Antero nos olhos e respondeu: -- Sim. Ele  seu filho com Antnia. Mas como  que soube disso? Esse  um segredo meu e dela. Nunca contei a ningum. Registrei-o 
em meu nome. -- Pai, o que vou contar-lhe me surpreendeu muito. Mudou minha forma de ver a vida. Voc se lembra que fui assaltado alguns dias atrs. -- Sua me me 
contou. -- Pois bem, na loja em que o ladro foi preso, estava lima moa comprando um presente de aniversrio para uma amiga. Ela ficou presa entre o assaltante 
que estava armado e a polcia que o prendeu. Eu me apresentei a ela, agradeci seu interesse. Tratava-se de uma advogada, deu-me seu carto, perguntou se eu era parente 
de Olvia Fontoura. Respondi que era minha me e ela contoume que fora amiga de Antnia, trabalhavam no mesmo escritrio, que foi onde ela se suicidou. -- Que coincidncia! 
-- J vai ver que foi mais do que uma simples coincidncia. Convidei-a para tomar um caf, ela aceitou. Eu estava viajando quando Antnia se matou e nunca soube 
por que isso aconteceu. Artur ouvia com interesse e Antero narrou tudo quanto sabia e,  medida que falava, Artur no continha a emoo, lutando para impedir as 
lgrimas que teimavam em cair. Antero finalizou: -- O que voc fez pelo meu filho no tem preo, nunca esquecerei. Mas ao mesmo tempo lamento que no houvesse contado 
a verdade.

-- Antnia o amou muito. Ela pensava que voc e Glria se amavam muito. Namoravam desde crianas e que ela era uma intrusa que estava estragando sua felicidade. 
Renunciou a voc, da mesma forma que renunciou ao filho quando pensou que eu tinha mais condies do que ela de torn-lo feliz. -- S que ela no agentou e acabou 
fazendo o que fez. Agora  tarde, no h nada que eu possa fazer com relao a ela, mas devo dizer-- lhe que eu amo Antnia muito mais do que Glria. E hoje seria 
mais feliz se estivssemos casados, criando nosso filho. Desde que soube de seu suicdio, tenho me culpado por no a ter procurado para saber o que estava acontecendo, 
por que havia ido embora de nossa casa. Mas eu no fiz nada. Pensei que ela no me amasse o bastante para enfrentar mame e assumir nossa vida. -- Eu fui testemunha 
do quanto ela sofreu. Nunca se queixou mas eu notava o brilho de seus olhos quando falava em voc, no filho que estava esperando. Que pena Se eu soubesse que voc 
a amava tanto, tudo teria sido diferente. Ela foi embora de casa para no ver voc ao lado de Glria. Antero no respondeu logo. As palavras do pai confirmando tudo 
que ele j sabia o deixavam enternecido, num misto de alegria e tristeza. Finalmente disse: -- Eu quero assumir a paternidade de Eriberto. Artur olhou-o em silncio 
por alguns instantes. Depois respondeu: -- E um direito seu e dele. J pensou nos problemas que vai encontrar? Glria pode no aceitar. Sua me, com certeza vai 
odiar, mas ela eu posso contornar. -- Estou disposto a enfrentar todas as conseqncias. A responsabilidade  minha e preciso assumila. -- Temos que pensar a melhor 
maneira de fazer isso. Eriberto sabe que eu o adotei, mas pensa que o pai morreu. Ele tem apenas seis anos. Precisamos ser cuidadosos. -- Eu sei. Preciso conversar 
com Glria, contar-lhe tudo e no sei se o momento  oportuno. Ela est com um problema psicolgico. Sente todos os sintomas de gravidez, mas fizemos exames na semana 
passada e ela no est grvida, O mdico disse que  gravidez psicolgica. Ainda hoje cedo ela estava enjoada. Tentei conscientiz-la, mas foi intil. Ela no ouve. 
-- Talvez contando-lhe a verdade ela saia dessa iluso. -- E, pode ser. Vou pensar um pouco mais. Meus novos amigos me aconselharam a pedir inspirao espiritual. 
-- Para isso  preciso ter um dom especial. -- Eles garantem que qualquer pessoa que deseje fazer o bem, que pea com sinceridade a ajuda espiritual, ser auxiliada. 
Idias surgiro em sua mente, frases inspiradoras sero lidas ou ouvidas, enfim, de uma forma ou de outra, ela encontrar o que precisa. Basta ficar atenta. --  
uma maneira original mas que pode funcionar. Eu mesmo, quando estou diante de algum caso complicado em que no tenho certeza do que fazer, procuro relaxar, ficar 
calmo, esperar e, de repente, alternativas comeam a aparecer do nada, O engraado  que nessa hora eu sei exatamente o que pode funcionar e o que no. -- Isso quer 
dizer que a ajuda para o caso chegou. E, pelo que ouvi meus amigos contar, algum esprito de luz, interessado em auxiliar o paciente, o inspirou. -- Contudo, h 
alguns casos graves em que no consigo nada. Tenho que render-me  doena. E uma sensao de derrota muito triste, assistir ao sofrimento de uma pessoa e no poder 
alivi-la. A cegueira  triste; quando acompanhada de dor,  difcil conviver. -- Tudo isso para mim  novo. No saberia explicar por que a ajuda funciona em alguns 
casos e em outros no. Meus amigos afirmam que a ajuda espiritual est presente em qualquer hiptese. At para os criminosos. -- Antnia era uma moa muito boa. 
Mas cometeu suicdio. A igreja diz que esse crime no tem perdo, mas ela, apesar de estar em sofrimento, recebeu ajuda. Conseguiu proteger o filho at depois de 
morta.

-- Ela estava arrependida, rezou, pediu ajuda, foi sincera e obteve. E o que vou fazer. Rezar e esperar para no tomar uma deciso precipitada. -- Gostaria de conhecer 
esses seus amigos. -- Irei  casa deles na prxima semana para a sesso. -- Depois do que me contou, gostaria de ir com voc. -- As reunies so reservadas. Apenas 
alguns familiares e amigos. Vou telefonar perguntando se voc pode ir. -- Tenho ouvido falar muito em vida aps a morte. Vrios clientes obtiveram melhora significativa 
recebendo ajuda em um centro esprita. Houve alguns casos que de forma alguma poderiam ser explicados do ponto de vista mdico e me impressionaram. Mas sabe como 
, ns somos muito racionais, o que torna difcil aceitar o que  subjetivo. -- Eu tambm na faculdade tive um amigo que via os espritos, fazia previses muitas 
das quais se realizavam, mas eu nunca o levei a srio. Ele estava certo e eu perdi muito tempo. Marta me disse que h livros cientficos interessantes e eu vou estudar. 
A idia de que a vida continua depois da morte muda nosso modo de ver, abre novos horizontes ao pensamento humano. -- Diante do sofrimento que assisto no hospital 
todos os dias e da nossa impotncia, fui perdendo a alegria que trazia na juventude. At o ideal de lutar contra a dor humana perdeu o significado. Tornei-me amargo, 
deprimido, mais frio com os pacientes para me proteger da dor. Parece uma luta sem remdio, a qual ns todos sempre perdemos. -- No sabia que se sentia assim. -- 
Tenho me perguntado exaustivamente o porqu de tantas desigualdades sociais e fsicas. No encontrei resposta. Hoje, diante do que me contou, sinto que a vida deve 
ser muito mais do que imaginamos e que talvez um dia eu possa encontrar as respostas que procuro. -- Outras dimenses onde a vida continua.., para onde foram as 
pessoas que morreram deixando em nossas vidas a tristeza da perda. Mas, se elas continuam vivendo em outro lugar, um dia nos encontraremos de novo. Acabou a dor 
do "nunca mais". A separao  temporria. -- Pensando assim, tudo muda. Talvez a morte no seja uma derrota, conforme eu pensava, mas apenas uma mudana, uma transformao. 
J pensou no alcance disso em nossa sociedade? -- Pensei, sim, e muito. Hoje mesmo vou telefonar ao Dr. Dantas e pedir que o receba. Os dois continuaram conversando 
animadamente por mais algum tempo. Depois, como Artur j havia terminado seu trabalho, ambos saram. Tendo combinado que diante de qualquer novidade Antero telefonaria, 
se despediram e cada um foi para sua casa.

O telefone tocou vrias vezes. Olvia procurou a criada mas no a viu por perto. Aonde teria ido? No gostava de atender sem saber quem estava do outro lado da linha. 
Alm disso, no era de bomtom a dona da casa atender. Como ele continuasse tocando, ela atendeu irritada. -Al. -- E Janete Cerqueira Csar, Como vai? -- Mais ou 
menos. Ainda bem que me ligou. No estou nada bem. Mas cada um precisa carregar sua cruz -- lamentou-se ela. --  verdade. Aqui em casa as coisas esto cada dia 
pior. Estive conversando com a Maria Helena, lembra-se dela? -- A esposa do Dr. Lacerda, que est se separando? -- Sim. Somos amigas desde criana, voc sabe. Ela 
me contou que ele voltou para casa, pediu perdo e ela, claro, perdoou. -- Depois de encontr-lo com outra? -- Foi. Ele estava de cabea virada, largou tudo por 
causa dessa mulher. -- Janete fez ligeira pausa, depois continuou em tom de mistrio: -- O que me interessou  que ela foi a uma cartomante, dessas que usam aquele 
baralho cheio de figuras. -- Tar? -- Esse mesmo. Fez uma reza especial e a paixo esfriou, ele se arrependeu e voltou para casa. Vo viajar para a Europa em segunda 
lua-de-mel. Ela est feliz como nunca. -- Sempre foi louca por ele! Vamos ver se ele no apronta de novo.

-- As coisas aqui em casa esto piorando a cada dia. Eu pensei em ir at l fazer uma consulta. A semana passada, quando nos encontramos no ch de Elisa, voc me 
contou seu problema e eu pensei que talvez quisesse ir comigo. Assim poderia descobrir essa histria mal explicada desse menino que o Dr. Artur adotou e voc foi 
forada a engolir. Eu gostaria. Mas ser que ela  boa mesmo? -- Maria Helena disse maravilhas. Ela falou tudo sobre a vida dela. -- Quando voc vai? -- Marquei 
para amanh. Os horrios dela estavam todos tomados, mas eu no queria esperar, insisti e finalmente consegui. Ela abriu uma exceo e vai me atender fora do horrio. 
-- Eu gostaria de ir. -- Eu sabia que voc ia querer. Marquei para ns duas mas fiquei de ligar confirmando. Deveremos estar l s seis. Passarei em sua casa s 
cinco e meia. -- Estarei esperando. Na tarde do dia seguinte, Janete compareceu pontualmente na casa de Olivia, que a esperava, e se dirigiram ao local da consulta. 
O carro parou diante de um prdio de luxo nos Jardins. Janete deu o nome na portaria e em seguida foram convidadas a subir. Uma vez no andar indicado, encontraram 
o nmero e tocaram a campainha. A porta abriu e um rapaz elegante as convidou a entrar. Era uma sala muito bem decorada, e ele disse: -- Sentem-se, por favor. Desejam 
tomar uma gua, um caf? -- No, obrigada -- respondeu Janete. -- Madame Olga est se preparando para atend-las. Quem ir primeiro? Elas se entreolharam e Olvia 
decidiu: -- V voc, Janete. Ela concordou, ele curvou-se ligeiramente e deixou a sala. Elas cochicharam comentando o bom gosto da decorao. Pouco depois o rapaz 
voltou e pediu para janete o acompanhar. Ela obedeceu. Quando ele abriu a porta e Janete entrou, a sala estava em penumbra, iluminada apenas por uma luz violeta. 
Em um aparador, algumas velas acesas davam ao local um toque de mistrio. Flores sobre uma mesa e nas paredes alguns quadros com deuses chineses e egpcios. Atrs 
de uma mesa coberta por uma toalha de veludo vermelho, com franjas de vidrilho, sobre a qual havia duas grandes pedras, uma de cristal e outra de ametista, um castial 
tambm de cristal com uma vela acesa cuja chama trernulava, estava uma mulher de meia-idade, olhos vivos, roupas elegantes, que indicou a cadeira  sua frente para 
que Janete se sentasse. Um cheiro forte de incenso e um perfume que Janete conhecia mas de pronto no conseguiu identificar davam ao ambiente um toque oriental. 
Madame Olga olhou fixamente para Janete por alguns segundos, depois abriu um saco de veludo vermelho e tirou um baralho. Suas mos bem tratadas e cheias de anis 
que brilhavam aos reflexos das velas impressionaram Janete, que aguardava suas palavras sustendo a respirao. Colocou o mao de cartas a sua frente e pediu: -- 
Corte trs vezes com a mo esquerda. Depois, ela juntou novamente as cartas e comeou a coloc-las sobre a mesa lentamente. Quando julgou conveniente, parou, colocou 
o mao de cartas ao lado e disse: -- Voc est descontente com sua vida, As coisas no esto mais correndo como voc deseja. Seu relacionamento afetivo est comprometido. 
-- E verdade. Meu marido mudou muito nos ltimos tempos. -- O pensamento dele est em outra mulher. -- Ento  erdade! Bem que eu desconfiei. Quem  ela? -- Ele 
est preso ao passado. Tem srios compromissos com ela de outras vidas. -- Voc vai me ajudar a tirar essa mulher do caminho. Para isso vim. -- Vamos ver o que podemos 
fazer.

Ela embaralhou as cartas, pediu que Janete as cortasse e as colocou novamente sobre a mesa. Olhou-as atentamente. Depois, fixando Janete, disse: -- No se pode arrumar 
o que comeou errado. Seus caminhos so diferentes. O destino dele no  com voc. -- No pode ser. Somos casados. Ele tem que ficar comigo. Madame Olga olhou-a 
fixamente e respondeu: -- Ele estava destinado a outra pessoa. Voc cortou o caminho dele. Isso nunca d certo, porque a vida comanda o destino e, por mais que uma 
pessoa queira diferente, ela coloca tudo onde precisa estar. -- Sou amiga de Maria Helena, vim aqui porque ela me informou que voc fez magia para ela e o marido 
voltou para casa. Quero que faa o mesmo para mim. Eu pago o que for preciso. Pelos olhos de Madame Olga passou um brilho emotivo e ela permaneceu alguns segundos 
em silncio. Depois respondeu: -- O caso a que se refere era muito diferente do seu. Ele estava enfeitiado por uma mulher interesseira, mas o destino dele era ficar 
com a esposa. Eu apenas o auxiliei a perceber a verdade. Preciso esclarecer que estudei ocultismo, leio tar, fao disso um meio de vida, mas trabalho com a luz 
e dentro da tica da espiritualidade. -- Ento foi perda de tempo vir aqui. Voc no  to forte como eu pensava. -- Sou apenas uma mulher que desenvolveu o sexto 
sentido, conheo as leis csmicas, procuro ajudar as pessoas que passam por aqui, mas toda a fora vem de Deus. E nele que precisamos confiar. E isso s funciona 
se estivermos ao lado dos objetivos da vida. -- Se soubesse disso antes, no teria vindo. -- Mas j que veio, pagou uma consulta, vai ouvir o que tenho para lhe 
dizer Voc nunca amou seu marido. Viu nele um bom partido, um homem bonito, rico, educado, gosta de desfilar com ele em sociedade. Embora suas famlias desejassem 
esse casamento, ele estava destinado a outra que ele amava e ainda ama, apesar de tudo. Voc no o conquistou, buscou ajuda das entidades maldosas para desvi-lo 
do caminho. Mas, como eu disse, a vida  mais poderosa do que tudo e um dia essa influncia acaba e as coisas voltam para onde deveriam estar. -- No acredito em 
nada disso. Voc  uma mentirosa. Um caso de polcia -- disse Janete levantando-se indignada. Sem se alterar, Madame Olga respondeu: -- Vocs vo se separar. Aceite 
o inevitvel e se poupar de maiores dissabores. E o conselho que lhe dou. Um dia voc vai descobrir o quanto eu estou certa e que, apesar da sua atitude desagradvel, 
eu desejo apenas lhe ajudar. Quanto  polcia, devo esclarecer que exero estas atividades devidamente licenciada e estou em dia com todas as exigncias legais. 
Pense no que eu lhe disse e pode ir. Janete saiu da sala transtornada, aproximou-se de Olvia, que a olhava admirada: -- Vamos embora, Olvia. No devamos ter vindo. 
-- Por qu? Eu quero fazer a consulta. -- Ela no  como eu pensava. No pode nos ajudar. Vamos embora, no caminho eu conto tudo. Desculpe t-la trazido comigo. 
Fui precipitada. Vamos embora. Antes que Olvia tivesse tempo de dizer mais alguma coisa, Janete puxou-a pelo brao fazendo-a levantar e saram pelo corredor. O 
rapaz observava-as atentamente, fechou a porta e foi ter com Madame Olga, que sorriu dizendo: -- Ela me procurou tentando dividir comigo uma responsabilidade que 
no costumo assumir. -- Ela saiu indignada e levou a outra, que j havia pago a consulta. -- No se preocupe. Temos o endereo, amanh devolveremos esse dinheiro. 
Ainda bem que foram embora. Das duas, no sei quem  pior. Elas vieram no para saber a verdade mas para me usar. Vamos esquecer isso. Uma vez no carro, Janete deu 
livre curso  sua raiva.

-- Ela no tem a fora que eu pensei. Disse que Andr tem outra mulher e, ao invs de ficar do meu lado, me ajudar a livr-lo dela, veio com uma conversa estranha, 
garantiu que o destino dele no era comigo e ela no podia fazer nada. -- Mas ela no fez o marido de Maria Helena deixar a amante e voltar para casa? -- Foi o que 
eu lhe disse na hora. Ento ela veio com a desculpa de que a amante dele era interesseira, tinha feito magia para ele mas o destino dele era ao lado da esposa. -- 
Se isso  verdade, ento ela no fez nada. -- Foi o que eu pensei. Sabe o que ela chegou a me dizer? Que Andr vai me deixar e, se eu no aceitar, ser pior. E pensar 
que eu paguei essa farsante para me dizer essas coisas. -- Minha av dizia que ningum vence a fora do destino. -- Voc tambm? Pensei que fosse minha amiga, estivesse 
do meu lado. -- E estou. Eu disse isso porque sei que o destino est do seu lado. Voc  a esposa. -- Tem razo. Ela  uma farsante mesmo. Mas disse que Andr tem 
outra. Isso pode ser verdade. Nesse caso, preciso tomar providncias. -- O que pensa fazer? -- Procuramos a pessoa errada. Conheo algum que j me ajudou uma vez 
e no se negar a fazlo de novo. -- Quem ? --  um homem que tem muito poder. Garanto que ele vai me ajudar. -- Nesse caso tambm quero ir. No posso deixar que 
esse impostor continue roubando nosso patrimnio. Janete pensou um pouco, depois disse: -- Esse  um segredo que ningum pode saber. -- Pode confiar. E do meu interesse 
que ningum saiba nada. Se Artur descobrir, no sei do que ser capaz. -- Est bem. Vou marcar e depois telefono. -- Voc vai amanh  festa da Eunice? -- No sei. 
Andr no sai mais comigo. No gosto de sair sozinha. Afinal tenho marido. -- Se eu fosse pensar assim, nunca sairia de casa. Artur no sai do hospital, quando chega 
s pensa em dormir. Se ele quer levar a vida assim, no posso fazer nada, mas decidi que no  isso que quero para mim. Adoro a vida social, afinal de que nos serviria 
possuir tantas jias, roupas de classe, freqentar sales de beleza, se no pudssemos exibi-Ias? -- Eu adoraria ir, mas as pessoas vo comear a falar. -- Falaro 
dele, no de voc. E o que se passa comigo. Quando encontram Artur o recriminam, dizem que no sabe levar a vida, etc. A festa da Eunice vai ser um sucesso. Se quiser, 
poderemos ir juntas. Os olhos de Janete brilharam. Talvez assim Andr percebesse o que estava perdendo. -- Est bem. Irei. Vai mais algum com voc? -- Apenas o 
motorista. Combinado, irei busc-la s nove. Janete parou o carro em frente da casa de Olvia. -- Quer entrar? -- No, obrigada. Vou para casa ver se Andr chegou. 
Despediram-se e Olivia entrou. Eriberto estava na copa com a pajem e, vendo-a entrar, cumprimentou-a educadamente. Ela respondeu, mandou servir o jantar s oito 
como de costume e foi para a sala. Apanhou uma revista, sentou-se para ler. Mas seu pensamento estava em Janete. A me dela fora sua colega de colgio, depois de 
casadas freqentavam o mesmo clube, Janete era alguns anos mais velha do que Antero e elas estreitaram a amizade quando os dois filhos eram pequenos. Mas essa amizade 
era apenas social, porquanto Olvia no aprovava certas atitudes dela para com os empregados que considerava liberais demais. Dava-se melhor com Janete, cujas idias 
eram semelhantes s suas.

Considerava que Janete tinha toda a razo em querer preservar o casamento. O marido  figura importante na vida social. Ningum respeita uma mulher separada, pensava. 
Quando h um problema,  preciso contemporizar, fingir que aceita, mas procurar um meio de mudar os fatos. Olvia suspirou resignada. S ela sabia a fora que precisava 
fazer para conviver com aquele enjeitado e para fingir que aceitava aquela situao injusta imposta pelo marido. Seis anos era tempo demais. Estava na hora de encontrar 
um meio de livrar-se dele para sempre. Pensamentos rancorosos passavam em sua mente e ela os alimentava tentando encontrar a soluo que buscava. Olvia no viu 
que duas sombras escuras sussurravam palavras ao seu ouvido enquanto energias densas e pesadas circulavam a seu redor. Mas sentiu sua revolta aumentar. Lembrou-se 
de Antnia com raiva. Suportara sua presena durante muito tempo e, se no houvesse sido esperta, ela teria envolvido Antero. No lhe passara despercebido o brilho 
no olhar dela quando o fixava, sua euforia quando ele estava por perto. No era justo passar duas vezes pela mesma situao. Pelo menos Antnia pertencia  famlia 
do marido, mas aquele menino ningum sabia de onde ele viera. No sentia cimes de Artur. Ele era careta demais para trair e muito interessado na profisso. O mais 
provvel  que alguma infeliz, no tendo como sustentar o filho, o entregara a ele, que com sua mania de salvar todo mundo aceitara essa responsabilidade. Artur 
no tinha interesse nas questes financeiras. Era ela quem se preocupava em aumentar o patrimnio da famlia e certamente a pessoa indicada para impedir que seu 
filho fosse lesado. No acreditava nas foras ocultas ou que algum tivesse algum poder para intervir nas questes das pessoas. Janete era ingnua procurando cartomantes 
e um pai-de-santo. Ela preferia pagar algum para sumir com o menino e acabar de vez com essa preocupao. Mas precisava pensar muito bem, no deixar nenhuma prova 
do seu envolvimento. Seria timo que ele morresse, mas no pensava em mat-lo, porque seria muito perigoso, alm do que teria no assassino um chantagista para o 
resto da vida. Talvez fosse interessante procurar algum casal de nordestinos que desejasse voltar para o Nordeste e pagar muito bem para que levassem o menino. Se 
no desejassem cri-lo, que o dessem a outras pessoas. O importante seria deix-lo bem longe, onde no tivesse como voltar. Seria bom tambm providenciar documentos 
de identidade falsos, assim ningum saberia de onde ele sara. Esse plano pareceu-lhe o melhor de todos, entretanto o difcil seria encontrar o casal certo. Conhecia 
uma pessoa que tinha como cuidar disso sem que fosse preciso ela aparecer. Artur era apegado ao menino, mas com o tempo esqueceria. Ento ela poderia viver em paz. 
Todo o patrimnio ficaria para Antero e os filhos que teria. Ela no duvidava que Glria conseguiria ser me. Havia engravidado por duas vezes. Com um bom tratamento 
mdico, tudo estaria resolvido. A criada avisou que o jantar estava servido e Olvia olhou o relgio pensando: -- Vou comer sozinha mais uma vez. Artur no vem jantar 
mesmo. Josefa levou Eriberto at Olvia dizendo: -- D boa-noite a D. Olvia. O menino olhou-a srio e tornou: -- Boa noite, D. Olvia. Durma bem. -- Boa noite. 
Josefa subiu com ele para o quarto e, enquanto o esperava vestir o pijama, escovar os dentes para se deitar, ela pensava: -- Por que ser que D. Olvia no gosta 
dele? Um menino to bonito, to doce. No conseguia entender. Sabia que ele havia sido adotado contra a vontade dela. Percebera sua m vontade com ele desde o incio. 
Mas acreditava que com o tempo ele haveria de conquistar seu afeto. Ela o amara desde o primeiro dia. Era com carinho que cuidava dele, tentando proteg-lo das

maldades de Olvia. Momentos havia em que ela o olhava de tal jeito que Josefa sentia arrepios pelo corpo. Notava que o menino tinha muito medo. Quando estava diante 
dela, comportava-se de maneira diferente do habitual. Ficava calado, falava baixinho, e assim que podia se afastava. J a ss com o Dr. Artur ele era muito diferente, 
carinhoso, alegre, comunicativo. Eriberto deitou-se e Josefa aconchegou as cobertas. Ele, de repente, sentou-se na cama dizendo: -- Estamos esquecendo de rezar! 
--  verdade. Eu estava distrada. Vamos l. Ele ajoelhou-se ao lado da cama, juntou as mos, rezou um pai nosso, no final pediu: -- Jesus, protegei meu pai Artur, 
D. Olivia, Josefa e todos desta casa. Amm. Deitou-se novamente, Josefa ajeitou as cobertas. Ele perguntou de repente: -- Voc me disse que meus pais morreram quando 
eu era pequeno. -- Foi. Ento o Dr. Artur gostou muito de voc e o trouxe para casa, o colocou em meus braos e disse: "De hoje em diante eu sou o pai dele. Cuide 
bem desse menino". Voc era lindo e eu o adorei desde o primeiro dia. -- Voc j me contou isso, mas nunca falou nada de minha me. Eu no a conheci. No tem nem 
um retrato dela? Eu queria tanto ver como ela era... -- No tenho. Mas sei que era uma moa muito linda e muito boa, que o amava muito. -- Eu sinto saudades dela. 
Queria tanto que ela estivesse aqui, comigo. Sei que ela devia ser muito linda mesmo. Sinto que ela me amava muito. Por que ser que Deus a levou? -- Talvez porque 
precisasse dela no cu. Mas deixou a mim para cuidar de voc. No sou sua me, mas  como se fosse. Eu gosto muito de voc. Josefa beijou a testa do menino comovida, 
com o brilho de uma lgrima em seus olhos. Ele abraou-a com fora e pediu: -- Conta aquela histria do menino que fugiu de casa por causa da madrasta? -- Conto. 
Mas por que essa? Sei de outras mais lindas. -- Eu gosto dessa, No fim, a fada leva o menino para a me e ele fica com ela. Josefa esforou-se para conter as lgrimas, 
sentou-se na beira da cama, alisando carinhosamente a testa do menino: -- Est bem. Vou contar. Era uma vez... Enquanto ela contava, ele foi fechando os olhos, mas 
esforou-se para no dormir at o final. Ento seus lbios se entreabriram em um sorriso feliz e ele adormeceu. Josefa beijou-o na testa e saiu do quarto procurando 
no fazer rudo. Desceu e foi para a lavanderia passar a roupa de Eriberto. Artur havia chegado e foi procur-la: -- Passei no quarto de Eriberto para v-lo mas 
est dormindo. Ele est bem? -- Est. -- Eu queria vir mais cedo para ficar com ele, mas no deu. Amanh no sairei sem v-lo. -- E bom doutor. Ele sente muito a 
falta da me. Hoje me perguntou sobre ela, queria pelo menos um retrato. Fez-me repetir aquela histria do menino que fugiu de casa por causa da madrasta. O senhor 
sabe qual . Um brilho de tristeza apareceu nos olhos de Artur. -- Eu sei. Ele  muito pequeno e  triste um menino ser criado sem me. Infelizmente Olvia no tem 
muito jeito com crianas. -- Eu tenho procurado dar carinho, mas no  a mesma coisa. Desculpe perguntar, o senhor nunca disse nada, mas ela morreu mesmo? -- Sim, 
infelizmente. Vou ver se consigo um retrato dela. -- Ele ficaria muito contente. Quer saber como ela era, pensar nela, rezar pela alma dela. -- Vamos ver. Ele  
muito pequeno, isso vai passar. Eu sinto que um dia Eriberto ser muito feliz. Voc  uma moa boa, Josefa. Sou muito grato pelo amor que d a ele.

-- Eu adoro ele, doutor. E como se fosse meu filho! -- Eu sei. Esta casa no  um lugar alegre para uma criana viver. -- Ele tem amigos na escola. O tempo passa, 
logo estar crescido. Artur ficou pensativo por alguns instantes, depois disse: -- A vida  cheia de surpresas. De repente tudo pode mudar. Vamos ser otimistas e 
esperar por dias melhores. Josefa sorriu concordando. Artur deixou a lavanderia e encontrou Olvia, que o procurava: Voc chegou, nem me procurou. O que estava fazendo 
atrs de Josefa na lavanderia? -- Eu cheguei, no a vi, subi para ver Eriberto, mas ele estava dormindo. Fui falar com ela. -- Voc se interessa mais por esse menino 
do que por mim. Ao chegar em casa procura primeiro por ele. -- No seja implicante, Olvia. No pode se comparar a uma criana. -- Acho que eu mereo um pouco mais 
de ateno. Estou cansada de ficar sozinha. Tenho marido mas  como se no tivesse. Ainda hoje estive com uma amiga que est passando pelo mesmo problema. S que 
ela no tem a minha pacincia e pensa at em separar-se dele. -- Voc conhece meu trabalho. Aceitou ser esposa de mdico, no pode reclamar agora. -- E, eu aceitei. 
Mas esperava que pelo menos voc ficasse comigo quando no est trabalhando. Nem isso voc faz. -- Estou sempre trabalhando. Fora do hospital, preciso estudar. H 
muitas pesquisas, novas descobertas esto acontecendo, preciso atualizar-me. Ele fez ligeira pausa, sorriu e disse: Voc  uma mulher inteligente. Acho que precisa 
encontrar alguma coisa para fazer. Ocupar-se com algo que lhe d prazer. Vrias esposas de colegas meus participam de cursos, fazem trabalho voluntrio, dedicam-se 
a alguma coisa. Por que no faz o mesmo? -- Estou achando que quer se ver livre de mim, isso sim. Imagine eu, na minha idade, estudar de novo como uma colegial. 
Essas mulheres a que se refere esto mais  perdendo a cabea se comportando como adolescentes. Conheo algumas que vivem alardeando seus conhecimentos, querendo 
ensinar todo mundo como se fossem donas da verdade. Sou uma mulher de meia-idade, estudei o suficiente e no vou me tornar ridcula como elas. Artur olhou-a srio 
e respondeu: -- Pois eu nunca parei de estudar e o fao com prazer. Penso que sempre  tempo de aprender. A sabedoria  a riqueza do esprito. Mas, se no deseja 
fazer isso, v ao clube, tome ch com as amigas, mas faa o favor de parar de se queixar. -- Eu me sinto muito s, voc no entende que desejo sua companhia? -- 
Estou em casa sempre que posso. Considero desagradvel ficar aqui ao lado de uma pessoa que vive se queixando. Pense nisso. Tenho o direito de viver em paz. -- Agora 
voc est me ofendendo. Eu noto mesmo que voc no gosta de ficar a meu lado. Quando est em casa se ocupa de outras coisas e no me d ateno. -- Fao o que posso. 
Vou tomar um banho e depois gostaria que mandasse servir o jantar. Sem esperar resposta, Artur subiu e Olvia acompanhou-o com o olhar at que desaparecesse. Artur 
sempre fora distrado, dava excessiva importncia a sua carreira, mas piorou muito depois que Eriberto foi morar com eles. No tinha dvida de que a culpa era daquele 
menino desagradvel. Seu casamento estava em perigo. Precisavatomar providncias e resolver o assunto de uma vez por todas. Artur, enquanto tomava banho e se vestia, 
pensava na conversa que tivera com Antero. Sentiu vontade de falar com Olvia, contar-lhe a verdade sobre a origem de Eriberto. Ela implicava com o menino mas certamente, 
quando soubesse que era seu neto, filho de Antero, a quem ela tanto amava, passaria a am-lo tambm. Mas, por outro lado, havia Glria. No sabia como ela reagiria. 
O caso dela era delicado. Talvez fosse melhor ele e Antero irem se aconselhar com Nelo. Era seu amigo e excelente psiquiatra.

A compulso dela em engravidar evidenciava desequilbrio emocional, dificuldade em aceitar a perda dos dois bebs, Como reagiria ao saber que Antero j tinha um 
filho com outra? Artur decidiu que era cedo para falar a verdade a Olvia. Eles no deviam fazer nada antes de consultar Nelo. Era preciso esperar. Conversaria com 
Antero e o convenceriaa no tomar nenhuma atitude antes de haverem planejado muito bem. Estava certo de que era o melhor a fazer. Sentiu-se mais calmo e disposto 
a evitar discutir com Olvia, desceu, para jantar. Olvia, por sua vez, tendo arquitetado um plano que comearia a executar no dia seguinte, decidiu mostrar-se mais 
amvel com o marido e evitar qualquer reclamao. Assim, o jantar naquela noite, decorreu agradvel, com os dois se esforando em conversar sobre banalidades. Depois 
do jantar, ele foi ler no escritrio e Olvja, tentando controlar a raiva, sentou-se na sala folheando sem muito interesse uma revista de moda. O telefone tocou 
e a criada avisou que Janete desejava falar com ela. Atendeu prontamente: -- Tudo bem com voc? -- Tudo. Estou ligando para avisar que encontrei o endereo daqueIa 
pessoa que lhe falei e marquei ir l amanh. Voc quer ir tambm? Olvia pensou um pouco, depois disse: -- No sei. Eu havia planejado outra coisa para amanh. -- 
Acho que no deveria perder a oportunidade. Garanto que no vai se arrepender. Ele j me ajudou muito. Olvia hesitou um pouco, depois disse: -- No, Janete. No 
acredito nesse tipo de coisa. Decidi resolver por outros meios. -- Voc  quem sabe. Eu vou amanh. Em todo caso, se mudar de idia poderei lev-la a qualquer tempo. 
-- Obrigada. Voc  amiga mesmo. Elas se despediram e Olvia sentou-se pensativa. Ela queria tomar providncias efetivas e no ficar esperando que um pai-de-santo 
qualquer conseguisse alguma coisa. No acreditava em nada disso e no iria gastar seu dinheiro naqui lo. O melhor era resolver mesmo, para sempre. De repente, ela 
sentiu um ligeiro enjo e a cabea atordoada. Certamente o jantar no lhe cara bem. Foi ao banheiro procurar um remdio para tomar. Apanhou um sal de frutas, colocou-o 
na gua e tomou. Os dois vultos escuros que a estavam abraando afastaram-se um pouco e um disse ao outro: -- E melhor irmos embora, ela j aceitou mesmo. Amanh 
voltaremos. -- No, vamos esperar para conversar com ela fora do corpo. Temos que reforar. Pode acontecer alguma coisa e ela pode desistir. -- Est bem. Mas no 
faremos contato enquanto ela estiver acordada, para ela no se sentir mal. Os dois afastaram-se, permanecendo em um canto do quarto. Olvia sentiu-se aliviada e 
pensou: -- Esse remdio  mesmo muito bom. Estou bem. Satisfeita, preparou-se para dormir. Artur continuava no escritrio. Quando ele se recolhia tarde da noite, 
costumava ir dormir no quarto de hspedes para no incomod-la. Sem esperar por ele, Olivia deitou-se e logo adormeceu.

Nina deu por encerradas as atividades do dia, guardou alguns documentos e preparou-se para ir embora. Encontrou-se com Lcia esperando o elevador. -- Ainda bem que 
voc hoje est indo embora mais cedo -- considerou ela. -- Estou um pouco cansada. -- Tenho notado que voc tem estado pensativa, triste. Sinto que no est bem. 
H alguma coisa que eu possa fazer para ajudar? -- No. Me pediram para ajudar uma pessoa e no est sendo fcil. O que eu podia fazer, j fiz. Agora s resta esperar 
para ver o que acontece. O elevador chegou, elas entraram em silncio. Quando ele parou, elas saram e pararam na porta do prdio. -- Se precisar de alguma coisa, 
no se acanhe. Sabe que pode contar comigo. Voc tem sido mais uma amiga do que chefe, tem me ajudado muito. Sentirei o maior prazer em poder retribuir de alguma 
forma. Nina sorriu e respondeu: -- H certas coisas que ningum pode fazer nada. Porm sua amizade, seu apoio so muito importantes para mim. Obrigada. Entretidas 
na conversa, no viram que Breno e Andr se aproximaram. Lcia, vendo-os, olhou para Nina preocupada. Breno aproximou-se de Lcia beijando-a na face: -- Boa tarde 
-- disse estendendo a mo para Nina, que a apertou. -- Como vai, Nina? -- disse Andr estendendo a mo. Fingindo no ver a mo estendida, Nina respondeu:

-- Bem, obrigada. Eu estava me despedindo, preciso ir. At outro dia. Andr segurou-a pelo brao: -- Hoje voc no vai embora. Temos que conversar. -- No h mais 
nada a dizer. Nosso assunto est encerrado. -- De forma alguma. Est apenas comeando. Levando em considerao alguns aspectos delicados, tenho sido paciente, dando 
tempo a que voc pense melhor. Mas, se voc continuar irredutvel, serei forado a tomar algumas atitudes que voc no vai gostar. Nina olhou para Lcia e Breno, 
que um tanto constrangidos ouviam calados, e resolveu contemporizar. Nos olhos de Andr havia um brilho decidido que a fez evitaruma discusso. Estavam na rua e 
num local onde ela era muito conhecida, No queria dar motivo a mexericos. -- Est bem. Vamos a um lugar discreto. Breno e Lcia despediram-se imediatamente. -- 
Meu carro est no estacionamento. Vamos at l -- props Andr. Foram andando em silncio. Uma vez no carro, Andr perguntou: -- Quer ir a algum lugar, tomar alguma 
coisa, jantar? -- Obrigada, no quero nada. Podemos ficar no carro mesmo. Voc fala logo o que deseja, porque no posso demorar. -- Conheo um lugar discreto, onde 
poderemos conversar sem ser interrompidos. Ela concordou. Sentia-se inquieta, nervosa, cansada. Andr notou que ela estava tensa e reconheceu que ele estava nervoso. 
Para aliviar a tenso, procurou agir com naturalidade falando de outros assuntos: -- Eu nunca havia visto voc nas sesses na casa do Dr. Dantas. Vai continuar freqentando? 
-- No. Fui apenas para acompanhar um amigo. -- Por que no? Milena melhorou muito depois que comeou a ir. Eu lhe falei a respeito dela. Lembra-se? -- No muito. 
O passado para mim morreu. Fao questo de no lembrar de nada. -- Pois eu nunca esqueci. Nos ltimos tempos, ento, ele tem estado presente em todos os minutos. 
Ela no respondeu. No queria que ele soubesse que ela tambm se recordava de tudo nos mnimos detalhes. -- Quando a vi na quarta-feira com aquele moo, pensei que 
fosse seu namorado. -- Ele  um rapaz bonito, culto, bom, e o acho muito atraente, mas  casado. Para mim, homem casado  como se estivesse morto. Ele mordeu os 
lbios e no respondeu. Haviam chegado a um pequeno restaurante. Encostou o carro no estacionamento e entraram. Andr escolheu um canto discreto, protegido por um 
biombo, e sentaram-se. Como ela dissesse que no queria jantar, ele pediu um vinho e alguns salgadinhos. O garom trouxe em seguida. Depois de provar o vinho e este 
ser servido, eles ficaram a ss. -- Nina, no acredito que estamos aqui, juntos. -- Concordei em vir porque notei que voc estava determinado e fiquei com medo de 
que fizesse um escndalo em frente ao meu escritrio. Alm disso, Lcia e o Dr. Breno estavam constrangidos. -- So meus amigos. Eles jogaram fora os preconceitos 
e resolveram muito bem seus problemas. Esto muito felizes juntos. -- As pessoas tm o direito de decidir como desejam viver. Eu no conseguiria conviver com isso. 
Mas penso que no foi para falar deles que me trouxe aqui. Alis, voc me ameaou e eu no gostei. -- Sua intransigncia me tira do srio. Prefiro o dilogo, mas 
quando eu falo voc no ouve. Colocou uma idia em sua cabea e no aceita mudar. -- Quando voc nos abandonou, eu tive de lidar com essa situao como me foi possvel. 
E resolvi tudo perfeitamente. Estou levando minha vida bem. Marcos  um meninoeducado, saudvel, feliz.

De repente voc aparece e quer fazer parte da vida dele. Terei de dizer a ele que eu menti, que seu pai no morreu. Como pensa que ele vai reagir? -- Vai ficar feliz 
descobrindo que tem um pai que o ama e far tudo para conquistar sua estima e apoi-lo na vida. -- Um pai que apesar de saber que ele estava chegando, nos abandonou 
e esqueceu durante dez anos? Andr colocou a mo sobre a dela apertando-a com fora: -- Isso no  verdade! Desde o dia que voltei da viagem eu a procurei. Eu sempre 
a amei, Nina. Ela retirou a mo dizendo indignada: --  mentira! Como ousa me dizer uma coisa dessas? Levantou-se nervosa: -- Vou embora. Ele segurou o brao dela: 
-- Sente-se, por favor. No quis ofend-la. Fique. Vamos conversar. Ela sentou-se novamente. Estava plida e Andr deu o copo de vinho a ela e pediu: -- Beba, Nina, 
para se acalmar. Estamos ambos nervosos. Ela segurou o copo e tomou alguns goles. Ele fez o mesmo. Depois disse: -- Eu no desejo fazer nada que a prejudique. Tenho 
conscincia do meu erro e dos momentos de felicidade que perdi quando nos separamos.  difcil, Nina, carregar a culpa, saber que eu fui o nico responsvel pela 
situao infeliz de agora. -- Nesse caso, deixe tudo como est. No queira nos penalizar ainda mais criando problemas em nossas vidas. -- Apesar de tudo, Nina,  
injusto negar a um pai o direito de conhecer o filho e a um menino o de conhecer seu pai. J pensou que ele tem o direito de escolher como deseja lidar com isso? 
-- Marcos  uma criana, no teria discernimento para saber o que  melhor. -- As crianas possuem um senso profundo de suas necessidades bsicas. Eu sempre tive 
vontade de ter um filho e agora eu sei que ele existe e no pretendo abrir modele.  uma fora muito forte dentro de mim que me obriga a lutar para conquist-lo. 
Ser que ele tambm no teria sentido dentro dele a falta do pai? -- Ele nunca sentiu isso, tenho certeza. Eu fui pai e me dele todo o tempo. -- Voc est prejulgando. 
Como pode saber o que se passa no ntimo dele? Como pode assumir essa responsabilidade e garantir que ele nunca lhe pedir contas por isso? Ela no respondeu logo. 
Baixou a cabea e ficou pensativa durante alguns instantes. Sentia-se fragilizada, desejava ir embora, esquecer esse assunto. Andr estava ali, na sua frente, cobrando, 
tentando dividir com ela uma culpa que era exclusivamente dele. No podia aceitar isso. Levantou a cabea com altivez e respondeu: --  covardia de sua parte querer 
me fazer sentir culpada quando foi voc quem decidiu sair de nossas vidas. --  verdade, Era jovem demais, tomei uma atitude errada da qual me arrependi em seguida. 
Mas foi voc quem quis me castigar ocultando o nascimento de Marcos e no contando a verdade a ele, fazendo-o acreditar que eu estava morto. Fez isso comigo e com 
ele durante todos estes anos e agora, quando eu os encontrei, reclamo nossos direitos, voc ainda pretende continuar ignorando nossos sentimentos. Se analisar melhor 
perceber que voc  to ou mais culpada do que eu. Nina sentiu que as lgrimas estavam prestes a cair e baixou o rosto mais uma vez para que ele no as visse e 
ficou em silncio. Ele continuou: -- Voc me odeia tanto assim? Pretende continuar me punindo, usando uma criana que nem sabe que eu existo e sinto por ele um amor 
de pai? Havia tanta tristeza na voz de Andr que Nina no conseguiu conter as lgrimas que desceram pelo seu rosto. Foi um pranto dorido que ela havia contido durante 
tantos anos e que ernergiu sem que ela pudesse conter.

Os soluos brotaram em seu peito e ela chorou compulsivamente durante alguns minutos. Andr, emocionado, no disse nada e esperou que ela se acalmasse. Quando finalmente 
Nina se calou, segurou a mo dela dizendo com carinho: -- Sua mo est gelada. -- Eu quero ir embora. -- Vamos nos acalmar, esperar um pouco mais para podermos sair. 
Eu precisava dizer o que vai no meu corao. No tem sido fcil para mim tambm. Eu gostaria de meabrir, falar da minha vida, dos meus sentimentos, mas no momento 
no h condies e temo ser mal interpretado. Quero que mude seus conceitos a meu respeito e entenda que eu, apesar de tudo, posso ser um bom pai para Marcos. -- 
No estou em condies de pensar em mais nada. Ele olhou-a srio, suspirou e respondeu: -- Tem razo. Vamos embora. Ele recomps a fisionomia enquanto Nina retocava 
a maquiagem. Depois pagou a conta e saram. J havia escurecido e olhando o cu cheio de estrelas Andr comentou: -- A noite est linda. Ela no disse nada. Durante 
o trajeto pediu que ele a deixasse no estacionamento para pegar o carro. Andr tentou conversar sobre outras coisas. Falou de Milena, das suas experincias na sesso 
esprita na casa do Dr. Dantas. Ouvindo-o, Nina lembrou-se de como gostava de ouvi-lofalar. Andr era um brilhante narrador e qualquer acontecimento ganhava brilho 
quando ele o contava. Parando em frente ao estacionamento, Andr segurou a mo dela dizendo: -- Nina, hoje finalmente encontrei voc. Prometa que vai pensar em tudo 
que conversamos. Tenho certeza de que juntos vamos encontrar uma boa maneira de resolver tudo. -- No sei. Fico atordoada s de pensar nisso. -- Perdoe-me, Nina. 
Ningum pode ser feliz carregando a raiva no corao. -- Preciso ir. Boa noite. Ela abriu a porta do carro, desceu e entrou no estacionamento sem olhar para trs. 
Ele a seguiu com os olhos at ela desaparecer. Depois ligou o carro e partiu. Durante o trajeto, recordou emocionado o que haviam conversado. Ele havia ignorado 
a postura dela, falara com sinceridade e conseguira quebrar o gelo. Aquela era sua Nina, sensvel, amorosa, humana, muito diferente da advogada dura, irredutvel 
em que ela se transformara. Vendo-a chorando to fragilizada, sentiu vontade de tom-la nos braos, beijar sua boca, dizer-lhe o quanto sentia saudade dos momentos 
de amor que haviam desfrutado. Conteve-se a custo. No queria se aproveitar de um momento difcil para ela e, ao mesmo tempo, temia perder o espao to duramente 
reconquistado. Ela o julgava um canalha, leviano, interesseiro. Ele pretendia provar-lhe que no era nada disso. Que sabia respeitar os valores fundamentais da vida. 
Passava das dez quando entrou em casa. A criada o recebeu dizendo: -- D. Janete saiu  tarde, foi visitar uma amiga e ainda no voltou. O senhor quer jantar agora? 
-- No. Pode se recolher. -- Eu posso preparar um lanche para mais tarde. -- No  preciso. Obrigado. Ela se foi e Andr olhou em volta pensativo. Sua casa era bonita, 
impecavelmente arrumada, mas era triste, fria, sem calor humano. Instintivamente seu pensamento foi para a pequena casa onde vivera com Nina. Era pequena, mas agradvel. 
L havia alegria, flores frescas nos vasos, um cheiro gostoso de comida na cozinha, e principalmente os braos de Nina, seu sorriso bonito, seus olhos brilhantes 
de amor. Passou a mo nos cabelos nervoso. Por que fora to cego a ponto de deixar-se envolver por Janete e por sua me, que o atirava nos braos dela como se fosse 
a nica chance de felicidade possvel?

Agora, notava claramente que elas o haviam envolvido atravs da vaidade. Era prazeroso desfilar socialmente ao lado de Janete, sempre to chique, cuja companhia 
era disputada por pessoas importantes, que a colocavam como um trofu difcil de ser conquistado. Depois, havia a notoriedade profissional que alcanaria unindo-se 
 fortuna e  classe da famlia dela, sempre em evidncia nas revistas de moda, participando ativamente dos eventos beneficentes, aparecendo na mdia regularmente. 
Convivendo intituarnente com Janete, Andr comeou a perceber o quanto ela era mesquinha, maledicente, preconceituosa. A vaidade excessiva com o corpo, que no lhe 
permitia aceitar a maternidade,a conversa ftil, formal, falsa, a tornavam distante e Andr notava claramente que ela estava sempre representando um papel, conforme 
as circunstncias. Ela era vazia e fazia tempo que ele no encontrava prazer em conversar com ela, em estar a seu lado. Desfilar ao lado dela deixou de ser prazeroso 
para tornar-se penoso. Ele tomouconscincia de que, para estar com ela nas rodas sociais, ele tambm precisava adotar o papel de marido solcito, educado, enamorado. 
Era isso que ela gostava de exibir para as amigas e ele odiava. Quando saam juntos, o tempo todo ele notava os pontos fracos dela, o quanto era pretensiosa, arrogante, 
e ficava cada vez mais difcil fazer o que ela esperava dele. Nunca ele se arrependeu tanto de haver se casado com ela como naquela noite. Havia perdido Nina, no 
tinha esperana de retomar seu romance com ela, que jamais esqueceria o passado. Todavia sentia que no podia mais continuar vivendo ao lado de Janete. Ela teria 
que entender e aceitar a separao, o que no seria nada fcil, Mas ele estava determinado. Iria morar sozinho e assim teria liberdade para conviver com o filho 
e conquistar seu afeto. Diante das circunstncias, era s o que poderia esperar. Nina entrou em casa abatida. Oflia, vendo-a, disse: -- Voc no costuma demorar 
e eu estava preocupada. Est se sentindo bem? -- Tive um dia penoso e estou cansada. Quero tomar um banho e me deitar. Marcos j foi dormir? -- Est vendo televiso 
no quarto. Enquanto voc toma banho vou esquentar seu jantar. -- No precisa, estou sem fome. -- Eu fiz uma sopa deliciosa. Se no quiser descer, vou esquentar e 
levar em seu quarto. No pode ficar sem comer. -- Est bem. Obrigada. Ela subiu, foi ver Marcos, conversou com ele pedindo que desligasse a televiso, porque teria 
que se levantar cedo no dia seguinte para a escola. -- O filme est acabando, me. Assim que terminar eu desligo. Prometo. Ela foi para o quarto, encheu a banheira, 
tirou a roupa e acomodou-se dentro dela. O calor da gua e o perfume delicado dos sais que havia colocado a fizeram fechar os olhos com prazer. Era bom ficar ali, 
sem pensar em nada, sentindo aquela sensao agradvel do contato da gua morna em seu corpo. Porm, apesar de desejar relaxar, no pensar em nada, o rosto emocionado 
de Andr reapareceu em sua memria obrigando-a a pensar. Ele a culpava por no haver lhe contado nada sobre Marcos, No era assim que ela via os fatos. Achava justa 
essa atitude, uma vez que ele os deixara. Procur-lo, falar-lhe do filho parecia-lhe uma demonstrao de fraqueza, de incapacidade para cuidar de tudo sozinha. Ele 
a julgara indigna de usar seu nome, por ser de origem simples menosprezara sua inteligncia, seus valores morais, sua dignidade. Ela tinha o direito de provar o 
quanto ele estava enganado. O reconhecimento tardio dessa verdade tornava maior seu erro e era isso que o incomodava. Se ela houvesse ido procur-lo tornando-se 
sua dependente, sua vaidade teria ficado satisfeita. Mas esse prazer ela no lhe daria. Faria tudo para que Andr desistisse do filho. Reconhecia que ele tinha o 
direito legal de assumir a paternidade. Se ele reclamasse na justia esse direito, teria de aceitar.

A esse pensamento estremeceu. Como Marcos reagiria quando soubesse que mentira? Se isso acontecesse, procuraria faz-lo compreender suas razes. Seu relacionamento 
com ele sempre fora amoroso, amigo. Ele sabia o quanto era amado e acabaria aceitando. O que a preocupava era que teria de dividir seu afeto com Andr. Teria que 
aceitar calada a reao deles, porquanto nunca diria ao filho o quanto o julgava interesseiro e leviano. Essa fora uma das razes para ter-lhe dito que o pai havia 
morrido. Falar de um morto, exaltar suas qualidades, era mais fcil do que contar a verdade. Lcia lhe dissera que Breno estava preocupado com Andr. Que ele no 
era feliz e se arrependera de haver casado com Janete. No acreditava muito nessa verso, que poderia ser uma maneira de Lcia e Breno tentarem convenc-la a aceitar 
sua proximidade. Fosse o que fosse, a culpa da sua infelicidade era apenas dele. No lhe passara despercebido o brilho de admirao nos olhos de Andr quando a fixava. 
Era exatamente isso que ela desejava obter. Para isso se esforara no trabalho, procurando notoriedade profissional. J que no tinha dinheiro, nome, posio social, 
teria sucesso na profisso. Apesar disso, no se sentia feliz. Ao contrrio do que imaginava, essa vitria no conseguira arrancar a tristeza que carregava no corao. 
Fechou os olhos e imaginou como seria bom esquecer, libertar-se daquela sensao terrvel de no ser boa o suficiente que sentia sempre que pensava no pssado. Ela 
precisava esquecer. Dali para a frente faria tudo para tirar Andr do seu pensamento. Ela sempre fora assediada por admiradores, mas nunca os levara a srio. No 
confiava em ningum. As lembranas do seu romance com Andr reapareceram com intensidade e Nina recordou-se dos momentos felizes. De repente, se deu conta de que, 
depois de tantos anos decorridos, aquelas recordaes faziam seu corao bater mais forte, que o amor ainda estava l, num misto de prazer e dor, que nada pudera 
apagar. Isso no podia ser verdade. Aquele encontro com Andr estava perturbando sua mente. Ela o desprezava, essa era a verdade. Decidida a reagir, Nina saiu da 
banheira, enxugou-se e preparou-se para dormir, Oflia havia colocado a bandeja com a sopa sobre a mesinha e Nina resolveu comer. Ela precisava se alimentar para 
ser forte e vencer essa batalha contra Andr. Depois de tomar a sopa, Nina rezou pedindo a Deus para afastar Andr do seu caminho e ajud-la a esquecer. Depois deitou-se 
disposta a no pensar mais nele. Contudo, enquanto se remexia na cama tentando dormir, de vez em quando um momento daquele encontro reaparecia em sua mente reacendendo 
as lembranas. Quando se dava conta, ela reagia. Assim, custou muito para ador mecer. Na manh seguinte, ao chegar no escritrio e encontrar Lcia, Nina notou que 
havia acontecido alguma coisa. -- Voc no est bem. O que foi? Ela estremeceu e esforou-se para segurar as lgrimas. Notando seu nervosismo, Nina f-la sentarse 
e comentou: -- Voc est muito nervosa. Alguma coisa com Mirela? -- No. Ela est bem... mas aconteceu uma coisa horrvel... -- Acalme-se e conte tudo. -- Ontem 
Breno foi comigo at em casa. Estava com saudades de Mirela. Voc sabe que ele nunca fica em minha casa at tarde. Ele respeita Anabela e no quer mago-la. Ontem 
ele disse que ia ficar at tarde porque Anabela fora passar alguns dias na casa da me em Minas. Compramos algumas coisas, Rosa fez um jantar gostoso e estvamos 
felizes. Passava das dez quando a campainha tocou, Rosa foi abrir e, quando vimos, Anabela e o pai dela estavam em nossa sala. -- Que horror!

-- Ns estvamos brincando com Mirela, que por causa de o pai estar em casa no quis dormir no horrio de sempre. Anabela no fez cena nem nada. Olhou para o pai 
e disse: -- Voc no acreditou. Veja essa pouca vergonha com seus prprios olhos! O homem estava plido de raiva. Pensei que fosse nos agredir. Eu tremia, minhas 
pernas bambearam e no consegui dizer nada. Breno, apesar de plido, teve mais presena de esprito e me pediu que levasse Mirela para o quarto. Ela chorava assustada 
e eu tomei sua mo e samos. Rosa estava do meu lado inconformada. -- Se eu soubesse quem eram no os teria deixado entrar -- disse, nervosa. -- Voc no teve culpa 
de nada. Ela deve ter armado tudo. -- Voc est tremendo. Vou buscar um copo de gua com acar. Ela foi e eu fiquei tentando acalmar Mirela. Quando Rosa voltou 
eu lhe pedi que ficasse com ela e fui at o corredor tentar ouvir o que estavam conversando. -- Custa-me crer que voc, que eu pensei que fosse um homem de bem, 
pudesse enganar minha filha dessa forma e tenha at uma criana. Que no sei se  ou no sua filha. -- E minha filha, sim -- respondeu Breno com voz firme. -- Tem 
certeza? -- Tenho. Mirela  minha filha. -- Nunca o perdoarei. No o quero mais em minha casa interveio Anabela. -- Vamos embora, papai. -- No se precipite, filha. 
Isso aqui no passa de uma aventura. Breno j deve estar arrependido. Vamos embora, Breno, aqui no  lugar para conversarmos. Vamos a minha casa. -- Est bem. Irei. 
Podem ir, que irei em seguida. Ouvi quando eles saram batendo a porta e Breno me procurou. Eu no conseguia conter as lgrimas. Ele me disse: -- Tenho que ir. Mas 
quero dizer que eu amo vocs duas. No tenha medo. Ele se foi e eu fiquei muito preocupada. Depois do que houve, penso que tudo acabou. Eu perdi o Breno. Eu no 
sei viver sem ele. As lgrimas desciam pelo seu rosto e Nina procurou acalm-la. -- Ele disse que ama vocs duas. Logo vir procur-la. Voc vai ver. -- Eu aceitei 
sa situao porque o amo muito. Sei que ele me ama, mas tem muita considerao pela esposa. Desde o comeo ele esclareceu que, apesar do amor que sente por mim, 
nunca a abandonaria. Nina olhou-a admirada. Como  que Lcia aceitara uma situao dessas? Mas no disse nada para no mago-la ainda mais. -- E uma situao difcil, 
procure se acalmar. -- Eu sei que eles vo exigir que ele nos deixe. Estou desesperada. Tenho medo de fazer uma loucura. -- No diga uma coisa dessas. O que aconteceu 
era de se esperar. Quando um homem est interessado em outra mulher, ele muda o comportamento e a esposa percebe. Voc precisa esperar para ver o que eles decidem. 
Mas, seja o que for que acontea, lembre-se que Mirela precisa de voc. -- Eu sei. Minha famlia brigou comigo quando soube que eu estava esperando um filho de um 
homem casado. Ela s tem a mim. Nina procurava esconder a preocupao. Era provvel que Lcia estivesse certa: pressionado pela esposa, Breno as deixaria. E se ela 
fizesse o mesmo que Antnia? Nina sentiu o peito oprimido e pensou que precisava ajud-la de alguma forma. Se tivesse ido atrs de Antnia, talvez ela no houvesse 
se suicidado. No queria que essa situao se repetisse. -- Voc sabe o que aconteceu com Antnia. -- Sei. -- Ela est arrependida, sofrendo muito. Se pudesse voltar 
atrs, no terja se suicidado. -- Como  que voc sabe?

-- Sente-se que vou lhe contar tudo. Lcia acomodou-se e Nina contou o que sabia do caso e finalizou: -- Como me voc pode avaliar a aflio dela por no poder 
proteger o filho. Ela pensava que morrendo tudo se apagaria, no teria mais sofrimento. Entretanto, a vida continua depois da morte. Esse gesto de rebeldia, alm 
de no resolver os problemas, aumenta muito os sofrimentos. -- Acho que eu enlouqueceria. -- Por isso, reaja. Voc ainda no sabe o que vai acontecer. -- E certo 
que ele vai nos abandonar. -- Voc nunca pensou nessa possibilidade? -- Pensei algumas vezes, mas ele era to carinhoso... -- Na verdade, Lcia, ningum se apaixona 
de uma hora para outra. Quando ele se mostrou interessado, voc sabia que ele era casado? -- Sabia. Ele nunca me enganou. -- Nesse caso, no pode reclamar de nada. 
Principalmente porque ele deixou claro, desde o comeo, que no pretendia abandonar a esposa. Ele tem filhos com ela? -- Dois meninos, um com dezesseis, outro com 
dezoito anos. -- Nesse caso, o melhor que tem a fazer  preparar-se para aceitar os acontecimentos. -- Do jeito que voc colocou as coisas, Nina, sinto que me cabe 
a maior culpa de tudo. Voc tem razo: quando ele comeou a me procurar, eu no deveria t-lo encorajado. Mas, sabe como , ele  um homem atraente, bonito, bem 
na vida, eu me senti envaidecida. Nunca havia tido um namorado assim. Depois, ele gentil, fino, carinhoso, fui me apaixonando. -- No procure culpados. Isso s piora 
a situao. Voc foi ingnua, deixou-se envolver, ficou fascinada. Mas agora  o momento do bom senso. De tomar uma atitude mais lcida. Voc tem uma filha e ela 
precisa crescer em um lar alegre, harmonioso. -- Como posso ter alegria depois de tudo? -- E possvel, sim. Se voc reconhecer que escolheu mal seu caminho, mas 
que far o possvel para no repetir o mesmo erro. Voc sabe tudo que eu passei, mas consegui dar a meu filho um lar alegre, um ambiente harmonioso, como toda criana 
merece ter. Se eu consegui, voc tambm conseguir. As lgrimas desciam pelo rosto de Lcia e Nina levantou-se, colocou as mos em seus ombros dizendo: -- Esta tarde, 
se quiser, iremos  casa de Marta. -- A filha do Dr. Dantas? -- Sim. Tenho certeza de que ela nos ajudar. Eu tambm preciso falar com ela. Vou ligar e iremos juntas. 
-- No sei se devo... -- Deve, sim. Ela saber confort-la. Agora enxugue os olhos e vamos trabalhar. Lcia levantou-se e abraando-a disse: -- Obrigada, Nina. Sinto-me 
mais calma. Nina pediu alguns documentos e ela saiu para busc-los. Nina sentou-se satisfeita. Lcia parecia mais calma. Apesar disso, ela no deixaria de lev-l 
at Marta. Tinha certeza de que ela teria uma forma mais eficiente de judar.

A criada avisou que Janete estava ao telefone e Andria atendeu: -- Como vai, Janete? -- Nada bem. Andr est cada dia pior. Mas estou ligando porque tenho novidades. 
Achei que gostaria de saber. -- E alguma coisa com Andr? -- Com ele e Milena. Descobri aonde vo todas as quartas-feiras. -- Verdade? Fale logo, porque estou ansiosa. 
-- Como estou desconfiada, contratei um detetive para segui-los nesse dia. -- E o que descobriu? -- Voc no vai acreditar. E uma verdadeira bomba! -- Bem que eu 
desconfiava que boa coisa no era. Mas fale logo. -- Eles vo  casa do Dr. Antnio Dantas. -- E um advogado concorrente do escritrio de Andr. Mas o que eles vo 
fazer l? Estaro com algum processo complicado? Milena est envolvida em algum caso grave? -- No  nada disso. O detetive conseguiu descobrir que eles fazem sesses 
espritas todas as quartas-feiras. E l que eles vo todas as semanas. Voc poderia imaginar uma coisa dessas? A surpresa de Andria foi tanta que ela no respondeu 
logo. Quando conseguiu se recuperar, disse: -- No pode ser! Quanto a Milena, nada me espanta. O que me surpreende  o Andr prestar-se a uma coisa dessas! Ele  
um homem culto, de classe, bem-educado. Como pode acompanhar a irm a uma loucura dessas? -- Agora entendo por que ele mudou comigo. Pensei que houvesse outra mulher, 
mas o detetive nunca descobriu nada. Freqentando esses lugares, ele pode estar sendo envolvido pelo diabo. -- Que absurdo. Voc deveria ficar contente de saber 
que ele no a est traindo.

-- Mas ele est mudado. Mal fala comigo. No samos mais juntos. Est claro que ele est sob influncia do mal. -- No posso crer que voc acredite mesmo nisso, 
O diabo  uma figura simblica para explicar o mal. Hoje em dia nem os padres acreditam nisso. -- No brinque com uma coisa dessas. O diabo existe, sim, e deve estar 
afastando Andr de mim. Mas estou decidida a procurar ajuda espiritual. Vai falar com o padre Humberto? Ela hesitou um pouco e respondeu: -- No sei. Vou pensar. 
-- Voc ficou impressionada com esta histria, V falar com o padre Humberto, mande rezar uma missa e pronto. Assim tudo fica resolvido. Quanto a mim, vou tomar 
providncias para acabar com isso. -- O que pensa fazer? -- Falar com Romeu e proibir Milena de sair com Andr. -- Ela  rebelde e no vai obedecer. -- Se ela recusar, 
sou capaz de intern-la, Sempre desejei que fizesse um tratamento psiquitrico intensivo. Talvez agora seja o momento. No se preocupe mais com isso. Vou cortar 
o mal pela raiz. -- Est bem. Mas, por favor, no diga a Andr que fui eu quem descobriu. No quero que saiba sobre o detetive. Ele vai brigar comigo. -- Pode deixar. 
Vou pensar e inventar uma histria qualquer. Deixe comigo. No quero minha filha se metendo com esses charlates. -- Est bem. Quando tiver qualquer novidade me 
ligue. Andria prometeu e desligou. Sentou-se na sala pensando como deveria fazer. Decidiu que no falaria nada com Milena antes de conversar com o marido. Talvez 
fosse melhor ela no perceber que eles sabiam. Assim, tomariam as providncias cabveis, no lhe dando tempo para reagir. Janete desligou o telefone satisfeita. 
Tinha certeza de que Andria acabaria com essa histria. Mas ela sentia que no podia ficar apenas nisso. Seu casamento estava se desmantelando e precisava tomar 
outras providncias. Lembrou-se do pai Otero. Foi ele que anos atrs, quando ela j estava perdendo as esperanas de conquistar Andr, havia feito o trabalho. Ela 
conseguiu uma camisa dele usada, levou a ele e poucos dias depois tudo comeou a mudar. De repente um arrepio de medo a acometeu. Andr estava indo a sesses. Teria 
descoberto o que ela havia feito? Isso explicaria sua mudana de atitude com ela. No, isso no podia ser verdade. Se ele houvesse descoberto que havia se casado 
com ela atravs de magia, certamente no teria ficado calado. Foi  escrivaninha, pegou uma agenda de telefones e procurou o nmero e ligou. Foi informada de que 
o telefone havia sido mudado e anotou o novo nmero. Depois discou e descobriu satisfeita que Otero continuava no mesmo endereo. A agenda dele estava lotada. S 
havia hora para dali a um ms. Ela insistiu tanto, disse ser uma antiga cliente e conseguiu para alguns dias depois. Desligou o telefone satisfeita. Tinha certeza 
de que Otero resolveria todos os seus problemas. Era s uma questo de tempo. No diria nada a ningum, como da outra vez. Olvia e Andria que resolvessem seus 
problemas. Ela no tinha nada com isso. Andr chegou em casa passava das dez. Janete assistia a um filme pela televiso. Vendo-o entrar, levantou-se sorrindo: -- 
Tudo bem, Andr? -- Sim, obrigado. -- Se no jantou, posso mandar esquentar o jantar. -- No precisa. Comi um lanche. -- Esse filme est muito bom, Sente-se aqui, 
venha assistir comigo. -- Estou cansado. Vou subir, tomar um banho e me deitar.

Janete no se conteve: -- Isso no pode continuar. Estou me esforando para fingir que no percebo seu desinteresse, mas fica difcil. Ele parou, olhou-a nos olhos 
e respondeu: -- Fica mesmo. No estou suportando mais. Nosso casamento acabou, Janete. Ou melhor, ns nunca deveramos ter casado. Somos muito diferentes. Ela empalideceu 
e retrucou: -- No sei por que voc est dizendo isso. Sempre procurei ser uma boa esposa, sincera, dedicada. Cuido de tudo em nossa casa. Fao o melhor que posso. 
Sempre fomos to felizes -- Isso no  verdade. Voc vive se queixando que no lhe dou a ateno que espera. -- De fato, voc mudou muito nos ltimos tempos, -- 
E que eu cansei de fazer as coisas do seu jeito, de manter uma vida social falsa, de desempenhar o papel de marido feliz. H muitos anos que no sei o que  felicidade. 
Ela olhou-o assustada. Havia alguma coisa no tom dele que a fez temer o pior. Tentou contemporizar: -- Talvez seja porque voc nunca me fala o que sente, vive fechado 
no seu mundo. Para mim o casamento significa comunho de idias, companheirismo, dedicao. Voc no tem feito nada disso. -- Pode ser, mas entre ns nunca houve 
essa comunho porque pensamos de forma diferente. Eu quero me separar de voc. Preciso de um tempo para retomar minha vida, voltar a ser eu mesmo. -- Voc no pode 
me abandonar depois de todos estes anos de dedicao e afeto que eu lhe dei. Est sendo ingrato. -- Chega um momento em que no d mais para ignorar a verdade. Lamento 
o que est acontecendo conosco. Mas no estou conseguindo suportar a vida que estamos levando. Vou fazer as malas e ir para um hotel. Janete aproximou-se dele colocando 
a mo em seu brao: -- Por favor, Andr. No faa isso. Vamos pensar melhor. -- Tenho pensado tempo demais. Tanto que estou me sentindo sufocado. Preciso ficar s. 
Entendeu? As lgrimas desciam pelo rosto dela, que segurou os dois braos dele dizendo: -- No vou permitir que v embora. Voc  meu marido. Casou comigo e jurou 
ficar at que a morte nos separe. No o deixarei sair. Ele segurou-a pelos pulsos afastando-a e gritou: -- Voc no vai me impedir. Entenda, vou embora porque estou 
no limite de minhas foras. No quero ser indelicado nem brigar com voc. Mas acabou. Nosso casamento acabou. Antes que ela tivesse tempo de responder, Andr subiu 
as escadas, foi ao quarto de vestir, apanhou uma mala e comeou a colocar suas roupas. Janete deixou-se cair em uma poltrona, assustada. Isso no podia estar acontecendo 
com ela. Era um pesadelo. Logo iria acordar e tudo voltaria ao normal. Alguns minutos depois, Andr desceu com uma pasta e a inala. Parou diante dela dizendo: -- 
Estou indo embora. Depois eu ligo informando onde estou e mando buscar o resto de minhas coisas. Ela no conseguiu dizer nada. Ouviu a porta bater, o barulho do 
carro e s ento se deu conta de que ele havia mesmo ido embora. Desesperada, subiu para o quarto. A raiva a sufocava. Ele a estava desprezando, abandonando-a como 
se ela fosse uma qualquer. Isso no ia ficar assim. Precisava dar o troco. No dia seguinte iria falar com Otero, mesmo sem hora marcada. Ele teria que atend-la. 
Faria o que fosse preciso para que Andr voltasse e, quando isso acontecesse, ela iria faz-lo pagar por tudo que estava lhe fazendo.

Andr hospedou-se em um hotel e, quando se viu a ss no quarto, sentou-se em uma poltrona. Sua cabea doa e ele se lembrou de que no havia comido nada. Ligou para 
o servio de quarto e pediu um lanche e, enquanto esperava, foi ao banheiro, lavou as mos, o rosto, tirou os sapatos, abriu a mala, calou chinelos, vestiu um pijama. 
O rapaz trouxe o lanche, e ele sentou-se para comer. Apesar do nervosismo e da dor de cabea, sentiu-se aliviado. A presso dos ltimos dias havia desaparecido. 
Enquanto comia, repensava sua vida. Dissera a Janete que queria um tempo, mas sabia que nunca voltaria para ela. Era um caso encerrado. Tinha certeza de que seus 
pais, principalmente sua me, fariam presso para que ele reconsiderasse. Mas nada o demoveria. Pela primeira vez achou que no ter tido filhos com ela havia sido 
providencial. No gostaria de separar-se de janete deixando crianas fora de sua convivncia. Quando um casal se separa, ainda que de forma amigvel, os filhos sempre 
sofrem. Alguns amigos seus estavam tendo muitos problemas com os filhos por causa disso. Bastava o problema mal resolvido com Marcos. Andr pretendia reprogramar 
sua vida. Depois que comeara a freqentar a casa do Dr. Dantas, modificara radicalmente sua maneira de olhar a vida. O conhecimento da espiritualidade o fizera 
refletir sobre os verdadeiros valores, que levam  conquista da felicidade e que vo muito alm dos acanhados conceitos mundanos. Foi assim que ele pde perceber 
que estava levando uma vida baseada nas aparncias, ignorando as verdadeiras necessidades de seu esprito. Naquele momento ficou muito claro em sua mente como fora 
monopolizado primeiro por sua me, depois por Janete, atravs da vaidade. Elas a incentivavam a todo momento, salientando como ele era bonito, inteligente, charmoso, 
indispensvel onde quer que fosse. Andr passou a mo na testa como se esse gesto pudesse afastar a lembrana de sua ingenuidade. Como no percebera que estava sendo 
manipulado? Por que se deixara levar como um imbecil por duas mulheres interessadas em que ele fizesse o que convinha a elas? Diante dessa constatao, Andr nem 
pensou em culp-las. Reconhecia que a culpa de sua infelicidade fora apenas dele. Elas estavam fazendo seu jogo. Andria acreditava que o filho seria feliz casando-se 
com uma mulher de classe, rica, cujo pai, homem de sucesso profissional, ajudaria o seu filho a subir na vida, a fazer uma carreira brilhante como advogado. Vaidade, 
pura vaidade. Mas ela achava que isso era amor. Que estava cuidando do futuro dele. Que iluso! Janete, criada com luxo, por um pai que brilhava profissional e socialmente, 
tambm acreditava que a felicidade estava em parecer. Gostou dele porque fazia boa figura em toda parte, principalmente entre as mulheres, e achou que casar-se com 
ele a tornaria feliz. Nada a deixava mais alegre do que desfilar com ele em lugares requintados, em festas badaladas, exibindo-o como um trofu. Nunca se importou 
com o que ele sentia ou pensava. Tambm vaidade, s vaidade. At quando viveriam cultivando tantas iluses? Assistindo s sesses onde espritos desencarnados se 
manifestavam falando que estavam sofrendo as conseqncias de seus enganos, ele havia notado que a vaidade era sempre o ponto fraco que os havia feito fracassar 
e pagar um preo muito caro por isso. A certeza da continuidade da vida aps a morte calou fundo em seu esprito. A transformao de Milena, sua mediunidade, os 
livros que lera sobre os fenmenos espirituais, a reencarnao, a finalidade da vida voltada  evoluo da conscincia despertaram em seu corao a vontade de melhorar 
seu mundo interior. Era uma emoo nova mas profunda que lhe proporcionava uma satisfao to grande que o fazia sentir que estava no caminho certo. Desejava ser 
verdadeiro, manter dentro do peito esse sentimento de realizao ntima que lhe dava paz. Dali para a frente ia cuidar para que nada nem ningum conseguisse induzi-lo 
a fazer o que no estivesse de acordo com o que sentia. Decidindo isso, sentiu-se forte e lcido como nunca se lembrou de haver sido.

Uma gostosa sensao de maturidade, de crescimento o envolveu e ele sentiu sono. Deitou-se e logo adormeceu. Na manh eguinte, acordou cedo e foi para o escritrio. 
Imaginava que a essa altura Janete j teria ido chorar as mgoas nos braos do pai, que sempre lhe fazia todas as vontades. Era provvel at que, se ele insistisse 
em no voltar para casa, perdesse o lugar naquele escritrio, que, apesar de ser de seu tio, tinha superviso e assessoria do pai de Janete. Durante o trajeto, foi 
pensando em conversar com Breno. Eles eram scios e no gostaria que ele fosse prejudicado por sua culpa. Mas estava disposto a enfrentar todas as conseqncias. 
Quando chegou ao escritrio, Breno no havia chegado. Ele era sempre o primeiro a chegar. Aparentemente, tudo estava em paz, mas no demorou muito e a secretria 
o procurou: -- Telefone para o senhor. E o Dr. Romeu. Seu pai nunca lhe telefonava pela manh e ele teve a certeza de que Janete j deveria ter ido contarlhes a 
novidade. Atendeu em seguida. -- Como vai, pai? -- Voc ainda pergunta? Desde a madrugada esta casa est em polvorosa. O que foi que voc andou aprontando? -- Nada, 
pai. Est tudo bem. -- Como est tudo bem? Sua me est passando mal, arrasada, aflita, diz que voc perdeu o juzo. Quer que venha aqui imediatamente. -- Infelizmente 
no poderei ir. Estou trabalhando. Mas diga a ela que nunca tive tanto juzo em minha vida. Voc sabe como acalm-la. Faa isso e depois diga a ela que eu pensei 
muito antes de tomar essa atitude e que no vou voltar atrs. Meu casamento foi um erro e no d mais para continuar. Acabou. -- Voc no pode fazer isso! Uma moa 
to fina como Janete. Espero que no esteja metido com alguma aventureira. -- No, pai. Fique tranqilo. No tenho outra mulher. -- Onde voc est? -- Em um hotel. 
Por enquanto quero ficar sozinho. -- Voc precisa vir aqui, explicar para sua me, conversar com ela. -- Sinto, pai, mas no tenho vontade de fazer isso. Quando 
ela estiver mais calma e eu achar necessrio, irei. -- Ela o est chamando! No vai atender seu pedido? Ela  sua me! -- Eu sei, pai. Eu a respeito e estimo, mas 
no quero ir falar com ela sobre minha vida. E um direito meu. -- Ela ama voc. No pode fazer isso com ela. -- Se ela me ama mesmo, vai entender e esperar. Hoje 
tenho muitas coisas para fazer. Garanto a voc que no estou fazendo nada errado. -- Ela no vai gostar da sua atitude. -- Sinto muito, pai. Mas no sou mais uma 
criana. Posso tomar conta de minha vida. -- Voc est sendo ingrato. Nunca esperamos isso de voc, a quem criamos com tanto carinho. -- No estou sendo ingrato. 
Mas decidi que vou assumir a completa responsabilidade pela minha vida. Quando as coisas no vo bem, sou eu quem arca com as conseqncias. Portanto, tenho todo 
o direito de escolher como desejo viver. Isso no tem nada a ver com a estima que sinto por vocs. Entendam isso. Romeu ficou calado por alguns segundos. Depois 
disse: -- Vou ver o que posso fazer. Deixe ao menos o telefone do hotel, ou o endereo. -- Eu virei trabalhar todos os dias. Se quiserem falar comigo, podem ligar 
para c, Por enquanto, no quero ningum me procurando no hotel. -- Est certo. Mas pense bem, meu filho. Voc pode se arrepender. Janete  uma boa esposa. Devia 
pensar no sofrimento dela, que o ama, e no de sua me. -- Eu penso, pai. Mas penso tambm em mim, na minha paz e felicidade.

Ele se despediu e desligou. Andr sentou-se pensativo. A guerra havia comeado, mas ele se sentia preparado. Sabia o que queria e isso o deixava em paz. Breno entrou, 
cumprimentou e tornou: -- Preciso falar com voc. Andr fixou-o e respondeu: -- O que aconteceu? Voc est com uma cara... -- Ontem  noite, eu estava na casa de 
Lcia brincando com Mirela e de repente Anabela e o pai estavam l, dentro da nossa sala. Andr levantou-se assustado: -- No diga! E a? -- Foi um horror. Anabela 
desconfiou e armou tudo. Disse que ia passar alguns dias fora e eu ca direitinho. -- Ela deve ter feito uma cena. -- Ela me destratou, controlava a voz tentando 
falar friarnente, mas seus olhos brilhavam de raiva. -- E seu sogro? -- Bem, Mirela se assustou e chorava. Pedi a Lcia que a tirasse dali. Ficamos os trs. Anabela 
disse entre outras coisas que no queria mais saber de mim. J seu Dionsio disse que eu estava sendo envolvido por uma aventureira e sugeriu que fssemos conversar 
em sua casa. Anabela relutou mas concordou. -- Essa conversa deve ter sido muito desagradvel. -- Foi. Quando cheguei l, ele levou-me a seu escritrio e, apesar 
de eu notar que estava muito irritado, tentou amenizar os acontecimentos. Disse que ter um caso extraconjugal, uma aventura, era um acontecimento natural em nossos 
dias. Que a maioria de seus amigos tinha uma amante. Mas o que tornava nosso caso pior era que eu tinha uma filha. Ficou falando da nossa responsabilidade em colocar 
um filho no mundo e sobre hereditariedade. Eu ouvia tudo calado. Queria ver aonde ele queria chegar. Por fim ele me aconselhou a ir para um hotel por alguns dias, 
deixar Anabela se acalmar, depois voltar, pedir perdo. Estava certo de que ela perdoaria, mas eu teria que deixar Lcia e Mirela definitivamente. Andr balanou 
a cabea pensativo, depois disse: -- Eu sabia que um dia isso iria acontecer. Vocs facilitavam muito. Vai fazer o que ele pediu? Os olhos de Breno brilharam e ele 
tentou controlar a emoo: -- No posso fazer isso. Est alm de minhas foras. -- Ontem eu me separei de Janete. Breno olhou-o surpreendido: -- O que aconteceu? 
-- Cheguei  concluso de que nosso casamento foi um erro. Nunca fornos felizes. -- Isso ficou mais evidente depois que voc reencontrou Nina e seu filho. Voc ainda 
a ama. -- Pode ser. Mas no tenho iluses, ela no me quer, nunca vai me perdoar. No foi por causa de Nina que deixei Janete. -- No? -- No. Eu amadureci. Tenho 
aprendido muito sobre a vida desde que comecei a estudar a espiritualidade. Analisando nosso relacionamento, ficou muito claro que nunca nos amamos de verdade. Nossa 
vida tem sido apenas de aparncia. Eu no quero mais mentir a mim mesmo, fingir uma alegria que no sinto. -- Voc me surpreende. Nunca pensei que o ouviria dizer 
isso. Sempre pensei que se sentia feliz em brilhar na sociedade, em ostentar sua situao privilegiada. No  uma crtica. Ao contrrio, eu o admiro por isso. Voc 
nasceu rico e, para mim, era natural que usufrusse das vantagens que a vida lhe concedeu, J eu, sempre tive de lutar muito para conseguir estudar, progredir. Eu 
me acostumei a uma vida mais modesta. Talvez seja por isso que hoje, quando tenho meios para isso, eu no encontre nenhum prazer. Sou sempre cobrado por Anabela, 
que adora os lugares da moda.

-- Claro que  agradvel voc estar em um lugar bonito, luxuoso, vestir-se bem, usufruir os prazeres que a vida pode oferecer a quem tem condies, eu gosto disso. 
Aprecio objetos de arte, o conforto que o progresso pode oferecer. Fico feliz em poder ter tudo isso. O que me incomoda  a forma como eu vinha fazendo isso. Primeiro 
minha me, depois Janete, fazem do relacionamento social uma competio permanente de poder, valorizando as aparncias, diminuindo os que no tiveram as mesmas oportunidades. 
-- Sei o que quer dizer. Eu mesmo notei isso vrias vezes quando acompanho Anabela. Agora que est dizendo, acho que  por isso tambm que eu no gosto de ir a certos 
lugares. -- Eu mudei, Breno. Sinto vontade de ser verdadeiro, Fazer as coisas com prazer, seguir o que estou sentindo. No ter que fazer as coisas por obrigao. 
Por isso eu quis ser advogado e no assumir a empresa de meu pai. Eu abracei essa profisso porque o direito me fascina. -- A mim tambm. Pena que nem sempre podemos 
fazer ganhar quem tem razo. Mas, ainda assim, continua valendo a pena. Fico imaginando o que sua me est pensando sobre isso. -- Como sempre, est querendo me 
convencer a fazer o que ela acha certo. E incrvel como janete se parece com ela. Meu pai ligou h pouco pedindo que eu fosse v-los. Mas eu prefiro dar um tempo. 
Estou tentando refazer minhas idias, encontrar a paz interior. Quando achar que estou pronto, irei conversar com eles. -- E Janete? O que vai fazer com ela? -- 
J lhe disse tudo que precisava. Pretendo me separar legalmente. -- O divrcio est para sair. -- Espero que desta vez a Igreja no possa atrapalhar. Seja como for, 
eu no quero mais viver com Janete. Nossa separao  definitiva. Para mim  mais fcil, no temos filhos. O mesmo no acontece com voc. O que pensa fazer? -- Eu 
pensava em levar o casamento at o fim por causa dos meninos. Esto na idade em que precisam de pulso. Lcia sabe disso. Nunca a iludi. Mas Anabela  intransigente. 
Receio o que ela possa fazer para me punir. -- Vai se separar de Lcia? -- Para ser sincero, se no tivesse os meninos, j teria me separado de Anabela. Eu amo Lcia 
de verdade. Quando conheci Anabela, eu me entusiasmei.Conquist-la era para mim o mximo. Bonita, rica, sempre gostou de pompa. Eu vibrava quando ela aparecia na 
porta da faculdade para me ver, muito chique, naquele carro preto com motorista de uniforme. Eu sempre me julguei menos do que ela, e fazia tudo quanto ela queria. 
Nunca fui capaz de dizer no a um pedido seu. Nossos filhos nasceram e eu vibrei emocionado. Mas depois de alguns anos de casamento comecei a observar alguns pontos 
fracos que ela possui e meu amor esfriou. Lcia  o oposto dela. Meiga, suave, delicada, romntica. Fiquei louco por ela. Seja o que for que acontea com Anabela, 
no vou deixar Lcia nem Mirela. No saberia viver sem elas. -- No gostaria de estar em seu lugar. E os meninos? Os olhos de Breno encheram-se de lgrimas que ele 
procurou conter. -- No sei o que fazer. No quero que sofram por minha causa, no pretendo deix-los. Andr passou a mo nos cabelos como para afastar alguns pensamentos 
desagradveis. -- Esta noite voc foi dormir em casa? -- No. Procurei um hotel. Depois de falar comigo, dizendo tudo quanto eu deveria fazer para recuperar meu 
casamento, seu Dionsio chamou Anabela. Ela entrou no escritrio plida, mas seus olhos me fitavam com rancor. Meu sogro falou o que queria, nem me recordo bem do 
que disse, mas, em resumo, que eu tivera uma aventura, estava arrependido e me comprometia a abandonar tudo e voltar para casa. Queria que ela me perdoasse. -- Voc 
pediu perdo?

-- No. Ele fez tudo. Ento ela disse que eu no era digno de voltar para casa e viver ao lado de nossos filhos. Que ela estava errada tendo se sujeitado a casar 
com um homem de classe inferior a sua e que eu fosse embora, levasse todas as minhas coisas, que o nosso casamento estava acabado. Eu pensei em tentar contornar 
mas vi nos olhos dela o quanto estava decidida. Ento, decidi no discutir. Disse que no dia seguinte passaria em casa para apanhar minhas coisas. Foi isso. -- E 
os meninos? O que ela vai dizer a eles? --  isso que me preocupa. Ela est com tanta raiva que no vai se conter e contar-lhes tudo  sua maneira. -- Foi o que 
pensei. -- Eu queria poup-los. No tinha inteno de causar-lhes esse desgosto. -- Eu sei. Mas aconteceu. Agora  tentar remediar. -- . Vamos ver como os fatos 
se desenrolam. E voc, o que pensa fazer? -- Vou a orao. -- Ela consentiu que voc assuma o menino? -- Ainda no. Mas acho que dei o primeiro passo. -- Agora que 
se separou, tem esperana de reatar com ela? -- No. Nina ainda est muito ferida. Acho que nunca vai me perdoar. Apesar de tudo, dou-lhe razo. Portei-me como um 
canalha. Estou pagando o preo. Mas, com relao a Marcos, penso que ela ter que se render  evidncia. Eu sou o pai. Cedo ou tarde ela vai aceitar. -- Tem razo. 
Lcia sempre diz que Nina  uma pessoa justa. -- E odeia ser pressionada. Por isso estou sendo paciente. Desejo tambm mostrar-lhe que no sou o canalha que ela 
pensa e coloco em primeiro lugar o bem-estar de Marcos. Penso que ao descobrir que estou vivo, que o amo, ele ficar feliz. Nina inventou essa mentira para no ter 
que falar da minha traio. -- Anabela no ter a mesma delicadeza. Est com tanta raiva que flo vai me poupar. -- Reconhea que ela tem seus motivos. -- Este assunto 
 entre mim e ela. No precisaria pr nossos filhos no meio. -- Voc no sabe se ela vai fazer isso. E uma mulher educada, esclarecida. -- Mas rancorosa. Se julga 
dona da verdade e gosta de dar a ltima palavra. Janete  igualzinha. J pensou como ficar quando souber que voc tem um filho com outra? -- J. Tomei essa deciso 
para impedi-la de se envolver nesse assunto. Estamos separados e vou oficializar essa separao. -- Anabela quer a separao, mas Janete acredito que no. Ela sempre 
o amou. Andr sorriu e meneou a cabea negativamente. -- No creio que me ame. Mas, seja como for, ela ter que aceitar. Cada hora que passa eu me sinto mais livre, 
melhor, com esse rompimento. Acabou. Nunca voltarei a viver com ela. A secretria avisou que Milena estava ao telefone. Andr atendeu. -- Andr, o que aconteceu? 
Mame est em polvorosa, papai nem foi trabalhar. Tenho pensado muito em voc. -- Eu estou bem. Depois conversaremos. -- E verdade que se separou de Janete? -- E. 
No vou a hoje porque no quero ver mame. -- Sei. Estava esperando isso acontecer. Marta me avisou. Disse que seu ciclo ao lado dela terminou. -- Eu senti que 
era hora de fazer isso. Apesar de haver sido um momento desagradvel, estou me sentindo aliviado. Ela lhe disse alguma coisa mais? -- No. Amanh  dia da nossa 
sesso. Voc vir me buscar? -- Sim. Mas fique atenta, porque no vou entrar. Saia quando eu parar o carro no porto. -- Est bem. Depois que Andr desligou, ele 
disse a Breno:

-- Milena disse que Marta previu minha separao. Ela tem uma sensibilidade maravilhosa. -- Sempre tive vontade de ir a uma sesso esprita, principalmente depois 
que voc me falou de Milena. -- Nessa fase que voc est, seria bom mesmo procurar ajuda espiritual. Falarei com o Dr. Dantas para ver se ele permite que voc v 
uma noite conosco. -- Eu adoraria. Eles continuaram conversando, cada um procurando encontrar solues para seus problemas, mas nenhum dos dois percebeu a presena 
de um esprito de mulher que os abraava sorrindo com satisfao.

Antes de bater no porto do terreiro, Janete olhou para os lados. Apesar de haver vestido uma roupa modesta, ter colocado peruca e culos escuros, no queria se 
arriscar, Ningum poderia v-la entrar ali. Uma mulher de meia-idade abriu e ela entrou. -- Pai Otero a est esperando -- disse. E a conduziu para os fundos, onde 
havia uma construo simples e quase sem acabamento. Janete sentiu o cheiro forte de velas e incenso que a fez lembrar-se da outra visita que fizera ao local anos 
atrs. Levada a uma sala, ela esperou alguns minutos, depois a mesma mulher a fez entrar em uma outra sala. Otero a esperava atrs da mesa tosca, onde havia um castial 
grande com uma vela acesa e um tero enrolado nele. Era um homem magro, pele fina e muito clara, olhos pequenos e vivos, que se fixaram nela atentamente. Vestia 
uma bata branca tendo um desenho colorido bordado sobre o peito e colares de contas no pescoo. Apesar de ser de meia-idade, por ser mido  primeira vista tinha 
a aparncia de um menino. -- Lembra-se de mim? Eu estive aqui h alguns anos. -- Sim. Por sinal, voc conseguiu o que queria. -- Foi. Mas eu voltei porque acho que 
o encanto acabou. Ontem meu marido foi embora de casa. Ele acendeu um cigarro, soltou fumaa no ar e ficou alguns instantes contemplando os movimentos dela. Depois 
disse: -- Sente-se e conte o que aconteceu.

Janete obedeceu e finalizou: -- Como ele no tem outra mulher, pensei que o encanto que voc fez acabou. Acho que precisa ser renovado. Ouvi dizer que a magia tem 
tempo certo. -- Tem, mas depende das circunstncias. O que eu fiz para vocs foi muito bem-feito. Era para sempre. Deve ter acontecido alguma coisa que atrapalhou. 
Me d sua mo, vamos ver o que aconteceu. Ele segurou a mo de Janete sobre a mesa, fechou os olhos durante alguns minutos. Janete comeou a sentir calafrios e remexeu-se 
na cadeira inquieta. Por fim ele a soltou, abriu os olhos e disse: -- Ele est indo a um lugar perigoso. -- Como assim? -- Uma sesso esprita na casa de alguns 
amigos. Eu os vi ao redor da mesa. Eles desfizeram o trabalho, Eu sabia que tinha feito tudo certo. -- De fato, eu soube que ele est indo a uma sesso com a irm. 
Mas no pensei que isso pudesse atrapalhar. No  em um centro,  em uma casa de famlia. -- Eu sei. Mas eles tm fora. Trabalham com os Missionrios da Luz. -- 
Eu vim para voc fazer tudo outra vez. Quero que ele volte para casa e desta vez para sempre. Eu trouxe aqui uma camisa dele usada, conforme me pediu da outra vez. 
Ela colocou um pacote sobre a mesa mas ele respondeu: -- Guarde isso, por favor. No posso fazer o que me pede. -- Como no? Eu posso pagar o que me pedir. -- Guarde 
seu dinheiro. No vou me meter com eles. -- Por qu? Voc  poderoso. -- Sou, mas nem tanto. No quero me meter nos negcios deles. Se fizer isso, logo estarei acabado. 
Aconselho-a a aceitar essa situao. Seu marido est bem protegido e a mulher tambm. -- Mulher? No h nenhuma mulher. -- H, sim. A mesma de antes. Eu no vou 
me envolver com eles. V para casa, aceite a separao, exija todo o dinheiro que puder. E o que pode fazer de melhor. -- Voc se recusa a me atender. Nunca pensei 
que fosse me deixar na mo. -- Bem que eu gostaria de ajud-la, mas no posso. Desta vez no d para fazer nada. Janete quis pagar a consulta, mas ele recusou: -- 
No vou lhe cobrar nada. Pense no que eu disse. Janete saiu irritada. Ele no era to poderoso como havia pensado. Alm do mais, era medroso. Aceitar a separao! 
isso era o mesmo que desistir e deixar o caminho livre para a outra. Lembrou-se da cartomante. Ela dissera que havia outra mulher. E pai Otero afirmara a mesma coisa, 
Precisava encontrar algum que no tivesse medo e fizesse o que ela queria. No conhecia ningum. Decidiu ir para casa a fim de pensar em uma soluo. Naquela mesma 
tarde, Olvia pegou o carro e saiu. No gostava de dirigir, mas no queria testemunhas no encontro que ia ter. Quando julgou oportuno, entrou em um estacionamento, 
deixou o carro. Saiu e tornou um txi. Deu o endereo. Vinte minutos depois, em um bairro de periferia, o txi parou. -- A senhora quer que eu espere? -- No. Pode 
ir. Ele olhou em volta e considerou: -- Se no vai demorar  melhor eu esperar. Este lugar pode ser perigoso para uma senhora sozinha. Oivia hesitou um pouco, depois 
respondeu: -- Est bem. No pretendo demorar. Ela olhou o nmero e tocou a campainha. Uma mulher de meia-idade abriu e, vendo-a, sorriu dizendo: -- Quanto tempo, 
D. Olvia, Como vai? -- Bem, obrigada. Quero falar com o Toninho. Ele est?

-- Est. Sente-se, que vou chamar. A sala era mal mobiliada, abafada e cheirando a mofo. -- No posso demorar. V depressa. Pouco depois apareceu um homem moreno, 
magro, meio calvo, que vendo-a sorriu mostrando os dentes amarelados. -- D. Olvia, que honra vir a minha casa! Faz tempo que no me procura. -- Faz mesmo. Mas aconteceram 
algumas coisas e eu preciso que me ajude. -- Depois do que fez por ns, sempre poder contar comigo para o que precisar. -- Voc sabe que no costumo regatear e 
pago muito bem. Mas antes quero que prometa sigilo absoluto. Ele fez um gesto largo e respondeu: -- A senhora sabe que pode confiar. Alguma vez eu no cumpri o que 
prometi? -- Por isso estou aqui. Quero conversar em um lugar onde ningum possa nos interromper nem ouvir nossa conversa. Vamos em meu escritrio. Eles atravessaram 
a casa, foram para o quintal, O que ele chamava de escritrio era um quartinho nos fundos onde havia uma escrivaninha velha, algumas cadeiras. Olvia sentou-se diante 
da mesa, ele acomodou-se do outro lado depois de fechar a porta. -- Pode falar. Meu marido trouxe um rfo para nossa casa. No sabemos quem so seus pais. Sabe 
como Artur , tomou-se de amores pelo garoto e registrou-o como nosso filho. -- Que absurdo! -- Pois foi. Fiz de tudo para que ele desistisse mas no consegui nada. 
O garoto est l, paparicado, e vai herdar metade da fortuna de Antero. -- Claro que a senhora no pode permitir isso. -- Bem, eu quero sumir com o garoto. -- Apagar? 
-- No. Isso no. Mas lev-lo para bem longe, onde ningum possa encontr-lo. Pode arranjar isso? -- Quantos anos ele tem? -- Seis. Seqestro  perigoso. Se a polcia 
descobrir, seremos presos e a pena  alta. -- Isso se a polcia descobrir. Se fizer tudo direjto, eles nunca descobriro. Toninho meneou a cabea pensativo, depois 
respondeu: -- Mas h muito risco e isso fica caro. -- No importa, estou disposta a pagar o que for para ver-me livre daquele pirralho. -- Nesse caso, verei o que 
posso fazer. Vou estudar o caso e me comunico com a senhora. -- Tome cuidado, Ningum pode saber. -- O segredo  a alma do negcio -- respondeu ele sorrindo. -- 
Fique sossegada,  do meu interesse. Olvia despediu-se e deixou a casa respirando aliviada. No agentava mais o cheiro do lugar. O txi estava esperando. Ela entrou, 
acomodou-se: -- O senhor vai me deixar no mesmo lugar em que me apanhou. -- Est certo. Desculpe dizer mas a senhora, to distinta, no deveria arriscar-se em vir 
aqui sozinha. Sei o que estou dizendo. -- Obrigada pelo seu interesse. E que h anos eu e meu marido ajudamos essa famlia. O dono da casa est muito mal, sofre 
de uma doena incurvel. Teve uma recada, acho que no passa de hoje. Estou penalizada. Vim sem pensar em nada. -- A senhora  muito boa, mas precisa ter cuidado. 
Uma vez de volta ao estacionamento, Olvia apanhou o carro e foi para casa. Estava satisfeita. Toninho nascera na fazenda de seu av no Paran. Aos vinte anos foi 
surpreendido desviando parte do leite que era vendido para o mercado e foi mandado embora.

Olvia o perdeu de vista durante algum tempo. Ela o conhecia desde criana. Ele a ajudava nas brincadeiras, encobrindo suas traquinagens. Quando o encontrou por 
acaso, ele tinha mulher, dois filhos e no tinha emprego fixo. Toninho contou uma histria triste e se ofereceu para trabalhar em sua casa, cuidando dos jardins. 
Ficou l dois anos mas Artur nunca confiou nele. Um dia o apanhou roubando dinheiro de sua carteira. Mandou-o embora e Olvia no teve como impedir. Artur no deu 
queixa  polcia porque Olvia pediu evocando seus tempos de criana e ele chorou implorando que no o mandasse prender, jurando se emendar. Desde esse tempo, tudo 
que ela queria fazer sem que o marido soubesse, ele fazia. Ela confiava nele. Por isso foi procur-lo para levar Eriberto embora. Sabia que ele tinha conhecimento. 
Queria que ele arranjasse identidade falsa para que ele nunca viesse a reclamar a herana que em m hora Artur lhe dera registrando-o em seu nome. Quando levassem 
o menino, Artur iria sofrer, mas ela no se importava. O que estava fazendo era para o bem de seu filho e at do seu casamento. Desde que ele trouxera o menino, 
havia se distanciado muito mais dela. Quando chegou em casa, Eriberto havia voltado da escola, tomado banho e estava na copa para jantar. Vendo-o, Olvia pensou 
com satisfao: -- Logo voc no estar mais aqui para me incomodar. Vou ficar sozinha e estarei livre de voc. De hoje em diante, tenho que trat-lo muito bem para 
que ningum desconfie de mim quando voc sumir. Aproximou-se dele sorrindo, beijou-o levemente na face dizendo: -- Como voc est cheiroso, bonito. Est de roupa 
nova? -- No, senhora -- respondeu Eriberto. Voltando-se para Josefa, que a olhava surpreendida, Olvia con tinuou: -- Cuide que ele se alimente bem para ficar forte. 
Quando ela se voltou para sair, sentiu uma tontura e quase caiu. Amparou-se na mesa, assustada. -- O que foi, D. Olvia, ficou plida, est se sentindo mal? -- Estou 
tonta, parece que vou desmaiar. -- Sente-se, vou buscar um copo de gua. Voltou em seguida e a fez tomar alguns goles. -- Estou com falta de ar, no consigo respirar. 
-- E melhor ligar para o Dr. Artur. -- Estou melhorando. Acho que foi uma queda de presso. Vou me deitar. Me ajude, por favor. Amparada por Josefa, Olvia foi para 
o quarto, tirou os sapatos e deitou-se. Sentia-se inquieta, irritada, uma sensao de medo a incomodava. -- E melhor ligar para Artur. No estou mesmo me sentindo 
bem, Meia hora depois, Artur entrou no quarto, preocupado. -- O que foi, Olvia, o que est sentindo? -- Mal-estar. Foi de repente, pensei que fosse desmaiar. Tontura, 
parece que vai acontecer alguma coisa ruim. -- Vamos ver. Ele a examinou, mediu a presso e disse: -- Aparentemente est tudo bem. Voc teve alguma contrariedade, 
se aborreceu? -- No. Pelo contrrio. Est tudo muito bem. O que acha que eu tenho? -- No encontrei nada. Tem certeza de que no passou nenhum aborrecimento? -- 
Tenho. Por qu? -- Os sintomas so de um desequilbrio nervoso. Mas, se no aconteceu nada, foi um mal-estar passageiro.

-- Deve ser isso. Fiquei melhor depois que voc chegou. Alis, h anos tenho estado muito s. Voc nunca est em casa e quando est no conversa comigo. Eu sou um 
ser humano, necessito de companhia, de afeto. -- Est bem. Acalme-se. Vou me esforar para ficar mais em casa. Voc precisa descansar. Torne este comprimido e logo 
se sentir melhor. Ela obedeceu e acomodou-se novamente pensando que poderia tirar partido daquele acontecimento. J que ele gostava de curar as pessoas, se ela 
fingisse estar mal, ele no a deixaria to s. Artur, notando que o calmante comeou a fazer efeito e Olvia estava sonolenta, afastou-se. Exatamente naquela noite 
ele havia pensado em contar-lhe toda a verdade sobre Eriberto. Teria que deixar para outra ocasio. Antero havia lhe dito que precisava de certo tempo para conversar 
com Glria, pedir-lhe que o perdoasse e aceitasse Eriberto como filho. Como ela desejava muito ser me, passado o primeiro momento, talvez concordasse com o reconhecimento 
da paternidade. Isso seria o ideal, uma vez que ele estava decidido a regularizar a situao do menino e no queria separar-se dela. Antnia estava morta e Glria, 
apesar de estar obcecada pelo desejo de ser me, era boa esposa. Ele a respeitava e amava. Assim sendo, tudo ficaria como tinha que ser. A esse pensamento, Artur 
lembrou-se de Antnia e das promessas que lhe fizera, Parecia v-la chorosa, agita, hesitando em se separar do filho. Uma onda de tristeza o acometeu. Mutas vezes 
se perguntou se o fato de a haver separado do filho teria contribudo para que ela se matasse. Querendo ajudar, talvez ele houvesse causado um mal maior. Com a criana 
nos braos, ela talvez houvesse encontrado foras para reagir e continuar vivendo. Momentos havia em que ele se arrependia de haver feito isso. O que ele no viu 
e no podia saber  que o esprito de Antnia estava ali, querendo que ele evitasse que Olivia realizasse seu plano. Ela havia sido levada para um hospital em uma 
dimenso prxima  Terra, onde recebeu tratamento e aos poucos foi melhorando. Estava mais calma, sentia-se mais forte, porm a preocupao com Eriberto a incomodava. 
Conforme lhe fora prometido, de vez em quando os atendentes davam-lhe notcias dele. Porm ela pensava em Olvia e temia que ela fizesse alguma coisa contra ele. 
Naquele dia, quando estava pensando em Olvia, sentiu seus pensamentos e descobriu o que ela tencionava fazer. Procurou a enfermeira que lhe dava assistncia e contou 
o que descobrira. Ela falou com seu superior e ele foi procur-la dizendo que tivesse confiana, que a situao estava sob controle e nada aconteceria ao menino. 
Mas Antnia no se acalmou. Decidiu ir pessoalmente verificar o que estava acontecendo. Aproveitando-se de um momento propcio, fugiu. Pensou em Eriberto com tanta 
fora que imediatamente viu-se ao lado dele, que se preparava para ir ao colgio. Olhos cheios de lgrimas, beijou seu rosto querido dizendo-lhe ao ouvido: -- No 
vou deixar que nada de mau lhe acontea. Deus h de me ajudar. Eriberto estremeceu mas no ouviu nada. Josefa o levou  escola enquanto Antnia ficou vigiando Olvia. 
Leu seus pensamentos e ficou horrorizada. Na hora em que ela saiu para procurar Toninho, Antnia a acompanhou. Quando Olvia entrou na casa, ela ficou esperando 
do lado de fora. Havia notado que ali era um covil de espritos maldosos, e teve medo de que a vissem. Sabia por experincia prpria o que esses espritos podem 
fazer, submetendo os mais fracos a todas as humilhaes, usando-os para servir seus interesses. Apesar de ficar do lado de fora, Antnia sintonizou Olvia e conseguiu 
ouvir tudo que ela conversava com Toninho. Quando ela voltou para casa, pensando em seus projetos com satisfao, Antnia estava do lado. Uma raiva surda a envolvia 
e ela em vo buscava encontrar uma forma de

atrapalhar seus planos. Quando a viu aproximar-se de Eriberto, fingindo que o amava, no conseguiu dominar-se, Atirou-se sobre ela, segurando seu pescoo, tentando 
enforc-la dizendo: -- Sua vbora. Voc no vai fazer mal a meu filho. Chega o que fez comigo. Vou acabar com voc Deixe meu filho em paz. Olvia no a viu nem ouviu 
mas sentiu-se muito mal. Antnia no a largava, acusando-a e dizendo que estava ali para proteger seu filho. Quando viu seu tio Artur chegar, afastou-se e ficou 
em um canto do quarto observando-os. Confiava nele e desejava que ele soubesse o que Olvia estava planejando. Por isso, quando ele foi para o escritrio, ela o 
acompanhou para tentar alert-lo. Aproximou-se falando em seu ouvido a verdade, porm ele no a ouviu. Apenas lembrou-se dela, sentiu-se culpado, triste. Antnia 
resolveu que precisava permanecer ali, acompanhar os fatos e fazer o que pudesse para evitar o pior.

A noite j havia cado quando Lcia entrou em casa. Breno no tinha dado notcias e ela, abatida, triste, receava que ele no a procurasse mais. Vendo-a, Mirela 
correu para ela com um papel na mo dizendo: -- Mame, olhaj acasa que a Rosa fez para mim. Lcia abraou-a, beijou-a e respondeu: -- Deixe-me ver.., que linda! 
-- Eu fiz ela colocar dentro ns todos. Este  o papai, esta voc, e esta sou eu. Lcia sentiu um n na garganta e procurou reagir. No queria que Mirela sofresse. 
Ela era muito apegada ao pai. Tentou disfarar, perguntou se ela j havia jantado. Depois disse: -- Vou tomar um banho e j volto. O desenho est muito lindo. -- 
Eu ajudei. Olha, esse sol fui eu que fiz. Essa margarida tambm. -- Que beleza! Continue desenhando que eu j volto. Lcia subiu, tomou banho e enquanto se vestia 
revivia todo o seu relacionamento com Breno. Ela no podia exigir nada dele. Nunca fora enganada. Ele sempre lhe dizia que no queria deixar Anabela. Depois do que 
aconteceu, ele no voltaria a v-la. Estava acabado. Breno nunca deixaria a esposa para ficar com ela. Havia os dois filhos e ele no os abandonaria, As lgrimas 
desciam pelo seu rosto sem que pensasse em impedir. Breno a ajudava nas despesas da casa, pagava a empregada, o

aluguel e a escola de Mirela. Mas no era com isso que Lcia se preocupava. Sabia que ele amava a filha e, acontecesse o que acontecesse, nunca deixaria de cuidar 
do seu bem-estar. O que a deixava desesperada era a separao. Ela o amava muito. Era esse amor que a fizera aceitar o que ele podia lhe oferecer, sentindo-se feliz 
com as sobras de tempo que ele conseguia lhe dar. O que seria dela se ele nunca mais a procurasse? Como esquecer os momentos de amor que haviam vivido juntos? Acabou 
de se vestir mas no sentiu vontade de descer para o jantar. Rosa bateu na porta: -- D. Lcia, o jantar est pronto. Posso servir? Lcia procurou controlar-se e 
respondeu: -- No, Rosa. Estou sem fome e muito cansada. Quero dormir. Cuide de Mirela para mim. -- Est bem. Lcia estendeu-se na cama. Estava claro que Breno no 
voltaria mais. Ele tivera o dia todo para dar notcias, para contar o que estava acontecendo, mas no telefonara. Lcia deu livre curso s lgrimas, chorou muito. 
Depois, exausta, adormeceu. Algum tempo depois acordou sobressaltada. Abriu os olhos e Breno estava sentado ao lado da cama fitando-a. Corao batendo forte, sentou-se 
dizendo: -- Por que no me acordou? Faz tempo que voc est a? -- Alguns minutos. Breno curvou-se e beijou-a na face e continuou: -- Desculpe no ter vindo antes. 
Tive um dia difcil. -- Posso imaginar. Sinto muito o que aconteceu. No queria prejudicar sua vida familiar. -- Voc no tem culpa de nada. Aconteceu, Ns fomos 
ingnuos, um dia isso teria que acontecer. -- E voc veio me dizer que precisamos acabar com nosso relacio namento. Ele abraou-a com carinho, beijou seu rosto, 
seus lbios, com paixo. Depois considerou: -- Sinceramente, estou sem saber como agir. Sinto que no poderia viver longe de vocs duas. -- Mas sua mulher vai exigir 
nossa separao. -- Meu sogro tentou acomodar as coisas, propondo isso. Mas ela no aceitou de maneira alguma. Quer a separao. Fui para um hotel esta noite mas 
no consegui dormir pensando. -- Talvez seja melhor nos separarmos. Com o tempo, quando ela souber que no estamos mais juntos, vai acabar perdoando e tudo estar 
resolvido. Breno levou a mo dela aos lbios e respondeu: -- Voc  uma mulher maravilhosa. Outra em seu lugar tentaria tirar proveito da situao. -- Eu desejo 
sua felicidade, No quero ser a causa da desunio de sua famlia. -- No carregue uma culpa que voc no tem. Se algum aqui agiu errado, fui eu. Gostei de voc 
desde que a conheci. Fiz tudo para seduzila, passando por cima da minha responsabilidade familiar. O que eu no imaginava era que, conhecendo-a intimarnente, descobriria 
qualidades de alma, o que fez com que minha atrao inicial se transformasse em amor, um amor verdadeiro, do qual no quero abrir mo. Lcia ouvia trmula de emoo 
e no conseguiu responder. Breno continuou: -- Ontem estive conversando com Andr, que tambm est passando por um momento difcil. Ele est se separando. -- Tambm? 
Ela descobriu que ele tem um filho? -- Ainda no. Ele tomou essa deciso porque reconheceu que seu casamento havia sido um erro. -- Quer reatar com Nina? -- No, 
porque ele pensa que ela nunca o vai perdoar. Reconheceu que no amava Janete e deixouse envolver por vaidade. Decidiu ser verdadeiro, viver a vida de acordo com 
seus sentimentos. Quer viver sozinho, procurar encontrar a paz interior, ter tempo para relacionar-se com o filho. -- Ele est sendo corajoso.

-- Est. Nossa conversa me abriu os olhos. Eu tambm me casei com Anabela fascinado pelo luxo em que ela vivia. Vim de uma famlia simples, fiquei envaidecido por 
haver despertado seu interesse. Senti-- me valorizado. At esta noite eu no tinha conscincia disso. Mas confesso que nunca senti por Anabela o que sinto por voc. 
Quando somos jovens nos impressionamos muito com as aparncias. -- O que pensa fazer? -- Aceitar a separao. Ontem ela fez questo de mencionar nossas diferenas 
de classe social. Ela est certa. Eu no tenho vontade de continuar levando uma vida de mentiras. Eu no a amo, se  que algum dia eu a amei. -- E os meninos? -- 
Esse  o ponto mais delicado e difcil. Sinto que ela vai tentar impedir que eu me relacione com eles como sempre fiz. -- Mas voc  o pai. Ela no poder fazer 
isso. -- Legalmente no. Mas vai tentar destruir a admirao e o afeto que eles sentem por mim, fazendo do nosso caso um motivo para que eles me desprezem. Isso 
no vou poder evitar. -- O caso  entre vocs dois. Seus filhos devem ser poupados ao mximo. E inevitvel que sofram com a separao, mas  preciso que eles entendam 
que, embora vocs no desejem mais viver juntos, isso no tem nada a ver com o amor que sentem por eles. Anabela  uma mulher instruda, no vai envolver os filhos 
na briga de vocs. -- A  que voc se engana. Tenho certeza de que ela vai us-los, sim, tentando afast-los de mim. Talvez esse seja o preo que terei de pagar 
por haver errado tanto. Quanto a ns, por enquanto continuaremos como sempre. Ficarei morando no hotel. No me mudo para c para no acirrar ainda mais a raiva de 
Anabela. Fao isso pensando em poupar os meninos. Lcia abraou-o com carinho: -- Eu pensei que houvesse perdido voc. -- Quando cheguei, apesar de estar dormindo, 
notei logo que havia chorado. Saiba que eu nunca as deixarei. Acontea o que acontecer, estaremos juntos. Quando tudo passar, planejaremos nossas vidas. Os dois 
permaneceram abraados, sentindo a fora do amor que os unia, o corao batendo forte, uma comunho de almas que nunca haviam sentido antes. Na mesma noite, Antero 
chegou em casa pensando em conversar com Glria. Encontrou-a na sala folheando uma revista. Vendo-o, levantou-se alegre dizendo: -- Veja, Antero, que lindo esse 
quarto de beb. Ele olhou, sorriu e respondeu: -- E bonito, mas ns j temos um. -- Mas eu quero reformar. Aquele quarto no nos deu sorte. Desta vez tenho certeza 
de que vai dar certo, Quero fazer um quarto novo. Antero segurou as mos dela dizendo srio: -- Sente-se aqui, Glria, a meu lado. Quero conversar com voc. Ela 
obedeceu. Ele continuou: -- Eu sei que voc tem tido sintomas de gravidez, mas precisamos ir com calma porque voc pode estar enganada. No  bom esperar muito e 
de repente saber que estava errada. Seu exame deu negativo. -- Por enquanto. Mas daqui a alguns dias farei outro e voc ver que tenho razo. -- Mas voc ficou menstruada 
a semana passada. -- Isso no importa. H casos em que a gestante menstrua, principalment no incio. -- O mdico disse que esses casos so raros. E bom no se iludir. 
-- No estou iludida. Tenho certeza. At parece que voc no deseja que eu tenha esse filho. -- No se trata disso. O que eu quero  poupar voc. Vou procurar outro 
mdico.

-- Est bem. Mas eu tenho certeza. Quero ver sua cara quando minha barriga comear a crescer. Minha cintura j aumentou. Antero no disse mais nada. Como contar 
seu relacionamento com Antnia e a existncia de um filho? Talvez fosse melhor ele procurar um bom psiquiatra e aconselhar-se, conforme seu pai queria. No sabia 
como lidar com ela e no desejava complicar seu estado ainda mais. Durante o jantar, ela s falou sobre o beb, como ele seria, o que faria quando ele nascesse, 
que providncias tomaria. Antero ficou ainda mais preocupado com a euforia dela. Tentou conversar sobre outros assuntos, mas ela no lhe dava ateno. Ele teve a 
impresso de que ela no entendia o que ele dizia e voltava sempre ao mesmo tema. O caso dela parecia mais grave do que pensara. Lembrou-se de que na noite seguinte 
deveria ir  sesso esprita na casa do Dr. Dantas, Conversaria com ele pedindo conselhos a respeito.

Nina chegou em casa no fim da tarde, pensando em descansar. No dormira bem na noite anterior e sentia-se indisposta. Foi ver Marcos, conversou um pouco e depois 
foi tomar um banho. Queria jantar e dormir. Logo depois do jantar, o telefone tocou e Nina atendeu. Reconheceu a voz de Antero. -- Desculpe incomod-la em casa, 
mas amanh  dia de nossa reunio na casa do Dr. Dantas. Voc vai? -- No. Desejo ficar um pouco mais com meu filho. Quase no tenho tido tempo para ficar com ele. 
-- Eu me sentiria mais seguro se voc fosse. Acontece que, alm do que voc sabe, estou atravessando um outro problema grave, no sei que atitude tomar. O Dr. Dantas 
pareceu-me um homem experiente, gostaria de falar com ele, me aconselhar. -- Escolheu a pessoa certa. Alm de ser um homem bom,  confivel. -- Eu fico acanhado 
de incomod-lo com meus problemas. Nosso relacionamento  muito recente. Se voc fosse comigo e conversasse com ele, seria mais fcil. Vamos, eu posso busc-la em 
sua casa se desejar. -- No ser preciso.

-- Diga que ir. -- Vamos ver. Talvez eu possa conversar com o Dr. Dantas amanh no escritrio e dizer-lhe que deseja conversar. -- Eu preferia que voc fosse. Estou 
ainda inseguro com relao aessa reunio. -- Voc ainda tem dvidas? -- Ao contrrio. Estou certo de que tudo foi verdadeiro. Fico inseguro porque no sei como me 
comportar. Voc me deu apoio e me ajudou muito. Sei que estou abusando de sua bondade, mas v comigo, nem que seja apenas desta vez. -- Est bem. Irei. Estarei l 
pouco antes das oito. -- Combinado. Obrigado por me acompanhar. Nina desligou o telefone pensativa. Ela no queria ir por causa de Andr. Depois do ltimo encontro, 
sentia-se frgil. Esforava-se para recordar-se de como fora trada, do que sofrera sabendo que ele se casara com outra. Queria alimentar a raiva que desde aqueles 
dias sentira, porm a lembrana do rosto dele triste, arrependido, insistindo, lutando pelo direito de reconhecer o filho, de am-lo, a perturbava, apagando do seu 
corao o rancor que teimava em manter. Depois daquele encontro, parecia-lhe haver se tornado vulnervel s suas rogativas. Ela no queria fraquejar. Jurara a si 
mesma que ele pagaria por tudo que lhes havia feito e no podia esquecer s porque ele se mostrava arrependido. Isso no era justo com ela nem com Marcos, Entretanto, 
as palavras de Andr ainda soavam em seus ouvidos: "J pensou que ele tem o direito de escolher como deseja lidar com isso?" ou "Como pode saber o que se passa no 
ntimo dele?" ou ainda "Como pode assumir essa responsabilidade e garantir que ele um dia no lhe pedir contas por isso?" Andr estava determinado. No desistiria 
at conseguir o que queria. Seria prudente continuar negando a verdade? O que aconteceria quando Marcos descobrisse que ela impedira seu relacionamento com o pai? 
Talvez fosse melhor deixar o orgulho de lado e tentar contemporizar. Continuar brigando com Andr poderia piorar as coisas. Ele era persistente, principalmente quando 
achava que tinha razo, mas tornava-se acessvel atravs de uma argumentao razovel. Mas para isso teria que conversar com ele, tentar convenc-lo. Nina temia 
essa proximidade. Pensava que as lembranas do passado ainda estavam muito vivas em sua mente e poderia acabar cedendo ao que ele queria. Ento, tudo quanto ela 
havia feito at ento estaria perdido. Temia que, conseguindo o que queria, ele tripudiasse sobre ela, voltando a consider-la uma mulher insignificante, ingnua, 
que ele podia manejar como queria. Marcos aproximou-se chamando-a para jantar. Nina sentia a cabea doer, estava sem fome, mas acompanhou o filho. Tinha vontade 
de ficar mais com ele e durante o jantar procurou mostrar-se alegre, conversando sobre os assuntos de que ele gostava, inteirando-se de suas atividades dirias. 
Depois ele foi assistir a televiso no quarto e Nina preparou-se para dormir. Esforou-se para no pensar mais no assunto. Queria dormir, descansar. Marta insistira 
com ela para no esquecer de fazer suas preces antes de dormir. Sentou-se na cama, pensou em Deus e pediu proteo e ajuda para ela e sua famlia. Depois deitou-se 
e logo adormeceu. Sonhou que estava em um jardim muito bonito, cheio de flores perfumadas, ao lado de uma moa que lhe pareceu conhecida mas no se lembrava de onde, 
Encantada com o jardim, Nina sentia uma sensao de leveza muito agradvel e uma alegria que havia muito no tinha. Ela lhe dizia: -- Nina, voc precisa ajudar Antnia. 
Ela deixou o tratamento e est desesperada. As pessoas que cuidavam dela no conseguiram segur-la. Ela fugiu e  provvel que a procure. -- Tenho medo. O que eu 
podia fazer por ela, fiz. No tenho como ajud-la.

-- Tem, sim. Aproxima-se um momento difcil para ela. Quando a vir, procure convenc-la a voltar para o tratamento. Ela estava indo bem, mas, diante de certos fatos, 
seu estado pode piorar. -- O que devo fazer? -- Conversar com ela. Acalm-la. Dizer-lhe que tomar providncias para impedir que acontea com Eriberto o que ela 
teme. -- E no vai acontecer? -- No sabemos ainda. Vai depender de alguns fatos em que no podemos intervir. Mas faremos o que pudermos para proteger o menino. 
-- O que ela teme? Qual  o perigo? -- Confie e nos ajude orando e cultivando a f. Nesse momento Nina acordou preocupada. Aquele sonho havia sido diferente. Tinha 
sensao de haver estado com algum amigo que tentava ajudar Antnia. Um pressentimento de que alguma coisa ruim estava para acontecer a inquietou. Lembrou-se de 
Olvia. Precisava contar esse sonho a Marta e pedir-lhe que a auxiliasse. Talvez Olvia estivesse maltratando o menino, Antnia descobriu, se revoltou e fugiu. Olhou 
no relgio, eram quatro horas da manh. Precisava confiar. Fosse o que fosse, os espritos de luz estavam cuidando. Acomodou-se procurando dormir, conseguiu mas 
seu sono no foi tranqilo. Acordou vrias vezes sobressaltada. Levantou-se cedo, tomou caf e foi para o escritrio. A todo momento lembrava-se do sonho e queria 
que o dia passasse depressa para ir  reunio. Assim que chegou ao escritrio, Nina notou logo a euforia de Lcia. Rosto distendido, sorridente, irradiava alegria. 
-- Pela sua fisionomia, penso que Breno voltou a procur-la. -- Sim. Disse coisas to bonitas que eu de vez em quando me belisco para saber que estou acordada. Em 
poucas palavras Lcia contou-lhe tudo e finalizou: -- Apesar do que ele disse, ainda sinto medo de que Anabela volte atrs e ele termine comigo. -- Ele deve ter 
sido sincero. -- Eu senti isso. Mas as ligaes de famlia so muito fortes. Se ela quiser reatar, no sei se ele vai resistir. H os filhos. Mas no quero pensar 
no futuro. Prefiro ficar no presente, aproveitar esses momentos em que estamos juntos. Se um dia acabar, guardarei para sempre essas lembranas. -- Sua forma de 
amar me surpreende. Eu no saberia amar assim. -- Eu amo Breno mas tenho conscincia de que ele no me pertence. -- Mas ele tambm a ama. Amor correspondido  maravilhoso. 
-- E. Ele me ama, ontem tive a prova. Mas eu desejo que ele seja feliz. Por mais que nosso amor seja verdadeiro, sei que um dia a vida vai nos separar de uma formaou 
de outra. Neste mundo, cada pessoa tem seu destino e no sei para onde a vida nos levar. Um dia ele pode preferir outros caminhos, ter outras aspiraes e eu no 
vou impedir. E por isso que prefiro viver o presente, ser feliz enquanto puder. -- Minha me costuma dizer que as pessoas se unem e se afastam conforme os ciclos 
naturais da vida, Que quando o tempo de ficar juntos acabou, nada nem ningum conseguir impedir a separao. A causa no importa. Tanto faz que seja por morte ou 
no. -- Concordo com ela. Por mais que amemos uma pessoa,  preciso saber reconhecer o momento de deixar ir, de desapegar. -- Isso  difcil. -- Mas necessrio. 
O amor verdadeiro deixa a pessoa livre para seguir o prprio caminho. Ontem eu senti que estava certa no tentando manter Breno a meu lado. Seria horrvel pensar 
que ele ficou comigo a contragosto por causa de Mirela. Descobri tambm que, quanto mais livre voc deixar a pessoa que ama, mais ela sentir prazer de ficar a seu 
lado. -- Fao votos de que vocs consigam o que pretendem. A ligao de Breno com a esposa era de convenincia, no de amor. Ele percebeu isso.

Depois que Lcia saiu da sala, Nina ficou pensando em seu caso com Andr. Naquele tempo ela nunca duvidou que ele a amasse e que ficariam juntos para sempre. No 
admitia que ele pudesse mudar e procurar outro caminho. Ela sentia que precisava aprender a lidar com o apego. Marcos um dia se tornaria um homem, escolheria seu 
prprio caminho, se casaria, teria outros interesses, uma famlia. Ao pensar nisso, sentiu medo. Ela se apegara a Andr; quando ele se foi, agarru-se ao filho. O 
que faria quando Marcos tambm a deixasse? Lcia aceitava essa idia com naturalidade. Sabia que seria assim. No se revoltava; ao contrrio, procurava aproveitar 
os momentos de convivncia que a vida lhe proporcionava e seguia sem medo do futuro. Ela precisava comear a pensar nisso e procurar transformar seu apego com Marcos 
em carinho, amizade, preparando-se para deix-lo ir quando chegasse o momento. No ia ser fcil, mas essa era uma verdade que deveria aceitar. Passava das dez quando 
o Dr. Dantas chegou e Nina o procurou contando-lhe seu sonho. Ele aconselhou-a a se acalmar e esperar a noite, quando procurariam obter auxlio e esclarecimento 
dos amigos espirituais. Durante a tarde, Nina sentiu saudades de Marcos. Lcia tinha razo. Ao invs de ficar com medo do futuro, ela deveria usufruir do presente, 
passando todo o tempo livre que tivesse ao lado dele, no querendo que ele fizesse as coisas do jeito dela, mas procurando descobrir o que ele pensava, sentia, desejava 
e gostaria de alcanar na vida. Naquele momento pensou nas palavras de Andr, e sentiu que, apesar de haver feito o que fez, ele tinha razo em um ponto: ela no 
podia decidir por Marcos. Ela havia feito isso quando lhe disse que o pai havia morrido. Foi um erro. Teria sido melhor ter dito a verdade. Assim, agora, ele no 
seria surpreendido, com a agravante de descobrir que ela havia mentido. A esse pensamento sentiu um aperto no peito. Precisava ter coragem e enfrentar os acontecimentos. 
Se Andr continuasse insistindo, seria melhor que ela mesma conversasse com Marcos explicando-lhe seus motivos. Reconhecer o erro e colocar as coisas nos devidos 
lugares talvez o fizesse continuar acreditando nela, mantendo a confiana que sempre teve. A noite, na reunio, pediria ajuda no s para Antnia mas para si mesma. 
Tendo decidido isso, Nina mergulhou no trabalho. No podia deixar que seus problemas pessoais interferissem. Precisava manter a lucidez para poder encontrar as solues 
que seus clientes esperavam dela.

Andria, em sua casa, sentada na sala, esperava com certa impacincia. Era quarta-feira e Andr deveria passar para buscar Milena, Ento, ela lhes diria que sabia 
de tudo e no permitiria que eles fossem. No queria seus filhos metidos com pessoas supersticiosas e ignorantes. Alm do mais, ele lhe devia explicaes sobre sua 
separao de Janiete. Era uma falta de respeito e de ingratido terem feito isso com ela, que sempre fora me extremosa e dedicada. O que diriam seus amigos quando 
soubessem de tudo isso? Certamente teriam seus nomes na boca dos maldizentes, o que ela no poderia tolerar. Sempre haviam primado pela tica, cumprindo todas as 
regras sociais bem como os princpios da religio catlica. Faltavam alguns minutos para as sete quando Milena desceu pronta para sair. Andria olhou-a e perguntou: 
-- Aonde voc vai? -- Sair com Andr. -- Aonde vo?

-- Visitar alguns amigos. Andria olhou-a e no respondeu. Queria esperar Andr para dizer o que pretendia. Vendo que a filha foi  janela e olhou para fora, perguntou: 
-- Tem certeza de que ele vir? -- Tenho. Ns combinamos. -- Antes de vocs sarem temos que conversar, esclarecer algumas coisas. -- Se  sobre a separao,  melhor 
esperar. Andr me disse que s vai vir aqui falar com vocs quando achar que  o momento. Andria levantou-se irritada: -- Ele age como se no fosse nosso filho. 
Pois no vou permitir. Hoje ele no sai daqui sem antes me explicar os motivos que o levaram a tomar essa tresloucada deciso. -- Faa como quiser. Milena sabia 
que seria intil discutir. No desejava se aborrecer. Olhou para fora e viu que o carro de Andr estava parado no porto. Sem dizer nada, foi at a copa e rapidamente 
saiu pela porta de servio. Entrou rapidamente no carro dizendo: -- Vamos embora logo, antes que mame veja que voc chegou. Ele ligou o carro e obedeceu. No tinha 
tempo nem vontade de ter uma discusso com a me. Andria espetou um pouco e, vendo que Milena no voltava, foi  copa, perguntando  criada: -- Voc viu Milena? 
-- Ela saiu pela porta dos fundos. Andria corou de raiva. Aquela menina precisava de uma lio. Quando voltasse faria arrependerse. Voltou  sala. Romeu acabava 
de entrar e ela manifestou toda a sua indignao: -- Ainda bem que chegou. Temos que tomar srias providncias antes que seja tarde! -- O que aconteceu? -- indagou 
assustado. -- Nossos filhos. Primeiro o Andr, que se recusa a nos dar explicaes sobre seu rompimento com Janete. Segundo, aonde eles esto indo todas as quartas-feiras. 
Vamos ter que dar um basta nisso. Ele sentou-se pensativo e Andria acomodou-se a seu lado no sof. Romeu tinha horror a discusses, principalmente com a esposa, 
cuja intransigncia lhe era desagradvel. -- Com relao a Andr, precisamos ter pacincia. Um rompimento depois de dez anos de casamento  dfcil. Nosso filho 
sempre foi equilibrado. Nunca nos deu aborrecimento. Sempre cumpriu com suas responsabilidades. Vamos com calma. Se ele decidiu separar-se, deve ter seus motivos. 
-- Que motivos? Vai ver que arranjou alguma amante, isso sim. Janete estava desconfiada faz tempo. -- As mulheres esto sempre desconfiadas. Ela o encontrou com 
outra? -- No... mas o que poderia ser, seno isso? -- Vamos respeitar a deciso dele e esperar que venha conversar a respeito. Ento, se ele pedir, daremos nossas 
opinies. -- Como voc  conformado! Ele  nosso filho! Precisamos aconselh-lo. -- Ele  um homem, maior, responsvel, deve saber o que est fazendo. -- Voc o 
est protegendo. E Janete? O que ela est sofrendo no o comove? -- Andria, Voc fala como se ns fssemos culpados pelo desentendimento deles. Isso no  verdade. 
Eles tm todo o direito de fazer o que desejam de suas vidas. Ns no vamos interferir. -- Ela me pediu ajuda. Quer que conversemos com ele e o faamos voltar atrs. 
-- Por que ela mesma no faz isso? O problema  do casal e ns no vamos nos meter. Eu espero que voc no atenda a um pedido desses. Essa atitude  bem dela. Quer 
ficar na pose de mulher ofendida e nos jogar na fogueira. Janete quer nos usar e ns no vamos nos prestar a isso. -- Que horror, Romeu. Como pode pensar uma coisa 
dessas? E nossa nora, temos que defend-la.

-- No vejo por qu. Ela sempre soube se defender muito bem. Portanto, acalme-se e espere Andr nos visitar. Estou certo de que ele nos dir seus motivos. Mas, ainda 
que no o faa, nosso filho  um homem digno. No vou ficar contra ele. -- Eu tambm no estou contra ele, ao contrrio. Quero ajud-lo. -- Ele no precisa dessa 
ajuda. Deixe-os em paz. Vamos mudar de assunto. Chega de falar sobre isso. -- Ento vamos falar sobre Milena. Eu descobri que Andr a est levando a uma sesso esprita. 
E l que vo todas as quartas-feiras. Roineu olhou-a surpreendido e respondeu: -- Ento  isso! -- E isso, sim. Ainda hoje ela viu que eu estava esperando Andr 
e saiu como uma ladra pela porta dos fundos. Mas quando ela voltar ter que se ver comigo. -- Ento eles esto indo a um centro esprita. -- Segundo sei,  uma sesso 
na casa de amigos. Ns temos que impedir que continuem. Romeu ficou pensativo por alguns instantes, depois disse: -- No sei, no estou certo disso. -- Como no? 
Esses lugares so perigosos. Freqentados por pessoas ignorantes. -- Voc est enganada. H muita gente culta estudando o espiritismo. Eu poderia citar alguns dos 
nossos melhores amigos. Depois, notei que Milena mudou muito. Tem estado alegre, calma, solcita, educada. Nunca mais teve aqueles repentes desagradveis, eu estava 
me perguntando por qu. -- No acredito no que estou ouvindo, Voc parece estar de acordo com o que eles esto fazendo. -- Se Andr est levando Milena a algum lugar, 
s pode ser bom. Ele nunca faria nada que pudesse prejudic-la. Confio plenamente nele. Quando chegar, vou pedir-lhe que me conte como  isso. -- Eu queria que me 
ajudasse a colocar as coisas em ordem mas estou percebendo que voc prefere contemporizar. Voc sempre foi assim. No gosta de confrontar as coisas. No tem coragem. 
Ele olhou-a srio e disse com voz firme: -- Querer manipular a vida dos outros no  um ato de coragem mas de pretenso. Nesse caso a modstia seria mais adequada. 
-- Est me chamando de pretensiosa? -- Quem fala mal de um assunto que ignora pretende demonstrar conhecimento que no possui. -- Est dizendo que sou ignorante? 
-- No. Estou dizendo que, para emitir um julgamento de alguma coisa, primeiro  preciso conhec-la a fundo. Ns no temos nenhum conhecimento sobre espiritismo. 
-- Nem  preciso. Todas as pessoas instrudas sabem que  uma crena de pessoas ignorantes, muito perigosa, que pode levar  loucura. -- Como pode saber que as pessoas 
que pensam assim esto certas? Que provas voc tem de que os que acreditam no espiritismo esto errados e o que dizem  mentira? Voc nunca foi pesquisar esse assunto. 
A verdade pode estar do outro lado ou at dividida entre os dois. -- Voc est me irritando ainda mais com essa conversa. Por que est contra mim? Eu esperava seu 
apoio. -- Eu apio voc em tudo que for justo. Vou conversar com Andr, saber o que est acontecendo e s depois disso voltaremos ao assunto. Por enquanto no quero 
que diga nada a Milena. Ela tem estado bem e no desejo que ela volte a ser como antes. -- Quer dizer que vamos ficar calados? Nossos filhos podem nos ignorar, esconder 
coisas, sem que tomemos nenhuma providncia? -- Andria, eles no so mais crianas. Andr est com trinta e dois anos e Milena com vinte e sete. Vamos conversar 
com eles, saber a verdade. Se eu notar que h alguma coisa errada, procurarei mostrar-lhes, mas como amigo, sem imposies. -- No me conformo com isso.

-- Ter que se conformar. Eles so adultos. E s o que podemos fazer. -- Pois eu no farei isso. Assim que chegarem tero que nos dar explicaes. -- Se fizer isso, 
Andr vai desaparecer daqui e Milena pensar em fazer o mesmo. E isso o que quer? -- Acha que seriam capazes? -- Acho. Quando voc mostra seu lado intransigente, 
eu mesmo no sinto vontade de vir para casa. Andria olhou-o surpreendida. Romeu nunca lhe falara de maneira to firme. Pelo seu tom, ela percebeu que estava pondo 
em risco seu prprio casamento. Andr deixara Janete. Teria sido por isso? Elas pensavam do mesmo jeito. Resolveu ceder. -- Est bem. No direi nada. Mas voc ser 
o responsvel se alguma coisa ruim lhes acontecer. -- Pode deixar comigo. Estou com fome. Mande servir o jantar. Andria foi para a copa providenciar e Romeu foi 
lavar as mos. Sentia-se satisfeito. Aquela conversa lhe fizera bem. Havia muito se sentia incomodado com a maneira com que Andria se expressava. Ele era um otimista, 
estava sempre de bem com a vida. Em quaisquer circunstncias procurava sempre o lado melhor. J Andria via problemas em tudo, imaginava o pior, pretendia consertar 
o mundo, era preconceituosa, valorizava as pessoas pela classe social. Ele no sabia se ela havia piorado nos ltimos anos ou se ele  que estava cansado de ouvi-la 
durante tanto tempo fazendo a mesma coisa, o fato  que no suportava mais. Ela era uma boa esposa, ele no desejava separar-se. Mas sentia que precisava fazer alguma 
coisa antes que a amizade que ainda sentia por ela acabasse. Romeu era cordato, no gostava de brigar. Diante daquela conversa, se colocou firme e percebeu satisfeito 
que Andria pela primeira vez, cedeu a seus argumentos. Decidiu que dali para a frente agiria sempre assim. Sentiu-se aliviado quando pouco depois sentouse  mesa 
para jantar. Procurou conversar sobre amenidades e Andria no voltou mais a falar sobre os filhos. Conforme o combinado, Antero tocou a campainha da casa de Nina 
pouco antes das sete. Ela estava acabando de se vestir e Oflia o fez entrar e esperar na sala. Marcos foi cumpriment-lo enquanto Oflia subia para avisar Nina 
que ele estava esperando. -- Eu sou Marcos, como vai o senhor? Antero apertou a mo que ele lhe estendeu e respondeu: -- Bem, obrigado. -- Minha me no vai demorar, 
mas antes que ela desa quero lhe pedir um favor. -- Eu gostaria de ir tambm a essa reunio. Mas mame acha que ainda sou muito pequeno. -- Se ela pesa assim.. 
-- Meu amigo Renato est indo e tem minha idade. Ele tem mediunidade e melhorou muito depois que est indo l. Eu tambm tenho e Marta me disse que seria bom eu 
ir. -- Eu sou novato no assunto, no entendo nada. Estou tentando. -- Eu vejo espritos de vez em quando, eles falam comigo. -- Sua me sabe disso? -- Sabe mas tem 
medo. E que quando eu sinto ou vejo alguma coisa, fico empolgado falando nisso e ela pensa que estou exagerando. -- Mas no  verdade. Eu vejo mesmo. Tanto  que, 
quando acontece, no conto nem falo no assunto. Mas, por favor, pea a ela para me levar junto. Nina entrou na sala, cumprimentou Antero e disse: -- Podemos ir, 
estou pronta. -- Marcos me disse que gostaria de ir conosco. Ela olhou o menino e perguntou: -- Por que no me pediu? -- Porque voc no gosta que eu v s sesses.

-- Ele me contou que v e fala com espritos. No seria bom ele ir tambm? Nina olhou-os indecisa e respondeu: -- Estamos em cima da hora, no d para esperar voc 
se arrumar. -- Eu queria muito ir. -- Na prxima semana, prometo que o levarei. Uma vez no carro, Antero comentou: -- Marcos estava muito interessado em ir. Ficou 
decepcionado. -- Hoje vou l para conversar sobre um assunto que ele no pode saber. -- Ele comentou que voc tem medo que ele v. -- Antes eu tinha, mas hoje no 
tenho mais. Acho at bom que ele v para aprender. Ele tambm tem mediunidade. Nina ficou silenciosa por alguns instantes, depois continuou: -- Estou vivendo um 
momento difcil. Tenho que tomar uma deciso importante e no sei como fazer isso. -- Comigo acontece o mesmo. Ontem estava disposto a conversar com minha esposa 
sobre Eriberto, mas mudei de idia. No momento, Glria est muito perturbada por causa dos dois abortos que teve. Deseja tanto ter um filho que imagina estar grvida, 
o que no  verdade. O mdico disse que  psicolgico. -- E um problema delicado. -- Eu sei. Por isso decidi esperar que ela se recupere para falar sobre Eriberto. 
Ela est obcecada. S fala nisso. Quando menciono outras coisas, nem ouve. -- Ter que procurar ajuda especializada. -- E o que pretendo fazer. Mas antes vou pedir 
ajuda espiritual. -- Esta noite tive um sonho diferente. Sonhei com uma mulher muito bonita, em um lugar lindo, e ela me disse que preciso ajudar Antnia. Parece 
que ela descobriu que alguma coisa ruim vai acontecer com Eriberto e fugiu para tentar impedir. -- Voc estava pensando em nosso caso e sonhou isso. Os sonhos refletem 
nossas preocupaes. -- Mas esse foi muito forte. Parecia verdade mesmo. Tenho certeza de que estive nesse lugar, eu at conhecia a mulher. Vou conversar com Marta 
a respeito. Quando eles chegaram, faltavam apenas alguns minutos para comear. Entraram logo e foram se acomodando onde Mercedes indicou. A sala estava em penumbra, 
iluminada apenas por pequena luz azul. Mercedes fez ligeira prece e as luzes se acenderam para a leitura do texto da noite. Andr estava sentado do outro lado da 
sala, de frente para eles, e os observava discretamente. Nina sentia o olhar dele sobre ela e no conseguia prestar ateno ao texto que estava sendo estudado. Embora 
estivesse olhando para a pessoa que estava falando, seu pensamento estava em Andr. Depois dos comentrios sobre o assunto, as luzes foram apagadas e Mercedes solicitou 
que todos orassem, pedindo orientao para suas vidas. O silncio se fez. De repente, um rapaz comeou a falar: -- No adianta agora vir pedir. Eu no vou ceder. 
Ela vai pagar tudo o que me fez. Mercedes aproximou-se dele. Colocando a mo sobre sua testa, disse: -- A vingana  faca de dois gumes, prejudica mais a quem a 
pratica. -- Estou disposto a pagar o preo. Agora ela d uma de boa, todos ficam com pena, mas eu sei como ela  m. Estou assim por culpa dela. -- Voc est precisando 
de ajuda. Com esses pensamentos, fica difcil. Deixe-a em paz e receber toda a ajuda de que precisa. -- Por causadela fui assassinado. Antes que ela nascesse nos 
encontramos, eu perdoei e ela jurou que me receberia como filho e me ajudaria a ter de volta tudo quanto eu havia perdido. Tive

esperana, me preparei, ela nasceu mas, quando chegou a hora, no cumpriu o que me prometeu. Quando dormia, saa do corpo e brigava comigo, dizendo que no me queria 
como filho. Eu estava atordoado com o processo de reencarnao e no pude cobrar-lhe a promessa. Por duas vezes expulsou-me do corpo. Rejeitou-me. Foi horrvel o 
que sofri. Agora que estou lcido, sinto que fui logrado e no vou deixar passar. Uma mulher que estava do outro lado da mesa interveio: -- Eu posso ajud-lo. Vrias 
vezes me aproximei de voc tentando conversar, mas, sempre que me via, voc fugia, no queria ouvir nada. -- Eu conheo voc. A pretexto de ajudar, quer me levar 
para longe, mas eu no vou. Desta vez ningum vai me enganar. -- H uma coisa que preciso contar-lhe. Voc se recorda que naquele tempo Marina levava uma vida devassa. 
Foi naquela casa de prostituio que voc encontrou a morte. -- Eu no freqentava aquela casa. Fui l tomar satisfao porque ela me delatou para o marido da mulher 
que eu amava. Ele tinha um caso com ela e estava l e acabou comigo. -- Preciso lhe dizer que Marina no cumpriu a promessa que lh fez porque no pde. Ela ainda 
quer fazer isso. Quer muito ter esse filho. Mas acontece que naquele tempo ela provocou muitos abortos, o que lesou seus rgos de reproduo no corpo astral. Assim, 
quando seu atual corpo foi gerado, ficou deficiente nesse campo. No sei se ela poder ter filhos nesta encarnao. Talvez voc tenha que esperar pela prxima. -- 
Eu no sabia. Estou sofrendo muito. Vai ser difcil esperar tanto tempo. Eu preciso esquecer, sair deste inferno, recomear. -- Nesse caso, venha comigo. Deixe-a 
viver sua vida. Esteja certo de que ela j est colhendo os resultados de suas escolhas naqueles tempos. Se vier comigo, o ajudaremos a se renovar, tenho certeza 
de que conseguir o que pretende mais rpido do que imagina. Sei de uma pessoa que est encarnada e o ama muito. Tenho certeza de que ela o receber com alegria 
e amor. -- Quem ? -- Olhe. --  ela A mulher que eu sempre amei -- Ela tambm o ama e foi a causadora involuntria da sua morte. Estar feliz em receb-lo como 
filho. Venha. Vamos embora. -- Eu vou. O rapaz deu um suspiro e se calou. A mulher que conversava com ele tambm. Mercedes tornou comovida: -- Hoje tivemos mais 
uma vez a manifestao da bondade divina. Vamos agradecer e vibrar luz para todos os envolvidos. Que Deus nos abenoe. Milena comeou a falar discorrendo sobre julgamento 
e perdo, comovendo os presentes com suas palavras. Enquanto os dois espritos dialogavam, Antero remexia-se na cadeira inquieto e Nina o observava preocupada. As 
palavras de Milena a fizeram chorar, enquanto Andr, comovido, a observava atento. Com uma prece de agradecimento, a sesso foi encerrada e as luzes se acenderam. 
Alguns comentrios, depois de beber a gua as pessoas foram saindo e Antero comentou com Nina: -- Eles falavam de Glria, tenho certeza. Vim aqui hoje pensando em 
pedir ajuda para ela. -- Vamos esperar e conversar com Marta. Mercedes aproximou-se e Antero levanto-se e foi a seu en contro: -- Estou precisando de orientao. 
Poderamos conversar? -- Eu ia pedir-lhe que ficasse para conversarmos. Vamos esperar as pessoas sarem. Ele sentou-se novamente ao lado de Nina, que se levantou 
para abraar Mercedes. -- Voc tambm deve ficar. Marta quer lhe falar.

Nina concordou e sentou-se novamente enquanto Mercedes foi despedir-se dos amigos e comentou: -- Com eles ns nem precisamos falar. Voc viu? Antero sorriu e pediu: 
-- Posso fazer-lhe uma pergunta? -- Sim. -- Desde a outra vez que viemos aqui, o irmo de Milena nos observa o tempo todo. No tira os olhos de ns e tenho impresso 
de que no gostou de nos ver juntos. Tenho impresso de estar atrapalhando. Vocs tm algum tipo de interesse? -- H muitos anos tivemos um caso. Mas acabou. Ele 
olha por curiosidade. -- H mais do que curiosidade. Voc j fez muito por mim. Se deseja que eu me afaste, no se acanhe. -- Entre mim e ele no h nada e no h 
nenhuma possibilidade de haver. Portanto, no se preocupe com isso. Mais tarde lhe contarei tudo. Andr aproximou-se deles e estendeu a mo a ela: -- Como vai, Nina? 
-- Bem -- respondeu ela apertando a mo que ele lhe estendia. Depois apresentou-lhe Antero e eles trocaram algumas palavras formais. Depois Andr tomou: -- Precisamos 
conversar, resolver aquele assunto. Amanh vou ligar para marcarmos. -- No vejo necessidade. Alm disso, amanh estarei muito ocupada. -- Ligarei assim mesmo. Se 
no atender, irei a seu escritrio. Milena aproximou-se, cumprimentou-os e depois disse a Andr: -- Vamos embora, Andr, No posso chegar tarde. Eles se despediram, 
saram e Antero comentou: -- Ele est muito nervoso e quase perdeu o controle. -- Estamos vivendo um momento complicado. Depois eu lhe conto. -- Sinto que entre 
vocs h alguma coisa muito forte. Pelo muito que fez por Antnia e por mim, sou-lhe grato e espero que seja minha amiga, mas isso no torna necessrio me contar 
nada sobre seu passado. -- Agradeo sua discrio mas talvez desabafar com um amigo seja bom. Eu nunca pude fazer isso antes. Sempre carreguei sozinha o peso dos 
meus problemas. As pessoas saram e Mercedes os convidou para irem ao escritrio, onde Marta e o Dr. Dantas os esperavam. Nina e Antero acomodaram-se e ele esclareceu: 
-- Eu vim pedir orientao espiritual sobre o problema de Glria, minha mulher, mas aquele esprito que se comunicou durante a sesso contou uma histria que me 
pareceu familiar. Acho que tem a ver com ns dois. -- Tem sim, Antero -- respondeu Marta. -- Os problemas de Glria com a maternidade so conseqncia de suas atitudes 
em uma vida passada quando ela se chamava Marina. -- Eu tive ea impresso, mas ela  muito diferente dessa que ele descreveu. Glria  uma mulher discreta, fiel, 
devotada ao lar, nunca seria uma prostituta. -- Naquele tempo ela foi, sofreu, amadureceu, hoje ela no o faria. Se voc prestar ateno notar que, apesar da vida 
recatada que leva desta vez, h momentos em que ela demonstra no trato afetivo, tanto no campo sexual como no familiar, um conhecimento surpreendente para uma jovem 
ingnua e inexperiente. -- Isso  verdade. Quando fala sobre prostitutas nunca critica, mas ressalta os problemas que elas devem estar enfrentando. Acaba sempre 
dizendo que nunca suportaria viver dessa forma. -- E que os sofrimentos daqueles tempos ficaram gravados no seu inconsciente, influenciando suas atitudes atuais.

-- O que me impressionou foi o que aquele esprito disse, Por duas vezes foi impedido de nascer. Glria teve dois abortos involuntrios. Sofreu muito, correu at 
risco de vida, tanto que eu decidi no pensar em ter filhos para poup-la. Mas ela ficou desequilibrada e de tanto querer esse filho est com gravidez psicolgica. 
Era sobre isso que eu queria pedir orientao. No sei como ajudla. Ela no ouve. Garante que est grvida, embora os exames mdicos atestem que no. O tempo todo 
fala do nosso beb, do quarto dele, do nome, das roupas. Eu tento mostrar-lhe a verdade, mas  intil. -- O esprito que estava ao lado dela cobrando sua promessa 
a estava influenciando. Agora que ele entendeu e aceitou afastar-se para tratamento, penso que ela vai sair desse processo. Quanto a voc, no se culpe por no ter 
se casado com Antnia. Infelizmente ela no teve pacincia de esperar. Voc tinha se comprometido com Marina, no por amor, mas por sentir-se culpado. Aconteceu 
quando vocs eram muito jovens. Depois de conquist-la, provocou sua primeira gravidez, mas no assumiu. Abandonada, ela provocou o primeiro aborto. Mais tarde, 
depois de ambos desencarnareim, quando se encontraram no astral, ela estava em estado deplorvel, infeliz, vampirizada por entidades maldosas. Penalizado, voc sentiu 
culpa e prometeu ampar-la nesta encarnao oferecendo-lhe um nome para que ela pudesse resgatar sua dignidade ferida de mulher. -- Mas, se Antnia houvesse esperado, 
era com ela que eu me teria casado. Eu a amava de verdade. -- Antnia se afastou de voc porque sentiu que no podia separ-lo de Glria. Se ela houvesse esperado, 
seu compromisso com Glria acabaria e vocs poderiam se unir. -- Eu abandonaria Glria por causa de Antnia? -- No. A vida une as pessoas por certo tempo para atingir 
seus objetivos. Quando consegue o que quer, provoca naturalmente as mudanas. Os relacionamentos so temporrios. Quando acabam, di, mas apesar disso  melhor aceitar, 
perceber que  hora de deixar ir. Antnia no suportou perder voc e o filho. Se ela houvesse esperado, vocs teriam um tempo para se relacionar. -- Se ela houvesse 
ficado com o menino talvez no tivesse feito o que fez. -- E difcil saber. Mas ela no confiava em si mesma. Teve medo de no conseguir cuidar dele sozinha, As 
palavras de seu pai a convenceram e ela se sacrificou pensando no bem do filho. -- Essa atitude era bem dela. Antnia gostava de sacrificar-se pelos outros. Minha 
me  o oposto dela. Tem um temperamento autoritrio, rspido, mas Antnia suportou bem essa convivncia. Nunca se queixou, fazia tudo para no a desagradar. -- 
Os pais a mimavam muito. Quando os perdeu, ficou sem cho. O mimo enfraquece e torna a pessoa dependente. Ela acreditava que, sendo boazinha, conseguiria ser aceita, 
amada. Mas estava errada. Quem violenta seus verdadeiros sentimentos para agradar os outros sente insatisfao, um vazio no peito, provocados pela sua alma, que 
est sufocada e deseja agir de acordo com o que sente. E um conflito doloroso. Por isso ela chegou ao suicdio. -- No, Antnia chegou a isso por ser fraca. Quando 
o problema apareceu, ao invs de usar sua fora para enfrent-los, assumir sua vida, levar para a frente, preferiu colocar-se na posio de vtima, como se no tivesse 
nenhuma responsabilidade pelos problemas que estava enfrentando. -- Ela no teve culpa de haver sido mimada pelos pais-defendeu Antero. -- A histria de Antnia 
se perde no tempo. Comeou quando ela pertenceu a uma famlia nobre e habituou-se a ver todos os seus desejos satisfeitos. Gostou de manipular os outros, de viver 
na indolncia, sendo carregada de um lado a outro pelos vassalos sentada em cadeirinhas luxuosas ou nos macios coxins de seus cavalos. Depois de algumas vidas assim 
ela acabou ficando paraltica. Nem no astral conseguia movimentar-se. Todos ouviam atentamente. Marta falava com uma voz diferente, andando de um lado a outro, olhos 
perdidos em um ponto indefinido. Eles sabiam que era outra pessoa quem falava atravs dela. -- Foi castigo? Indagou Antero. -- De forma alguma. Deus no castiga 
ningum. Foi escolha dela. A natureza tem suas leis e todos temos de respeit-las. Tudo no universo se movimenta, cumprindo a sua tarefa. Ela preferiu ser servida. 
permanecer na preguia, na indolncia, e acabou lesando os centros motores do corpo

astral, ento as conseqncias apareceram. Sofreu muito porque sem poder se mexer foi obrigada, mesmo tendo posio e dinheiro, a suportar os maus-tratos de pessoas 
assalariadas que abusavam porque ela dependia fisicamente deles. -- Quanto sofrimento! -- comentou Antero. -- Foi mesmo. Quando chegou ao astral, conhecendo a causa 
disso, ela decidiu reagir. Pediu para nascer pobre. Queria trabalhar, vencer esse estado, Preparou-se durante algum tempo, recebeu auxlio e nasceu em um lar pobre 
mas foi recebida com carinho pelos pais. Contudo, no tinha sade. Suas pernas eram fracas, ela no conseguia manter-se sobre elas. Ento comearam os mimos. Seus 
pais a tratavam como incapaz. Assim, ela, que gostava de acomodar-se, encontrou jeito para isso. Bem, com o tempo, ela se curou do antigo problema e, desta vez, 
nasceu fisicamente saudvel, mas intimamente acreditando que era fraca, incapaz, que precisava do apoio dos outros para sobreviver. No confiava na prpria fora. 
Eis, em resumo, a histria de Antnia. -- E agora, o que ser dela? O suicdio foi um erro. -- Ela agiu contra a vida. Isso  grave. Mas a bondade divina no abandona 
ningum. O problema  que ela fugiu do tratamento. Enquanto no se conscientizar de que possui fora suficiente para cujdar de si mesma, acreditar na vida, no conseguir 
equilibrar-se. -- Ento  verdade -- interveio Nina. Eu sonhei esta noite com uma pessoa que me contou. -- Fui eu. -- Voc? Pediu-me para ajud-la, mas no sei o 
que fazer. -- Saber no momento oportuno. Preciso ir. Peo que orem por ela, para que se acalme e volte ao tratamento. -- Penso que no estou em condies de ajudar 
ningum. No consigo sequer resolver os meus problemas -- respondeu Nina. -- As situaes que a vida cria trazem oportunidades de resolvermos velhos assuntos que 
ficaram para trs. E o faz quando estamos preparados para venc-los. Pense nisso e no perca nenhuma delas. Nina baixou a cabea, pensativa. Antero perguntou: -- 
Como posso ajudar Glria? -- Compreendendo o momento que passa. Confie e espere. Fique atento tambm para aproveitar as oportunidades que viro. Lembrem-se todos 
que em qualquer situao o importante  agir dentro dos valores eternos do esprito. Que Deus os abenoe. Marta sentou-se, passou a mo na testa, depois disse: -- 
Mame, pode arranjar-me um copo de gua? Mercedes levantou-se e foi buscar. O Dr. Dantas considerou: -- Vamos orar em silncio e agradecer a Deus por havermos recebido 
tanto nesta noite. Enquanto Marta tomava gua eles permaneceram silenciosos, cada um pensando nos acontecimentos da noite. Depois, despediram-se. Uma vez no carro, 
Antero no se conteve: -- Estou impressionado. Nunca pensei que a vida fosse assim. Sinto como se estivesse descobrindo um mundo novo, mais coerente, mais justo. 
Depois do que ouvimos fico me perguntando: como foi que cheguei onde estou? Como me envolvi com Antnia e Glria? -- A julgar pelo que Marta nos disse, o acaso no 
existe. Os relacionamentos obedecem a uma causa anterior. Gostaria de saber se  assim em todos os casos ou se h outros motivos. -- Deve haver, seno estaramos 
sempre com as mesmas pessoas. -- Marta me disse certa vez que durante nossa vida vamos adotando crenas falsas, que nos parecem verdadeiras, sem ir a fundo e verificar 
se elas so o que parecem. Fazemos delas regras que adotamos no dia-a-dia, brigamos por elas sem perceber que esto nos levando a atrair a infelicidade. Se algum 
tenta provar que so falsas, ficamos irritados, no queremos ver. -- Isso  verdade. As vezes sinto isso quando converso com minha me. Ela tem algumas crenas que 
a fazem agir de uma forma desagradvel, que acaba sempre lhe criando problemas. Mas ela se nega a ver.

-- Marta afirma que nesse caso a vida coloca em nossa frente situaes, pessoas, que com suas atitudes possam nos fazer perceber nossos prprios enganos. Quando 
nos irritamos com as pessoas porque elas tm determinadas atitudes que nos incomodam,  porque somos iguais. Antero sorriu e consjderou: -- Isso acontece mesmo. 
Na casa de minha me, os empregados no ficam durante muito tempo. Ela implica e os despede, porque so prepotentes, no aceitam reprimendas, so exigentes. Vrias 
vezes notei que eles so muito parecidos com ela. -- Se ainda assim a pessoa no conseguir ver, ento comeam a aparecer situaes mais graves, problemas maiores, 
at que, pressionada pelo sofrimento, ela enxergue o que precisava ver. -- Nesse caso, nem todos os relacionamentos tm origem em ligaes de outras vidas. -- E 
verdade. Marta garante que tanto o amor como o dio unem as pessoas. Gostaria de saber mais a respeito. -- A vida  mais complexa do que pensvamos. Temos muito 
que aprender. -- Concordo. Eu fiquei de falar sobre meu relacionamento com Andr. -- No desejo ser indiscreto. -- Estou precisando conversar. Nossos problemas tem 
um pontoem comum e eu tenho me perguntado por que Antnia apareceu em minha vida. -- Nesse caso, fale. O carro parou em frente  casa de Nina. Em poucas palavras 
ela contou tudo. Quando se calou, ele tornou: -- Estou certo de que o acaso no existe mesmo. Nosso encontro foi programado. Eu descobri, alm de meu filho, todo 
um mundo novo. Voc, me fazendo saber que era pai, percebeu que no vai mais poder impedir que Andr assuma a paternidade. Estou emocionado. -- At ento, eu estava 
segura do que queria. Mas, depois que o conheci, tudo mudou. Andr tem se revelado diferente do que eu imaginava que fosse. Est obcecado pela idia de assumir o 
filho. Mas no posso chegar para Marcos e confessar que menti. Vou ficar desacreditada. -- Cedo ou tarde ter que faz-lo. Melhor que ele saiba por voc. Ele  um 
menino inteligente. Pareceu-me maduro para a idade. Converse, explique sua razes, diga a verdade. Tenho certeza de que ele vai entender. E o que pretendo fazer 
com Glria. S no o fiz porque tive medo de agravar seu estado emocional. Assim que ela melhorar, lhe contarei tudo. Nina suspirou pensativa, depois respondeu: 
-- Sinto que voc est certo. Vou pensar em uma forma de fazer isso. Obrigada. -- Coragem. Vai dar tudo certo. Despediram-se e Nina entrou em casa. Foi direto para 
o quarto ver Marcos, que estava dormindo. Beijou sua testa com amor e foi preparar-se para dormir. Antero chegou em casa e Glria o esperava lendo. -- Voc demorou! 
-- Eu no lhe disse que essa reunio na casa de amigos era para uma sesso esprita. Hoje demorou mais do que na semana passada. -O que voc foi fazer em uma sesso 
esprita? -- Estudar a vida. O Dr. Dantas me convidou e eu gostei muito. -- Voc no teve medo? Quando eu era criana, via vultos, ouvia vozes, minha me disse que 
era perigoso. Eu ficava apavorada. -- As pessoas costumam exagerar a morte, cobrindo de luto, panos pretos, misticismo. Mas  coisa do homem, Depois da morte, o 
esprito vai viver em outra dimenso e continua vivo. A morte  como uma viagem na qual voc se veste de acordo com o lugar onde vai viver. -- Sempre pensei que, 
quando algum morre, a alma vai mesmo viver em outro lugar. Quando meu tio Jos morreu, no velrio eu olhava seu corpo e sabia que ele no estava mais ali. Era um 
homem vibrante, cheio de vida, alegre, forte, no tinha nada a ver com aquele corpo apagado, petrificado, que estava na minha frente. Eu me perguntava: para onde 
ser que ele foi?

-- Voc pressentiu a verdade. Na prxima semana ir comigo. -- Acha mesmo? Eu no fui convidada. -- Eu falarei com ele que voc deseja ir. -- No sei. -- No tenha 
medo, O ambiente  muito agradvel e o resultado  maravilhoso. -- Est bem. Quer tomar um lanche? Ele concordou e acompanhou-a  copa. Glria pareceu-lhe melhor. 
Enquanto preparou a mesa e o serviu, no falou na gravidez. Quis que ele falasse sobre a sesso esprita. Antero descreveu detalhes, omitindo seu caso pessoal. Glria 
ouviu atenta e ele notou que seu olhar estava diferente. Os olhos mais brilhantes, o sorriso mais natural. Sentiu-se calmo e confiante. Foram para o quarto e, enquanto 
se preparavam para dormir, Antero foi relatando o que aprendera em contato com os espritos.

Na manh seguinte, pouco depois de Nina chegar ao escritrio, Andr telefonou: -- Nina, qero conversar com voc. Ela no respondeu logo, pensando no que conversara 
com Antero na noite anterior. No obtendo resposta, ele continuou: -- Por favor Nina, temos que encontrar uma soluo. Vamos almoar juntos e conversaremos. -- Almoar 
hoje  impossvel. Tenho uma audincia no comeo da tarde. -- Nesse caso, passarei a no fim do-expediente. Nina pensou um pouco e respondeu: -- Quero estar em casa 
para cuidar de Marcos. Terei mais tempo  noite. Voc sabe onde moro. Passe s nove horas e sairemos para conversar. -- Est certo. Estarei l. Nina desligou o telefone 
e sentou-se pensativa. Lcia bateu levemente e entrou: -- Trouxe estes documentos para voc assinar.

-- Deixe-os sobre a mesa. Lcia hesitou um pouco, depois disse: -- Preciso contar-lhe uma coisa sobre Andr. Nina interessou-se: -- O que ? -- Breno me disse que 
ele se separou de Janete. Est morando temporariamente em um hotel. Pensei que ela tivesse descoberto a existncia de Marcos, mas Breno garantiuque no. Disse que 
Andr chegou  concluso deque seu casamento com ela foi um erro e decidiu separar-se. Ter sido por sua causa? Nina pensou um pouco e respondeu: -- No creio. Ns 
no temos nada um com outro. Ter sido por outro motivo. -- Andr garantiu que, depois de haver estudado a espiritualidade, percebeu que se casara com Janete por 
vaidade e que nunca a amou. Agora, deseja aprender mais sobreos valores da vida e ser mais verdadeiro, isto , agir de acordo com seus sentimentos. -- Ser que ele 
no est mentindo? Um homem que fez o que ele fez comigo no pode ter uma atitude dessas. -- Breno garante que ele est sendo sincero. -- Bem, isso  problema dele. 
Ontem, estivemos na sesso esprita na casa do Dr. Dantas. L aconteceram alguns fatos que me fizeram rever algumas atitudes. Andr continua me pressionando e talvez 
seja melhor eu preparar Marcos para saber a verdade, antes que ele o faa. -- Que bom, Nina Breno me contou que um dos motivos de ele se separar foi a possibilidade 
de ficar mais livre para assumir o filho, sem ter de se preocupar com os problemas de Janete. -- Eu ainda no sei como fazer o que ele quer. Marcamos um encontro 
hoje  noite para conversar e decidir. Lcia sorriu contente. -- Eu gostaria que vocs se reconciliassem e fossem felizes como ns, -- Isso jamais acontecer. Como 
vo as coisas com Anabela? -- Ela est irredutvel. Breno estava nervoso, preocupado, mas depois que conversou com os filhos, falou de seus sentimentos, garantiu 
que nunca vai deixar de am-los e fazer tudo para que sejam felizes, ficou mais calmo. -- Como os meninos reagiram? -- Estavam tristes, assustados, mas depois dessa 
conversa tambm se acalmaram. Rubens  o mais velho, tem dezoito anos, mas mostrou-- se compreensivo. Disse que adora a me mas acha que  uma mulher muito fechada, 
intransigente e orgulhosa, que nunca foi carinhosa com eles. Breno ficou emocionado, no esperava que ele pudesse ser to amadurecido. -- As crianas s vezes nos 
surpreendem. Marcos de vez em quando diz coisas muito sensatas e maduras para sua idade. -- Nesse caso no tem que se preocupar com a reao dele quando souber de 
tudo. -- Quando penso nisso sinto um frio no estmago,.. Vai ser um momento difcil, mas terei de enfrentar. -- Voc  uma mulher corajosa. Sempre a admirei e gostaria 
de ser assim. -- Mas voc tambm . Fez coisas que no tive coragem de fazer. Quando Andr me deixou, aceitei sem reagir. As vezes penso que, se eu tivesse deixado 
o orgulho de lado, o tivesse procurado antes de Andr se casar, chamando-o  responsabilidade, tudo poderia ter sido diferente. Mas, quando soube do noivado dele, 
fiquei ofendida, me fechei na prpria dor e deixei que ele se casasse com outra. -- O orgulho sempre atrapalha. Apesar de ter feito o que eu fiz, sempre me senti 
digna, aceitando o amor que Breno podia me oferecer, porque eu o amo com pureza. Trocamos amor mas eu nunca procurei atrapalhar sua vida em famlia. Fiquei na obscuridade, 
me contentando em am-lo muito e torn-lo feliz. Os momentos que Breno passou a meu lado foram bons, alegres, agradveis.

-- Talvez por isso a vida a esteja recompensando. Ultimamente venho questionando minhas atitudes passadas. Durante todos estes anos, tudo que fiz foi para conseguir 
me vingar de Andr. Consegui apenas me machucar ainda mais. A mgoa nunca me deixou, no fui feliz e a to esperada vingana no me deu a alegria esperada. No quero 
mais viver assim. Preciso esquecer, refazer minha vida. -- Faz bem, Nina. Fao votos de que voc encontre a alegria de viver. -- Quando eu conseguir resolver este 
assunto com Marcos e Andr, poderei pensar em mim, o que fazer da minha vida. Retomar o que perdi, deixei para trs. -- H o lado bom. Voc conseguiu tornar-se uma 
boa profissional, criou seu filho bem e tem muitos anos pela frente. Sinto que est tomando a deciso certa. -- Devo muito ao Dr. Dantas e sua famlia. So pessoas 
de f, agem com sabedoria. Alm do apoio profissional e espiritual, aceitaram minha amizade. Pensando bem,sou uma pessoa feliz. Agora vamos trabalhar. Trouxe todos 
os documentos que pedi? -- Sim. Pode examinar. Nina entregou-se ao trabalho procurando no pensar no encontro que teria com Andr logo mais  noite. No fim da tarde, 
foi para casa, tomou um banho e foi ter comMarcos, que estava assistindo a televiso. Conversou com ele como sempre, procurando saber como ele havia passado o dia. 
Depois do jantar,como ele precisava estudar para prova no dia seguinte, ela apanhou um livro e sentou-se a seu lado disposta a ajud-lo caso ele precisasse. -- Pronto, 
acabei. -- Tem certeza de que est pronto para a prova? -- Tenho. Voc sabe que gosto muito de histria. Sei tudo. Pode tomar. -- Vamos ver. Ela pegou o livro e 
ele foi falando o que sabia. Nina deu-se por satisfeita e ele subiu para ver televiso. Nina foi para o quarto, arrumou-se e desceu. Faltavam quinze para as nove. 
Ela foi  janela e viu que o carro de Andr j estava parado em frente. Avisou Oflia que ia sair e voltaria dentro de meia hora. Depois, foi ter com Andr, que, 
vendo-a, saiu do carro estendendo a mo para cumprirnent-la. -- Faz tempo que chegou?-- indagou ela apertando a mo que ele lhe oferecia. -- Uns quinze minutos. 
-- Eu marquei s nove. -- Eu estava ansioso e o ternpo no passava. Ele abriu a porta do carro e ela entrou. Ele sentou-se a seu lado dizendo: -- Aonde quer ir? 
-- Um lugar discreto, no muito distante. No posso demorar. -- Conheo um restaurante agradvel e sossegado aqui perto. Voc j jantou? -J. -- Nesse caso podemos 
ir a um bar que conheo. E pequeno e silencioso. L poderemos conversar tranqilamente. Est bem? Nina concordou e dentro de vinte minutos estavam sentados em uma 
mesa do pequeno e aconchegante bar. Ele chamou o garom e pediu uma garrafa de vinho branco e alguns salgadinhos. Nina lembrou-se de que, quando eles saam nos velhos 
tempos, ela pedia vinho branco, mas fez de conta que no percebeu. Depois que o vinho foi servido e os salgadinhos colocados diante deles, Anjr, fitando-a nos olhos, 
disse: -- Obrigado por ter vindo. -- O que voc quer? -- Primeiro, dizer-lhe que no sou mais aquele rapaz leviano de outros tempos. Reconheo que me deixei levar 
pela vaidade e assumo toda a culpa que me cabe.

-- No vim aqui para falar do passado. Ele morreu e no h como faz-lo voltar. -- Hoje posso avaliar o que perdi estes anos todos, mas sei que  impossvel voltar 
atrs. O que eu quero  que voc me veja como sou agora e no como eu fui naquele tempo. Eu mudei, Nina. Aprendi. Hoje eu no faria mais o que fiz. Vim lhe dizer 
que quero assumir a paternidade de Marcos para ser um bom pai. Um amigo em quem ele possa confiar. Ele falava com voz firme e Nina sentiu que ele estava seguro do 
que afirmava. Baiu os olhos pensativa por alguns instantes, depois respondeu: -- Estive pensando no que voc me disse. Eu no tenho o direito de decidir pelo Marcos. 
Vou conversar com ele, contar a verdade e perguntar-lhe o que quer fazer. O que ele decidir vou aceitar. -- Finalmente voc ouviu a voz da razo. Mas, Nina, antes 
de Marcos decidir, eu quero que me conhea melhor. Receio que ele se sinta magoado pelo que fiz e no me d oportunidade de provar que posso ser um bom pai. -- No 
sei como fazer o que me pede. -- S quero conviver um pouco com ele antes de voc lhe contar. Aquele dia na casa do Dr. Dantas, conversamos um pouco e ele foi encantador. 
Inteligente, amvel,  um menino muito especial. Tenho certeza de que se nos conhecermos melhor vamos nos entender muito bem. Nina sentiu vontade de dizer-lhe que 
no queria que eles se entendessem bem. Que ele no tinha o direito de exigir nada agora. Que ela gostaria que Marcos o escorraasse e lhe negasse o direito de pai. 
Mas no disse nada. No queria que ele descobrisse que, apesar de desejar esquecer, a mgoa ainda estava dentro dela igual ao primeiro dia. -- Ele pediu para ir 
 sesso na casa do Dr. Dantas na prxima quarta-feira. Irei um pouco mais cedo e, se voc tambm for, podero conversar. -- Estarei l. No vou perder esta oportunidade. 
-- Mas antes quero que prometa no dizer nada a ele. Eu quero contar-lhe tudo e explicar por que menti que voc havia morrido. -- Eu prometo. S espero que, quando 
lhe contar, no deixe sua raiva por mim influenci-la. Nina olhou-o nos olhos e disse sria: -- Voc ainda no me conhece bem. Eu seria incapaz de usar meu filho 
para atingir voc. -- Desculpe. No se ofenda, por favor. Conquistar o amor de Marcos  muito importante para mim. -- Est certo. Na quarta-feira voc ter sua oportunidade. 
Agora tenho que ir. Andr colocou a mo sobre a dela dizendo: -- Nina, quando vai me perdoar? Voc me olha com raiva, desprezo. -- Quero resolver este assunto o 
quanto antes e esquecer o passado. -- Eu gostaria muito que no me visse mais como eu era e pudssemos ter uma relao cordial. Afinal, temos um filho que nos une. 
No podemos continuar como inimigos. Nina sentiu que as lgrimas estavam prestes a cair e tentou reagir: -- Vamos embora, por favor. -- E to difcil para voc suportar 
minha presena? No v que estou sendo bastante punido por haver escolhido errado e alm do peso da culpa estou carregando desiluso e infelicidade? Eu tambm quero 
esquecer, recomear, refazer minha vida, encontrar paz. Eu estou tentando, Nina, conquistar uma vida melhor. No me despreze, mas ajude-me com sua compreenso. Todos 
erramos, entenda isso. Nina retirou a mo que ele segurava e as lgrimas desceram pelo seu rosto emocionado. Ela rompeu em soluos e Andr levantou-se, sentou-se 
ao lado dela, abraou-a dizendo: -- Chore, Nina, jogue fora toda a mgoa que voc guardou no corao todos estes anos. Ele ofereceu-lhe um leno que ela segurou 
tentando enxugar os olhos, mas os soluos no paravam, enquanto ela tremia, rosto encostado no peito dele, querendo morrer por estar demonstrando fraqueza.

Ele ficou calado esperando que ela se acalmasse. No se aproveitou daquele momento de fragilidade e ela apreciou isso. Aos poucos Nina foi serenando e afastou-se 
dele enxugando os olhos envergonhada. -- Desculpe por esta cena desagradvel. Estou tensa por ter sido muito pressionada nos ltimos dias. -- Acha que a pressionei 
demais? -- Vrios fatos aconteceram que mexeram com minha cabea e deixaram-me insegura. -- Refere-se  imortalidade e suas conseqncias? -- Sim. Tive provas de 
que a vida continua. Preciso repensar muitas coisas. -- Estou passando pelo mesmo processo. Senti que precisava modificar minha vida, tomei algumas atitudes, mas 
agi com naturalidade, no me senti pressionado. -- Para mim tudo isso  muito novo. Tive uma colega que se suicidou e seu esprito me procura pedindo ajuda. E um 
caso delicado, fiz o que podia, mas parece que no foi suficiente, eles querem mais. -- Milena me falou sobre esse caso. Pelo que tenho notado, no  fcil ajudar 
algum. E necessrio confiar nos amigos espirituais e no desistir. -- Com todas estas coisas, estou fragilizada. Sou forte, no costumo me descontrolar como h 
pouco. -- No tente explicar. Graas a isso descobri que voc no  aquela mulher dura, fria que parecia, mas continua sensvel e verdadeira como sempre foi. -- 
No vamos mais falar nisso. Eu quero ir embora. -- Est bem. Enquanto ele acertava a conta, Nina foi ao toalete, olhou-se no espelho retocou a maquiagem. Quando 
voltou  mesa, Andr a esperava para lev-la de volta. No carro, durante o trajeto, Nina sentia-se aliviada. Teve de reconhecer que ele havia sido discreto e delicado. 
O medo que sentia de estar perto dele havia desaparecido. Andr conversou sobre os fatos que presenciara nas sesses espritas do Or. Dantas que o haviam feito repensar 
os objetivos de sua vida e Nina sentiu que estava sendo sincero. A conversa fluiu com naturalidade e Nina colocou suas dvidas e incertezas procurando respostas. 
O assunto estava to interessante que Nina se surpreendeu quando carro parou diante de sua casa. Estendeu a mo em despedida. -- Boa noite. Estaremos l na quarta-feira. 
-- Boa noite, Nina. Irei com certeza. Obrigado por ter me ouvido. Ela saiu do carro e entrou em casa rapidamente. Andr ficou olhando at que ela desaparecesse, 
depois ligou o carro e foi para o hotel. Nina no percebeu nem Andr viu que estavam sendo seguidos desde o comeo por um carro escuro onde um homem os observava 
e s foi embora quando Andr entrou no hotel.

Na manh seguinte, Janete recebeu um telefonema. -- Aqui  o Osvaldo. Preciso v-Ia, tenho novidades. -- Irei a seu escritrio s dez. -- Estarei esperando. Com 
o corao batendo forte, janete arrumou-se e desceu para o caf. Finalmente ia descobrir por que Andr havia sado de casa. Ela conhecia Osvaldo desde os tempos 
de colgio. Formara-se advogado, mas mantinha um servio de nvestigao particular que ela utilizara algumas vezes. Foi ele quem descobriu que Andr freqentava 
as sesses na casa do Dr. Dantas. Mas, at ento, no havia observado nada alm disso.

As dez em ponto, janete entrou no escritrio de Osvaldo, que a cumprimentou amvel. -- Ento, o que descobriu? -- indagou ela ansiosa. -- As coisas comeam a ficar 
claras, Ele est se encontrando com outra mulher. Janete empalideceu, sentiu as pernas bambas e sentou-se. -- Quem  ela? -- indagou assustada. -- Ainda no sei. 
Mas vou descobrir. Eis o relatrio. Com mos trmulas janete segurou o papel, leu e colocou-o sobre a mesa. -- Ele saiu com ela mas foram apenas conversar, O que 
o fez pensar que eles tm um caso? -- Escolheram uma mesa discreta, ela pareceu-me nervosa, ele preocupado. Seja o que for, no foi um primeiro encontro. Eu estava 
em uma mesa o mais perto que consegui, havia um biombo e eu os via por uma fresta mas no deu para ouvir o que diziam. De repente ela comeou a chorar, ele abraou-a 
confortando-a. Ele estava de frente para mim e notei como ele a fitava. Tenho certeza de que h alguma coisa entre eles. -- Nesse caso, continue investigando. Descubra 
quem ela , o que faz. -- Est certo. Vou tirar algumas fotos. -- Faa isso. Se for preciso, coloque mais algum. Eu pago. Preciso saber tudo com urgncia. Janete 
deixou o escritrio de Osvaldo muito irritada. Pensou em pai Otero. Ele se recusara a prestar-lhe servio. Ficou com medo. Ele lhe dissera que havia outra mulher. 
Ela no acreditara nisso. Lembrou-se de suas palavras: "H, sim. A mesma de antes". De repente, Janete estremeceu: a mesma de antes... Nina? Ele a teria encontrado? 
Torceu as mos nervosamente. A medida que pensava, tudo ia ficando mais claro em sua cabea. Se o trabalho de pai Otero havia sido desfeito, nada mais natural que 
eles voltassem a se encontrar. Janete no tinha mais dvida. A cena que Osvaldo descrevera s poderia ter acontecido entre os dois. No ia se conformar, nem aceitar 
perder. Andr era seu marido. Era com ela que deveria ficar. Faria o que fosse preciso outra vez. Otero no quis fazer, mas encontraria outro. Com Nina  que Andr 
no ficaria. Teria de esperar que Osvaldo completasse as investigaes. Enquanto isso, cuidaria de encontrar outro pai-de-santo que concordasse em trabalhar para 
ela. Chegou em casa angustiada, nervosa. Sentia enjo e uma forte dor de cabea a incomodava. Parecia-lhe ter uma cinta de metal ao redor da testa e da nuca, apertando. 
-- Foi o nervoso -- pensou.-- Mas eles vo pagar por tudo isso. Procurou comprimidos para dor e ingeriu dois. Foi se deitar um pouco para descansar. Ela no viu 
que dois vultos escuros a abraavam satisfeitos. Um disse ao outro: -- Agora vamos poder nos vingar. -- Ela vai pagar por todo o mal que nos fez. -- De nada lhe 
valeu evitar engravidar. -- Ela teve medo. Mas no adiantou. -- Enquanto o marido estava com ela, no pudemos agir. -- Ele  protegido. Lembra? -- Lembro. Sempre 
aparecia aquela mulher que nos mandava embora dizendo que ele no ia poder ser nosso pai. -- Foi melhor assim. Agora que ele foi embora, poderemos agir melhor. Ningum 
mais vai atrapalhar nossos planos. Janete remexeu-se na cama inquieta. Os remdios no a aliviaram e a dor continuava forte. Nervosa, ela ingeriu mais um comprimido. 
Foi tomada de uma sonolncia e pouco depois adormeceu. Mas foi um sono agitado. Estava na companhia de um casal de jovens de fisionomia perturbada que a puxavam 
de um lado a outro, rindo, dizendo frases jocosas, levando-a para lugares escuros, cheios de sombras sinistras.

Apavorada, Janete tentava desvencilhar-se deles, mas no conseguia. A custo conseguiu acordar e sentiu que a dor de cabea continuava igual. Os comprimidos no haviam 
dado alvio. Ainda atordoada, pegou mais um e tornou. Desta vez mergulhou em um sono profundo. Um dos espritos que a observava comentou: -- Ela est dopada. No 
vamos conseguir mais nada. -- Vamos embora. Voltaremos mais tarde. Eles se foram e Janete continuou dormindo, um sono pesado e sem sonhos.

Dois dias depois, uma segunda-feira, logo cedo Olvia recebeu um telefonema de Toninho: -- Aquela encomenda que a senhora me fez chega hoje. Precisa me mandar o 
dinheiro para as despesas. -- Irei lev-lo pessoalmente e me certificar se est de acordo com o que pedi. -- Se quer retirar hoje, ter que se apressar. -- Irei 
imediatamente. Ela desligou o telefone satisfeita. O motorista levou-a a uma loja onde costumava fazer compras e ela mandou-o embora a pretexto de que uma amiga 
a iria buscar para almoarem juntas. Quando ele se foi, Olvia saiu, tomou um txi e foi  casa de Toninho.

-- Pode esperar, que no vou demorar -- disse ela ao motorista. Uma vez com Toninho em sua sala, ela trou da bolsa um volumoso envelope dizendo: -- Eis aqui a primeira 
parcela do que lhe prometi. Quando tudo estiver resolvido, receber o restante. Ele abriu, conferiu o dinheiro e respondeu: -- Est certo. Mas  bom saber que vai 
sair mais caro do que combinamos. Precisei contratar o casal, pagar os documentos ao especialista. -- E tem a minha parte. O risco  grande. Preciso estar prevenido. 
-- Como pensa fazer? -- Estive sondando. Vamos esperar na sada do colgio. -- Tem certeza de que  o melhor lugar? H muita gente por perto. -- Deixe comigo. Sei 
como fazer. Vai dar tudo certo. Pego o menino e o entrego com os documentos ao casal, que o levar imediatamente para outro Estado. Quando derem queixa, j estaro 
longe, fora do alcance da polcia. -- Tenha cuidado. Ningum pode saber que fui eu quem o contratou. -- Se der azar, seu nome no ser mencionado. Mas, como eu disse, 
o risco  grande. Mas estou confiante. Sei como fazer. No vai acontecer nada. Olvia voltou para casa satisfeita. Dentro em pouco estaria livre daquele fedelho 
intrometido. Tudo voltaria ao normal em sua famlia.  tarde, Antero chegou em casa disposto a conversar com Glria. Durante o fim de semana, notara com satisfao 
que ela estava muito melhor. No mencionara a gravidez nem estivera no quarto do beb, como sempre fazia. Havia conversado sobre outros assuntos, participado das 
atividades normais da casa. No domingo  noite, Antero lhe perguntara se ela desejava fazer novos exames mdicos para constatar a gravidez, uma vez que ela alegava 
que os ltimos haviam sido malfeitos. -- No -- respondeu. -- Eu sei que ainda no estou grvida. E melhor esperar. Ele no comentou nada. Mas intimamente sentiu-se 
feliz em notar que Glria estava saindo daquela iluso. Assim que entrou em casa foi procur-la disposto a conversar. Encontrou-a na copa conversando com a empregada. 
Vendo-o chegar, foi ter com ele, abraando-o com carinho. Ele beijou-a delicadamente na face e pediu: -- Vamos at o quarto. Quero conversar com voc. Uma vez l, 
ele fechou a porta e sentou-se ao lado dela na cama segurando sua mo. -- O que vou lhe contar  um segredo do meu passado que s descobri h poucos dias. -- Voc 
me surpreende. No sabia que tinha segredos. -- Ns nos conhecemos desde criana e voc sabe quase tudo a meu respeito. Eu digo quase, porque antes do nosso casamento 
eu tive um caso com uma moa e nunca tive coragem de lhe contar. Ela olhou-o sria e perguntou: -- Por que est me contando agora? -- Porque, como eu disse, esse 
caso teve conseqncias srias e eu ignorava isso. S tomei conhecimento, como eu disse, h poucos dias. -- Conseqncias srias? O que quer dizer? -- E uma histria 
triste e eu reconheo minha culpa, mas preciso que voc me perdoe, me apie. Estamos juntos e eu preciso muito que me ajude. -- Voc est me assustando. O que ? 
-- Antes quero pedir que me oua at o fim antes de emitir um julgamento. Segurando as mos dela, que estavam trmulas entre as suas, Antero comeou a contar seu 
envolvimento com Antnia, no falando do imenso amor que sentira por ela para no ferir os sentimentos de Glria. Falando da amizade de primos que os levara a um 
relacionamento ntimo.

As lgrimas desciam pelo rosto de Glria, que procurava conter a emoo. Falou do suicdio e por fim como tomara conhecimento de que Eriberto era seu filho. Finalizou: 
-- Quando Nina me contou tudo, fiquei atordoado, sem saber o que fazer. Nina afirmava que o esprito de Antnia estava sofrendo por saber que mame no gostava dele 
e temia que o maltratasse. -- Eu percebi isso h muito tempo e ficava penalizada em notar como ela o tratava, principalmente quando o Dr. Artur no estava presente. 
Ela sabe quem ele ? -- No. Voc sabe como ela  geniosa. Ele no quis que ela soubesse com medo de que nos contasse. Antnia o fez prometer que nunca contaria. 
Ela no queria atrapalhar nossa vida conjugal. Procurei meu pai para conversar. Ele confirmou tudo e me contou detalhes que eu ignorava. Fiquei emocionado. Ns choramos 
a perda de dois filhos sem saber que eu j tinha um. Fui ver Eriberto sem dizer nada a ningum, e notei o quanto ele se parece com Antnia e com pessoas da nossa 
famlia. -- O que pensa fazer? -- E meu dever assumir esse filho. Ele  rfo de me. Eu gostaria que voc assumisse esse papel na vida dele. Juntos poderemos fazer 
dele um homem de bem. Ela no respondeu logo. Rompeu em soluos e ele a abraou emocionado apertando-a de encontro ao peito. Alisando seus cabelos com carinho, esperou 
que ela se acalmasse. Quando ela serenou, ele considerou: -- No precisa decidir agora. Pense o tempo que quiser. Mas saiba que eu preciso cumprir meu dever de pai. 
-- Eu sei. Estou chocada. No esperava uma coisa dessas. Confesso que houve um tempo em que desconfiei que vocs se gostavam. Observei a maneira que se olhavam, 
e pouco antes de marcarmos a data do casamento voc havia esfriado comigo. Cheguei a pensar que iria romper nosso compromisso. Agora sei por qu. Voc no sabia 
mesmo que ela estava grvida? -- No. Meu pai disse que, quando ela descobriu, deixou nossa casa para no atrapalhar nosso casamento. -- Ela foi capaz disso tendo 
um filho seu dentro de si? -- Foi. Ela renunciou a tudo e deu no que deu. -- Se ela foi capaz de fazer isso por ns, eu tambm serei capaz de perdoar a traio e 
receber o filho dela como meu. Ele no tem culpa de nada e precisa da nossa proteo. Pode cuidar de reconhecer a patemidade. Amanh mesmo iremos busc-lo para morar 
conosco. Antero beijou a testa de Glria dizendo feliz: -- Voc  uma mulher maravilhosa que eu no mereo, mas, creia, nunca esquecerei o que est fazendo por mim 
e por ele. -- Vamos dar a ele um lar feliz. A situao de orfandade dele sempre me comoveu. Quando vamos  casa de sua me, vrias vezes tentei brincar com ele, 
levar-lhe um pouco de alegria. Mas senti que ele se retraa, havia tristeza em seus olhos. Vamos arrumar um lindo quarto para receb-lo, mas enquanto isso ele fica 
no quarto de hspedes. Os olhos dela brilhavam emocionados e Antero abraou-a satisfeito. Ela continuou: -- Amanh cedo, faremos algumas compras. Vamos deixar aquele 
quarto mais alegre. Quero que ele se sinta em casa e saiba que  querido. -- Vou preparar tudo e  noite iremos busc-lo. -- Eu, irei falar com papai, inform-lo 
da nossa resoluo. Tudo combinado, eles forain jantar conversando com animao, fazendo projetos para o futuro com Eriberto. Depois do jantar, foram ao quarto de 
hspedes, onde Glria planejou as modificaes na decorao que o tornariam mais alegre e jovial, como convinha a uma criana. Antero aplaudia comovido e ajudava 
a fazer a lista das compras. No foi trabalhar na manh seguinte. Acompanhou Glria s lojas com prazer, antegozando a alegria de Eriberto escolhendo brinquedos 
e enfeites coloridos.

Almoaram em um restaurante agradvel e Antero notou que Glria parecia outra pessoa. Descontrada, alegre, olhos vivos e brilhantes de prazer. Depois do almoo 
ela foi para casa preparar tudo e Antero foi ao consultrio do pai para conversar. Ele havia acabado dc voltar do almoo. Antero abraou-o dizendo: -- Podemos conversar? 
-- Claro. Sente-se. -- Ontem  noite contei tudo para Glria. Artur olhou-o atento: -- E ela, como reagiu? -- Melhor do que eu esperava. Eu estava nervoso, expliquei 
tudo que aconteceu, ela se emocionou, chorou muito. Eu lhe disse que no ia abrir mo de nu filho e lhe pedi que tomasse o lugar de me que Antnia deixara vago. 
Ela concordou. Disse que, se Antnia havia se sacrificado para no atrapalhar nossa vida familiar, ela esqueceria a traio e cuidaria do nosso filho como se fosse 
dela. Artur, tentando controlar a emoo que lhe embargava a voz, respondeu: -- Glria sempre me pareceu uma moa boa. Estou certo de que ser uma excelente me 
para ele. -- Quero que converse com mame, pea-lhe para mandar arrumar as roupas dele e avise que iremos busc-lo esta noite. -- J? Sentirei falta dele. E um menino 
muito vivo e amoroso. -- Ns saberemos cuidar dele com carinho. Ele ser feliz em nossa casa. -- De fato, ele precisa de um pai e de uma me. Eu, por causa da profisso, 
quase no tenho tempo de ficar com ele, e Olvia, voc sabe, no gosta de crianas. Nunca se interessou muito por ele. -- Eu sei, papai. A que horas poderemos busc-lo? 
Gostaria que estivesse em casa na hora. -- Hoje no tenho muita coisa. Irei para casa mais cedo. Estare l depois das sete. -- Iremos depois das oito. Assim ter 
tempo para conversar com mame, explicar-lhe tudo. Despediram-se e Antero foi para o escritrio trabalhar. Sentia-se aliviado e feliz. No fim da tarde, Josefa como 
fazia todos os dias, foi  escola buscar Eriberto. Como no era muito longe, eles iam e voltavam a p. Quando ele saiu, depois de beij-lo com carinho, Josefa segurou 
a mo dele e foram andando. Ele estava animado contando uma das brincadeiras de que participara com o colegas. Quando viraram a esquina, de repente, um homem segurou 
o brao de Josefa, colocou um revlver embaixo de seu brao dizendo baixinho: -- Continue andando e no diga nada. Se gritar, eu atiro. Josefa tremia e Eriberto 
olhava assustado para o desconhecido, que disse entre dentes: -- No deixe esse menino dizer nada, seno voc morre. Ela esforou-se para mostrar-se calma e disse: 
Est tudo bem, Eriberto. Vamos andando. -- Isso, vamos andando. Quando chegaram a uma quadra de casa, um carro apareceu e parou perto deles e algum abriu a porta 
de trs. O homem disse a Josefa: -- Se gritar ou fizer alguma coisa, eu atiro. Rapidamente segurou o menino e o colocou dentro do carro, entrou, bateu a porta e 
arrancaram a toda velocidade. Josefa quis gritar mas no conseguiu emitir som algum. Uma mulher virou a esquina e, vendo-a, perguntou: -- Aconteceu alguma coisa? 
O que foi? Ento Josefa conseguiu gritar: -- Um homem levou Eriberto. Chamem a polcia! Logo algumas pessoas pararam e Josefa chorava desesperada: -- Levaram o menino! 
Chamem a polcia, por favor. -- Que menino? -- perguntou um homem. -- Ele estava armado, Ameaou me matar. No pude fazer nada. Ele roubou o menino.

Algum chamou a polcia e uma viatura apareceu. Dois policiais desceram e Josefa contou o que havia acontecido. Falaram com os presentes, mas ningum havia presenciado 
o fato. -- Vamos  delegacia -- disse um deles. -- Voc vai dar queixa, contar como foi e dar todos os dados do homem. -- Vocs precisam ir atrs deles. Podem matar 
o menino -- disse Josefa chorando. -- Para que lado eles toram? Ela apontou e ele continuou: -- Vou dar o alarme e mandar vrias viaturas procur-ios. Eles fizeram 
Josefa entrar na viatura e a caminho da delegacia eles notificaram o caso pelo rdio descrevendo a cor do carro, a aparncia do homem, a idade do menino, o local. 
Assim que chegou  delegacia, Josefa, inconsolvel, pediu que avisassem seu patro. Artur estava no meio de uma consulta quando a secretria avisou que a polcia 
o estava procurando. Imediatamente atendeu. Depois de perguntar seu nome e se era o responsvel pelo menino, o policial informou: -- Esse menino foi raptado h pouco 
quando saa da escola. Josefa est aqui prestando declaraes e pedimos que venha a esta delegacia formalizar a queixa. Artur desligou o telefone assustado. Imediatamente 
despediu a cliente e foi at a delegacia. Assim que o viu, Josefa correu para ele dizendo aflita: -- Dr. Artur. Eu no pude fazer nada para impedir. Ele encostou 
o revlver em mim e disse que se eu gritasse ia me matar. Eles levaram nosso menino. Artur sentia aboca seca e o peito oprimido. Foi conversar com o delegado, que 
indagou se ele tinha idia de quem poderia ter feito isso. Ao que ele respondeu: -- No tenho a menor idia. Ele tem apenas seis anos. -- O senhor teria algum inimigo? 
-- No, Sou mdico e sempre me dei bem com as pessoas. Estou espantado. No tenho a menor idia de quem pode ter feito isso. -- Ento  seqestro mesmo. Logo vai 
receber notcias pedindo resgate. -- A polcia precisa fazer alguma coisa. No podemos deixar uma criana nas mos desses bandidos -- tornou Artur, nervoso. -- J 
estamos fazendo. Contudo, temos muito pouco para uma busca melhor. A moa no viu a chapa do carro, nem o modelo. S sabe a cor. Quanto ao homem, temos poucos dados. 
Ela estava multo nervosa, com medo, e no reparou nos detalhes. -- Eu estava com medo de que machucassem Eriberto -- justificou-- se ela chorando. -- E natural -- 
disse o delegado. -- Ela olhou as fotos do arquivo e no reconheceu ningum. Assim no temos muitos elementos para facilitar nosso trabalho. Apesar disso, estamos 
nos esforando para encontr-los. Todas as nossas viaturas esto percorrendo o bairro e toda a cidade  procura deles. O senhor tem um retrato dele? Felizmente Artur 
carregava um na carteira e deu-o ao delegado. Depois de formalizar a queixa, de prestar todos os esclarecimentos, o delegado disse: -- O senhor pode ir. Se algum 
entrar em contato, nos avise irnediatamente. -- Eu gostaria de esperar aqui, ver se chega alguma notcia -- respondeu Artur inquieto. -- Se tivermos alguma novidade 
avisaremos. No adianta ficar aqui. E melhor ir para casa. Pode ser que eles se comuniquem. Artur deixou a delegacia com Josefa, que s fazia chorar. No carro Artur 
pensava como iria contar isso a Antero e Glria. Essa era uma misso difcil que ele precisava cumprir o quanto antes. Chegou em casa e Olvia, vendo-o chegar com 
Josefa, olhos inchados de chorar e sem Eriberto, fingiu preocupao e indagou: -- O que aconteceu? Estou preocupada. Vocs no voltaram da escola. Onde est o menino? 
Josefa, soluando, no conseguia falar e foi Artur quem res pondeu:

-- Aconteceu uma desgraa. Eriberto foi raptado na sada da escola. -- Raptado? Como foi isso? Um homem armado ameaou Josefa e levou o menino. Olvia fingiu consternao: 
-- Isso no pode ser. Que horror! Quem teria feito isso? -- A polcia vai descobrir. Por enquanto temos que esperar para ver se eles se comunicam para pedir resgate. 
O delegado acha que foi seqestro. -- S pode ser isso. Eles vo ligar pedindo dinheiro. -- No suporto a idia de no saber onde ele est e o que esto fazendo 
com ele. Vou ligar para Antero. -- Para qu? Ele no tem nada com isso. -- Claro que tem. Ele  o pai de Eriberto. Olvia empalideceu e sentou-se apavorada. Teria 
ouvido bem? -- O que voc disse? Artur, segurando o telefone, respondeu nervoso: -- O que ouviu. Eriberto  nosso neto, filho de Antero. Olvia emudeceu. Seu pensamento 
estava tumultuado. Claro que no era filho de Glria. Quem seria a me desse menino? Antero atendeu e Artur disse nervoso: -- Sou eu, filho. Aconteceu uma desgraa. 
-- O que foi? Alguma coisa com mame? -- indagou Antero assustado. -- No. Ela est bem. Foi com Eriberto. Ele foi raptado na sada da escola. Antero no respondeu 
logo. A surpresa, o medo, a angstia transpareciam em sua voz quando conseguiu dizer: -- E a polcia, tem alguma pista, sabe quem foi? -- Infelizmente, no. Acham 
que foi seqestro e precisamos esperar que eles vo se comunicar. Estou aflito, no sei o que fazer. -- Estou indo para a imediatamente. Artur desligou o telefone 
e deixou-se cair em uma poltrona. Tirou o leno do bolso enxugando o suor que molhava seu rosto. Olvia precisava saber mais. Controlou o nervosismo e perguntou: 
-- Eriberto  mesmo filho de Antero? -E. -- E a me, quem ? -- Antnia. -- O qu? Tem certeza disso? -- Tenho. -- Esta histria est mal contada. Vai ver que ela 
teve esse filho e o enganou dizendo que era de Antero. Ele nunca falou nada sobre isso. Se fosse verdade, ele teria se apegado ao menino, mas nunca notei nada. Artur 
preferiu no responder para no brigar. Inconformada, Olvia continuou: -- Claro. Ela mentiu. Queria que seu filho herdasse parte da nossa fortuna. Artur no conseguiu 
conter-se: -- Que espcie de mulher  voc? Que maldade agasalha em seu corao? Hoje cheguei ao limite de minha tolerncia. No suporto mais sua mesquinhez, sua 
intransigncia, sua implicncia com tudo e com todos. Chega. Quando tudo isto acabar, vou me separar. No agento mais ouvir suas palavras sarcsticas, olhar para 
sua cara. Ele estava plido e Olvia sentiu que havia falado demais. Tentou corrigir. -- Estou nervosa. Essa infeliz nos causa problemas at depois de morta. -- 
Limpe sua boca quando fala em Antnia. Ela foi uma moa digna, que veio para nossa casa em busca da proteo que no soubemos lhe dar e acabou grvida de nosso prprio 
filho, se suicidando de desgosto. Nunca mais se refira a ela de modo pejorativo. No vou tolerar.

-- Voc est nervoso, eu tambm. Pensa que no estou preocupada com o menino? -- Esse menino  nosso nico neto, que foi roubado por bandidos e corre perigo de vida. 
-- No vai acontecer nada. Voc vai ver. -- Como sabe? -- O delegado disse que foi seqestro. Eles no vo fazer nada ao menino porque querem dinheiro. Ns pagaremos 
o que pedirem e o teremos de volta. Artur no respondeu. Estava irritado demais para dizer alguma coisa. Josefa apareceu na sala, olhos vermelhos, carregando uma 
bandeja. Aproximou-se de Artur dizendo: -- Eu trouxe uma xcara de ch de cidreira, Tome, doutor, vai lhe fazer bem. -- Obrigado, Josefa. Tome tambm, voc est 
muito nervosa. -- Eu j tomei, doutor. Mas continuo tremendo at agora. O que ser que vai acontecer ao nosso menino? Ela o serviu, perguntou se Olvia queria tambm, 
mas ela recusou, fulminou-a com os olhos mas no interveio com medo de piorar ainda mais sua situao com o marido. -- No sei, Josefa. -- Estou tentando rezar, 
pedindo proteo  virgem Maria, mas no estou conseguindo. Ser que mesmo assim ela vai me escutar? -- Espero que sim. Vamos tentar nos acalmar. No podemos fazer 
nada a no ser esperar, e isso est me desesperando. Anrero entrou assustado e correu para o pai, que o abraou ago niado. -- Pai, aconteceu mesmo? No foi algum 
engano? -- Aconteceu. -- Eu no pude fazer nada! -- disse Josefa chorando novamente. -- Ele apareceu do nada quando viramos a rua, segurou meu brao, encostou o 
revlver embaixo do meu brao que ele segurava e disse para continuarmos andando. Eriberto olhava assustado e ele mandou que eu o acalmasse porque, se ele fizesse 
alguma coisa, ele me mataria. Ela fez uma pausa tentando recuperar o flego. Antero aproveitou para perguntar. -- Como ele era? Voc no o conhecia de algum lugar? 
-- No. Ele era baixo, meio encorpado, pardo, cabelos lisos, suas mos pareciam de ferro, ele apertou tanto meu brao que ficou roxo. Vejam. Antero olhou horrorizado 
e indagou: -- Havia mais gente na rua? -- Algumas pessoas que foram buscar as crianas tambm. Mas nem perceberam nada. Ele disfarou e o revlver estava escondido 
embaixo do meu brao. Quando estvamos a um quarteiro de casa foi que o carro parou e ele pegou Eriberto, dizendo que se eu gritasse me mataria, jogou ele dentro 
do carro, entrou e se foram. -- Nessa hora, havia outras pessoas por perto que possam ter visto tudo? -- Para dizer a verdade, no sei. Fiquei em estado de choque. 
S consegui gritar quando vi uma senhora perto de mim, olhando assustada e perguntando o que houve. Pedi para chamarem a polcia. Quando eles chegaram, era tarde. 
O carro havia desaparecido. Eles perguntaram mas as pessoas disram que no tinham visto nada. Antero deixou-se cair em uma poltrona passando a mo nos cabelos desesperado. 
Algumas lgrimas desceram pelo seu rosto e ele deixou-as correr livremente. Olvia olhava-os sem saber o que fazer. Conforme combinara com Toninho, a essa hora Eriberto 
j deveria estar longe, fora do alcance da polcia. Por esse lado estava sossegada. Apesar de saber que Eriberto era seu neto, filho de Antero, a quem adorava, no 
se arrependia de o haver afastado de sua casa. A presena de um filho bastardo de Antero certamente iria prejudicar seu relacionamento com Glria. O que ela pensaria 
quando soubesse?

Sabendo a verdade, Olvia pensava que sua atitude livrara o filho de precisar assumir uma paternidade indesejada que poria em risco seu casamento. Eles nunca poderiam 
saber que fora ela quem havia planejado isso. Esse era seu nico medo. Mas por esse lado estava tranqila. Eles achavam que foi seqestro e ficariam esperando que 
os raptores se comunicassem. Como ningum iria telefonar, Toninho teria tempo de resolver tudo conforme o planejado. Qual no foi sua surpresa quando ouviu Antero 
dizer: -- Ns havamos planejado tudo para esta noite. Combinamos de vir busc-lo para morar conosco. Glria estava to feliz. Arrumou o quarto para ele, compramos 
brinquedos, roupas, tudo. Como vou contar a ela o que aconteceu? Olvia abriu a boca e fechou-a de novo engolindo as perguntas que a estavam incomodando. O melhor 
agora era no dizer nada. Pelo jeito, todos sabiam que o menino era filho de Antero, menos ela. Por que no lhe contaram? Artur sentou-se mais perto do filho e disse 
triste: -- Pela primeira vez em minha vida no sei o que fazer... Ouvindo-o, Antero deu um pulo da cadeira e tomou: -- Pois eu sei. Dirigiu-se ao telefone e ligou 
para Nina, que o atendeu prontamente: -- Nina, mais uma vez preciso de sua ajuda. Meu filho foi raptado e estamos desesperados. A polcia acha que foi seqestro 
e ns temos que ficar ao lado do telefone esperando que os bandidos se comuniquem. Por favor, fale com Marta, pea ajuda. Vou dar-lhe o telefone da casa de meu pai. 
Ligue e me conte o que ela disser. -- Est bem. Fique calmo, no se desespere. Tenho certeza de que nossos amigos espirituais vo nos ajudar. Ele deu o nmero do 
telefone, despediu-se e desligou. Artur o olhava sem entender. Antero, vendo que Olvia os observava, disse ao pai: -- Liguei para aqueles amigos que podem nos ajudar. 
Lembra-se do que lhe contei? Confio muito neles. Vamos esperar. -- Sim. Foi uma boa idia. Enquanto isso, vamos rezar. E o que podemos fazer. Olvia olhava-os sem 
entender nada. A que amigos se referiam? Certamente pessoas poderosas. Apesar de um pouco assustada, ela pensou que, fosse quem fosse, no iriam conseguir nada. 
A essa altura eles estariam muito longe, fora do alcance. Artur e Antero comearam rezar em silncio esperando que o telefone tocasse. Olvia sabia que esperavam 
em vo, por isso se cansou e foi providenciar o jantar. Comeou ento para Artur e Antero uma espera difcil e dolorosa, dura de suportar. Nina desligou o telefone 
e foi falar com o Dr. Dantas. kssim que a viu ele notou que ela estava assustada: -- O que foi Nina, aconteceu alguma coisa? -- Sim. Eriberto foi seqestrado esta 
tarde quando saa da escola. Antero ligou aflito pedindo-nos ajuda espiritual. Era isso que Antnia temia. Ela fugiu do tratamento porque sabia o que estavam tramando 
contra o menino. -- Sabe coma foi? -- Antero estava muito nervoso e no deu detalhes. Lembra-se do meu sonho? -- Sim. Procure lembrar-se dos mnimos detalhes. -- 
Ela me disse que Antnia iria passar por um momento muito difcil, pediu-me para ajud-la. Eu no sabia como. Ento ela explicou que algo estava para acontecer, 
eles no sabiam ainda a extenso do fato mas que no podiam intervir. Era preciso confiar no bem e esperar. -- H momentos em que a fora das coisas  muito forte 
e no d para impedir. -- O que desencadeia esse tipo de coisa? Que foras so essas to poderosas?

-- E a sabedoria da vida atuando sobre as energias das pessoas em conflito para responder a cada um de acordo com suas atitudes. E a justia divina se manifestando. 
-- E difcil entender como um menino to pequeno pode ser vitimado dessa forma. -- Olhando atravs dos olhos humanos no d para entender. Mas conhecendo a espiritualidade, 
sabendo que cada um colhe de acordo com o que plantou, que a criana de hoje j viveu outras vidas nas quais usou seu livre-arbtrio como achou melhor, entendemos 
que no existe vtima mas apenas os resultados de suas atitudes. -- Estou angustiada pensando no que eles esto sofrendo. -- Vou ligar para Mercedes e pedir que 
rena nosso pessoal. E preciso fazer uma reunio para orarmos e pedir auxlio. -- Eu gostaria de ir. -- Seria timo. Ele ligou, falou com Mercedes, que ficou de 
chamar os companheiros, e avisou que iria imediatamente. -- Voc vai comigo? -- Vou passar em casa e levar Marcos. -- Est bem. Estaremos esperando. Nina contou 
a Lcia o que havia acontecido e pediu-lhe que fechasse o escritrio. Depois saiu apressada. O que acontecera com Eriberto a impressionou muito. Pensava em Marcos 
e imaginava como se sentiria se houvesse acontecido com ele. Chegando em casa, abraou-o com carinho. -- Vim busc-lo para irmos  casa de Marta. -- Aconteceu alguma 
coisa? Voc est nervosa. -- Vamos pedir ajuda espiritual para um menino de seis anos que foi seqestrado esta tarde quando saa da escola. Marcos ficou srio durante 
alguns instantes e respondeu: -- No foi seqestro. -- A polcia disse que foi. -- No foi. Tenho certeza. -- Como sabe? -- No sei. Sinto que a polcia est enganada. 
-- Mas ele foi roubado. -- Mas no seqestrado. Eles no querem pedir dinheiro. -- Ser? -- Pode crer, mame. Esto todos enganados. -- Voc sabe o que foi, ento? 
-- No. S sei o que eu disse. -- Vamos embora. No quero me atrasar. Eles saram e Nina sentia o peito oprimido. Quando chegaram  casa do Dr. Dantas ela notou 
que o carro de Andr estava parado na porta. Respirou fundo e entrou. Alm de Milena e Andr, algumas pessoas j haviam chegado. Nina cumprimentou a todos e Marta 
pediu que eles se acomodassem na sala de reunies. Nina aproximou-se de Marta e disse baixinho: -- Marcos acha que a polcia est enganada. Que ningum vai pedir 
dinheiro. Milena, que estava do lado, comentou: -- Eu tambm sinto isso. -- Nesse caso, o que teria sido? -- indagou o Dr. Dantas. Ningum soube dizer. -- Seria 
bom que Antero viesse -- disse Marta. -- Algum poderia ligar para ele? Pea-lhe para trazer um retrato do menino. -- Eu ligo -- respondeu Nina.

-- Enquanto isso, vamos nos concentrar e orar pedindo auxlio aos nossos amigos espirituais. Nina foi telefonar na outra sala. Antero atendeu no primeiro toque. 
-- Sou eu, Antero. Estou na casa do Dr. Dantas. Ele reuniu os companheiros e vamos fazer uma reunio especial para pedir ajuda. Marta pediu para voc vir. -- Eu 
no posso. Estou perto do telefone esperando que os raptores liguem. Quero estar aqui quando acontecer. -- Eles no vo ligar. -- Como voc sabe? -- Assim que contei 
a Marcos ele sentiu que no foi um seqestro, que a polcia se enganou. Eles no querem dinheiro e no vo ligar. No dei importncia, mas quando cheguei aqui Milena 
disse a mesma coisa. Ambos sentem que no foi o que todos pensam. Antero ficou indeciso. Ele confiava na mediunidade de Milena. Depois de alguns instantes disse: 
-- Eu gostaria de ir, mas... no sei... E se eles ligarem e eu no estiver? -- Voc  quem sabe. Marta pediu sua presena. -- O que foi? -- indagou Artur, que estava 
do lado. -- Esto fazendo uma sesso na casa do Dr. Dantas. Marta quer que eu v. Dizem que ningum vai telefonar. Que a polcia est enganada. No sei o que fazer. 
-- Acho que deve ir. Eu ficarei esperando. Se ligarem eu aviso. Tem o telefone de l? -- Tenho. -- Anote o nmero e v. No adianta ficarmos os dois aqui parados. 
Pelo menos estar fazendo alguma coisa. -- Nesse caso vou buscar Glria. Ainda no tive coragem de contar-lhe. -- V, meu filho. Vou continuar rezando. Antero saiu 
e Olvia, vendo-o sair, aproximou-se: -- Ouvi o telefone tocar. Eram os raptores? -- No. -- Aonde foi Antero? -- Buscar Glria para ir  casa de alguns amigos. 
-- Ele deveria ficar aqui esperando o telefonema. -- Esse telefonema pode no acontecer. Olvia sobressaltou-se. Teriam descoberto alguma coisa? Tentando controlar-se 
perguntou: -- Como sabe? -- Os amigos de Antero so mdiuns e disseram que a polcia est enganada e que ningum vai telefonar. Olvia inquietou-se: -- Vocs acreditaram 
nisso? Que bobagem. No sabia que eram to ingnuos. Apesar de aparentar indiferena, Olvia comeou a sentir medo. E se eles conseguissem descobrir que fora ela 
quem tramara tudo? Se haviam descoberto que ningum iria ligar para pedir dinheiro, poderiam descobrir o resto. Assustada, tentou fingir-se mais preocupada com Eriberto 
para evitar que desconfiassem dela. Antero chegou em casa j havia escurecido e Glria o esperava com impacincia, arrumada, pronta para ir buscar Eriberto. Vendo-o 
entrar abatido ela disse: -- Voc demorou! Est plido. Aconteceu alguma coisa? Os olhos de Antero encheram-se de lgrimas e ele abraou-a apertando-a de encontro 
ao peito, soluando. Assustada, Glria o acariciava tentando acalm-lo. Quando ele finalmente se calou ela disse: -- Estou assustada. Nunca vi voc nesse estado. 
Diga, o que houve? -- Eriberto foi raptado na sada do colgio por um bandido e at agora no sabemos nada dele. Glria estremeceu e no conseguiu conter o pranto:

-- Como foi acontecer isso? Sou eu. Sinto que sou amaldioada. No posso ser me nunca. Que destino triste! -- No diga isso, Glria. No foi culpa sua. Eu, sim, 
estou sendo castigado pelo mal que fiz a Antnia. -- No diga isso. Ela foi embora de sua casa sem dizer nada. Voc no sabia que tinha esse filho. -- Vim busc-la 
para irmos  casa do Dr. Dantas. Eles esto reunidos pedindo ajuda espiritual para Eriberto. Querem que eu v e vim busc-la para ir comigo. -- Vamos embora. Eles 
o ajudaram a saber a verdade, podem nos ajudar a trazer Eriberto de volta so e salvo. -- Isso mesmo. Vamos pensar no melhor. Eles chegaram  casa do Dr. Dantas 
pouco depois. A criada os introduziu na sala da reunio. Mercedes recebeu-os, colocando-os sentados ao redor da mesa. A sala, iluminada por pequena lmpada azul, 
estava em penumbra e uma msica suave se ouvia. Marta pediu: -- Continuemos orando. Pedimos aos pais do menino que o visualizem, como se ele estivesse aqui. Antero 
e Glria obedeceram. Antero orava pedindo perdo a Antnia sentindo-se culpado e suplicando que os amigos espirituais trouxessem seu filho de volta. Glria, por 
sua vez, conversava com Deus, e em sua comovida prece pedia o direito de ser me. Julgava-se culpada por nunca ter querido adotar um filho e dizia que, se Deus lhe 
concedesse a graa de ter Eriberto de volta, prometia ser para ele uma me amorosa e dedicada. Milena quebrou o silncio e tomou: -- Vamos nos dar as mos. Neste 
momento estamos precisando da energia de todos os presentes. Mercedes pediu: -- Pode nos dizer alguma coisa sobre o paradeiro de Eriberto? -- Ainda no. Estamos 
acompanhando o caso de perto. Continuemos confiantes mentalizando o regresso do menino. -- Os seqestradores vo pedir dinheiro para devolv-lo? -- No. Trata-se 
de um problema familiar. E s o que podemos informar por enquanto. Gostaramos que continuassem orando em viglia at segunda ordem. Pode demorar, revezem-se se 
for o caso. As pessoas com as quais estamos lidando so imunes s energias mais sutis mas so sensveis s energias de encarnados. Milena calou-se e eles continuaram 
em orao. O tempo foi passando. A certa altura Mercedes informou que havia mesa para lanche na copa e que seria bom irem se revezando, comendo alguma coisa, descansando 
por meia hora. Decorrido esse tempo, deveriam voltar para participar enquanto outros sairiam. O tempo foi passando e tudo continuava igual. Nenhuma notcia. Antero 
telefonara ao pai, que informou que eles no haviam ligado.

Vamos voltar um pouco no tempo e acompanhar o que estava acontecendo com Eriberto. Quando se viu agarrado pelo estranho e jogado dentro do carro, Eriberto comeou 
a gritar. Toninho, que estava dirigindo o carro, gritou: -- Jofre, faa esse pirralho se calar. Ele tapou a boca do menino dizendo-lhe nervoso: -- Fique quieto j, 
seno vai apanhar. No quero ouvir um pio.

Eriberto tentou reprimir o choro e encolheu-se em um canto do banco. Assustado, estremecia de vez em quando soluando baixinho. -- E melhor ir mais depressa, antes 
que a polcia nos persiga. -- No d palpite. Sei o que estou fazendo. Atravessaram a cidade e dentro de meia hora estavam na Via Anchieta. Foram at o Riacho Grande, 
entraram na cidade e em poucos minutos alcanaram um casebre de beira de estrada. Pararam, desceram levando o menino pela mo. Bateram levemente e um rapaz abriu 
olhando-os preocupado. Logo atrs, uma mulher de uns trinta anos olhava curiosa. Eles entraram e Eriberto, vendo-os, comeou a chorar dizendo: -- Eu quero ir para 
casa! Tenho medo. No quero ficar aqui. Toninho no disse nada, tirou um leno do bolso e um vidro pequeno, derramou o contedo no leno e o colocou no nariz do 
menino, que se debateu um pouco e teria cado se o rapaz no o tivesse segurado. -- E melhor assim. Dormindo ele no nos dar trabalho, Est tudo pronto? -- Sim 
-- respondeu o rapaz com Eriberto no colo. -- Tem certeza de que ele vai ficar bem? Parece morto. -- Est muito vivo, dormir pelo menos at amanh. Quando ele acordar 
vocs j estaro longe. Vamos embora. O rapaz levou o menino at o carro, colocando-o no banco de trs enquanto a mulher colocava uma bagagem no porta-malas. Eles 
fecharam o casebre e se acomodaram: os dois homens na frente e o casal no banco de trs, tendo colocado o menino no meio deles. O rapaz passou a mo pelos ombros 
do menino, encostando a cabea dele em seu peito. Toninho olhou e no disse nada. Ligou o carro e em poucos minutos estavam novamente na Via Anchieta, rumo ao litoral. 
Alcanaram a cidade de Santos. Depois de quase meia hora Toninho parou. -- E aqui. Vamos descer. Era uma casa de madeira, em um lugar muito pobre. Eles desceram, 
o rapaz carregando Eriberto no colo. Toninho abriu a porta e todos entraram. O rapaz colocou o menino na cama. A mulher colocou a mala no cho e Toninho falou: -- 
Ns j conversamos tudo mas  bom repetir. No quero enganos. Lembrem-se que, se qualquer coisa sair errado, vocs sero presos, E, se isso acontecer, no devem 
dizer nada. Se nos delatarem, vamos acabar com os dois. Vocs sabem que sou homem de palavra. Por bem, fao tudo. Mas exijo fidelidade. -- Pode confiar -- disse 
o rapaz. -- Vamos fazer tudo certo. -- Vamos ver se entenderam. Repita o que devem fazer. -- Amanh vou  cidade e compro passagens de nibus para cidade de Registro. 
L tem nibus para o Paran. Temos que ir para uma cidade do interior. L vamos comprar nosso pedao de terra e viver nossa vida. -- O que vo fazer com o menino? 
-- Ns pensamos em ficar com ele. E mais um brao para o trabalho. Toninho meneou a cabea pensativo. -- No sei se isso  melhor. Ele est crescido e pode dar com 
a lngua nos dentes. Talvez seja mais certo deix-lo em algum orfanato. Voc est com os documentos que eu lhe dei? -- Estou. Eu penso que no orfanato ele pode contar 
o que aconteceu e o levarem de volta. Se ficar comigo no correremos esse risco. -- Est certo. Fiquem com ele. Vou lhe deixar um vidro de calmante para a viagem. 
Antes de sair de casa para viajar, d-lhe vinte gotas em um pouco de gua. -- Ele  pesado. No vou carregar ele o tempo todo.

-- Com vinte gotas ele ir andando. S ficar sonolento e vai querer se recostar. Se algum perguntar, diga que ele est doente. Toninho tirou um pacote e colocou-o 
sobre a mesa dizendo: -- Aqui est o dinheiro que lhe prometi. Antes devo dizer-lhe que nunca mais ponham os ps em nosso Estado. Se voltarem, vamos acabar com vocs 
dois. -- No pensamos em voltar. Temos problemas com a polcia. S queremos tocar nossa vida em outro lugar onde ningum nos conhea e viver em paz. Tonjnho e seu 
companheiro foram embora. Quando ficaram sozinhos, a mulher disse preocupada: -- Acha que fizemos bem ficando com esse menino? E se a famlia der queixa e a polcia 
fios encontrar? -- Toninho garantiu que o menino  rfo, Foi adotado por gente da alta. Logo esquecero e ns vamos poder comprar nosso stio e recomear a vida. 
-- Eu olho pra ele e sinto um aperto no peito. Quando sinto isso, no  bom. -- L vem voc com suas manias. Pois eu estou muito feliz em receber esse dinheiro. 
Depois, ns no somos pessoas ruins, no vamos judiar do menino. Se ele for cordato, no ter do que reclamar. A mulher foi at a cama e colocou a mo na testa de 
Eriberto e disse: -- Ele est gelado. E se estiver morto? O rapaz aproximou-se e colocou o ouvido no peito do menino. -- Est respirando. Logo vai acordar. Vamos 
comer alguma coisa e dormir. Estou pregado. Amanh tenho que ir  cidade ver as passagens na primeira hora. Voc trouxe aquele lanche? -- Trouxe. Vou pr na mesa. 
Tirou de uma sacola po, mortadela e uma garrafa de gua. Ele se lavou e sentou-se para comer. -- Nlson... -- O que foi, mulher? -- No sei, estou sentindo uma 
coisa estranha. Parece que vou desmaiar. -- De novo? Fazia tempo que voc no tinha isso. Aquele pai-de-- santo no fechou seu corpo? -- Disse que fechou, mas no 
sei... estou ficando tonta. -- Voc est sem comer. Venha, coma um sanduche. Ela sentou-se do outro lado da pequena mesa, pegou um pedao de po, abriu, colocou 
algumas fatias de mortadela e comeou a comer. Sentiu-se melhor. -- Acho que era fraqueza -- disse. -- Est passando. -- Eu no disse? Terminaram de comer e ele 
tornou: -- Vamos dormir. Amanh quero levantar s quatro. -- S tem uma cama. Onde vamos dormir? -- Tem a rede na mala. Pega ela e vamos dar um jeito. Encontraram 
jeito de pendurar a rede e ele decidiu: -- Eu fico na rede e voc na cama com ele. Voc tem o sono mais leve. Se ele acordar, vai perceber. Ela concordou e deitou-se. 
Sentia a cabea pesada e muito cansao. Logo pegou no sono. Sonhou que fora da casa havia uma mulher querendo entrar e ela estava com medo. A porta estava aberta 
e ela correu para fechar, depois a janela se abriu e ela apavorada tentou fech-la mas uma mo gelada a impediu. Uma mulher plida, magra, olhar ameaador, entrou 
dizendo: -- Vocs no vo levar meu filho para longe. Ele tem que ficar com o pai. Apavorada, a mulher tentava justificar-se: -- Ele  rfo. No tem famlia. Vamos 
tomar conta dele. -- Mentira. Ele tem pai que vai cuidar dele. Voc vai lev-lo de volta. -- No posso. Vamos criar ele.

-- O pai e o av esto sofrendo muito. Sei o que vo fazer com ele. Se no o levar de volta, no ter paz. Eu sou a me dele. Estou do lado dele para defend-lo. 
Leve-o de volta antes que a polcia os encontre. Vou contar tudo para o delegado e vocs sero presos. -- No podemos. Aceitamos o dinheiro. Vamos comprar um stio. 
Cuidaremos do menino com carinho. -- No quero! Levem-no de volta assim que o dia amanhecer. Seno vou acabar com vocs dois. Ela avanou sobre a mulher, que tentou 
fugir mas no conseguiu sair do lugar. Quis gritar, chamar o marido, mas no emitiu nenhum som. Tremia apavorada. O esprito de Antnia agarrou-a pelo pescoo dizendo 
com raiva: -- Se no devolverem meu filho vou acabar com vocs. Eu juro! Apavorada, sentindo sufocar-se, a mulher acordou suando copiosamente. Levantou-se de um 
salto e foi at a rede. Sacudiu o marido dizendo assustada: -- Acorde, Nlson... Acorde. Ele abriu os olhos sobressaltado: -- O que foi, mulher? -- Esse menino no 
pode ser nosso. -- Porqu? -- Ele est acompanhado. A alma da me dele quis me enforcar. -- Voc est nervosa. Foi s um pesadelo. -- No foi, no. Eu sei quando 
 alma do outro mundo. Ela disse que  pra devolver ele o quanto antes. Ns no vamos fazer isso. -- Estou com medo. Ela jurou que vai nos perseguir. E uma mulher 
plida, olhos de fogo. Eu num quero mais ver ela. Temos que d um jeito nesse menino. No vamos levar ele junto. Nlson sentou na rede coando a cabea nervoso. 
Ele no desafiava Bina quando ela falava em alma do outro mundo. Tinha provas suficientes para saber que ela via mesmo. -- Nesse caso, ns vamos deixar ele pelo 
caminho. Devolver o dinheiro  que no vou. Vamos comprar nosso stio. -- Ela quer que ele volte pra casa. -- Isso no. Toninho vai dar cabo de ns. -- Isso se ele 
nos achar. Ao invs de ir para o Paran, vamos para outro lugar, bem longe, onde ele nunca vai nos encontrar. -- No sei... Preciso pensar. Fizemos tantos planos. 
-- Eu queria que voc visse ela. Teria corrido de medo. Foi horrvel. Ela pulou em mim, agarrou minha garganta, pensei que tinha chegado minha hora. No podia respirar. 
-- Foi s um pesadelo. Voc estava nervosa, com medo. No vai acontecer nada. -- Vai, sim. No teime. Ela est tomando conta dele e com muita raiva. Se no fizer 
o que ela quer, nossa vida no vai pra frente. Sei o que estou dizendo. -- Devolver o dinheiro eu no devolvo! -- Podemos ficar com ele. Ela no falou no dinheiro. 
S quer o menino de volta. Deixamos o menino em algum lugar, vamos para bem longe. -- O Toninho no vai nos encontrar. Vamos tocar nossa vida pra frente. -- E onde 
deixamos o garoto? -- Temos que pensar. Talvez aqui mesmo. Deixamos um lanche, algum dinheiro e pronto. O Toninho no disse que ns podamos deixar ele em algum 
lugar? Ento. Se um dia ele nos achar, no ter do que reclamar. -- Est certo. Pensando bem,  melhor mesmo nos livrarmos dele. Nlson abriu a janela e disse: -- 
E madrugada. Logo vai comear a clarear. Vou comprar as passagens e volto para pegar voc.

-- Eu vou junto. No quero ficar aqui sozinha. E melhor irmos embora antes do dia amanhecer. Logo o povo daqui vai comear a acordar. E melhor que ningum nos veja. 
-- E o menino? -- Ele fica. Deixamos o lanche, gua, alguns trocados e vamos embora. No vejo a hora de me livrar desse moleque. Nlson hesitou um pouco, depois 
decidiu: -- Seja. E melhor mesmo que ningum nos veja. Arrume tudo e vamos embora. Bina foi at Eriberto, que dormia pesado, ajeitou as cobertas dizend em voz alta: 
-- Vamos deixar seu filho aqui. Cuide dele. E o que podemos fazer. -- O que voc est resmungando? -- Nada. Estou entregando ele  me. -- Cruz credo. As vezes voc 
me d medo. -- No seja bobo. Sei o que estou fazendo. Eles colocaram os documentos sobre a mesa ao lado do lanche, apanharam seus pertences e foram embora deixando 
a porta apenas com o trinco. Eriberto, alheio a tudo, continuava adormecido. O esprito de Antnia aproxinu-se dele beijando-o na testa, depois sentou-se na cama 
ao lado dele. Pretendia ficar ali para proteg-lo. Ela gostaria de poder conversar com ele durante o sonho, mas viu que no seria possvel porquanto o esprito dele 
dormia sobre o corpo e ela no conseguiu acord-lo. Antnia ficou assustada. Ela s havia visto uma situao igual nas pessoas que haviam morrido fazia pouco tempo. 
Eriberto estaria morto? Concentrou sua ateno no peito dele e viu que seu corao continuava batendo. Ele estava vivo. Precisava esperar apenas que ele acordasse. 
Enquanto isso, rezaria pedindo ajuda. Pensou nos enfermeiros que cuidaram dela mas no teve coragem de lhes pedir auxlio. Ela havia fugido do tratamento e temia 
no ser atendida e, o que seria pior, eles quererem lev-la de volta. Talvez Nina pudesse fazer alguma coisa. Pensou nela com carinho. Era a melhor pessoa do mundo. 
Comeou a pensar nela pedindo que a ajudasse. Olhando o rosto de Eriberto ela sentia vibrar dentro de si um amor muito grande, ao mesmo tempo que se arrependia amargamente 
de haver tentado contra a vida. Naquele momento teve conscincia de que no assumira sua responsabilidade de me. Deus havia lhe dado esse filho para que tomasse 
conta dele, orientando-o, tornando-o umhomem de bem. Ela fracassara como mulher, como me, deixando que os outros interferissem em sua vida. Estava arrependida mas 
era tarde. No podia voltar atrs. O que podia fazer era ficar ao lado dele dali para a frente, amando-o, protegendo-o. As lgrimas desciam pelo seu rosto e ela 
beijou-o com amor, Dali para a frente ela cuidaria dele, no deixando que nada de mau lhe acontecesse. Comeou a alisar-lhe os cabelos com carinho e emocionada notou 
que saa de seu peito uma luz cor-de-rosa que envolveu o corpinho de Eriberto. Percebeu contente que,  medida que essa energia rosa se espalhava sobre ele, sua 
respirao ia se tornando mais cadenciada. No perodo de tratamento que recebera onde estivera at ento, haviam lhe ensinado o poder das energias positivas. O sentimento 
de amor, de compaixo transmite energias muito poderosas. Satisfeita, Antnia sentiu que isso era verdade. Olhando o filho com amor, derramou sobre ele energias 
boas e, alm de Eriberto respirar melhor, a cor de sua pele estava mais natural. Sentindo-se mais calma, decidiu continuar ali, pensando nele com amor, esperando 
que acordasse. Na casa do Dr. Dantas, eles continuaram orando, revezando-se a cada meia hora conforme lhes fora pedido pelos amigos espirituais. Era madrugada e 
eles continuavam l quando Milena levantou-se e disse:

-- Vamos reunir todos agora. Aproxima-se um momento decisivo e precisamos somar nossas foras. Algum chamou os que estavam descansando, que atenderam prontamente. 
Vendo-os acomodados, Milena continuou: -- Vamos dar as mos e fazer um grande crculo. Eles obedeceram, ela entrou no crculo e prosseguiu: -- Vamos mentalizar Eriberto 
e Antnia, sua me. Quem os conhece pense neles com amor e alegria. -- Enquanto voc mantm a corrente de sustentao, eu vou at l disse Marta. Ela colocou uma 
cadeira dentro do crculo e sentou-se nela. Sua cabea pendeu, parecendo adormecida. Permaneceram assim por meia hora, depois Marta suspirou, abriu os olhos dizendo: 
-- Graas a Deus. Est tudo bem. Vamos agradecer a Deus pela ajuda que recebemos e encerrar nossos trabalhos de hoje. Mercedes proferiu ligeira prece de agradecimento 
e encerrou a sesso. As luzes foram acesas e ela agradeceu s pessoas pela colaborao. Passava das quatro da manh e eles foram se despedindo, tendo ficado apenas 
Antero, Glria, Nina, Milena, Andr e Marcos, que havia adormecido no sof da outra sala, mas que acordara quando Milena os chamara de volta. Antero, ansioso, aproximou-se 
de Marta: -- E ento? Pode me dizer alguma coisa? -- Sim. Ele est bem. Dorme sob efeito de um sonfero. -- Eu vi -- interveio Marcos. -- Ele est em uma casa de 
madeira, muito pobre. Tem uma mulher cuidando dele. Ela  alta, magra, cabelos castanhos, alisa a cabea dele com muito amor. -- Isso mesmo, E o esprito de Antnia 
que est ao lado dele -- esclareceu Marta sorrindo. -- Voc viu onde fica esse lugar? Quem os levou l? -- No sei onde , mas notei que a terra  arenosa. Antero 
torceu as mos aflito: -- Nesse caso no podemos ir busc-lo. -- Acalmese -- respondeu Marta. -- O perigo passou. Agora  questo de tempo. O que posso informar 
 que ele vai ser encontrado e regressar so e salvo. -- Quisera ter essa certeza -- tomou Antero. -- Pode confiar -- interveio Mercedes. -- E o mentor dela quem 
est informando. Ele costuma ser sincero. Se ele disse que o perigo passou,  verdade. -- Desculpe -- disse Antero. -- E que estou muito angustiado. -- D para entender 
-- tomou o Dr. Dantas sorrindo. -- H mais alguma coisa que possa me dizer? J que voc esteve l, viu a casa onde ele est, se os espritos esto nos ajudando, 
no seria mais fcil nos levarem at l? -- indagou Antero. -- Ns vemos assim, mas nossos amigos espirituais pensam diferente. Eles sabem que, se no nos foi permitido 
saber onde o menino est para irmos busc-lo,  porque h outros fatores envolvidos no caso que devem ser atendidos. Disseram o que lhes foi permitido e o que consideraram 
mais importante, que foi saber que o perigo passou e que Eriberto retornar so e salvo. No  isso o que importa?-- respondeu Marta. -- E -- concordou Antero. -- 
Vocs precisam descansar. No momento  o melhor a fazer. Descansar, confiar e esperar os resultados. Antero se despediu agradecendo a ajuda e saiu com Glria. O 
Dr. Dantas ao despedir-se de Nina disse: -- Hoje no temos nada especial no escritrio. No precisamos ir trabalhar. Lcia pode cuidar de tudo. -- Est bem, doutor. 
Vamos esperar notcias do menino. Ela saiu com Marcos, Andr e Milena tambm. Marcos no continha o entusiasmo:

-- Me, eu vi ele dormindo. A casa, tudo. Voc disse que o esprito de Antnia estava horrvel mas eu no achei. Ela parecia to amorosa, to boa me. Chorava, tive 
muita pena dela. Est muito arrependida do que fez. Andr, que caminhava do lado, ouviu admirado. Milena sorriu, passou o brao sobre os ombros de Marcos dizendo: 
-- Voc  dos nossos! Juntos vamos formar um grupo maravilhoso. Ele sorriu: -- E mesmo? Vamos chamar o Renato. Ele v mais do que eu! -- Mas voc tem mais experincia 
do que ele. Nina olhou admirada e no respondeu. Despediram-se combinam que quem tivesse alguma notcia ligaria contando. Andr abraou Marcos com carinho dizendo: 
-- Gostaria de ser como voc. -- E eu como voc -- respondeu ele. -- Por qu? -- perguntou Andr surpreendido. -- Porque no  criana e sabe muitas coisas que eu 
no sei. Nina interveio: -- Vamos embora, meu filho. E tarde. Durante o trajeto de volta, Marcos contou que vira muito mais coisas na sesso que esquecera de contar. 
Nina pensava na tristeza de Antero, que, apesar do conforto que havia recebido dos amigos, ainda continuava sem saber onde e com quem seu filho estava.

Antero e Glria voltaram para a casa de Artur. Olvia j havia se recolhido mas Artur continuava sentado ao lado do telefone.

Vendo-os entrar, levantou-se ansioso. Antero indagou: -- Alguma notcia? -- Nada ainda. E voc, como foi? Em poucas palavras Antero contou o que havia acontecido, 
finalizando: -- Eles garantiram que o perigo passou e Eriberto voltar so e salvo. -- Queira Deus que seja verdade! Glria abrau o sogro dizendo: -- Eu no tenho 
nenhuma dvida. Se voc houvesse estado l, acreditaria. Foi comovente. O amor dessas pessoas, a f, a dedicao, ficando horas orando por uma criana que nem conhecem. 
Havia no ar alguma coisa que no sei explicar mas que me pareceu mgica. Apesar do momento difcil que estamos atravessando, parecia que algum me dizia: confia, 
vai dar tudo certo! Artur retribuiu o abrao dela tentando esconder o rosto para que no o vissem chorando. Antero juntou-se a eles, abraando-os: -- Eles nos disseram 
para confiar e esperar. Voc est muito abatido. Precisa cuidar da sua sade. V descansar, eu ficarei ao lado do telefone. No vou conseguir dormir. -- Tente relaxar. 
Se algum ligar, eu o chamarei. No adianta ficarmos os dois aqui. Voc tambm, Glria, trate de dormir um pouco. -- Nada disso. Vou ficar do seu lado. Depois que 
o Dr. Artur descansar, ser nossa vez. Voc tambm precisa se refazer. Vamos nos revezar. -- Tem razo, Glria -- disse Artur. -- Vou me estender no sof. Josefa, 
olhos vermelhos e inchados de tanto chorar, que ouvia tudo em um canto da sala, aproximou-se: -- Vocs precisam se alimentar. Vou trazer um lanche. Antero aproximou-se 
dela: -- Deixe isso para depois. Quero que procure um retrato de Eriberto. Veja o mais recente. Assim que o dia clarear, irei aos jornais e  televiso, fazer um 
anncio, oferecer uma recompensa a quem o trouxer de volta. -- Boa idia. Se a polcia estiver enganada, se no for um seqestro, pode funcionar. -- V descansar, 
pai. Deixe comigo. Artur estendeu-se no sof e procurou no pensar. Precisava poupar suas foras, preparar-se para o que pudesse ainda acontecer. Josefa trouxe o 
retrato e entregou-o a Antero, que mais uma vez notou a semelhana dele com Antnia. Apanhou papel, caneta e escreveu os dados do menino. Glria aproximou-se, sentando-se 
ao lado dele no sof. -- Descanse um pouco, Antero. Precisamos estar bem para agir se surgir alguma novidade. -- Tem razo. Ele a abraou, Glria descansou a cabea 
no peito dele. Logo o dia iria amanhecer e ele precisava estar bem para agir. Eram sete horas quando Olvia acordou, vestiu-se e desceu. Na sala, Artur dormia em 
um sof enquanto Antero e Glria, abraados, dormiam em outro. -- Que desperdcio! -- pensou ela. -- Tanta coisa por causa de um menino bastardo. Ela no se comovera 
com a notcia de que Eriberto era seu neto. Para ela, um filho fora do casamento era um desastre familiar. Ela agita na hora certa. A esta hora ele estava muito 
longe e nunca mais voltaria. Com o tempo eles iriam esquecer. Logo Glria teria um filho legtimo e ningum mais se lembraria desse menino. Olvia fez um movimento 
que provocou ligeiro rudo e Antero abriu os olhos sobressaltado: -- Dormi demais. J amanheceu. Artur abriu os olhos e sentou-se tentando concatenar as idias. 
-- No sei o que aconteceu! Eu apaguei. Fazia tempo que no dormia to profundamente. Glria interveio:

-- Eu consegui dormir sentada, isso nunca me aconteceu antes! -- -- Vou me lavar e sair para colocar os anncios -- tomou Antero. No antes de tomar caf -- disse 
Olvia. Antero ia recusar mas Glria interveio: -- Vamos comer alguma coisa. Depois voc vai. Lavaram-se rapidamente e pouco depois sentaram-se  mesa na copa. No 
estavam com fome, mas sentiram-se melhor depois de comer. Olvia prestava ateno ao que eles diziam, tentando saber em que p estavam as coisas. Ouviu os comentrios 
sobre as informaes dos espritos com incredulidade. Mas no disse nada a respeito. Achava bom que eles estivessem entretidos. Assim, o tempo ia passando e, quanto 
mais passava, mais distante Eriberto estaria. Na pequena cabana no litoral, Eriberto remexeu-se um pouco, comeando a acordar. Sentia a boca amarga, a cabea tonta, 
no sabia bem onde estava. Aos poucos, porm, foi recobrando a posse de si. Sentiu sede. Levantou-se segurando-se na mesa ao lado com medo de cair. Apanhou a garrafa 
de gua, tirou a tampa e bebeu no gargalo sofregamente. Estava calor e ele olhou em volta procurando pelas pessoas. No viu ningum. Aonde teriam ido? Cautelosamente 
foi at a pequena cozinha, abriu a tomeira da pia e lavou o rosto, molhou os cabelos. No tinha toalha para enxugar-se. Voltou ao quarto e enxugou o rosto com o 
lenol. Sentiu fome. Abriu o pacote sobre a mesa, pegou um pedao de po, colocou mortadela e comeou a comer. Lembrou-se de tudo quanto lhe acontecera e teve medo. 
Eles tinham sado mas poderiam voltar. Foi at a porta, abriu e espiou. O sol estava claro e pde ver um pouco mais longe algumas pessoas caminhando. Precisava ir 
embora antes que eles voltassem. Viu algum dinheiro sobre a mesa, pegou e colocou no bolso. Calou os sapatos e saiu. Comeou a caminhar depressa para afastar-se 
ao mxjmo daquele lugar mas no sabia para onde ir. Um homem que caminhava em sentido contrrio, carregando uma cesta, passou por ele, olhou-o e parou. Assustado, 
Eriberto apressou o passo. -- O que  isso, menino? No tenha medo. Eriberto comeou a correr. Estava plido, assustado, bateu de frente em uma mulher que carregava 
um pacote que se rompeu e alguns pes espelharam-se no cho. Ela o segurou dizendo: -- O que  isso, menino, no olha por onde anda? Ele tremia: -- Me largue, por 
favor. Quero ir para casa. Ela olhou-o admirada e perguntou: -- Por que estava correndo daquele jeito? -- Quero ir para casa. Aqueles homens podem voltar. Tenho 
medo. Eles tm um revlver deste tamanho. Me deixe ir, por favor. Ela abraou-o assustada. Um menino to pequeno! Suas roupas estavam sujas mas eram de boa qualidade. 
O que teria lhe acontecido? -- No tenha medo. No vou lhe fazer mal. Acalme-se. -- Eu quero meu tio Artur. Eriberto chorava e ela alisava-lhe a cabea comovida. 
Olhou em volta e no viu ningum. -- Conta o que aconteceu. -- Quando eu sa da escola com Josefa, um homem com um revlver apareceu, me colocou em um carro e me 
fez cheirar uma coisa e eu dormi. Acordei agora. No tinha ningum, a porta estava aberta e eu fugi. Quero ir para casa. Por favor.

Ela o interrogou tentando descobrir o endereo de sua casa mas ele no sabia. Continuava apavorado com medo de os homens voltarem. Ela no podia deixar um menino 
to pequeno sozinho na rua. -- Venha comigo. Vai me levar para casa? -- Vou levar voc para minha casa. L vamos descobrir onde voc mora e voc vai para casa. -- 
Promete? -- Prometo. Vamos passar de novo na padaria e comprar po para o lanche de meus filhos, que precisam ir  escola logo mais. Depois vamos para casa e cuidarei 
de voc. Ela segurou a mo dele, que a acompanhou contente. Logo estaria em casa de novo. Compraram po e foram para a casa dela. Era uma casa pequena, ela foi ao 
quintal e chamou os dois meninos: -- Vo se lavar e aprontar para a escola. Depressa, vou servir o almoo. Eles entraram na cozinha e olharam com curiosidade Eriberto 
sentado em uma cadeira. -- Quem , me? -- indagou o menor. -- E um menino que est perdido e vou ajud-lo a ir para casa. Vamos logo, no podem perder a hora. Eles 
obedeceram e ela apressou-se a esquentar o almoo e preparar a merenda para a escola. -- Est com fome? -- perguntou olhando para Eriberto. -- No, senhora. Eu comi 
o po com mortadela que eles deixaram na casa. Estou com sede. Ela apontou um filtro de barro a um canto da pia e respondeu: -- Pode beber ali. Depois v se lavar 
no tanque do quintal. Leve a toalha. Ele pegou a toalha que ela lhe estendia e foi. O cheiro gostoso da comida o fez sentir-se em casa. Quando voltou, pouco depois, 
ela apanhou um pente e penteou seus cabelos. -- Agora voc est lindo. -- Obrigado. A senhora  muito boa. -- Pode me chamar de Eunice. -- Sim, senhora. Ela notou 
que o garoto era muito bem-educado. Deveria ser de uma famlia rica. Os pais deveriam estar aflitos  sua procura. Os dois meninos voltaram de uniforme, cabelo penteado, 
sentaram-se  mesa onde a comida j estava servida, olhando curiosos para Eriberto. -- O nome dele  Eriberto -- tornou Eunice. Depois, voltando-se para Eriberto, 
continuou: -- Este  o Joo, o outro  o Antnio. -- Muito prazr -- disse Eriberto. Eles o olharam admirados. No estavam habituados a esse tratamento. -- Vamos 
comer. Ela serviu a todos e sentou-se para comer. Enquanto eles conversavam fazendo perguntas a Eriberto, ela pensava na melhor forma de resolver o caso dele. Os 
dois meninos foram para a escola e Eunice, colocando a loua na pia, disse para Eriberto: -- Vou arrumar a cozinha e depois vamos ao posto policial. Eles vo nos 
ajudar a encontrar sua famlia. Enquanto isso, vou pegar a caixa de brinquedos para voc. Foi ao quarto, apanhou uma grande caixa de papelo, colocou-a no cho da 
sala dizendo: -- Pode brincar  vontade. Assim que eu terminar vamos tentar achar sua famlia. Eriberto sorriu alegre e sentou-se no cho, ao lado da caixa, para 
ver o que tinha. Eunice voltou  cozinha e pensou: -- Talvez seja melhor esperar o Mrio voltar. Ele pode ir  polcia comigo. Seu marido s chegaria depois das 
sete. Ela ligou o rdio como fazia todos os dias enquanto estava cuidando dos servios da casa. Uma msica alegre encheu o ar e ela cantarolou alegre.

Terminou a loua e estava passando pano no cho da cozinha quando interromperam a msica e o locutor pediu ateno para uma notcia especial. -- Notcia de desaparecimento. 
Um menino de seis anos saiu da escola no bairro dos Jardins, em So Paulo, caminhava com sua bab quando perto de sua casa foram abordados por um indivduo armado 
que levou o menino, colocando-o em um carro e desaparecendo em seguida. At agora os criminosos no fizeram contato com a famlia. O pai est desesperado. O nome 
dele  Eriberto. Eunice gritou assustada: -- E ele! Meu Deus,  ele! Sentiu as pernas bambas e sentou-se tentando recuperar o flego. Quando se acalmou um pouco, 
lembrou-se de que no havia prestado ateno ao nmero do telefone ou o endereo. Foi ter com Eriberto, que absorto brincava com um carrinho. -- Eles esto procurando 
voc! Deu no rdio! O menino a olhou procurando entender. -- Aqueles homens esto me procurando? -- No. Sua famlia. -- Eles sabem onde estou? -- No. Mas ns vamos 
dizer a eles. Eunice pensou um pouco e resolveu ir at a padaria tentar telefonar. Seu Manuel a ajudaria. Foi at l com Eriberto. Seu Manuel era o dono da padaria. 
Falou com ele contando o que havia acontecido e ele emocionado disse: -- Vou ver na lista o nmero dessa rdio e vamos ligar j. Imagino como os pais dele devem 
estar desesperados. Ele estava nervoso e demorou um pouco para achar o nmero, Ligou informando que o menino que havia desaparecido estava com D. Eunice, que o encontrara 
na rua. Depois de falar com duas pessoas e dar todas as informaes, deu o endereo da casa de Eunice. -- Eles viro  sua casa imediatamente. Vo avisar a famlia. 
-- Que bom! Obrigada, seu Manuel. -- Fico feliz de ajudar num caso desses. Estou pensando na alegria dos pais dele quando souberem. -- Nem fale. O que eu fao agora? 
-- V para casa esperar. Vou dar um doce para o menino. Seu Manuel arrumou alguns doces em uma bandeja e entregou o pacote a Eunice dizendo: -- E por conta da casa. 
A senhora vai ter visitas. E melhor se prevenir. -- Obrigada, seu Manuel. Nossa casa  de pobre mas sempre tem um caf para os amigos. Quando eles chegarem, eu gostaria 
que o senhor tambm estivesse. Meu marido s chega s sete. -- Est bem. Vou estar atento. Assim que chegarem eu vou. Eunice segurou a mo de Eriberto dizendo: -- 
Vamos, meu filho. Voc logo estar com sua famlia. Eriberto sorriu feliz. Foram para casa e, enquanto esperavam, Eunice fez caf fresco e colocou na trmica. Tinha 
roupas para passar mas estava sem disposio. Sentou-se na sala ao lado de Eriberto e ficou conversando com ele tentando descobrir mais sobre sua vida. Antero havia 
sado de casa s sete e meia da manh, procurado algumas emissoras de rdio e televiso, providenciado os anncios. Depois, foi  de1egaciaaber se havia alguma notcia. 
-- Estamos esperando que eles liguem -- disse o delegado. -- E se no ligarem? -- Ele desapareceu ontem. Temos que esperar vinte e quatro horas. Se no aparecer 
nem ningum ligar, comearemos a procurar. Antero no se conteve: -- Enquanto isso eles podem estar muito longe. -- No creio. Tenho experincia. Eles vo ligar. 
O senhor tinha algum inimigo?

-- No. Nem ningum de minha famlia. Somos pessoas de paz. -- Ento s pode ter sido seqestro. E dinheiro que eles querem. Iriam levar o menino a troco de qu? 
Fique sossegado, sei o que estou dizendo. Antero no insistiu e foi para casa. No podia contar ao delegado o que os espritos haviam dito. Passava da uma quando 
chegou  casa de seus pais. Foi logo informado de que no havia nenhuma notcia. -- Estvamos esperando voc para almoar. Vou mandar servir -- disse Olvia. -- 
E Glria? -- indagou Antero. -- Est l em cima no quarto do menino. Disse que ia arrumar as coisas dele. -- Vou falar com ela. Antero subiu ao quarto de Eriberto, 
onde Glria estava colocando as roupas de Eriberto em uma mala. Ao entrar ali ele sentiu-se emocionado e seus olhos encheram-se de lgrimas. Vendo-o, Glria abraou-o 
dizendo: -- Vamos levar tudo que  dele para nossa casa. Quero deixar tudo pronto para quando ele voltar. Assim, no precisar ficar aqui nem mais um dia. -- No 
sei quando ser isso. No tivemos ainda nenhuma notcia. -- Estive conversando com Josefa. Ela vai morar conosco. -- Temos que falar com mame sobre isso. -- Sua 
me vai dar graas a Deus por ela ir embora. Josefa me contou que D. Olvia no a suporta e implica com o menino. Ele no tem sido feliz aqui. -- No diga isso. 
Meu pai o adora. -- Mas passa muito tempo fora trabalhando. Ela aproveita para maltratar o menino. Antero sentiu um aperto no peito. Ia retrucar mas mudou de idia. 
Muitas vezes ele surpreendera a me maltratando no apenas os empregados mas Antnia, que era da famlia, e sendo spera com Eriberto, referindo-se a ele de modo 
ofensivo. De boa ndole, ele no queria aceitar que sua me era uma mulher arrogante e m. Pela primeira vez comeou a pensar que sua tolerncia com as atitudes 
dela poderiam ter prejudicado Antnia. Se sua me fosse diferente, talvez ela no houvesse sado de casa e tudo teria se arranjado de outra forma. Ela no parecia 
preocupada com o destino de Eriberto. Glria tinha razo. Quando o encontrassem, eles o levariam direto para sua casa. Olvia apareceu na porta do quarto dizendo: 
-- O almoo est servido. Arrumar as coisas dele  perda de tempo. -- Por que est dizendo isso? Sabe de alguma coisa? -- indagou Glria olhando-a fixamente. -- 
Claro que no. Eu disse isso porque no sabemos quando ele vai aparecer, se aparecer. -- A senhora parece feliz por ele ter desaparecido-- respondeu Glria nervosa. 
-- O que est acontecendo com voc? Nunca falou assim comigo! E claro que estou preocupada com o menino. Mas sou controlada. -- Vamos parar com isso. Estamos todos 
nervosos. E melhor irmos almoar interveio Antero. Olvia saiu dali pensando em Josefa. Ela havia ido com Glria arrumar as roupas do menino. Com certeza falara 
mal dela para sua nora. Essa era outra que ela queria ver longe de sua casa. Quanto antes, melhor. -- Eu j terminei mesmo -- disse Glria. -- Vamos descer. Gostaria 
que o motorista colocasse essas malas em nosso carro. Antero concordou e eles desceram. Almoaram em silncio. Depois foram para a sala esperar as notcias. Antero 
ligou o rdio pata ouvir os anncios enquanto Artur ligou a televiso. Vendo o retrato de Eriberto no noticirio das duas horas, Artur se emocionou. Seu menino! 
Onde estaria? Pensou em Antnia. Que destino triste o deles! Glria aproximou-se dele colocando a mo em seu ombro: -- Ele vai voltar, Dr. Artur. Deus  grande. 
Estou certa disso. -- Quisera ter a sua f.

-- Ele vai ser o filho que eu no tive. Vou cuidar dele com muito amor. -- Voc  muo boa, minha filha. -- No  bondade. Ele vai me dar muito mais do que eu a ele. 
-- Estou certo de que ser uma boa me. Antero aproximou-se: -- J esto anunciando na rdio. -- Passou agora na televiso -- disse Artur. -- Agora s nos resta 
esperar. Vou ligar para o escritrio. Ver como esto as coisas e saber se algum ligou -- tornou Antero. Comeou para eles a angustiante espera. Haviam tomado todas 
as providncias e no lhes restava seno esperar. Passava das quatro quando o telefone tocou. Antero atendeu ao primeiro toque. -- Quero falar com o Sr. Antero. 
-- Sou eu, pode falar. -- Aqui fala da rdio Tupi, acho que encontraram seu filho. -- Ele est bem? -- Parece que sim. -- Onde est ele? -- Na cidade de Santos. 
Uma senhora o encontrou vagando na rua e o recolheu. Ouviu nossa rdio e ligou dando o endereo. Nossos reprteres j esto a caminho. -- Irei imediatamente. Me 
d o endereo. Glria estendeu a ele papel e caneta. As mos dele tremiam e Glria disse: -- Eu anoto. Pode falar. Ele foi repetindo o endereo e ela anotou tudo. 
Artur, emocionado, estava junto deles. -- Graas a Deus. Eriberto foi encontrado. Parece que est bem. -- Eu vou com voc -- disse Artur. -- Eu tambm -- disse Glria. 
-- No, voc vai para casa arrumar tudo. Leve Josefa. Ns vamos com o carro do papai. Olvia, plida, ouvia tudo na porta da sala. Procurou dissimular a contrariedade. 
No podia despertar suspeitas. Tratou de fingir contentamento. Aproximou-se dizendo: -- Finalmente! Que bom que o encontraram. Ele est bem? -- Est -- respondeu 
Artur satisfeito. Vendo Josefa mais atrs tremendo de emoo, ele continuou, dizendo a ela: -Arrume suas coisas. Voc vai para a casa de Antero esperar Eriberto. 
Ela concordou com a cabea. Estava emocionada demais para falar. Correu para acabar de arrumar sua mala. Artur foi se vestir e Antero, enquanto verificava se estava 
com documentos, dinheiro, disse  me: -- Vamos lev-lo diretamente para nossa casa. Josefa vai junto para cuidar dele. -- Vou sentir falta dele -- disse ela. -- 
Voc j fez o bastante por ele. E meu filho e minha responsablidade. Se eu soubesse antes, j o teria levado. Artur j estava pronto e eles saram apressados. Queriam 
chegar em Santos antes de anoitecer. Josefa rapidamente arrumou seus pertences e foi com Glria para casa. Olvia, quando se viu sozinha, deu livre curso  irritao. 
Toninho havia fracassado. Isso no podia ficar assim. Dera-lhe muito dinheiro e j havia preparado o restante para dali a alguns dias. Iria falar com ele. Teria 
que devolver o dinheiro. Planejou ir procur-lo imediatamente mas pensou melhor e resolveu esperar alguns dias at que o caso estivesse esquecido. A polcia fora 
chamada e ela no podia despertar suspeitas.

Eram quase seis horas quando o carro de Artur estacionou em frente  padaria do seu Manuel, que fora dada como referncia. A rua estava movimentada e as pessoas 
aglomeravam-se um pouco adiante. Antes que Antero descesse do carro, um rapaz aproximou-se: -- O senhor  o pai do menino? A casa de D. Eunice  ali em frente. Os 
reprteres j chegaram. Antero agradeceu e levou o carro at a casa indicada. Os dois desceram ansiosos, abrindo espao entre as pessoas, um fotgrafo tirou algumas 
fotos fazendo perguntas mas eles nem prestaram ateno. Queriam ver Eriberto. Entraram. O menino brincava com os dois filhos de Eunice, olhando admirado para as 
pessoas curiosas que estavam em volta. Vendo Artur, correu para ele dizendo: -- Tio Artur! Tio Artur! Artur abriu os braos, Eriberto atirou-se neles. Artur o abraou 
com alegria. Quando conseguiu dominar a emoo perguntou: -- Voc est bem? -- Estou. D. Eunice  muito boa. S ento viu Antero ao lado, sorriu para ele: -- Voc 
tambm veio! Antero estendeu os braos e o menino mergulhou neles contente. Por alguns instantes Antero no conseguiu falar. Era seu filho e estava em seus braos! 
Os dois reprteres aproximaram-se querendo entrevist-los mas Artur tomou: -- Mais tarde. Antes queremos conhecer a dona da casa e saber o que aconteceu. Eriberto, 
j no cho, segurou a mo de Artur dizendo contente: -- Venham, vamos falar com ela. Eunice, olhos cheios de lgrimas, estava muito emocionada. Seus dois filhos 
foram ficar ao lado dela. -- Esta  D. Eunice -- disse Eriberto -, estes so meus amigos Joo e Antnio. Eles me ensinaram a jogar bola. Artur estendeu a mo para 
Eunice dizendo emocionado: -- Obrigado por ter cuidado to bem do nosso menino. Seremos gratos pelo resto da vida. Este  meu filho Antero. -- A senhora no sabe 
o bem que nos fez. Que Deus a abenoe. -- Ele  um menino educado e gentil. Ns gostamos muito dele. Depois ela contou como o encontrara correndo, assustado, e ele 
lhe contara sobre o seqestro. -- Meu marido est trabalhando e s vai chegar s sete. Eu ia esperar ele chegar para ir comigo  polcia. Ento ouvi a rdio e fiquei 
to nervosa que no anotei o telefone que eles deram. No temos telefone, fui  padaria falar com seu Manuel. Ele  muito nosso amigo, foi ele quem ligou para a 
rdio e deu nosso endereo. Antero e Artur abraaram seu Manuel agradecidos. -- Ele deu uma bandeja de doces para ns -- disse Eriberto sorrindo. -- Eu j comi dois. 
Todos riram e seu Manuel procurou disfarar a emoo. Depois pediram a Eriberto para contar novamente tudo desde que Josefa o pegou na sada da escola. Em poucas 
palavras ele contou e Antero perguntou onde ficava a casa em que ele estivera dormindo. -- Eu no quero ir l. Tenho medo -- reagiu ele. Voc no vai mais l -- 
garantiu Artur. -- Ns vamos mandar a polcia. -- Esta histria no est clara -- disse Antero. -- Concordo -- interveio seu Manuel. -- Por que eles iam roubar o 
menino e depois ir embora sem pedir resgate nem nada? Se quiserem, vou telefonar  polcia. O delegado daqui  meu amigo. -- E bom mesmo -- respondeu Antero.

Ele saiu e os reprteres queriam informaes sobre a famlia e Artur olhou para Antero sem saber o que dizer. Ele no queria chocar Eriberto revelando que Antero 
era seu pai. Por isso, desconversou: -- Estamos cansados. Passamos a noite em claro e o dia no foi nada fcil. Temos que esperar a polcia e obedecer aos quesitos 
legais. Mais tarde eu prometo que conto tudo. -- E que o meu jornal quer publicar esta matria na edio de amanh cedo. Eu preciso fechar ainda hoje. -- Prometo 
que antes de ir embora eu anoto tudo para voc. O marido de Eunice entrou assustado. Ela o apresentou a todos e contou o que tinha acontecido. Ele estava acanhado 
mas satisfeito. Sua esposa fizera uma boa ao. Artur, observando o rosto dele cansado, notando o barulho que as pessoas estavam fazendo, tomou uma deciso. Escreveu 
as informaes sobre a famlia, revelando a paternidade de Antnia e Antero, entregou aos reprteres dizendo: -- Eis o que prometi. Agora peo que saiam, nos deixem 
sozinhos. -- Queremos esperar a polcia, ver a casa -- disse um deles. -- O Sr. Mrio chegou cansado do trabalho e tem o direito de jantar em paz. Saiam todos, s 
vou trocar algumas palavras com eles e sairemos em seguida. Vamos esperar o delegado l fora. Mrio quis protestar mas Antero o impediu: -- Papai tem razo. Estamos 
invadindo sua casa. -- Estou contente por vocs estarem aqui, terem encontrado seu filho. Se acontecesse comigo, acho que ficaria louco. -- Vo esperar l fora -- 
pediu Artur escancarando a porta e todos foram saindo. Assim que ficaram sozinhos ele a fechou dizendo: -- Eu queria ficar a ss com vocs para cumprir o que prometi. 
-- O que foi?-- indagou Mrio. -- Uma gratificao a quem desse notcias do nosso menino. -- Ns no queremos nada! Eu fiz isso por ele e faria por qualquer outro 
-- disse Eunice. -- Eu sei, D. Eunice. A senhora  uma pessoa boa. Alm de cuidar dele, deu carinho, amor. Isso no tem preo -- tornou Antero. -- No mesmo. No 
h no mundo dinheiro que pague o que a senhora fez. Mas n estamos gratos, comovidos com sua atitude, queremos retribuir de alguma forma -- disse Artur. -- A que 
horas voc sai para o trabalho? -- indagou Antero. -- As seis. -- E volta s sete da noite. -- E verdade. Trabalho longe de casa. Tenho que sair cedo. -- Esta casa 
 alugada? -- Sim. E para onde vai boa parte do meu salrio. -- Tm dois filhos na escola -- continuou Antero. -- Voc  um trabalhador muito esforado. -- Fao 
com gosto, minha riqueza  minha famlia. Sou um homem feliz. Artur sorriu, tirou o talo de cheques do bolso, sentou-se, preencheu um cheque, dobrou-o entregando-o 
a Mrio dizendo: -- De hoje em diante voc no vai mais pagar aluguel. Compre uma casa. Ele abriu o cheque com mos trmulas e quis falar mas no conseguiu. Eunice 
olhou o cheque e no se conteve: -- Tudo isso? Meu Deus, estamos ricos! -- Quero que saibam que somos seus amigos de verdade. No queremos perder vocs de vista. 
Deixaremos aqui nosso endereo mas dentro em breve voltaremos para visit-los. Quero trazer Glria, minha esposa. Ela ficar feliz em conhec-los. Seu Manuel abriu 
a porta e espiou. -- No quero interromper, mas o delegado est vindo. Quer cuidar do caso pessoalmente. -- Entre, seu Manuel -- disse Eunice.

-- Quando eu contei tudo, ele tambm achou ocaso estranho. Quer investigar porque acha que eles podem querer pegar o menino de novo. -- Deus nos livre! -- exclamou 
Eunice. -- Isso no vai acontecer -- garantiu Antero. -- Cuidaremos muito bem dele. -- E bom mesmo investigar. S descansarei quando prenderem os raptores e descobrirmos 
a verdade -- reforou Artur. A polcia chegou logo e eles pediram que levassem Eriberto para jndicar a casa. Apesar de a noite j haver escurecido as ruas, Eriberto 
localizou a casa e a polcia entrou, permitindo apenas a presena de um investigador. Eles ficaram esperando do lado de fora. Sob a fraca luz do quarto, eles examinaram 
tudo, no encontrando nenhuma prova significativa, apenas os documentos falsos. Fecharam a casa, pregando a porta e a janela para que ningum entrasse, e prometeram 
continuar a investigao na manh seguinte. Apesar de cansados, eles tiveram que ir at a delegacia registrar a ocorrncia. Passava da meianoite quando iniciaram 
a viagem de volta. Eriberto dormia no banco de trs enquanto Antero dirigia o carro ao lado de Artur, Apesar de cansados, eles estavam satisfeitos. Conforme os amigos 
espirituais haviam dito, tudo acabara bem. O que eles no perceberam  que o esprito de Antnia estivera ao lado de Eriberto o tempo todo, protegendo-o com amor, 
e ainda estava l, velando seu sono, acariciando sua cabea de quando em quando. Eram quase duas horas da manh quando o carro de Artur entrou na garagem na casa 
de Antero. As luzes ainda estavam acesas indicando que Glria e Josefa esperavam acordadas. Ouvindo o rudo do carro, elas desceram imediatamente. Vendo a ansiedade 
delas, Antero disse logo: -- Ele est dormindo no carro. Est muito bem. -- Graas a Deus! -- exclamou Glria emocionada. Josefa abriu a porta do carro, segurou 
a mo de Eriberto, que dormia profundamente, beijando-a com carinho. Sua emoo a impedia de falar. Vendo que ela se preparava para carreg-lo, Antero interveio: 
-- Deixe comigo, Josefa. Vou coloc-lo na cama. Ele entrou com Eriberto no colo e levou-o para o quarto, colocando-o na cama. Josefa aproximouse colocando a mo 
sobre a testa dele. -- Ele est muito bem. A mulher que o recolheu cuidou dele, Est alimentado e limpo -- informou Antero. -- Mas esta roupa no  dele -- respondeu 
Josefa. -- E de um dos filhos de D. Eunice. As dele estavam sujas. -- Vamos deix-lo dormir -- tomou Artur. -- Ele precisa descansar. Vou para casa. Amanh virei 
para conversarmos. Ele despediu-se satisfeito. Notou o carinho com o qual Glria arrumara o quarto e ficou contente. Agora ele estava onde sempre deveria ter estado. 
Pensou em Antnia. De agora em diante, ela poderia descansar em paz. Contudo, Antnia no pensava em ir embora. Sentia-se feliz velando por ele. Era como se ela 
estivesse fazendo agora o que no tivera coragem de fazer quando ele nasceu. Ela no viu que um casal de espritos iluminados a observavam emocionados. Eles haviam 
ido l dispostos a lev-la de volta. Contudo, perceberam que a energia dela havia melhorado muito. Exercendo sua funo de me, vibrara tanto amor que as feridas 
que ainda trazia no corpo astral por causa do suicdio haviam diminudo muito. -- Vamos dar-lhe um pouco mais de tempo -- pediu a mulher. Ao que ele respondeu: -- 
Est bem. S um pouco mais.

Eles continuaram observando em silncio enquanto o esprito de Antnia notava com satisfao o carinho com que Josefa ajeitava Eriberto na cama. Vencido pelo cansao, 
ele continuava dormindo. Glria colocara a cama de Josefa no quarto de vestir conjugado com o de Eriberto. Ela pretendia reformar a casa, para dar mais conforto 
a ambos. Antero, segurando a mo de Glria, aproximou-se do leito de Eriberto dizendo: -- Venha, Josefa. Vamos agradecer a Deus por haver nos trazido Eriberto de 
volta. Eles ajoelharam-se ao lado da cama e com voz trmula Antero fez emocionada prece de agradecimento, por Deus haver lhes dado esse filho e devolv-lo so e 
salvo. A um canto, Antnia emocionada acompanhava a orao. Os dois espritos de luz haviam se aproximado do grupo, e mos estendidas oravam com eles. Uma luz muito 
clara desceu do alto e os envolveu. Quando eles deixaram o quarto, Glria comentou: -- Estou to feliz que todo o meu cansao foi embora. -- Eu nunca me senti to 
bem. -- Ele j sabe que voc  o pai? -- Ainda no. Amanh conversaremos com ele, contando. Papai ficou de vir assim que acordar para nos ajudar. Abraados, eles 
foram para o quarto, e logo estavam dormindo em paz. Josefa deitou-se e logo adormeceu. Antnia ficou ali, tomando conta do corpo dele adormecido. O dia estava amanhecendo 
quando ela viu que o esprito de Eriberto, de mos dadas com Josefa, entrava no quarto. Vendo-a, eles pararam curiosos. Feliz por poder falar com ele, Antnia aproximou-se 
abraando-o enquanto dizia emocionada: -- Quem  voc? indagou o menino. -- Antnia, sua me. -- Voc morreu -- disse ele assustado. -- Meu corpo morreu. Mas eu 
continuo viva em outro lugar. Quero dizer que eu o amo muito e vou ficar do seu lado para proteg-lo. Nada de mau vai mais acontecer. Eu queria muito conhecer voc. 
-- Agora voc j conhece. Josefa os olhava espantada. -- Sou muito grata a voc pelo que tem feito pelo meu filho. Deus a abenoe. -- E voltando-se para Eriberto 
continuou: -- Lembre-se de que eu o amo e sempre amarei. Beijou-o na testa com carinho e Josefa lembrou que a me de Eriberto estava morta. Ficou com muito medo. 
Segurou a mo dele dizendo: -- Venha, temos que voltar. Eriberto acomodou-se em seu corpo adormecido enquanto ela foi para o quarto prximo e acordou em seguida. 
Ainda assustada, levantou-se e foi ter com Eriberto. Vendo que ele dormia em paz, ela considerou: -- Foi s um sonho. No tenho com que me preocupar. E voltou a 
deitar para tentar dormir mais um pouco. A notcia correu clere. O noticirio da noite anterior e da manh seguinte falava do caso de Eriberto. Olvia leu os jornais 
logo cedo, Pelo noticirio, a polcia no tinha nenhuma pista. Que idia idiota a deles, abandonando o menino to perto. Por que teriam feito isso? Toninho garantira 
que o casal era de confiana. Mas ele no perdia por esperar. Teria que devolver parte do dinheiro. Artur acordou s dez e meia, vestiu-se e desceu para o caf. 
Vendo-o, Olvia disse contente: -- Ainda bem que tudo voltou ao normal. Ele contou como foi? -- Contou. -- Eu li no jornal. Foi assim mesmo? -- Ainda no vi o noticirio, 
mas deve ter sido. -- Acabei nem vendo o menino. Vocs o levaram direto para a casa de Antero.

-- Eles acharam melhor. Afinal, Eriberto deveria estar com eles desde o comeo. Quero tomar um caf. Preciso sair. -- A mesa ainda est posta. Vou mandar servir. 
-- Se demorar, tomo qualquer coisa na rua. -- Pode sentar-se que j vai ser servido. Ele foi  copa, sentou-se. O caf estava na trmica e ele se serviu. Olvia 
sentou-se ao lado dele querendo puxar conversa. -- No vai me contar os detalhes? -- Os jornais j devem ter dito tudo. Ela remexeu-se na cadeira, hesitou um pouco 
e depois considerou: -- Voc acredita que Glria esteja sendo sincera? Que est satisfeita de recolher em sua casa o filho do marido com outra mulher? Ningum gosta 
de ser trada. Artur procurou controlar a irritao. -- Glria  uma boa moa. Deseja muito ser me. Olvia meneou a cabea negativamente. Antes que ela continuasse, 
Artur disse srio: -- No julgue os outros por si. Eles esto felizes e tudo est certo do jeito que est. Agora preciso sair. Antes que ela protestasse por ele 
no haver comido nada, ele levantou-se e se afastou. Durante o trajeto para a casa de Antero ele pensava que a cada dia estava ficando mais difcil suportar a maldade 
de Olvia. Seus comentrios faziam-lhe mal. At quando suportaria? Quando chegou  casa de Antero, eles j haviam tomado caf e Eriberto sentado no colo de Glria 
ouvia atento uma histria que ela estava lendo em um livro de figuras coloridas. A cena carinhosa comoveu Artur. Vendo-o entrar, ela parou de ler e o menino correu 
a abra-lo. Antero entrou na sala dizendo: -- Estvamos a sua espera. -- Eu sei. Temos que conversar com Eriberto. Ele precisa saber de tudo. Segurando a mo de 
Eriberto, Artur f-lo sentar-se no sof e sentou-se a seu lado. Antero e Glria acomodaram-se nas poltronas na frente deles. Artur tirou do bolso uma foto de Antnia, 
mostrou-a ao menino dizendo: -- Esta  sua me, que morreu quando voc era muito pequeno. O menino apanhou a fotografia, olhando-a ansioso por alguns instantes. 
Depois algumas Lgrimas rolaram pelo seu rosto. -- Ela era bonita, no acha? -- continuou Artur sorrindo. -- Muito -- respondeu Eriberto sem desviar os olhos da 
foto. -- Eu queria muito que ela no tivesse morrido. -- Ns tambm. -- Ento era ela mesmo. Eu sabia que era ela. Antero interessou-se: -- Era ela quando? -- Esta 
noite, eu sonhei que ela estava no meu quarto. Ela disse que est me protegendo. Artur olhou-o preocupado: -- Voc no a conhecia, como sabe que era ela? -- Porque 
ela disse que era minha me e  igual ao retrato. Pergunte a Josefa. Ela estava comigo e tambm viu. -- Est bem -- concordou Artur e continuou: -- Ns vamos contar 
a histria dela, que  tambm a sua e de Antero. No contei antes porque voc era ainda pequeno e no ia entender. Agora, est crescido e  hora de saber. -- Eu 
j fiz seis anos! -- disse o menino levantando a cabea com altivez.

-- Isso mesmo. Sua me era filha de minha irm Bernardete, que morreu quando Antnia estava com catorze anos e ficou sozinha no mundo. -- E o pai dela? -- Tambm 
havia morrido quando ela era pequena. Ento, eu era seu tio e a levei para morar em nossa casa. Naquele tempo, Antero no havia se casado com Glria. Sem contar 
para ningum, Antnia comeou a namorar Antero. Mas o namoro no deu certo. Antnia no se dava muito bem com Olvia e resolveu morar em outro lugar. Antero, que 
conhecia Glria desde criana, comeou a namor-la e se casaram. Eriberto ouvia atento. O assunto era delicado e Artur escolhia as palavras com cuidado. -- Eu ia 
sempre visitar Antnia e fiquei sabendo que ela ia ter um filho e que Antero era o pai. Artur calou-se e Eriberto olhou para Antero admirado. Antero no se conteve, 
aproximou-se do menino, abraou-o dizendo: -- Eu sou seu pai, Eriberto! -- Voc nunca me disse! -- exclamou ele admirado. -- E que eu no sabia. Mas sempre gostei 
de voc e fiquei muito feliz ao descobrir que  meu filho. Artur interveio: -- Quando voc nasceu, Antero j havia se casado e sua me no queria que ele soubesse. 
Ela pensava que Glria no ia gostar. Glria aproximou-se: -- Mas ela estava enganada. Eu estou muito feliz em saber disso. -- Depois que ela morreu, levei voc 
para nossa casa mas no contei nada a Antero porque eu tinha prometido a Antnia que nunca contaria. -- Uma pessoa que conhecia a histria me procurou para me contar 
que voc era meu filho. Eu e Glria ficamos felizes e queremos que voc nos aceite como pais e fique morando aqui -- disse Antero. -- Eu e Glria vamos cuidar de 
voc e fazer tudo para que seja feliz. Voc quer? Eriberto sorriu contente: -- Eu quero. Mas tio Artur tambm vem? -- Eu sou seu av. No vou morar aqui mas virei 
v-lo sempre. Eriberto ficou pensativo por alguns instantes, depois exclamou alegre: -- Que bom! Agora eu j tenho pai, me, e at av! Preciso contar a Josefa. 
Ela, que observava tudo parada na porta da sala, entrou sorrindo: -- Estou sabendo. Que coisa boa! Ele correu para ela, abraando-a com carinho. -- Eu tenho voc! 
Agora no falta mais nada. -- Isso mesmo. Venha, vou lhe mostrar uma coisa que descobri. -- Oque ? -- Um trenzinho que anda, apita e solta fumaa. -- Oba! Eu quero 
ver. Ele saiu com Josefa e Artur tornou: -- Ele est feliz. Graas a Deus. Agora vamos cuidar da vida. Preciso ir para o consultrio. -- Eu para a empresa. Mas antes 
ainda tenho que tomar algumas providncias. -- O que pensa fazer? -- Vou tirar Eriberto do colgio. Receio que os raptores queiram tentar novamente. -- De fato. 
 estranho que tenham levado o menino para abandon-lo em seguida. -- Talvez tenham se confundido e levado o menino errado. Seja como for, eles podem querer completar 
o que no conseguiram. -- Seria bom falar com o delegado. -- O daqui?Nem pensar. No se mostrou nem um pouco preocupado com o caso. E perda de tempo. J o de Santos 
ficou de investigar.

-- Na delegacia eles tm muitas ocorrncias e pouco tempo para atender a todas. Para nossa tranqilidade eu gostaria muito de descobrir os culpados e v-los na cadeia. 
-- Eu tambm. Glria havia sado da sala. Vendo que estavam apenas os dois, Antero continuou: -- Vamos investigar por conta prpria. Como assim? -- Vou contratar 
um detetive. Mas fica entre ns dois. -- Faa isso. Agora preciso ir. Qualquer coisa, estarei no consultrio. -- Eriberto aceitou bem a situao. -- Ele nunca se 
queixou, mas gostou de descobrir que tem pais. Artur despediu-se e Antero foi para o escritrio. Havia alguns recados de amigos, mas ele ligou primeiro para Nina. 
Ela era responsvel por tudo de bom que estava acontecendo em sua vida. Contou-lhtudo e finalizou: -- Agora vou ligar para D. Mercedes. Informe o Dr. Dantas como 
esto as coisas. Diga-lhe que estou muito grato a todos. Estou certo de que tudo ficou bem graas  ajuda espiritual. Hoje  noite irei com Glria  sesso. -- Estou 
feliz por vocs. -- Espero que seu caso tambm se resolva e que todos fiquem felizes, como ns estamos. -- Obrigada, Antero. -- Eu estava preocupado em contar a 
verdade a Eriberto. No sabia como ele iria reagir ao saber que tinha um pai que durante tantos anos se omitiu. Eu lhe disse que no sabia de nada, mas mesmo assim 
temia que me cobrasse, Mas no foi o que aconteceu. -- No? Como ele reagiu? -- Ficou feliz por ter me, pai e at av. Meu pai chegou a concluso que, embora ele 
nunca houvesse se queixado, sentia falta da presena dos pais. -- Seu caso  diferente do meu. -- Voc me disse que ia contar tudo a Marcos. -- Eu vou. Mas tenho 
medo. Eu menti pra ele. -- Coragem. Ele vai ficar feliz e voc aliviada. Acabe logo com esse tormento. -- Vamos ver. Nina desligou o telefone pensativa. No acreditava 
que seu caso tivesse boa soluo. Sabia que teria de ceder, uma vez que Andr tinha direito de se relacionar com Marcos. Mas jamais ficaria feliz em dividir seu 
afeto com Andr. Durante o resto da tarde Nina no conseguia esquecer as palavras de Antero. "Coragem. Ele vai ficar feliz e voc aliviada. Acabe logo com esse tormento". 
De fato, ela se atormentava com esse assunto, sabia que precisava conversar com Marcos, mas continuava adiando. Quando acabou o expediente, Nina foi para casa. Ao 
entrar, Marcos correu para ela dizendo: -- Me, eu vi o Eriberto na televiso, O pai e o av dele tambm. Eu sabia que ele seria encontrado logo. Marta me contou 
que ele pensava que era rfo e que o pai dele no sabia que tinha esse filho. Ser que ele j sabe que Antero  seu pai? Nina sentiu um aperto e ficou angustiada. 
Procurou tomar a voz natural ao responder: -- Antero me ligou dizendo que ele j sabe de tudo. -- Puxa! Ele deve estar muito feliz! -- Voc acha? -- Claro. Antes 
ele no tinha ningum. Agora tem pai, me, av, uma famlia. --  verdade. Agora vou tomar um banho e me arrumar para ir . -- Eu tambm vou. Voc prometeu. -- Est 
bem.

Pouco antes das sete, Nina chegou com Marcos  casa do Dr. Dantas. Ela relutara em ir por causa de Andr, mas por outro lado sentia que precisava muito da ajuda 
espiritual. Estava angustiada, insegura, inquieta. Aquele ambiente de paz e harmonia iria serenar seu corao. Quando eles entraram, Andr e Milena j estavam. Eles 
se levantaram para cumpriment-los e Nina notou o prazer com que Marcos os abraou. Todos comentavam alegres o caso de Eriberto e, quando Antero entrou com Glria, 
foi rodeado por todos desejosos de abra-los. Ambos estavam sensibilizados com o carinho deles e principalmente com a lembrana de que h apenas dois dias eles 
haviam estado l, angustiados, desesperados, temendo pela vida de Eriberto. Era hora de agradecer. Antero relatou os detalhes do caso e verificaram que todas as 
informaes dos mdiuns se confirmaram. Marcos, ao saber que o menino havia sido encontrado em Santos, exclamou: -- Eu vi que a terra era arenosa. Devia ter concludo 
que ele estava no litoral. Marta abraou-o dizendo sria: -- Quando voc tiver uma vidncia, deve relatar apenas a cena que viu. No deve interpretar ou querer ir 
alm, porque pode se enganar. Bons mdiuns se perdem fazendo isso e acabam desacreditados. Estava na hora de comear a sesso e todos se sentaram em seus lugares. 
Mercedes fez comovida prece de agradecimento pelo regresso de Eriberro so e salvo. Depois da leitura do tema e os estudos da noite, as luzes foram apagadas novamente 
e o esprito de Bernardete se comunicou atravs de Milena. -- Desejo agradecer a ajuda que nos deram permanecendo em viglia naquela noite. Assim, conseguimos influenciar 
as pessoas que estavam com o menino. Devo dizer que o esprito de Antnia estava ao lado dele todo o tempo, tentando proteg-lo. Ela estava disposta a tudo para 
impedir que eles fizessem o que pretendiam. Havia na casa uma mulher que queramos influenciar. Como ela  muito materialista, precisvamos das energias dos encarnados, 
que somadas s nossas conseguiriam sensibiliz-la. Por isso pedimos que em dado momento todos se juntassem para vibrar. Unindo nossas foras, com a ajuda de nossos 
maiores, conseguimos que Antnia em sonho se encontrasse com essa mulher, conscientizando-a de seus erros. Ela ficou muito assustada e quando acordou convenceu o 
companheiro a desistir do menino. Eles o abandonaram e foram embora com o dinheiro, que afinal era o que eles queriam. -- Dinheiro? -- tomou Antero. -- Ns no demos 
nada. -- Pode nos dizer alguma coisa sobre isso? -- indagou Mercedes. -- Ainda no. Acompanhamos  distncia e agora o menino est salvo, permitimos que Antnia 
nos visse e a convencemos a voltar para seu tratamento. Ela est mais calma, nos pediu mais um ou dois dias para ficar com o filho e prometeu que depois voltar 
conosco. Devo dizer que a encontramos melhor, apesar de haver fugido do hospital. Segundo observamos, durante o tempo em que ficou ao lado do filho, sem saber o 
que iria acontecer, temendo por sua vida, o envolveu com tanto amor, que todo o sentimento que havia represado desde o seu nascimento fluiu, envolvendoos. E o sentimento 
desse amor puro e intenso a permitiu ligar-se com os seres mais elevados, o que mudou completamente sua situao espiritual. -- O amor cobre a multido de pecados 
-- sentenciou Mercedes emocionada. -- E verdade. Esse contato com vibraes superiores a fez sentir que pode ser feliz. Arrependeu-se do que fez e est disposta 
a assumir os resultados de suas atitudes. Sabe que o sentimento de amor que carrega no corao lhe dar foras para aprender o que precisa e seguir em frente. Serei 
eternamente grata por tudo quanto fizeram por minha filha. Deus os abenoe. Milena calou-se e eles continuaram orando em silncio. Pouco depois um rapaz comeou 
a falar sobre os benefcios do perdo incondicional, afirmando que quem perdoa recebe mais graa do que quem  perdoado. Mercedes fez ligeira prece de agradecimento 
e encerrou a reunio. Depois de comentarem as mensagens, tomarem a gua que estava sobre a mesa, foram se despedindo.

Andr conversava com Marcos animadamente enquanto Nina os observava com certa preocupao. Antero aproximou-se de Nina, que conversava com Mercedes, dizendo: -- 
Esperei porque desejo fazer-lhe um convite. No sbado vamos fazer um jantar para celebrar a vinda de Eriberto. Gostaramos que estivessem conosco. -- Iremos com 
prazer -- respondeu Mercedes sorrindo. Voltando-se para Nina ele perguntou: -- Voc ir com Marcos, no ? -- Iremos, sim. Marcos, que estava se aproximando, exclamou: 
-- Oba! Eu quero muito conhecer Eriberto. Atrs dele estavam Andr, Marta e Milena. Antero reiterou o convite dizendo que fazia questo de que todos fossem. Depois 
se despediram e Nina foi com Marcos para o carro. Andr aproximou-se com Milena e antes que ela entrasse no carro ele convidou: -- Ns vamos comer alguma coisa e 
gostaramos que fossem conosco. -- Obrigada, mas temos que ir embora. Preciso acordar cedo amanh. Marcos interveio: -- Eu tambm estou com fome. Vamos, me. Nina 
olhou para o filho, para Andr, os dois esperavam com olhar splice. -- Est bem. Mas no vamos demorar. -- Eu conheo um lugar muito bom. Vamos no meu carro -- 
disse Andr satisfeito. -- No. Iremos atrs de voc. No carro ao lado de Marcos, Nina tornou: -- Vamos ver se est com fome mesmo. -- Estou, sim. Mas eu gosto mesmo 
 de conversar com eles. Sinto que somos amigos. -- Vocs se conheceram h pouco tempo. -- Acho que somos amigos de outras vidas. Nina no respondeu. As coisas estavam 
acontecendo e o cerco estava se apertando cada vez mais. la chegar um momento em que no poderia mais esconder a verdade. No restaumte, Andr mostrou-se alegre, 
falando sobre os pases que havia visitado, seus costumes, e Marcos ouvia com entusiasmo. Como sempre, Nina teve de reconhecer que Andr era um conversador brilhante. 
To envolvente em suas narrativas que por algum tempo Nina chegou a esquecer a situao deles. Passava da meia-noite quando ela consultou o relgio e decidiu ir 
embora. -- E tarde! Temos que ir. -- Que pena, me! A conversa est to boa! -- Voc nunca se contenta. E hora de ir. Andr pediu a conta e saram. Ao se despedir, 
Marcos disse a Andr: -- Voc bem que podia continuar o assunto amanh l em casa. Apanhada de surpresa, Nina estremeceu mas interveio: -- O Dr, Andr  um homem 
ocupado. Vamos nos ver sbado na casa de Antero. Esqueceu? -- Vai demorar a chegar o sbado -- reclamou o menino. -- Vai passar bem depressa -- garantiu Milena sorrindo 
e beijando Marcos na testa. -- Se sentir saudades, tem meu telefone. Pode ligar. -- Voc vai se arrepender de dizer isso -- tornou Nina sorrindo.-- Ele vai abusar. 
-- Ser um prazer falar com ele. Temos muitos assuntos em comum. Nina abraou Milena se despedindo e estendeu a mo a Andr, que a segurou levando-a aos lbios com 
delicadeza. Depois disse: -- Durma bem, Nina. Ela sentiu o rosto queimar e imediatamente entrou no carro. Marcos sentou-se a seu lado olhando-a com ar divertido. 
Durante o trajeto, vendo que ela no dizia nada, ele tornou:

-- Me, acho que o Andr est interessado em voc. Nina tentou dissimular o embarao. -- De onde voc tirou essa idia? -- Eu vi como ele olha para voc e como ele 
beijou sua mo. -- O Dr. Andr  um homem bem-educado. Em sociedade  moda beijar a mo de uma mulher ao se despedir. -- Eu sinto que ele gosta de voc. -- Mas eu 
no gosto dele. Nunca mais diga isso. Ele olhou-a admirado: -- Est bem. No direi mais nada. Mas que ele gosta de voc, isso gosta. Nina no respondeu. Uma vez 
em casa, deitada para dormir, Nina recordou-se de tudo quanto acontecera naquela noite. Marcos tinha razo. Os olhos de Andr brilhavam quando a fixavam. Onde quer 
que estivesse, surpreendia o olhar dele sobre ela. Esforou-se para esquecer esse assunto e dormir. Contudo as cenas de momentos antes se repetiam diante de seus 
olhos e era muito tarde quando ela, vencida pelo cansao conseguiu adormecer.

Na manh seguinte, assim que Antero chegou  empresa, fechou-se em sua sala e ligou para Otvio, um amigo desde os tempos de colgio. Embora houvessem seguido carreiras 
diferentes, a amizade permaneceu. Otvio tornara-se juiz de direito muito conceituado. Atendeu imediatamente, e depois dos cumprimentos disse: -- Eu ia mesmo ligar. 
Que histria foi aquela de filho, rapto, que eu vi nos jomais? Nunca soube que voc tivesse um filho. Aconteceu mesmo? -- Sim.  uma longa e triste histria cujos 
detalhes vou lhe contar depois. Eu tambm no sabia que tinha esse filho. Descobri h poucos dias que o menino adotado por meu pai era meu filho com Antnia. -- 
Eu me lembro de sua paixo por ela. -- Pois foi. Eu quis assumir, contei tudo a Glria, que concordou. No dia em que amos busc-lo, ele foi raptado na sada da 
escola. Voc deve ter lido nos jornais. -- Eu li. Mas achei aquela histria muito esquisita. Quem seqestra visa obter dinheiro. Tem alguma coisa errada nesse caso. 
-- Foi o que pensei. Por isso estou ligando. Preciso da sua ajuda. Pretendo continuar investigando por conta prpria. Pode indicar-me algum que possa fazer isso 
por mim? -- Posso. Mas no por telefone. Voc pode dar um pulo aqui? -- Irei imediatamente. Dentro de quinze minutos estarei a. Antes de sair, telefonou para o 
delegado em Santos para saber como estavam as investigaes e descobriu que ele havia conversado com o dono das diversas casinhas entre as quais estava a que Eriberto 
estivera. Ele as alugava para temporada. Descreveu o homem que a alugara por uma semana, pagara adiantado, como era praxe, dizendo que era para um casal amigo e 
seu filho. O delegado deu a descrio do homem, que Antero anotou, e prometeu continuar investigando. De posse desses dados, Antero desligou e foi imediatamente 
ao escritrio do amigo. L, contou tudo nos mnimos detalhes e finalizou: -- D para notar que alguma coisa est errada. No posso deixar as coisas como esto. -- 
Concordo. Voc tem de descobrir quem foi, mandar para a cadeia. Eles podem voltar. -- E o que eu penso. No creio que a polcia tenha interesse em continuar com 
as investigaes. Eles tm outros casos mais urgentes para atender. Eriberto foi encontrado e est bem. -- Eu tenho um amigo que pode oferecer o que precisa. E discreto 
e eficiente. E bom agir logo. Quando eles pegaram o menino, j deviam saber tudo sobre vocs. Pode se tratar de pessoas prximas, conhecidas, e estarem observando 
todos os passos da famlia. Eu recomendo sigilo absoluto. Ningum pode saber o que voc pretende fazer. -- Apenas meu pai sabe e combinamos no contar a ningum 
mais. -- Est certo. Vou ligar para ele. Meia hora depois ele chegou e depois das apresentaes Antero colocou-o a par de todos os detalhes e o contratou. Marcelo 
Ribeiro era um rapaz de trinta anos, alto, claro, que inspirava confiana, olhando nos olhos da pessoa com quem conversava. Anotou tudo, os nomes das pessoas da 
famlia, dos amigos prximos, dos empregados, e a descrio do homem que alugara a casa de Santos. -- Voc se lembra de mais alguma coisa? s vezes um pequeno detalhe 
esquecido pode solucionar um caso. Antero hesitou um pouco, depois declarou: -- Bem, h um detalhe que no mencionei porque se trata de uma crena ntima na qual 
at h pouco tempo eu no acreditava, mas que precisei aceitar diante das provas que tive. -- Conte, o que foi? -- indagou Otvio. Antero, que em sua narrativa havia 
omitido a parte espiritual, relatou tudo, inclusive como Nina ficara sabendo que o menino era seu filho at a ajuda durante o seqestro. E finalizou:

-- At agora tudo que os espritos disseram se confirmou, mas ontem eles mencionaram uma coisa que no consigo entender. O que foi? -- indagou Marcelo. -- Que o 
casal abandonou o menino porque tinham o dinheiro, que era o que eles realmente queriam. Mas ns no pagamos nada. Seria a primeira vez que eles se enganaram. -- 
E caso para pensar -- disse Marcelo. -- Se eles acertaram em tudo, isso tambm pode ser verdade. -- Se for verdade, muda completamente o caso -- comentou Marcelo. 
-- Como assim? -- Algum pode ter pago a eles para levarem o menino. Quem faria uma maldade dessas com uma criana? -- perguntou Antero assustado. -- Algum que 
no goste de vocs. Alguma vingana. Ns no temos inimigos. Meu pai  mdico muito estimado e eu nunca tive inimigos. Nesse cabo, algum que no goste do menino 
e queira afast-lo da famlia. A nica pessoa que implicava com Eriberto era sua me. Esse pensamento passou rapidamente pela cabea de Antero mas ele o repudiou 
horrorizado. Ela nunca seria capaz disso. -- Eu gostaria de conhecer o resto da famlia e seus amigos mais prximos -- disse Marcelo. -- Seria bom. Voc pode apresent-lo 
como um amigo. Marcelo  muito bom na anlise das pessoas. -- Posso. Mas garanto que l no vai encontrar nada. -- Mesmo assim, eu gostaria de tentar. Antero concordou 
e combinaram que no fim da tarde o levaria para casa e apresentaria a todos como um amigo de passagem pela cidade. -- Esse detalhe do dinheiro  importante. -- A 
mdium pode ter se enganado. Isso pode acontecer. -- Eu sei que pode. Mas por outro lado esse detalhe torna o caso mais lgico. Se no pediram resgate  porque algum 
j havia lhes dado dinheiro. -- Eu no havia pensado nisso. Acha que conseguir encontrar os raptores? No temos muitos elementos. -- Acho que os espritos esto 
interessados em que eles sejam localizados. E isso me deixa quase certo de que vo nos ajudar a encontr-los. -- No sabia que voc acreditava em espritos -- comentou 
Otvio. -- Acredito e acho que voc tambm deveria acreditar. Eles existem e  sua maneira interferem nos fatos. Eu, quando preciso, tenho uma amiga mdium que me 
ajuda. Antero sorriu satisfeito. Marcelo era a pessoa certa para cuidar do caso. Combinaram que no fim da tarde ele passaria pela empresa e Antero o levaria  sua 
casa. Eram seis e meia quando ele entrou com Marcelo em sua casa e apresentou-o a Glria como um velho amigo residente no Rio de Janeiro, que, de passagem pela cidade, 
ficaria durante alguns dias. Eles conversavam na sala quando Josefa entrou com Eriberto. Marcelo mostrou-se encantado com o menino, afirmando que tinha um filho 
da idade dele. Conforme haviam combinado, Antero pediu licena a ele dizendo que ia tomar um banho e chamou Glria para acompanh-lo. Marcelo apanhou um livro de 
histria infantil que havia sobre a mesinha e perguntou: -- Voc gosta desta histria? -- Muito. Glria est lendo para mim. Eriberto apanhou um carrinho que estava 
em um canto e continuou: -- Meu pai comprou esse carro. Ele anda, acende os faris e tem buzina. -- Que beleza! -- exclamou Marcelo. Eriberto, entusiasmado, comeou 
a brincar com o carrinho enquanto Josefa acompanhava discretamente. Marcelo aproveitou o momento e aproximou-se dela. -- Voc est com ele h muito tempo?

-- Desde que nasceu, isto , desde que o Dr. Artur o levou para casa. -- Deve gostar muito dele. -- Adoro. Fiquei quase louca quando o levaram, mas nada pude fazer. 
-- Estou curioso, como foi? Josefa relatou o que havia acontecido. Depois de ouvir com ateno, Marcelo tomou: -- Avalio o desespero dos pais de Antero. -- O Dr. 
Artur ficou mesmo desesperado, j D. Olvia. -- O que tem ela? -- Bem, ela no gosta de crianas. No se importou muito. -- Era o neto deles. -- A gente no sabia 
que ele era filho do Dr. Antero. Era segredo. Ficamos sabendo depois. Mas mesmo assim ela no ligou. O menino tinha medo dela. O senhor precisava ver o que ela fazia 
com ele. Desculpe, eu no deveria estar falando isso. O Dr. Antero pode no gostar. Eu adoro o Dr. Artur e aqui, ento, D. Glria  um amor. Eu e Eriberto estamos 
felizes aqui. Por favor, no diga nada a eles. -- No se preocupe. No direi nada. Pelo jeito voc no gosta dela. Josefa olhou em volta e vendo que estavam sozinhos 
disse baixinho: -- Ela tratava o menino com desprezo, no o deixava comer na mesa, nem tolerava a presena dele. Na frente do Dr. Artur, ela disfarava. Eu sofria 
muito com isso. Eu adoro esse menino. Ele  meigo, amoroso, isso me doa. -- Voc  uma boa moa, Josefa. Glria voltou  sala dizendo a Marcelo: -- Desculpe deix-lo 
sozinho, mas Antero parece criana, quer tudo na mo. -- No se incomode. Sou de casa. A pedido de Glria, Josefa levou Eriberto para lavar as mos porque o jantar 
ia ser servido assim que Antero descesse. Marcelo conversou com ela, que lhe contou sobre seu desejo de ser me, sua frustrao e a alegria que a presena de Eriberto 
lhe trouxera. -- Admiro sua atitude. Afinal ele  filho de Antero com outra mulher. -- Eu sei. A me dele era prima de Antero. Apesar de am-lo muito e estar grvida, 
renunciou a tudo para no atrapalhar nosso casamento. No lugar dela, eu no sei se seria capaz disso. Ela morreu e eu quero esquecer o que passou e ser uma boa me 
para ele, que no tem culpa de nada. -- Voc foi generosa. -- Nada disso. Eu recebi muito mais do que dei. Eu estava triste, pensando que no merecia ser me. Ento 
a vida me trouxe Eriberto, provando que me considera capaz de assumir essa responsabilidade. Me sinto valorizada e feliz. Antero apareceu na sala e a conversa generalizou-se. 
Em seguida o jantar foi servido. Uma hora depois Marcelo despediu-se. Antero ofereceu-se para lev-lo ao hotel. Uma vez no carro, Marcelo tomou: -- Meu carro ficou 
no estacionamento de Otvio. -- Eu o deixarei l. Dei tempo para conversar com todos, mas penso que ainda no tem nada para me dizer. -- No. Mas a conversa foi 
bastante proveitosa. Amanh gostaria de conhecer seus pais. -- Posso lev-lo ao consultrio dele. -- Eu prefiro ir  casa deles. Quero conhecer os criados. Antero 
concordou. Deixou-o no estacionamento depois de combinarem um horrio para a noite seguinte. Marcelo chegou em casa e pouco depois o telefone tocou. Era Otvio: 
-- E ento, como foi? -- Bem. Seu amigo tem uma famlia invejvel. Amanh vou conhecer os pais dele. O que pode dizer-me sobre eles?

-- Dr. Artur  um encanto. No posso dizer o mesmo de D. Olvia. E uma mulher esnobe, implicante, manipuladora. Mas socialmente  muito respeitada. Acho que est 
perdendo tempo com eles. No seria melhor investigar o homem que alugou a casa em Santos? -- Confie em mim, Otvio. -- Eu confio. Se tiver alguma novidade, me ligue. 
Marcelo desligou o telefone pensativo. Pegou a lista onde anotara os nomes de todos e foi riscando os de Glria e Josefa. Elas estavam acima de qualquer suspeita.

No dia seguinte, assim que Andr chegou ao escritrio, encontrou Breno. -- Voc j leu os jornais de hoje? -- No. -- A lei do divrcio foi aprovada. Leia. Andr 
interessou-se, apanhou o jornal e leu. Depois perguntou: -- O que achou? -- Boa, muito boa. Tenho certeza de que com o tempo ser aperfeioada. -- Eu preferia que 
o divrcio fosse imediato. Dessa forma teremos de esperar dois anos para obtlo. -- Eu vou entrar imediatamente com um pedido de separao judicial. O tempo passa 
depressa e logo estarei divorciado e poderei me casar legalmente com Lcia. Andr ficou pensativo durante alguns minutos. Ele tambm estava separado mas no tinha 
esperanas de Nina o aceitar de volta. Mas, ainda assim, queria ver-se livre de Janete o quanto antes. -- Acho que farei a mesma coisa. -- Tenho certeza de que Anabela 
vai concordar, foi ela quem resolveu se separar. Mas Janete no vai aceitar. -- Ela no pode fazer nada. Estamos separados e no pretendo voltar, Ter que aceitar. 
Vou entrar na justia. -- Acho que o melhor seria ir conversar com ela e conseguir que ela concorde. -- Preferia no v-Ia, nem discutir esse assunto de novo. -- 
Resolver de comum acordo sempre ser mais fcil e menos penoso. Andr pensou um pouco e decidiu: -- Vou conversar com meus pais. Eu me separei, eles ficaram cobrando 
explicaes. Chegou o momento de fazer isso. -- Sua me vai tentar demov-lo. -- Eu sei. Mas agora no sou mais aquele jovem inexperiente. Sei o que quero fazer 
de minha vida e no vou me deixar influenciar por ningum. Vou procur-los por uma questo de respeito. Sei que, no fundo, ambos desejam que eu seja feliz. Naquela 
manh, o Dr. Dantas chegou cedo ao escritrio e reuniu-se com Nina para falar sobre o divrcio. Depois de estudarem o corpo da lei, oDr. Dantas disse: -- E melhor 
contratarmos uma ou duas pessoas. J imaginou quantos casais desquitados, separados h anos, vivendo uma situao marginal perante a sociedade, vo querer legalizar 
sua situao? -- De fato. Eu mesma conheo alguns -- respondeu Nna sorrindo. O Dr. Dantas ficou calado durante alguns instantes olhando fixamente para Nina, depois 
disse: -- Andr est separado de Janete. -- Lcia me contou. -- Tenho observado como ele olha para voc. Acho que ele ainda a ama. Nina corou e desviou os olhos. 
-- No creio, O que ele quer  se aproximar de Marcos. Depois, no est habituado a ser contrariado. Sempre teve tudo que quis. Quer derrubar minha resistncia, 
me vencer. -- No pense assim, Nina. No deixe que o orgulho continue destruindo sua vida. Vocs so jovens, tm muitos anos pela frente. Eu sei que voc nunca deixou 
de am-lo. -- Andr no  confivel. -- Tenho conversado muito com ele, que me abriu o corao. Andr mudou, Nina. No  mais aquele jovem inexperiente. Agora sabe 
o que deseja da vida e eu sei que ele quer voc e o Marcos. -- Ele disse isso? -- Falou da vontade de ser verdadeiro, assumindo o que sente, de dar um rumo melhor 
 sua vida, do amor que sente por Marcos e de como gostaria que voc o perdoasse. Eu estou habituado a lidar com as pessoas e garanto que Andr est sendo sincero, 
cheio de pensamentos elevados.

-- Antigamente eu acreditava que ele fosse assim. Bom, nobre, sincero. Mas quando menos esperava ele me abandonou deixando sobre meus ombros a responsabilidade de 
uma criana. -- Ele se arrepende amargamente. Vrias vezes me garantiu que, se pudesse voltar atrs, no faria mais isso. -- Quem me garante que se eu o aceitar 
ele um dia no far de novo? -- Ningum pode garantir nada. No sabemos o que nos reserva o amanh. Quem pode garantir que voc tambm no vai mudar e pensar diferente 
do que pensa hoje? Nina baixou a cabea pensativa, O Dr. Dantas continuou: -- Ele merece uma nova oportunidade. Quer reparar o mal que lhes fez. Eu nunca lhe disse 
nada porque conheo seus princpios e sei que no quer se relacionar com um homem casado. Mas agora tudo mudou. Ele ser livre. Alis, a meu ver, ele j est livre. 
Separou-se mesmo sabendo que voc no o aceitaria. -- No sei o que dizer. Estou insegura. -- No fique, Nina. Pense com calma. Deixe de lado seu orgulho, sua mgoa. 
Pense que naquele tempo ele no conseguiu agir diferente. Fez o que achou melhor. Mas agora amadureceu, reconhece que errou. Andr  um belo homem, Nina, por dentro 
e por fora. -- No sabia que o senhor o tinha em to bom conceito. -- Como eu disse, temos conversado. Eu o aprecio pelas suas qualidades assim como aprecio voc. 
Desejo muito que sejam felizes. Nina aproximou-se dele e beijou-o na face com carinho: -- Obrigada. Sou muito feliz por ter um amigo como o senhor. -- Converse com 
Marcos, diga a verdade. Seu filho  um menino inteligente, vai compreender. -- Vou pensar, doutor. Depois que deixou a sala do Dr. Dantas, Nina teve dificuldade 
para trabalhar. As palavras dele reapareciam em sua mente fazendo-a refletir. A lembrana do tempo em que viveram juntos, os momentos de amor, de felicidade, de 
entendimento voltavam fazendo-a experimentar novamente as emoes daqueles tempos. Reconheceu que nunca mais fora feliz depois da separao. Sua vida tornara-se 
rida, difcil, alimentada pelo orgulho. Mesmo o amor que sentia por Marcos era um misto de dor e tristeza devido s circunstncias e suas conquistas to significativas 
no lhe deram a realizao interior que desejava. Sem disposio para trabalhar, na hora do almoo Nina foi para casa. Marcos estava saindo para a escola e ela beijou-o 
com carinho. Depois que ele saiu, Nina no quis almoar e foi para o quarto. Precisava pensar, decidir o que fazer de sua vida. Andr chegou  casa dos pais e Andria 
o abraou dizendo: -- Finalmente voc se lembra de ns. -- Como vai, me? -- Preocupada com voc. Ele fingiu no ouvir e abraou o pai e perguntou por Milena. -- 
Essa  outra que anda estranha. Deu para sair todos os dias sem dizer aonde vai -- reclamou Andria. -- Milena est muito bem -- respondeu Romeu satisfeito. -- Graas 
a voc e aos seus amigos. -- Folgo em saber, Vim almoar com vocs. -- Antes temos que conversar -- disse Andria. -- Nada disso -- interveio Romeu. -- Estou com 
fome. Vamos comer primeiro. Depois conversaremos. Andria dissimulou a contrariedade e foram almoar. Quando terminaram, Andr pediu: -- Vamos ao escritrio. Os 
olhos de Andria brilharam, era isso mesmo que ela queria. Uma vez acomodados, Andr disse: -- Vim aqui para uma conversa franca com vocs.

-- Quero saber que idia foi essa de se separar de Janete. -- Esse  um assunto que diz respeito somente a mim e a ela. Mas em considerao a vocs, e ao que espero 
de ambos, vou falar sobre isso. Nosso casamento foi um erro. Ns somos muito diferentes, no temos a menor chance de sermos felizes juntos. Andria ia interromper 
mas Romeu fez um gesto brusco dizendo: -- Deixe-o falar, Andria. Ela calou-se amuada. Nos ltimos tempos Romeu andava tomando algumas atitudes indelicadas com ela, 
no atendendo mais ao que ela queria. Andr continuou: -- Quando eu era estudante, me apaixonei por uma moa que no pertencia a nosso nvel social. Era linda, inteligente, 
doce, e eu a amei com todas as foras do meu corao. Aluguei uma pequena casa e fornos viver juntos. Eu prometi a ela que nos casaramos assim que eu me formasse. 
-- Eu sabia e fiz tudo para que a deixasse! -- disse Andria sem poder conter-se. -- Fez. Me envolveu todo o tempo em eventos e festas onde jogava Janete em meus 
braos. Mas no a culpo por isso. Quero acreditar que imaginava estar me fazendo um bem. -- Ainda bem que reconhece isso -- concordou ela. -- A culpa do que aconteceu 
foi exclusivamente minha. Eu deveria ter sido responsvel o bastante para fazer o que meu corao queria. Mas no foi assim. Infelizmente. Eu era muito jovem e sentia 
prazer em desfilar com Janete nos lugares da moda, fazer inveja aos amigos quando ela aparecia na porta da faculdade em um carro de luxo para me buscar. Deixei-me 
levar pela vaidade e hoje me arrependo disso profundamente. -- Mas Janete  uma boa moa, linda, rica, tem tudo para fazer um homem feliz -- disse Andria com convico. 
-- Mas eu no a amava. Eu amava Nina. Quando soube que ela estava esperando um filho meu, fiquei apavorado. Como iria explicar isso para Janete, para vocs, deixar 
de lado um casamento to vantajoso? Eu sucumbi. -- Voc fez o melhor que podia fazer. Escolheu certo. -- Engana-se, minha me. Escolhi errado e estou sofrendo hoje 
em conseqncia dessa atitude. -- Continue, meu filho -- interveio Romeu com interesse. -- Eu fui canalha. Casei com Janete achando que continuaria com Nina depois 
de casado. Queria ficar com as duas. -- Que horror -- disse Andria assustada. -- Eu queria. E subestimei o carter de Nina. Ela no quis. Deixou nossa casa no dia 
seguinte e desapareceu. Desesperado, procurei-a como louco durante alguns anos sem saber o que havia sido feito dela. Uma vez a vi na rua, linda, bem arrumada, tentei 
conversar mas ela no me deu chance. Entrou em um txi e desapareceu. Andr falava mergulhado em suas lembranas, contou como a encontrara mudada, transformada em 
uma advogada de sucesso, a descoberta do filho, seu esforo para conseguir aproximar-se dele. Andria ouvia admirada, sem encontrar palavras para intervir. Depois 
que terminou de contar tudo, Andria comentou: -- Foi por causa dela que voc deixou Janete. -- No foi. Nina nunca me perdoou. O motivo foi outro. A vida tem seus 
prprios caminhos. Tentando ajudar Milena, eu recebi mais ajuda do que ela. Descobri os valores espirituais que nos levam  conquista da felicidade. Cheguei  concluso 
de que minha infelicidade de hoje  o resultado de haver tomado decises erradas, incompatveis com meus verdadeiros sentimentos. Hoje, o que eu mais quero  encontrar 
a paz interior, a alegria de viver que perdi, conquistar o amor de meu filho e o perdo de Nina. Havia um brilho especial nos olhos de Andr que fez Romeu levantar-se 
e abraar o filho dizendo emocionado: -- Estou orgulhoso de voc. Espero que consiga o que deseja.

Andria, cabea baixa, no dizia nada. O tom de Andr denotava sua sinceridade e ela de repente sentiu-se pequena, mesquinha, com seus valores de aparncia. Romeu 
aproximou-se dela, abraando-a: -- Aceitar que tambm erramos nos humaniza e amadurece. Andria suspirou, levantou os olhos e perguntou: -- Voc vai reconhecer esse 
filho? -- Vou. S estou esperando Nina contar a ele que estou vivo. Hoje foi aprovada a lei do divrcio. Vou falar com Janete para fazermos a separao judicial. 
Em dois anos estaremos divorciados. -- Ela vai sofrer muito -- disse Andria. -- Talvez. Mas tenho certeza de que logo se conformar. Depois do divrcio poder refazer 
sua vida, encontrar algum que a ame e possa faz-la mais feliz do que eu. Sei que ela tambm se sentia infeliz. A separao vai beneficiar a ambos. Quando Andr 
deixou a casa dos pais, estava satisfeito, sentindo que nunca havia se entendido com eles to profundamente. Deixara falar seu corao, colocara seus sentimentos 
e havia sido compreendido. Decidiu ir conversar com Janete. Havia adiado esse momento, mas sentia que estava pronto para enfrent-lo. Foi procur-la. Ela estava 
no quarto se preparando para sair, quando a criada a avisou da presena dele. Imediatamente foi ao espelho, arrumar-se. Sentia as pernas bambas ao descer as escadas. 
Vendo-a entrar na sala, Andr levantou-se: -Como vai, Janete? -- Bem -- respondeu ela tentando controlar a voz. -- Vim para conversar sobre nossas vidas. O tom formal 
dele deixava perceber que o assunto era srio. -- Sente-se, por favor. -- Eu desejo formalizar nossa separao. Ela empalideceu mas esforou-se para manter o controle. 
-- Eu sei que voc est se encontrando com sua antiga namorada dos tempos de estudante. Quer me deixar por causa dela. -- No. Quero me separar de voc porque entendi 
que no temos nada em comum. Que nunca seremos felizes juntos. -- Quer que eu acredite? Voc mudou muito depois que tornou a encontrar-se com ela. -- Para ser sincero, 
apesar de haver casado com voc, nunca a esqueci. Nina foi o amor de minha vida. Digo isto para deixar claro que nosso casamento foi um erro. Nossa convivncia tem 
sido de aparncia e tanto eu quanto voc no estvamos felizes. Meus encontros com Nina tm sido por outro motivo. Nunca reatamos nosso caso. Ela no me perdoa o 
fato de hav-la trocado por voc. -- No tente me enganar. Que outros motivos teria para justificar esses encontros? -- Ela estava grvida quando a deixei. S agora 
descobri que temos um filho. Ele est com quase dez anos e eu pretendo assumir sua paternidade. Janete abriu a boca, fechou-a de novo, sem saber o que dizer. Um 
filho! Era demais! Que vergonha quando suas amigas descobrissem! Alm de abandonada, a prova de sua traio ia ser documentada. Quando conseguiu recuperar-se um 
pouco, disse: -- Voc no far isso comigo!  demais! -- Apressei nossa separao para preserv-la desse fato. -- Acredita que com isso os comentrios maldosos no 
vo me envolver? Eu, trada, abandonada, como um objeto que no serve mais? -- Lamento que esteja se sentindo assim. Mas eu tambm no sabia que ele existia. Nina 
nunca me procurou e no quer que eu assuma o menino.

Janete perdeu o controle, rompeu em um pranto nervoso e Andr esperou um pouco at que ela se acalmasse. Depois, sentou-se ao lado dela no sof, segurou sua mo 
dizendo: -- Sinto muito. Apesar das nossas diferenas, eu gosto de voc e a respeito. Voc sabia que eu vivia com Nina e apesar disso fez tudo para ficar comigo. 
Voc errou e est sofrendo as conseqncias. Mas mesmo sabendo disso, sei que sou mais culpado do que voc, que me iludi, deixei meu amor de lado, preferi um casamento 
de convenincia. E duro descobrir isso. Ns dois erramos. Nosso casamento comeou errado e nunca poderia dar certo. Ele fez uma pausa, enquanto Janete chorava baixinho. 
Depois continuou: -- Amanh pretendo entrar com um pedido de separao judicial. E o primeiro passo para o divrcio. Felizmente, nossa legislao j permite. Vamos 
legalizar nossa situao e cada um de ns poder refazer sua vida, como desejar. -- Nunca mais confiarei em ningum. -- Estamos vivendo um momento difcil, mas estou 
certo de que vamos superar. -- Estou arrasada. O que os outros vo dizer? -- O que os outros pensam no me interessa. Eles no tm nada a ver com minha vida. Voc 
deve fazer o mesmo. Assuma que nosso casamento foi um erro, diga isso a quem quiser ouvir, fale mal de mim, se estiver com raiva. Mas seja verdadeira. Diga o que 
est sentindo. Assumindo uma atitude honesta, tenho certeza de que calar a boca dos maldizentes. -- O que ser de minha vida depois de tudo isso? -- Faa uma viagem, 
procure novos amigos, trate de se fazer feliz. E o que eu pretendo fazer. Ela suspirou sem saber o que dizer. Apesar dos fatos, Andr estava sendo mais amigo do 
qu antes e essa atitude deixou-a mais calma. Andr levantou-se: -- Pense no que conversamos e no me guarde rancor. Vamos viver nossas vidas em paz. Quando receber 
a citao judicial, me avise. Estou pronto para esclarecer qualquer dvida. Quanto aos nossos bens, tudo ser como voc quiser. Ele estendeu a mo, que ela apertou: 
-- Pelo que disse, devo deduzir que no h nenhuma possibilidade de voltar atrs. -- No. Tudo quanto eu lhe disse reflete meus mais profundos sentimentos. Pensei 
muito antes de tomar essa deciso. -- Est certo. Ele saiu e Janete foi para o quarto, pensando em tudo quanto Andr lhe dissera. Apesar do medo que sentia por ter 
que enfrentar uma situao desagradvel, estava conformada. O tom de Andr, a maneira como ele se colocara, dava-lhe a certeza de que no havia mais nada a fazer. 
Estava tudo acabado. Falaria com seu pai, iria viver na Europa at que todos esquecessem. Uma semana depois, Olvia estava sentada na sala lendo quando Artur chegou. 
Ela admirou-se: -- Voc em casa a esta hora? Aconteceu alguma coisa? Sim. Hoje tive uma surpresa desagradvel e espero que voc tenha uma boa explicao. -- Do que 
se trata? -- Fui ao banco e vi que havia uma retirada de cinqenta mil em nossa conta. Pensei que estivesse errado, reclamei mas o gerente mostrou-me o cheque. Pode 
me dizer o que fez com o dinheiro? Ela empalideceu. Isso no podia ter acontecido, Artur no tinha o hbito de checar o extrato bancrio. Era ela quem controlava 
tudo. Tentou dissimular o nervosismo: -- Deve ter sido engano. Irei imediatamente ao banco cuidar disso. -- Que dizer que no retirou esse dinheiro? -- Bem, eu fiz 
uma retirada para alguns pagamentos. Precisei renovar nossa roupa de cama, baixela. Fiz algumas compras mas no gastei tudo isso. Vai ver que o funcionrio lanou 
errado, Eles esto sempre se enganando. -- Nesse caso, vou falar com o gerente. Isso no pode acontecer. -- Deixe comigo. Garanto que vou resolver o quanto antes. 
Voc no costuma ir ao banco, o que foi fazer l?

-- O Dr. Adalberto me ofereceu aquela casa linda que ele tem em Campos do Jordo. Pensei em compr-la. -- Eu no gosto de l. E frio demais,  longe. -- Pois eu 
adoro e j estou negociando a compra. Olvia no respondeu logo. Precisava encontrar um jeito de resolver esse caso. Se ele pedisse para ver suas compras, ela no 
teria nada para mostrar e sua mentira seria descoberta. Tentou contornar: -- Se voc gosta, compre. Foi bom voc ter ido ao banco mas no precisava deixar o consultrio 
por causa disso. Deixe comigo. -- Olhou o relgio no pulso e continuou: -- A esta hora o banco j fechou. Mas amanh logo cedo irei at l corrigir o erro. Eles 
tero que repor o dinheiro. -- Eles me apresentaram provas do saque. Como pode ser isso? -- Voc conferiu os dados da pessoa? Eles podem ter confundido os nomes. 
-- De fato, eu no vi. Fiquei to surpreso que vim direto para c. -- No se preocupe. Logo tudo estar em ordem. Deixe comigo. -- Nesse caso, vou voltar ao hospital. 
Preciso ver alguns pacientes. Depois que ele saiu, Olvia pensou e decidiu. Foi ao quarto, abriu o cofre onde guardava suas jias, apanhou algumas, colocou-as em 
uma bolsa e saiu. Pediu a seu motorista que a deixasse na loja onde habitualmente comprava suas roupas, despediu-o mandando que voltasse duas horas depois. Assim 
que se certificou de que ele no estava mais, saiu, tomou um txi e foi at a seo de penhores da Caixa Econmica. Conseguiu apenas metade da quantia que havia 
dado a Toninho. Decidiu procur-lo e reclamar parte do dinheiro. Era justo, afinal ele no cumprira o combinado. Uma vez l, entrou e foi conduzida ao "escritrio" 
de Toninho. Assim que a viu ele disse: -- Eu sabia que voc viria. -- Desta vez voc fracassou. No cumpriu o que prometeu. -- No tive culpa. Tudo foi bem planejado. 
Os malandros me enganaram. No cumpriram nosso ajuste. -- Eu quero meu dinheiro de volta. O menino est em casa. Toninho levantou-se irritado: -- Isso no  possvel. 
Eu paguei eles. Fiquei sem nada. -- No acredito que voc tenha dado tudo a eles. No tente me enganar. -- Estou falando a verdade. E tem mais, quero o restante 
que me prometeu. -- Isso no  possvel. Meu marido est desconfiado. Ficou sabendo que retirei o dinheiro do banco e quer saber para qu. -- Se no me pagar o resto 
que me deve, eu vou fazer ele saber que foi voc quem planejou tudo -- ameaou ele. Olvia empalideceu, levantou-se nervosa: -- Se fizer isso voc ser preso. Vou 
dizer que voc roubou o menino para me chantagear. Voc ir para a cadeia! -- No interessa a nenhum de ns que a polcia entre no negcio. Trate de me mandar o 
resto que me deve e esqueceremos isso. -- Isso  que no. No  justo. Agora mesmo fui penhorar as minhas jias para tentar repor o dinheiro no banco. Est faltando 
a metade. No posso arranjar mais. Meu marido est desconfiado. -- Eu sabia que essa histria era perigosa. Eu quero o resto do dinheiro. Mas em nome da nossa amizade 
de tantos anos posso esperar at que possa me pagar. E o que posso fazer.

Ele a olhava de um modo diferente e de repente Olvia teve medo. Decidiu ir embora. -- Est bem. Vou ver o que posso fazer. Despediu-se e saiu. Assim que ela se 
foi, Toninho chamou Jofre: -- Estamos correndo perigo. O marido dela anda desconfiado. Ela est falando demais. -- O que manda, chefe? -- V atrs, quando estiver 
longe daqui, faa o servio. Pegue a bolsa dela, est com dinheiro. Ele saiu rpido e viu Olvia passar dentro do txi. Imediatamente, pegou a caminhonete e foi 
atrs. Quando o txi parou, enquanto ela pagava, ele estacionou e desceu. Quando ela ia entrando na loja, ele a abordou: -- No diga nada, seno morre. Olvia o 
reconheceu, sentiu a ponta de uma arma encostada em seu corpo e obedeceu: -- O que quer de mim? -- Precisamos conversar. Venha, entre no carro. Trmula, ela obedeceu. 
Ele mostrou o revlver dizendo: -- Se gritar, eu acabo com voc. Depois, pegou uma corda no porta-luvas, tirou a bolsa que ela segurava assustada, amarrou suas mos. 
-- O que voc quer? Eu disse para o Toninho que ia arranjar o resto do dinheiro. Ele me deu prazo. -- Ele quer conversar com voc de novo. Olvia pensou que Toninho 
desejava assust-la. Ele era seu amigo de infncia. No iria fazer-lhe mal. Acalmou-se um pouco. Ele ligou o carro e dirigiu em silncio. Vendo que estava escurecendo 
e eles estavam deixando a cidade, ela disse nervosa: -- Voc no est indo  casa do Toninho. Para onde est me levando? -- Fique calada seno amarro um leno em 
sua boca. -- O que vai fazer comigo? -- Eu disse para ficar calada. E bom no me deixar nervoso. O corao dela batia descompassado. Ele continuava dirigindo e a 
noite cara de todo. Ela no sabia onde estava. Sabia apenas que era um lugar escuro, onde no havia ningum para socorr-la. Artur chegou em casa depois das oito 
e procurou por Olvia. A criada informou-o de que ela havia sado e ainda no voltara. O motorista o procurou na sala: -- Dr. Artur, estou preocupado com D. Olvia. 
Ela desapareceu. Artur assustou-se: -- Desapareceu, como? Ele contou que  tarde a levara na loja de roupas e, quando fora busc-la conforme o combinado, ela no 
estava. As moas da loja informaram que ela nem sequer havia estado l. -- Como no esteve l? Voc no a deixou na loja? -- Deixei, vi quando ela entrou. -- Esta 
histria est mal contada. -- Eu tambm estranhei. Artur pensou um pouco e depois disse: -- Vamos esperar. Pode ser que ela tenha encontrado alguma amiga e tenha 
se esquecido de avisar. -- Acho difcil. Ela nunca fez isso. No estou gostando, patro. Acho bom o senhor avisar a polcia. Pode ter lhe acontecido alguma coisa. 
-- Vamos esperar mais um pouco. Se ela no chegar, tomarei providncias. Ele saiu e Artur lembrou-se do saque na conta do banco, Isso teria alguma coisa a ver com 
a demora de Olvia? E se ela houvesse mentido e retirado mesmo aquele dinheiro? Estaria sendo vtima de alguma chantagem? Inquieto, ele ligou para Antero e colocou-o 
a par de tudo. -- Os seqestradores podem t-la levado. Vou falar com Marcelo e iremos imediatamente para sua casa.

Artur ficou angustiado. Essa histria no teria acabado? Assim que eles chegaram, disse nervoso: -- Ela ainda no apareceu nem telefonou. Marcelo olhou-os srio 
e tornou: -- Eu j tomei providncias. Eu ia ligar para Antero, quando ele me ligou. -- Voc sabe o que est acontecendo? -- indagou Artur aflito. -- Bem, o que 
tenho a dizer no  nada bom. -- Fale logo, Marcelo. O que sabe? -- disse Antero assustado. -- Eu coloquei meus homens seguindo D. Olvia. -- Para proteg-la? Ela 
estava correndo perigo? -- perguntou Artur. -- Para averiguar os fatos. Dentre todas as pessoas com quem conversei, ela era a nica que no gostava de Eriberto. 
-- No est pensando que ela... comeou Artur nervoso. -- No estou afirmando nada. Hoje quando ela saiu, foi seguida. Foi a uma loja, despediu o motorista, fingiu 
que entrou. Depois que ele foi embora, ela saiu, tomou um txi e foi  Caixa Econmica Federal, onde empenhou vrias jias. -- Ento ela sacou mesmo o dinheiro do 
banco. Estaria sendo vtima de chantagem? -- No sei. Ela saiu de l, tomou outro txi e foi a uma casa modesta na periferia, um lugar muito perigoso. Pelo que meu 
auxiliar observou, ela deve ser conheida nessa casa. Entrou, ficou alguns minutos e saiu. O txi continuava esperando e ela entrou. Meu auxiliar ia seguir o txi 
quando notou que um homem saiu da casa, pegou uma caminhonete e foi atrs deles. Seguiu-os discretamente, O txi parou em frente  loja de roupas, a caminhonete 
parou atrs. Ela desceu, pagou o motorista e, quando ela ia entrar na loja, o homem da caminhonete a abordou e obrigou-a a entrar na caminhonete. Ele estava armado. 
Meu auxiliar informou pelo rdio, mandei que no os perdesse de vista. Avisei a polcia, que imediatamente tomou providncias. -- Meu Deus, ela foi seqestrada mesmo! 
-- disse Artur aflito. -- A esta hora a polcia j deve estar na casa da periferia. Vou at o carro saber notcias. Pouco depois ele voltou dizendo: -- Os carros 
da polcia esto seguindo a caminhonete, esperando o momento propcio para a abordagem. E preciso cuidado. No podem pr em risco a vida dela. Artur deixou-se cair 
na poltrona passando a mo nos cabelos aflito. -- Meu Deus! Porque ela no me contou que estava sendo chantageada? No percebeu o perigo que estava correndo? Marcelo 
olhou e no disse nada. Ele estava desconfiado de que a verdade era muito diferente. Resolveu esperar que os fatos fossem esclarecidos. Comeou ento para eles a 
angstia da espera. Antero ligou para Marta pedindo oraes. Sentia-se angustiado, mas confiava na proteo espiritual. De vez em quando Marcelo ia at o carro para 
saber notcias. Ficou sabendo que eles estavam parados em uma estrada, haviam sido cercados pela polcia. Jofre colocara o revlver ria cabea de Olvia e ameaava 
mat-la caso eles se aproximassem. -- Vou at l -- disse Marcelo. -- Vou com voc, -- Se quer ir  bom saber que ter que ficar calado e no interferir. -- Eu tambm 
vou -- interveio Artur. -- No, pai. Eu preferia que fosse at minha casa, fazer companhia a Glria e Eriberto. Vamos confiar em Deus, que nunca nos desamparou. 
-- No vou agentar ficar esperando sem poder fazer nada nem saber o que est acontecendo. Eu vou com vocs. -- Vou lev-los comigo, mas tero que se conformar em 
observar de longe.

Eles saram no carro de Marcelo. Meia hora depois chegaram ao local. Os carros da polcia haviam acendido os faris e colocado um holofote sobre a caminhonete. Via-se 
perfeitamente Jofre com a arma encostada na cabea de Olvia. Artur sentiu uma tontura e Antero o amparou: -- Eu disse que era melhor voc no vir. -- Vou me controlar. 
Pode deixar. Um policial com um megafone tentava convencer Jofre a se em tregar. -- Seu chefe est preso.  melhor se entregar. Deixe a senhora ir. Prometo que no 
vamos atirar. -- Vo embora. Deixem-me passar, seno ela morre. -- Se fizer isso voc tambm vai morrer. E isso o que quer? Vamos, desista. Acabou. Baixe a arma 
e entregue-se. Eo melhor. Prometo que no vamos atirar. O tempo foi se arrastando mas, absortos em convenc-lo a entregar-se, eles nem se davam conta. O dia estava 
amanhecendo quando demonstrando cansao Jofre comeou a ceder negociando sua rendio. Depois de prometer que nao iam atirar, finalmente ele entregou a arma. Olvia, 
plida, no conseguia sair do lugar. Artur e Antero queriam ir socorr-ia mas o policial no permitiu. -- Eles vo para a delegacia. -- Minha esposa est mal, quero 
lev-la para casa. -- No pode. Antes ela ter que depor na delegacia. Vamos embora. Os dois foram at Marcelo: -- Faa alguma coisa -- pediu Artur. -- Ela precisa 
ser socorrida. Depois do que passou,  uma falta de humanidade. -- No estou entendendo, Marcelo. Ela  a vtima -- disse Antero nervoso. -- Ternos que cumprir todas 
as formalidades. Vamos embora. Os dois viram que Olvia foi colocada numa viatura e estavam indignados. Na delegacia, Antero ficou sabendo que sua me estava detida 
para averiguaes e no permitiam que eles falassem com ela. Vendo a aflio deles, Marcelo sugeriu: -- E melhor chamar seu advogado. Ele vai poder entrar e saber 
o que est havendo. Antero pensou em Andr. Imediatamente ligou para ele pedindo ajuda e ele prometeu ir imediatamente. Quando Andr chegou  delegacia, Antero o 
esperava na porta: -- Desculpe acord-lo a esta hora. Mas seu nome no me saa do pensamento. Precisamos de sua ajuda. -- O que aconteceu? Em poucas palavras Antero 
contou o que houve. E finalizou: -- No estamos entendendo. Ningum nos d explicaes e ela est detida. Andr pediu uma folha de papel e escreveu uma procurao 
para cuidar do caso. Artur assinou e ele foi falar com o delegado. Ficou l durante quase meia hora e quando saiu estava muito preocupado. Os dois o rodearam ansiosos. 
-- E ento, o que est havendo? -- indagou Artur. -- Infelizmente as notcias no so as melhores. Eles prenderam os dois seqestradores de Eriberto mas eles disseram 
que D. Olvia foi a mandante. -- No pode ser! -- disse Artur. -- Ele deve estar mentindo! -- comentou Antero. -- Infelizmente todos os detalhes a esto comprometendo. 
Toninho, o seqestrador, disse que conhecia D. Olvia havia muito tempo. Ela, inconformada em dividir a herana da famlia com Eriberto, contratou-o. Deu-lhe dinheiro 
para levar o menino para bem longe, inclusive falsificaram documentos de identidade para que ele nunca mais fosse encontrado. Lgrimas corriam pelas faces de Artur, 
que no encontrava palavras para responder. Antero, plido, ouvia arrasado. Vendo-os em silncio, Andr continuou:

-- Hoje  tarde o senhor descobriu o saque do dinheiro e ela foi empenhar jias para repor o dinheiro. Como no era suficiente, ela foi at o seqestrador reclamar 
que eles no haviam cumprido a promessa e deveriam devolver parte do dinheiro, Acho que ela os ameaou dizendo que o senhor havia desconfiado, ento, quando ela 
saiu, Toninho mandou seu cmplice segui-la e acabar om ela. Eles continuavam ouvindo em silncio e Andr depois de ligeira pausa finalizou: -- O resto vocs sabem, 
quem salvou a vida dela foi Marcelo, que em boa hora vocs contrataram. Ele estava desconfiado da participao dela. -- Estou chocado. Ela no gostava do menino, 
mas nunca pensei que fosse capaz de fazer o que fez. Ser que o seqestrador no est mentindo? -- E o que a polcia quer averiguar. Mas a mulher que mora na casa 
do seqestrador disse que no  o primeiro servio que ele presta a D. Olvia. Um investigador, conversando com alguns vizinhos, soube que ela ia l de vez em quando 
e Toninho se vangloriava de ser amigo dela. Bem, o caso  srio. Eu estou  disposio, porm no sou criminalista. Seria bom que contratassem um advogado da rea. 
-- Eu preciso conversar com ela, ver como est, saber a verdade -- disse Artur. -- No irei embora antes disso. -- Vou conversar com o delegado, ver o que posso 
fazer. Enquanto Andr foi tentar conseguir que eles pudessem v-la, Antero disse triste: -- Pai, isso no pode ser verdade. -- Espero que eles estejam mentindo mas 
por outro lado havia momentos em que ela de fato parecia odiar Eriberto. Isso me magoava muito e eu procurava esquecer, mas muitas vezes ela ficou indignada por 
eu o ter registrado e o tornado nosso herdeiro. Ela dizia que eu estava lesando voc. -- Ela tambm comentava isso comigo. -- Agora estou com medo. Eles podem estar 
dizendo a verdade. Andr voltou dizendo: -- O delegado est tomando as declaraes dela e disse que quando ele acabar permitir que falem com ela. -- Obrigado. Vou 
esperar -- tornou Artur. Enquanto esperavam, Antero telefonou para Glria dizendo que tudo estava resolvido, mas no teve coragem de falar sobre a suspeita que pesava 
sobre Olvia. Duas horas depois, finalmente eles puderam entrar para falar com Olvia. No corredor, Artur viu Toninho, que estava sendo levado, e disse nervoso: 
-- Eu conheo voc! Trabalhou na minha casa h muitos anos. Ele olhou-o colrico e disse entre dentes: -- Sua mulher desgraou minha vida, mas eu no vou pagar sozinho 
pelas idias dela. Artur ia responder mas os policiais o levaram rapidamente. Andr os acompanhou at a sala onde Olvia estava, plida, olhos arregalados, trmula, 
nervosa. Vendo-os entrar, atirou-se nos braos do marido dizendo: -- Por favor, me salvem. Me tirem daqui. No agento mais. -- Acalme-se, Olvia. Estamos fazendo 
o possvel, mas parece que est encrencada. Ainda h pouco encontrei Toninho no corredor. Ele era seu protegido, voc o conhecia desde a infncia. -- Aquele desgraado: 
Est me acusando. Eu fui boa para ele. Artur olhou-a srio e disse com voz fria: -- Que outros servios ele fez para voc? -- Ele contou tambm isso? -- Contou tudo 
-- mentiu Artur. -- Eu devia saber que ele no prestava. Aquele desgraado. Se ele pensa que vai me vencer, est enganado. Vou acabar com ele. Sei de muita coisa 
que ele fez e vou contar tudo. Ele quer medir foras e vai se dar mal.

Olhos arregalados, ela estava furiosa. Antero parecia a estar vendo pela primeira vez. -- Ele mostrou as provas e contou todos os seus segredos -- disse Artur. Ela 
olhou-o assustada, com raiva, e nao conseguiu se controlar: -- Eu vou acabar com aquele desgraado! Voc  o culpado de tudo! Levou aquele bastardo para nossa casa, 
ele roubou sua ateno, seu amor. Voc gostava mais dele do que de mim. Alm do nosso nome, ia levar metade da fortuna de Antero. Eu deveria ter mandado acabar com 
ele, assim nunca teria voltado. Voc  o maior culpado. Voc vai me pagar. Fora de si, ela atirou-se sobre Artur, arranhando seu rosto, gritando seu dio. Andr 
e Antero tentaram segur-la mas no conseguiram. Alguns policiais entraram e a custo conseguiram imobiliz-la. Artur e Antero, mudos de espanto e de horror, observavam. 
Andr tentou ampar-los: -- Vamos sair daqui. Vocs precisam de ar. Os dois deixaram-se conduzir em silncio at o pano. Quando conseguiu falar, Antero disse: -- 
Mame enlouqueceu. -- No, meu filho, Ela sempre foi louca. Eu  que no quis ver e estou pagando caro por isso. Andr fez o que pde para auxiliar. Artur, embora 
convencido da culpa de Olvia, pediu a seu amigo psiquiatra que a fosse atender na delegacia. Andr pediu e obteve permisso para que ela fosse internada. S no 
fim da tarde eles conseguiram intern-la aps haver assinado um termo de responsabilidade. O delegado disse que, apesar do estado dela, iria indici-la como mandante 
do seqestro de Eriberto.

Era quase noite quando os trs chegaram  casa de Antero. Estavam arrasados, cansados, deprimidos. Andr intirnamente pedia ajuda aos amigos espirituais para auxili-los 
a suportar os acontecimentos. Quando entraram, Marcos estava na sala brincando com Eriberto, que vendo-os correu para o av dizendo alegre: -- Veja o carrinho que 
o Marcos me deu! Ele tem buzina. Acariciando o menino, ele respondeu: -- E lindo! -- Veja, pai. Eu controlo e ele anda! Antero ergueu o menino beijando-o com carinho. 
Intimamente deu graas a Deus por ele haver sido salvo. Andr aproximou-se de Marcos dizendo alegre: -- E bom ver voc. Estava com saudades. -- Eu tambm. mame 
est l dentro, na cozinha. Glria entrou na sala, cumprimentou a todos. Notou logo que alguma coisa de muito ruim havia acontecido, mas no perguntou nada. Enquanto 
eles conversavam contando os acontecimentos, Marcos segurou a mo de Andr e o levou at a cozinha.Vendo-os entrar de mos dadas, Nina se surpreendeu. -- Andr! 
Marcos, com um olhar de cumplicidade, deixou-os sozinhos e foi ouvir as novidades na sala. -- Depois do que passamos hoje, ver Marcos e voc  um prmio. -- No 
sabia que voc estava com eles. Marta pediu orao a todos os amigos e, a mim, disse para vir aqui, porque Glria iria precisar de apoio. Estamos aqui desde ontem 
 noite. Ele chegou bem perto dela dizendo: -- Vendo voc, de avental, na cozinha, me lembrei dos tempos em que estvamos juntos em nossa pequena casa. Ela fez um 
gesto de contrariedade e ia responder mas Andr no lhe deu tempo. Apertou-a nos braos, procurou seus lbios, beijando-a demoradamente. Ela tentou resistir, mas 
no conseguiu. Seu corao disparou, suas pernas tremeram, correspondeu quele beijo sem pensar em mais nada. Durante alguns minutos eles continuaram se beijando. 
Por fim, ele disse: -- Que saudade, Nina! Eu a amo como no primeiro dia! Sinto que voc ainda me ama. Nosso amor  mais forte do que tudo. Ela respirou fundo tentando 
desvencilhar-se: -- Mas voc ainda  casado. -- No sou mais. Ontem Janete assinou a separao judicial e viajou para a Europa. Sou um homem livre. Ele a apertou 
de encontro ao peito, beijando-a com amor. -- Nina, diga que me perdoa. -- H muito que o perdoei. Reconheo que meu orgulho impediu que eu lutasse pelo nosso amor. 
-- Nos casaremos assim que o divrcio sair. J perdemos muito tempo. No vamos esperar mais. Os olhos de Andr brilharam e ele a abraou dizendo ao seu ouvido: -- 
Agora s falta contar a verdade a Marcos. -- Espero que ele me perdoe. -- O que voc vai me contar que ainda no sei? Vendo Marcos parado em sua frente olhando curioso, 
Nina perdeu o jeito. Foi Andr quem respondeu: -- Sua me vai lhe contar uma histria de amor que teve um final feliz. -- Eu sei. Vocs vo se casar. Eu sabia que 
um dia isso ia acontecer. --  isso mesmo, meu filho. Glria entrou na cozinha dizendo: -- Dr. Andr, eu ainda estou chocada. Obrigada pelo que fez por ns. Estou 
com pena do Dr. Artur. Ele est arrasado.

Nina no sabia de nada e Andr contou tudo em poucas palavras. -- O que vai acontecer com ela agora? -- perguntou Glria. -- No sei. Aconselhei-os a contratar um 
criminalista. Ele vai analisar os fatos, talvez alegar perturbao mental, mas, seja como for, ficou claro que ela  culpadae ter que responder por esse crime. 
De que forma, vai depender do desdobramento do caso. Nina abraou Glria dizendo: -- Ns vamos embora. Vocs precisam descansar. -- Estou preocupada com o Dr. Artur. 
Quero ver se o conveno a ficar aqui esta noite. -- Seria bom. O carinho de vocs, e principalmente a presena de Eriberto, vai ajud-lo a reagir -- tomou Andr. 
-- Esse filho foi a melhor coisa que nos aconteceu. Ele me aceitou de corao, me chama de me, o que me comove muito. Foi coisa dele. Eu no sugeri nada. Acho que 
ele me aceitou. -- Deus o colocou em seus braos e ele est feliz. Agora ns temos que ir. Eu terminei o jantar. Eles precisam se alimentar -- disse Ninasorrindo. 
-- Vocs vo jantar conosco. -- Fica para outro dia. Precisamos ir. Glria abraou-a com carinho: -- Obrigada, Nina. Deus a abenoe por ter ficado comigo nesses 
momentos to difceis. -- Eu vou com vocs -- disse Andr. Eles saram e Andr ofereceu-se para lev-los, mas, como Nina estava de carro, ele tornou: -- Vou acompanh-los 
at l. Quando chegaram, ele desceu do carro e esperou. Ela entrou, abriu a porta e Marcos o convidou a entrar. -- Andr deve estar cansado -- disse Nina sorrindo. 
-- Ele vai entrar pelo menos um pouco -- tornou Marcos. Andr entrou, sentaram-se na sala e Nina pediu: -- Marcos, v pedir a Oflia para fazer um caf. Ele saiu 
e Nina continuou baixando a voz: -- E melhor ir embora. Eu vou contar tudo a ele, mas prefiro que no esteja presente. -- Promete que falar hoje mesmo? -- Prometo. 
Andr tomou o caf e despediu-se. Nina foi para o quarto, chamou Marcos e sentou-se na cama ao lado dele. -- Marcos, voc gosta do Andr? -- Gosto. Voc vai se casar 
com ele? -- Eu gosto dele, mas no  de agora. Eu o conheci antes de voc nascer. Ele foi o grande e nico amor de minha vida. -- Por isso voc nunca aceitou nenhum 
pretendente? -- Foi, Apesar da mgoa que eu guardava dele, nunca pude amar outro homem. Marcos sentiu que alguma coisa importante ia acontecer, segurou a mo dela 
e, olhos brilhantes, esperou. Nina comeou a falar do seu relacionamento com Andr, da felicidade que sentiam, dos planos para o futuro que haviam feito. Depois 
a gravidez, a atitude indiferente dele, o abandono. Marcos abraou-a ansioso e perguntou: -- Me, esse filho que voc estava esperando, sou eu? -- Sim.  voc. -- 
Quer dizer que ele e... -- Andr  seu pai! Marcos apertou-a de encontro ao peito e emocionado no conteve o pranto. Nina beijou-o vrias vezes na face com amor 
dizendo: -- Me perdoe. Eu menti. Ele no morreu.

Quando ele parou de soluar, olhos molhados, olhou-a srio. Ela continuou: -- Eu achei melhor dizer que ele estava morto. Eu no queria que soubesse que ele nos 
havia abandonado. Achei que voc sofreria menos pensando isso. -- O que aconteceu depois? Nina falou de seus sentimentos, de sua raiva, da mgoa que guardava no 
corao, da vontade de vencer na vida para vingar-se do desprezo dele. No omitiu nenhum detalhe. Seu reencontro, a constatao de que a vingana no lhe trouxe 
a alegria esperada, e depois a parte espiritual, o arrependimento dele, o empenho em enfrentar tudo para assumir a paternidade. A conscincia de que seu casamento 
foi um erro, a separao para poder assumir livremente o amor do filho. Do orgulho que a impedira delutar pelo amor deles. E, por fim, a descoberta de que o amor 
deles era mais forte do que tudo. -- Estou abrindo meu corao a voc, meu filho. Quero que me perdoe por ter omitido a verdade. Mas agora sei que Andr ama voc, 
seu maior desejo  viver do nossolado, Ele fala em casamento, mas o divrcio s vai sair daqui a dois anos. Quero ouvir sua opinio. -- Me, eu gosto dele desde 
que o conheci. Bem que me pareceu familiar. O lugar dele  aqui. Ns somos a famlia dele de corao. Milena disse que ele est morando em um hotel. Ele precisa 
vir morar aqui, com sua famlia. Vamos busc-lo agora mesmo. Nina abraou o filho com carinho, ele continuou: -- Bem que eu estava desconfiado. Do jeito que vocs 
se olhavam! -- Eu sei me controlar muito bem. -- Mas o brilho dos olhos! Me, por que demorou tanto para me contar? Quer dizer que Milena  minha tia? -- Esse  
o lado bom. Quanto a seus avs eu no sei. -- Deixe comigo. Pelo que sei, sou o nico neto. Vai ser fcil. Nina sorriu feliz. -- Ento, vamos buscar o meu pai? -- 
Ainda no. Temos que ver se ele quer se mudar para c. -- Ele vir correndo. Vou telefonar para ele. -- O que vai dizer? -- Que voc precisa falar com ele. Eu tenho 
o nmero do telefone. Ele ligou, a telefonista atendeu e disse que Andr havia sado, perguntou se ele queria deixar um recado. -- Anote a. Pai, estamos esperando 
voc em casa. Marcos. Ela disse que anotou e ele desligou. -- Ele vai se emocionar. --  bom, assim vir correndo. -- Ento,  melhor ns dois nos arrumarmos para 
esper-lo. Marcos saiu e Nina, emocionada, tomou um banho, arrumou-se, depois foi  cozinha verificar o que havia para o jantar. Oflia olhou-a com satisfao e 
comentou: -- A senhora est linda! Finalmente as coisas esto onde deveriam estar. Nina sorriu e no respondeu. Estava emocionada, nervosa. E se Andr no viesse. 
E se nao recebesse o recado. Marcos arrumou-se e foi sentar-se ao lado dela na sala. Seus olhos ansiosos de vez em quando olhavam pela janela. Passava das nove quando 
finalmente a campainha tocou. Marcos correu a abrir. Andr, vendo-o, abraou-o emocionado dizendo: -- Meu filho Finalmente tenho voc em meus braos. Os dois ficaram 
alguns instantes abraados e Nina, em p ao lado, no se atrevia a Interromper. Depois, os dois a olharam e estenderam os braos para ela, que se atirou neles emocionada. 
Oflia, na porta da sala, os observava, olhos brilhantes de alegria.

Sem dizer nada, enquanto eles permaneciam abraados, ela passou por eles e fechou a porta. Os trs ficaram assim, unidos, sentindo a magia daquele momentoem que 
suas almas se encontraram, selando um amor que vencera todas as barreiras e se mostrara mais forte do que tudo. Eles no viram que uma luz muito branca os envolvia 
enquanto alguns espritos oravam pela felicidade deles. Entre eies estavam Bernardete e Antnia. -- Eles venceram algumas etapas e a vida lhes dar uma merecida 
trgua disse Bernardete. -- Nina merece. Sempre lhe serei grata por tudo que fez por ns  respondeu Antnia. -- Eu tambm. Precisamos ir. Agora que voc est em 
paz, precisa cuidar do seu futuro, estudar, trabalhar muito para refazer sua vida. Sua hora de ser feliz um dia vir. Mas antes ter que aprender algumas coisas 
e saber esperar. Enquanto Andr, Nina e Marcos, abraados no sof, faziam planos para o futuro, as duas, abraadas, acompanhadas pelos espritos de luz, se elevaram 
e desapareceram no cu estrelado. Na casa de Nina, tudo estava em paz. Fim
